Jonnata Doll & Os Garotos Solventes: urgente, descontrolado e sem freios

Jonnata Doll & Os Garotos Solventes: urgente, descontrolado e sem freios

23 de janeiro de 2017 0 Por João Pedro Ramos

Se você gosta da cena independente nacional, com certeza ouviu o nome de Jonnata Doll & Os Garotos Solventes aparecer por aí diversas vezes nos últimos tempos. Se não foi impactado pelo ótimo disco de 2014, auto-intitulado, deve ter escutado algo do mais recente álbum da trupe, “Crocodilo”, lançado em novembro de 2016 com produção de Kassin e Kalil e participação de Dado Villa Lobos. Desse contato com o guitarrista da Legião Urbana veio o convite para Jonnata participar de alguns shows da turnê em comemoração aos 30 anos do primeiro disco da banda de Brasília, onde o vocalista de Fortaleza roubou a cena e recebeu elogios por sua performance em diversos jornais e revistas. “Há um animal do rock solto no palco, com algum mistério setentista no ar, e ele sabe exatamente o que fazer. Sua banda, Garotos Solventes, é algo a se prestar atenção”, disse Márvio dos Anjos, d’O Globo

A performance sem freios e incontrolável de Jonnata no palco é algo que chama a atenção de qualquer um. As comparações com Iggy Pop são inevitáveis, já que como o vocalista dos Stooges, ele parece um animal selvagem que acaba de sair da gaiola e precisa gastar toda sua energia de forma urgente. A banda, formada por Joaquim Loiro Sujo (baixo), Edson Van Gohg (guitarra), Léo Breedlove (guitarra) e Felipe Maia (bateria), também não fica atrás, oferecendo uma versão muito mais feroz das músicas da banda.

Conversei um pouco com Jonnata sobre a formação dos Garotos Solventes, seus dois discos, as performances sem freio (e muitas vezes sem roupas), a parceria com Dado Villa Lobos e a possibilidade de um novo disco ainda em 2017:

– Começamos pelo começo: como começou sua carreira? Já foi com o Garotos Solventes?

Não, foi participando de uma banda cover de Ramones, quando tinha 15 anos. A gente participava de um programa que acontecia no polo de lazer da Sargento Hermínio, em Fortaleza, de um cara das antigas do Rádio, o Praciano. Era o show da Praça, ia lá e cantava Ramones. Essa banda deu origem depois à minha primeira banda de fato, com as minhas músicas. Em 97 nascia a Kohbaia.

– E como era o som da Kohbaia? Mais puxado pro punk, mesmo?

Sim, teve várias formações e foi até 2009, mas a gente sempre curtiu o pós punk e teve uma época que a banda ficou mais retrô, meia Stones, assim como houve uma época que a gente se influenciava pelas guitar bands da época, tipo Dago Red, Brincando de Deus, Second Come, Pavement… Tem umas coisas no Youtube, inclusive um clipe de “Prostituta Adolescente”, que a gente fez no Motel 90, um puteiro. Essa festa do clipe acabou virando um festival periódico lá que movimentava muito a cena.

– Esse festival ainda rola por lá? Como ela se desenvolveu?

Não, porque o puteiro fechou. Era uma época mais inocente, o publico da banda se misturava com o público do puteiro, as garotas viraram estrelas e os strips eram aguardadíssimos… Tinha Valéria, que virou uma super star… Hoje tudo seria encarado como machismo, mas a verdade é que a gente empoderava as prostitutas.

– E foi logo depois do fim da Kohbaia que surgiu o Garotos Solventes?

Sim, foi uma espécie de continuidade. Teve um momento que todo mundo da Kohbaia tava envolvido com drogas de uma forma tão intensa que não sobrou para musica. Aí, eu resolvi formar uma nova banda com os fãs da Kohbaia
que já tinham outras bandas e eu curtia e tal.

– Então você saiu do Kohbaia principalmente por causa das drogas, e aproveitou até algumas músicas no projeto Garotos Solventes, correto? Sair do Kohbaia foi uma forma de sair de uma abuso de drogas, também?

Foi, mas logo depois eu recomecei tudo. Mas pelo menos era só eu! Sim, o primeiro disco dos Solventes tem varias músicas que eram da Kohbaia.

Jonnata Doll & Os Garotos Solventes

– Como foi esse começo dos Solventes?

