Introdução ao chamber pop: 7 álbuns pra dançar (e lamentar)

Introdução ao chamber pop: 7 álbuns pra dançar (e lamentar)

17 de dezembro de 2019 0 Por Vítor Henrique Guimarães

Em 9 de dezembro de 2008, o maior clássico da literatura brasileira ganhava uma adaptação pra TV. A minissérie “Capitu” trazia uma visão lúdica e apaixonante do diretor Luiz Fernando de Carvalho sobre o livro “Dom Casmurro”, de Machado de Assis. O que eu acredito que ele não contava é que além de botar no mundo essa obra-prima e mostrar pro Brasil os talentos de Michel Melamed e Leticia Persiles, uma galera iria se apaixonar também pela mágica trilha sonora.

A música “Elephant Gun”, da banda americana Beirut e que é tema de Bentinho e Capitu, ajudou a difundir no Brasil um gênero chamado chamber pop (ou chamber folk ou baroque pop, como é referenciado algumas vezes). Predominantemente acústicas, as músicas geralmente são guiadas por um violão dedilhado ou por uma harpa e ornamentados por violinos, naipes de metais e percussão que mais parecem marchas. É como se uma miniorquestra se formasse pra fazer um som bem vivo, orgânico e melódico.

Aqui eu vou apresentar pra vocês alguns qoutros artistas e discos que valem a pena conferir se você curte essa proposta cativante de música. Vem comigo?

Beirut – “The Flying Club Cup” (2007)

Eu vou começar pelo óbvio. A banda liderada por Zach Condon já tem seis álbuns na conta (o último, Gallipoli”, foi lançado nesse ano) e uma legião de fãs bem fiéis pelo mundo inteiro. O primeiro álbum, Gulag Orkestar” (2006), tem alguns de seus maiores clássicos, como “Postcards From Italy” e “The Canals of Our City”. Já March of the Zapotec and Real People Holland” (2009) tem algumas das composições mais interessantes e dramáticas da banda, como “La Llorona”, “The Concubine” e a instrumental “On a Bayonet”.

Mas é em The Flying Club Cup” (2007), segundo álbum da banda, que eles alcançaram um nível de fluidez e intensidade que ainda não foi superado. As músicas são verdadeiros atos que e muitas vezes parecem um funeral ou uma lástima em pleno fim de carnaval, com todo mundo bêbado, triste e, principalmente, se consolando – a predominância do naipe de metais é imprescindível pra essa sensação. É o álbum onde os instrumentos estão em maior sintonia. “Nantes”, outro clássico da banda, é uma nostalgia de algo que quase foi esquecido; “A Sunday Smile” reflete sobre viver a inevitabilidade do fim; o coro da alegrinha “Forks and Knives (La Fête)” faz você querer puxar mozão pra sair pulando de nuvem em nuvem. E não poderia deixar de falar de “La Banlieu” e “In The Mausoleum”, que são praticamente dois interlúdios tristes e deliciosos (a última condensa em pouquíssimos versas – e num violino que só falta chorar – como o tema “morte” é tratado no disco), muito menos de “Cherbourg”, que fala enxergar luz com o fim do campo de concentração nazista que dá nome à música.  Um álbum lindo e de qualidade irreparável.

DESTAQUES: “Nantes”, “In The Mausoleum”, “Cherbourg”

Útidúr – “This Mess We’ve Made” (2010)

Foram necessários 20 músicos pra gravar o álbum de estreia da banda islandesa Útidúr. This Mess We’ve Made” foi lançado em 2010 e gravado no Sundlaugin, estúdio cujos donos são os integrantes da conterrânea Sigur Rós. E é um disco de estreia bem legal, bem-sucedido ao que se propõe: um disco pop com instrumentos e arranjos bem folks; com movimento, que sabe bem quando quer empolgar e quando quer soar mais cadente. As músicas são em inglês e em islandês e versam sobre amores românticos (como na fofa “Let’s Make Room”), sobre a montanha russa que é a vida (“Up and Down”) e sobre os amargos caminhos que a vida nos leva (“Mind You Stay”). A vida é uma festa – bem bagunçada, mas uma festa.

DESTAQUES: “Fisherman’s Friend”, “Mind You Stay”, “Until Morning”

Joanna Newsom – “The Milk-Eyed Mender” (2004)

As letras da Joanna não são exatamente simples de se entender e rendem dissertações mil pelas internets da vida. Sua voz aguda é extremamente peculiar. Os instrumentos que sobressaem nas suas músicas são o piano ou, na maior parte dos casos, por uma harpa que ela domina como se fosse o instrumento mais fácil de tocar. Isso tudo, o leitor pode vir a pensar, transforma a experiência de ouvi-la um pouco desafiadora, certo? Só meio certo, porque não demora pra essa experiência se tornar reconfortante. The Milk-Eyed Mender” (2004), é o primeiro dos quatro álbuns de sua carreira (Ys”, de2006; Have One On Me”, de 2010; Divers”, de 2015), todos incrivelmente recebidos pela crítica e pelo fiel público.

