Joia esquecida: Roy Harper – “Stormcock” (1971)

Joia esquecida: Roy Harper – “Stormcock” (1971)

23 de fevereiro de 2017 1 Por Victor José

Bolachas Finas, por Victor José

Na primeira vez que ouvi este álbum, ficou claro que havia acabado de me deparar com uma obra-prima relativamente desconhecida. Stormcock” se resume a isso. É uma pérola injustiçada pela ação do tempo. Lançado em 1971, o quinto trabalho de Roy Harper é um daqueles discos especiais, que de uma forma ou de outra vai te surpreender artisticamente. A começar pela pequena quantidade faixas. São apenas quatro canções, todas longas, todas fantásticas, seja pelo som como pelas letras contundentes.

Pode-se dizer que o LP apresenta um caso incomum de folk progressivo. A combinação de arranjos elaborados com a simplicidade daquele típico som trovador predominante no folk britânico dá ao trabalho aquele sabor de algo inusitado, ao mesmo tempo em que soa absurdamente certeiro.

Mais conhecido pelos vocais em “Have A Cigar” do Pink Floyd e pela menção de seu nome na faixa “Hats Off to (Roy) Harper”, do Led Zeppelin, o músico é considerado uma lenda pelo público britânico. Desde o início de sua carreira, em meados da década de 1960, Roy vinha lançando discos de folk rock de relativo sucesso, dividindo a cena com nomes como Donovan, Bert Jansch e Fairport Convention. É curioso como Roy era bem relacionado, cheio de medalhões participando de seus trabalhos, e mesmo assim não conseguiu emplacar.

De Sophiticated Beggar” (1967) até Flat Baroque and Berserk” (1970), seus álbuns eram regulares, com um momento ou outro de grande impacto. Porém, foi somente com a chegada de “Stormcock” que ele iria realmente surpreender.

O álbum foi gravado estúdio Abbey Road, com uma equipe de primeira na produção e na engenharia de som. Entre os envolvidos estava Alan Parsons, o mesmo que produziu o clássico Dark Side of The Moon” e lançou em carreira solo vários singles de sucesso ao longo dos anos 1970.

A começar por “Hors d’œuvres”, você nota que vem pela frente uma forte dose de emoção. A música fala de um homem no corredor da morte, bastante inspirada no caso de Caryl Chessman, o “Bandido da Luz Vermelha” norte-americano, que estudou Direito na cadeia, dispensou advogados e fez sua própria defesa. Eu realmente não tenho muito o que dizer sobre essa música porque ela dispensa qualquer comentário. A simplicidade, a singularidade e o forte sentimento da gravação são capazes de nos remeter aos grandes momentos do folk ou do rock em geral, sem exagero.

Roy mantém o nível lá em cima com “Same Old Rock”, uma belíssima trama de violões com ninguém mais ninguém menos que Jimmy Page. A música passa por uma série de climas, e é impressionante o que acabou saindo daquela dupla. Talvez seja o ponto alto de “Stormcock”, em termos de instrumental e energia. No encarte do LP, Page foi creditado com o nome S. Flavius Mercurius, por questões contratuais.


Com seu violão agressivo, “One Man Rock And Roll Band” é exatamente o que o título menciona. Você consegue imaginar facilmente uma banda à la Zeppelin na base, mas Roy consegue sustentar tudo sozinho e não dá tempo de sentir falta de coisa alguma. Aliás, esse vazio permeia por todas as faixas e é uma das belezas do disco. Dá para afirmar que se trata de folk, mas a produção soa como rock.

Com pouco mais de 13 minutos, a épica “Me and My Woman” encerra o LP com grandiosidade. A música também passeia por diferentes emoções, com seu bem trabalhado arranjo de cordas e uma estrutura complexa. A extensa letra fala basicamente de meio ambiente. Sobre ela, Roy comentou uma vez: “Qual é o nosso destino? Importa? Está ligado ao ‘nosso’ planeta? Na minha opinião, sim”.

Assim como toda a carreira de Roy Harper, o disco vendeu modestamente, mas a crítica o recebeu com entusiasmo, amplamente apontado como o trabalho definitivo do cantor/compositor. Na verdade, o selo de Harper, a Harvest Records, não fez o menor esforço para divulgá-lo, e o disco vendeu muito pouco. Nas palavras do próprio músico: “Eles [o selo] odiaram. Nenhum single. Não havia como promover o disco no rádio”.

Pessoas como Johnny Marr (Smiths) e a banda norte-americana Fleet Foxes já mencionaram “Stormcock” como um de seus álbuns prediletos. A revista NME, em sua lista dos 500 melhores álbuns de todos os tempos divulgada em outubro de 2013, colocou “Stormcock” na 377ª posição.

Faz o seguinte: senta numa poltrona, coloca esse disco e presta atenção. Vale cada segundo.

https://www.youtube.com/watch?v=AafBLiEFS8E