A gente queria formar uma banda que fosse mais profissional, a postura da galera fosse mais séria, que não esperasse sempre que o contexto e modos de produção underground se adaptassem à nossa loucura e nem o contrário. Que a gente fosse como uns surfistas cheira cola, cortando e ao mesmo tempo aproveitando a onda nosso favor. Um pouco antes, na Kohbaia, a formação em que ela tinha estacionado era composta por fãs de rock sessentista e setentista, que negava tudo que vinha depois, e eu sempre amei os anos 80, a década que  a musica pop continuou a criar ao invés de só reciclar. O Edson, Leo, Saulo (único que ficou da Kohbaia) e o Rony , nosso primeiro batera, não tinham nenhum tipo de restrição, e a partir daí criamos “Esperando por Você”, que é a música que fundou os Garotos Solventes.

– E como foi a produção do primeiro disco?

Foi quando eu cheguei do sitio  da família, onde passei a desintoxicação final, que mudou meu estilo de vida, pois nunca mais voltei a morar numa funhouse lotada de amigos junkies e não junkies e também alguns traficantes. Eu passei anos dependente de morfina e durante um tempo misturava com cocaína. Nesse speedball três amigos se foram por overdose e um suicídio. John Jonas, nosso tecladista, se matou no meu quintal. Tudo isso fez eu dar a última cartada, falo disso em “Swing de Fogo”. Nesse sítio encontrei a psicomagia e me apaixonei por uma espanhola andaluz, Carmen. A paixão foi tão avassaladora que mal passei por abstinência e me deu uma explosão criativa
que me fez compor todo o “Crocodilo”. Quando cheguei em Fortaleza para gravar o primeiro disco através de um edital da prefeitura, já tinha composto o “Crocodilo” inteiro. Mas aí focamos no repertório da época e inauguramos nossa parceria com o Kalil.

– E como rolou a composição do “Crocodilo” e o reconhecimento que este álbum está tendo?

A primeira parte foi composta no sítio, na minha recuperação, depois a gente entrou no projeto do Porto Iracema das Artes, um edital do estado, que bancou a gravação. Aí a gente criou os arranjos ao lado do Kassin e do Kalil, a dupla de produtores. O Kassin queria algo mais cru, como o primeiro, a ideia dele era reproduzir o clima esporrento do show, mas eu tava com uma vibe diferente, fazendo dança tribal, do ventre com a Lenna Beauty (que participa nos shows e no disco). Absorvi as influências ibéricas da minha namorada na época e o resultado é que o disco é mais amplo, tem aquelas referências arabescas, umas coisas acústicas também, e coisas mais sujas, como “Táxi”, “Ruth”, “Cheira Cola”. O disco tem sido bem recebido, nas críticas tem sido unanimidade que ele é mais leve que o outro, mas eu não afirmaria isso. Entendo que as pessoas falam isso por causa das baladas acústicas, mas eu não chamaria de leve, assim como não acho o unplugged do Nirvana leve.

– Como rolou essa aproximação com o Dado Villa Lobos e a participação elogiada no Legião Urbana XXX?

Foi quando o Catatau me levou para Sampa. A primeira vez que cheguei por aqui ele armou um show na festa do programa de Rádio Vozes do Brasil, depois participei como convidado de um Show do Cidadão junto com o Dado. Antes do show passamos o dia na casa do Catatau, ouvindo som, tocando violão. Um pouco depois ele me chamou para cantar “Namorada Fantasma” em um show dele em Fortaleza. Depois disso convidei ele para tocar com os Solventes e ele gravou os arranjos de “Quem é que Precisa” e uma guitarra solo em “Swing de Fogo”. Aí foi natural o convite para integrar a turnê de trinta anos do primeiro disco do Legião, já que todo mundo é da praia não tão gélida do pós punk Brasil.

– Tem muito “roqueiro” que xinga o Legião e as bandas dos anos 80. Dizem que é “uma bosta”. O que acha disso?

Cara, os anos 80 foram incríveis, quando musicas que tinham algo a dizer, crítica social, ou mesmo um conto musicado como “Faroeste Caboclo” se tornavam sucesso popular. E essas bandas. a maioria, começaram do underground, como o Titãs, Legião, Ira… Claro que tem alguns problemas, como várias versões em português de clássicos do Bowie e do Iggy Pop, meio que se aproveitando, intencionalmente ou não, do fato do público não sacar os originais. O Camisa de Vênus, por exemplo, pegou umas coisas do Buzzcocks e do Jam e não creditou! Também as gravações eram meia pasteurizadas e tinham poucas exceções que faziam uma gravação mais legal. Mesmo assim, foi uma época mágica em que o rock foi uma força de expressão de massa, e o nossos anos 80 foram a abertura, tudo era influência, dos anos 60 ao new wave, por isso se criou um estilo que lá fora é conhecido com BRock. Vendo de hoje, com distanciamento, a gente consegue ver quem era real e quem era fake.

