“Jesus Christ Superstar” (1973) – O Jesus hippie na visão de Judas

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Jesus Christ Superstar (Jesus Cristo Superstar)
Lançamento: 1973
Diretor: Norman Jewison
Roteiro: Norman Jewison e Melvyn Bragg
Elenco Principal: Carl Anderson, Yvonne Elliman, Ted Neeley

Magic Bus…

Tá aí um muito bom!

O filme “Jesus Cristo Superstar”, de 1973, começa com um grupo hippie de teatro chegando no deserto em um ônibus saído dum som do The Who, tirando de lá todas as peças que vão compor o cenário e montando tudo. Um homem vestido com uma roupa vermelha, interpretando Judas, começa a cantar uma música para Jesus, suplicando que não acreditasse no que os outros diziam sobre suas origens divinas, que aquilo não ia acabar bem, que era uma “traição a causa”. Sem fazer mais referências ao fato de que tudo é uma peça interpretada pelos caras que desceram do ônibus, o musical continua apresentando uma releitura do texto bíblico, com algumas variações e algumas citações exatas do Novo Testamento, e se propõe a uma visão crítica à figura de Jesus como um superstar (exatamente como entendemos o termo nos dias de hoje), com seguidores que o seguem por razões as mais superficiais e mesquinhas, sem realmente se importarem com a filosofia de vida e política pregada pelo tal messias.

Cristo (cujas falas no disco são interpretadas pelo Ian Gillan, vocalista do Deep Purple) é posto no filme com um caráter mais humano (sem transformar numa coisa imbecil), com dúvidas de cunho existencial a respeito do que é dito sobre ele e de sua relação com os apóstolos. Ao mesmo tempo, o personagem se mantém fiel à construção bíblica, aparentando calma e sabedoria, respondendo sempre sem ser ofensivo, mas com palavras que provocam reflexões aos acusadores. Vale dizer ainda que parte de sua humanização se dá por conta de como se constrói sua relação com Maria Madalena, esta aparecendo com a única que o compreende (não, esse filme não é um drama adolescente), como em “Everything’s Alright”, quando o tranquiliza e parece afastá-lo de seu compromisso divino de “guiar” a humanidade e dizer a todos o que fazer a todo momento.

Contudo, Judas, que se opõe a Maria (inclusive num sentido bem escroto de menosprezá-la por sua profissão), aparece sempre criticando o messias e puxando-o para uma obrigação sociopolítica de luta contra a opressão romana e conversando com ele (putasso!) pedindo, até por medo do que poderia acontecer a Cristo, que deixasse de lado aquela história de Deus. É Judas o real protagonista nessa experiência musical/interpretação do texto bíblico. O filme é o Novo Testamento sob a sua ótica, a história de Jesus contada por um homem!

Judas e Jesus

O traíra é posto nessa versão de modo diferente do comum (assim como parte significante dos personagens), com questões existenciais (novamente, não é remake de “As Melhores Coisas do Mundo”) sobre sua amizade com o messias e sobre o que fazer frente à transformação dum movimento político num grupo de adoração religiosa, com as melhores músicas e com a maior profundidade emocional. Ele não é um cara mau ou avarento, é um cara que pensa por si mesmo e que fica mais que chocado vendo todo mundo seguindo Cristo de modo irracional e assustador, um cara que trata das coisas num nível humano e sem celebrações divinas.

Quem compôs as músicas da trilha do filme foi a dupla Andrew Lloyd Weber e Tim Rice. Andrew é o cara top top dos musicais da Broadway, tendo participado da composição das músicas de peças como “Cats” (1981) e “O Fantasma da Ópera” (1986), e realizou além dessa uma série de parcerias com Tim.

O estranho (na real nem tão estranho…) é que mesmo sendo bastante fiel ao texto do Novo Testamento, mesmo tendo tocado no assunto da religião e tendo apresentado o tal texto pra toda uma geração, o filme sempre gerou um desgosto dos grupos religiosos, protestos e tentativas de proibir quando “Jesus Cristo Superstar” é levado ao teatro. “Tenho certeza de que a senhora jamais daria dinheiro a alguém que estivesse preparando uma violência contra o senhor seu pai ou algum de seus entes queridos. Mas eu me sinto assim quando vejo os cartazes anunciando esse espetáculo de horror, com os dizeres ‘promovido pelo Ministério da Cultura’”, dizem os autores duma petição online aqui no Brasil dirigida à Ministra da Cultura (na época, 2014, Marta Suplicy). Contudo, no ano de estréia do filme (1973), o papa Paulo VI numa pré-exibição encorajou veementemente o lançamento de filme, dizendo que iria espalhar a figura de Jesus.

Segue como sempre, os links pra trilha sonora e pro filme completo!

Trilha sonora:

Filme completo (legendado):

É isso.

Assistam e curtam!

P.S.: O Herodes é genial… Hahaha!


One thought on ““Jesus Christ Superstar” (1973) – O Jesus hippie na visão de Judas”

  1. Este filme fez a cabeça de varios headbangers nos anos 1970. Judas Negro, Jesus puxador de marijuanna, traficante de armas (no sentido mais contra do que a favor), em outras palavras: pacifismo, desarmamento. Pena que os “conservadores” evangelicos não sacaram nada de tanta malicia!!!Depois desse algo semelhante talvez seja o filme Dogma de 1999. A Ultima Tentação de Cristo de 1988, era mais puxado pra cultura “judaica”, com o saudoso David Bowie encarnado “Pôncio Pilatos”!!Liberdade de expressão acima de tudo!! – marcio “osbourne” silva de almeida/jlle-sc

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