“Bridges and Balloons”, música que abre o disco, Joanna fala de como deveria ser adorável e engraçado alguém de fora vendo ela e seus amigos brincando quando crianças, invocando imagens como pássaros, conchas e até referências às Crônicas de Nárnia. Mudanças e perdas são sensações abordadas em “Sadie”, nome da cachorra de Joanna durante sua infância. Ao ouvir “’En Gallop’” você chega a sentir a unha da vida arranhando sua pele, que fala justamente sobre amadurecimento e ver que nem tudo é o que parece quando estamos crescendo (“never get so attached to a põem / you forget truth forget lyricism” é um par de versos que só fazem refletir). É um banho de talento único, admirável e surpreendentemente gostoso de ouvir.

DESTAQUES: “Sprout and the Bean”, “En Gallop”, “Cassiopeia”

https://www.youtube.com/watch?v=j5zH5nl_JrM

Tim Bernardes – Recomeçar (2017)

O vocalista d’O Terno surpreendeu os fãs da banda com o lançamento de seu álbum solo, “Recomeçar” (2017), um dos mais bonitos dos últimos anos, o que o consagrou como um dos artistas mais talentosos da nova geração da música brasileira. Um inseparável violão, naipe de metais e set de cordas calibradíssimos pra fazer chorar e letras onde você simplesmente não tem como não sentar no cantinho em posição fetal e se render: um disco muito íntimo, sincero e redondo. Uma viagem de autoconhecimento (“Quis Mudar” e “Pouco a Pouco” são dois tapas de luva), passando pelas dificuldades do fim (“Calma”, “Não” e “Ela” são tapas de mão nua mesmo) e o vislumbre dos recomeços (bem, “Recomeçar”, não é mesmo?) externalizam os sentimentos de Tim com um fundo orquestral que oferece sensações bem robustas.

DESTAQUES: “Tanto Faz”, “Não”, “Ela”

Trilha sonora de “Afinal, O Que Querem as Mulheres?” (2010)

A Globo pegou o mesmo Luiz Fernando Carvalho (criador da minissérie “Capitu”) pra dar vida algo mais. Em 2010 saiu um repeteco da parceria com o ator Michel Melamed na minissérie Afinal, O Que Querem as Mulheres?. O Luiz Fernando convidou dois grandes nomes pra compor a trilha sonora original da obra: o maestro Tim Rescala e o músico Marcelo Camelo. “Cada qual no seu tempo, cada qual em seu espaço, estúdio ou cozinha. Só nos encontramos uma vez, foi quando percebi o tamanho do risco que corria ao propor o diálogo entre dois criadores de origens musicais tão diversas”, disse Luiz Fernando. E valeu a pena correr o risco: entre melodias mais convencionais pra trilhas sonoras e viagens mais chamberpop-rescas, as músicas casam belamente com as imagens e criam uma ambiência específica e linda pro telespectador.

DESTAQUES: “Malu 4×4″, “Ruiva Balalaika”, “Tatiana”.

DeVotchKa – “A Mad and Faithful Telling” (2008)

O segundo disco da banda americana DeVotchKa, liderada pelo compositor Nick Urata, mostra o perfeito equilíbrio entre pop e folk, com pitadas de rock e momentos épicos comoventes. A banda ganhou projeção internacional em 2006, depois de ficar responsável pela trilha sonora do filme Little Miss Sunshine”. Desde então a banda lançou quatro álbuns (um deles ao vivo), somando um total de sete peças. A Mad and Faithful Telling” abraça as influências ciganas do leste europeu, bota um pouco de cabaré no caldeirão e rende canções animadas como “Head Honcho” e a instrumental “Comrade Z”, ou canções mais emotivas como “Transliterator” e “New World”. É uma bela e instigante fantasia.

DESTAQUES: “The Clockwork Witness”, “Comrade Z”, “Blessing in Desguise”

Mother Falcon – “Alhambra” (2011)

A banda americana Mother Falcon (a da foto que abre a matéria) já chegou a ser composta por 20 integrantes. Hoje o número é reduzido, dependendo do propósito, mas o líder segue sendo o arquiteto Nick Gregg, que juntou colaboradores de bandas e orquestras da universidade onde estudava. Desde 2008 na ativa, a banda já lançou quatro álbuns. O primeiro deles foi Alhambra”. Um disco cheio de vida, delicado, recheado de lindos arranjos de violinos letras que te fundem com uma natureza bucólica (e muitas vezes sufocante) e que te lembram sempre que o tempo e a vida estão passando.

DESTAQUES: “Sanctuary”, “Waltz”, “Serpent Tongues”

E vejam bem: aqui eu foquei em lançamentos mais recentes e em álbuns mais orquestrados. Tem outros álbuns mais minimalistas e “menos expansivos”, digamos (como o do Tim e o da Joanna), que também são sucesso de crítica e público, indo de nomes como Nico e Van Morrison a Laura Marlig e Kahtryn Joseph. Mas quis deixar esse post o menos pesado possível. Afinal, temos precisado de mais dança do que lamento!