Jonnata Doll e Os Garotos Solventes fazem análise crua e ácida de São Paulo em “Alienígena”

Jonnata Doll e Os Garotos Solventes fazem análise crua e ácida de São Paulo em “Alienígena”

23 de agosto de 2019 2 Por Lucas Krokodil

Capa do álbum “Alienígena”, o terceiro de estúdio da banda Jonnata Doll & Os Garotos Solventes

“Memórias Póstumas de Brás Cubas”, aquele livro que te perseguiu no cursinho, tinha um tom crítico muito ácido da sociedade da época. No livro de Machado de Assis o protagonista está morto e, por isso, consegue destacar com ironia as contradições da sociedade, como um narrador imparcial, já que não pode mais ser julgado por valores morais da sociedade.

O nosso Brás Cubas lançado dia 21 de Agosto é “Alienígena”, o novo álbum de Jonnata Doll e Os Garotos Solventes, banda de Fortaleza que se mudou para São Paulo nos idos de 2014, na região do vale do Anhangabaú. A região era considerada amaldiçoada pelo povo Tupi antes da construção da cidade, inclusive o rio que cortava o vale do Anhangabaú e tinha o mesmo nome, “Rio do Diabo” em tupi. Segundo a crença, a água era imprópria para consumo e para se banhar pois causava doenças e morte. A região era guardada pelo Anhangá – entidade protetora dos animais e plantas – que tinha a forma de um veado branco com olhos de fogo. De acordo com a tradição tupi, o Anhangá trazia desgraça ao entrar em contato humano. O vale do Anhangabaú já foi palco de vários eventos tristes, como o Viaduto do Chá no passado sendo conhecido como “Suicidório Municipal”, devido a frequentes suicídios no passado e os incêndios do Edifício Joelma e Martinelli. Por coincidência (ou não), a Avenida 23 de Maio passa por cima desse rio e é a avenida com mais acidentes com morte na região de São Paulo.

Permeado por toda essa aura mística, além do peso da degradação urbana que o centro de São Paulo carrega, temos o cenário do álbum “Alienígena”. A banda consegue ter uma visão de fora – ou alienígena – de algo que os paulistas estejam tão acostumados que talvez não percebam. As músicas “Edifício Joelma” (“Eu vou voando sobre a calçada/vendo os mendigos em papelão/e as travestis com muitas mãos” e “TRABALHO TRABALHO TRABALHO“, que conta com com a voz de Ava Rocha e o sopro do trompete de Guizado (“Para fugir da massa cotovelante/de pessoas apressadas sorumbáticas“) tratam muito da dicotomia que o centro urbano carrega: trabalhadores, mendigos, turistas, profissionais do sexo, punks, todos convivendo em suas pequenas realidades em um lugar comum.

Outras faixas que reforçam essa visão cinza da cidade são a etérea “Anhangabaú” (“Embaixo das luzes vermelhas/eu vi uma menina linda/rodando garrafa de vodka/segurando um fanzine anarquista/e um velho mijado dizia uma profecia/que num futuro próximo/o vale receberia/alienígenas”) e a agitada “Volume Morto” (“E ainda existe guerra de classes/falando ainda enquanto se fuma crack/embaixo desse asfalto quente/há um rio que leva pro mar”).

Produzido por Fernando Catatau (Cidadão Instigado) e distribuído pela RISCO Records, esse álbum de 10 faixas muito bem criadas permeia a carga psicológica dos temas mencionados, com variações abruptas na estrutura melódica das músicas, somos levados em um passeio pelo pior e o melhor do Vale do Anhangabaú com o protopunk fortalezense como guia.

Ouça:

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