– Vocês soam muito mais viscerais ao vivo do que no estúdio. Algo como uma banda punk gravando sons pós punk. Como é o processo de composição? Ele é diferente do que vocês fazem ao vivo?

(Risos) Na real é que ao vivo fica tudo uma bagaceira, fica difícil na empolgação soar do jeito que foi gravado, mas acho que aos poucos tamos chegando. Há um equilíbrio, o Kassin queria fazer exatamente isso, um disco que parecesse ao vivo, mas como eu tava vindo com uma parada bem diferente, cnações acústicas e tal… Na real somos meio Ramones mesmo, nesse quesito de diferença de disco de estúdio e show ao vivo.

– Uma coisa que sempre é comentada são suas apresentações, pois você tem uma presença de palco selvagem e sem amarras. Vi numa entrevista que você sempre foi meio assim, pois desde moleque fazia coisas escatológicas para fazer seus amigos rirem. O que eram essas coisas? Isso já era o início do seu jeito de ser no palco?

Ah, com certeza! (Risos) Eram nojeiras, imitar um cachorro e morder os sapatos dos colegas, virar o homem minhoca, comer insetos, catarro. Também tinha uma mania que ia além de chamar atenção, que era comer borracha daquelas bicolor, vermelho e azul, só rolava se fosse essa, e comia barro de parede. Sem contar meu jeito que as vezes era confundido com autismo. Com certeza eu achei um lugar para esses mugangos no rock’n’roll.

Jonnata Doll & Os Garotos Solventes

– Vi um show em que vocês tocavam na rua e estavam super a vontade com os moradores de rua. Qual é a sua relação com as ruas?

A rua é o lugar que eu sempre busquei para me apresentar, nessas horas eu vejo que o rock pode se identificar muito com os excluídos da rua se você fizer com intensidade. Na real eu cantei muito sobre a rua, a rua é um elemento sempre presente nas letras. Fiz uma música recente sobre o vale do Anhangabaú, citando aquelas pessoas que moram ali debaixo do Viaduto do Chá!

– Como é ser uma banda de rock absolutamente verdadeira, em uma época onde o público é cada vez menor?

Cara, o público com certeza diminuiu, mas ele está lá e ainda pode crescer outra vez. O que faz ele crescer é a verdade, ter algo a dizer. Agora em Fortaleza botamos 800 pessoas no lançamento do “Crocodilo”. Se fizemos isso em Fortaleza, podemos fazer em outros lugares! Mas todos nós no fundo sabemos disso, sabemos que o lance é continuar no caminho, sem saber aonde vai parar. O importante não é o ponto final, mas a reta, a linha sinuosa onde a gente ganha a verdadeira velocidade. Para continuar na estrada basta estar vivo e se permitindo ter novas experiências.

– Quais os planos da banda pra 2017?

A gente quer tocar muito, circular mais… A gente foi em poucos lugares até agora. A gente vai lançar dois clipes em breve, tamos participando de um filme, “A Cidade Onde Envelheço”, da Marília Rocha, que vai entrar agora em circuito nacional depois que ganhou o festival de Brasília. Quero dar continuidade aos dois festivais que realizo com a ajuda dos Solventes e outras bandas próximas, o Volume Morto e Festival Fortaleza Cidade Marginal. Pretendo dar continuidade a essa parceria com o Dado também, se tudo der certo ele vai gravar uma musica minha no próximo disco dele e também se tudo der certo, queria gravar o terceiro disco dos Solventes no fim do ano. Devo estar esquecendo algo… Mas o principal é isso!

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos e todo mundo deveria conhecer!

Cara, curto muito as meninas do Rakta, que fazem um pós punk pós estruturalista. Curto muito o Readymades, adoro a voz da vocalista japa. Curto muito o show do Der Baum, banda de pós punk, Feiticeiro Julião, que faz um acid jazz, e tem uma performance muito massa ao vivo. Tem o Vitor Colares e o Juliano Gauche, que fazem um som mais intimista e são uns puta compositores. Tem o Intuición e o Monquiboy Boo lá de Fortaleza também, que fazem um som agressivo, com ares lo-fi. Tem muita gente, cara… Cidadão Instigado, Verônica Decide Morrer