Kierkegaard e Sérgio Sampaio: a angústia do compositor popular

Kierkegaard e Sérgio Sampaio: a angústia do compositor popular

22 de outubro de 2018 0 Por Matheus Caio Queiroz

Em 1976, Sérgio Sampaio, um grande compositor popular, grava “Tem Que Acontecer”, seu segundo disco. A música que dá título ao álbum é um belo retrato da angústia do ser humano diante da sua suprema finitude, diante da consciência da sua própria impotência.

Capa original

Costa do disco original

 

 

 

 

 

 

 

 

Assim ele canta na primeira estrofe do refrão:

Eu daria tudo
Pra não ver você cansada
Pra não ver você calada
Pra não ver você chateada
Cara de desesperada
Mas não posso fazer nada
Não sou Deus nem sou Senhor

O desespero e a angústia são coisas tão metafísicas – e ao mesmo tempo coisas tão humanas. A nível de linguagem humana, tentar definir algo que está além do alcance do nosso entendimento, algo que está acima do nosso alcance material (meta – além; físico – material), é tarefa bastante difícil, pelo simples fato de que a natureza de ambos – tanto do desespero quanto da angústia – consiste em algo desconhecido objetivamente falando. Vai ver que é daí que se convencionou chamar o desespero de desespero, pois já começa que é algo quase indefinível, só sabe de fato quem o sente na pele.

Quando tratamos de metafísica, estamos tratando de problemas, em linhas gerais, insolúveis, porque são problemas com um teor imaterial tão intenso a ponto de entrarmos em profundas contradições verborrágicas, visto que tratamos do desconhecido. Daí, começam a surgir muros colossais entre nós e a solução. O filósofo Aristóteles, lá na antiguidade, chamou de “aporias” (em grego, significa “dificuldade”, “paradoxo”) esses problemas que o logos – a razão – é incapaz de solucionar.

O filósofo alemão Arthur Schopenhauer, no século XIX, e o pai da psicanálise, Sigmund Freud, no século XX, chegaram a abordar de certa forma os conceitos de desespero, angústia, sofrimento e mal-estar, ainda que não tenham sido unânimes quanto à causa desses sentimentos.

Arthur Schopenhauer (1788-1860)

Sigmund Freud (1856-1939)

O primeiro tratou esses conceitos com seu peculiar pessimismo; enquanto que o segundo fez a sua análise psicanalista.

O desespero e a angústia são a experiência do vazio, a constatação da nossa imagem diante do espelho, nos defrontando com a derradeira conclusão de que somos finitos.

Esses sentimentos fogem de qualquer objetividade. Isso é um atestado de que a lógica é totalmente incapaz de enquadrá-los e esquadrinhá-los porque são sentimentos escondidos, encarcerados, no poço íntimo do âmago do eu humano, um lugar tão obscuro quanto impenetrável.

O que gera a angústia? Talvez possamos pelo menos tratá-la dessa maneira, perguntando sobre sua causa, ainda que não sejamos capazes de solucioná-la por inteira, já que fica difícil definir a angústia de forma lógica. O filósofo e teólogo dinamarquês Kierkegaard responde que a origem da angústia e do desespero advêm da responsabilidade que recai sobre o ser humano, isto é, a possibilidade de decisão sobre o seu próprio destino, somada à consciência de nossa grande limitação existencial, gera em nós a suprema angústia.

Kierkegaard (1813-1855)

Assim ele afirma:

“(…) a angústia é a realidade da liberdade como possibilidade antes da possibilidade. Por isso não se encontrará angústia no animal, justamente porque este em sua naturalidade não está determinado como espírito.

(trecho retirado de: O conceito de angústia. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2015, p. 45)

O eu-lírico na música “Tem que acontecer” de Sérgio Sampaio, citada no início deste texto, atribui a Deus o poder de modificar a sua situação de angústia:

Mas não posso fazer nada
Não sou Deus nem sou Senhor

Isso nos faz lembra que Kierkegaard diz que só pela fé em Deus – onipresente, onisciente, onipotente e infinito – é que o ser humano pode se salvar da angústia e do desespero, ou seja, a partir do momento em que o homem admite que não é autossuficiente e busca refúgio no poderio do eterno Deus, porque sozinho o indivíduo é incapaz de se livrar dessas danações metafísicas que habitam o seu interior ilógico.

E, assim, Sérgio Sampaio termina sua música admitindo a finitude humana do compositor popular, atribuindo indiretamente somente a Deus a capacidade de mudar as situações.

Ele repete a estrofe do refrão, mas agora mudando o último verso:

Eu daria tudo
Pra não ver você chumbada
Pra não ver você baleada
Pra não ver você arreada
A mulher abandonada
Mas não posso fazer nada
Eu sou um compositor popular