Inglês até os dentes: The Kinks – “Face To Face” (1966)

Inglês até os dentes: The Kinks – “Face To Face” (1966)

4 de maio de 2017 0 Por Victor José

Bolachas Finas, por Victor José

Tem como não gostar de Kinks? Essa banda seminal encarnou praticamente tudo que importa do espírito do rock britânico dos anos 1960, mas, diferentemente dos parceiros de época Beatles, Stones e The Who, não atingiu aquela enorme massa de sucesso. Apesar disso, pode-se dizer que ainda sim esta é uma das maiores bandas de todos os tempos sem sombra de dúvida, e divide com o The Animals (e quem sabe o The Hollies) esse estranho e não tão justo posto de bandas britânicas definitivas da década de ouro do rock que todo mundo conhece pelo menos uma música.

Mas o mais interessante do legado do The Kinks é que a cada nova vertente que aparece no rock você percebe uma banda ou outra que os idolatra. Perceba o power pop do The Knack, o indie a la “You Really Got Me” da sueca The Hives ou a personalidade inglesa até a medula nas principais obras do Blur… Tudo isso é muito The Kinks. A banda atravessa os anos renovado e cada vez mais bem assimilado.

Poderia escolher praticamente qualquer álbum da banda para comentar, mas escolho Face To Face”, seu quarto LP, por ser o meu favorito e porque vejo nele um período de transição muito evidente, o que o torna ainda mais interessante. Há o melhor dos dois mundos de Kinks nesse disco. “Face To Face” está para The Kinks como Rubber Soul” está para The Beatles. Pelo menos eu vejo assim. Ainda há aquela urgência dos primeiros trabalhos, mas já notamos uma banda mais refinada, variando nos estilos, buscando se inserir na nova onda de experimentações sonoras e se saindo muitíssimo bem.

Ray Davies – como sempre – estava afiadíssimo nas composições e produziu alguns de seus momentos mais memoráveis.  Pela primeira vez, toda a tracklist leva sua autoria. Outra coisa curiosa sobre esta obra é que muito a consideram como o primeiro álbum conceitual da história, ou seja, todas as músicas contribuem para um tema específico, como acontece com clássicos como Tommy” e The Wall”. No caso de “Face To Face”, o tema explorado foi basicamente a sociedade inglesa e seus costumes e, ao contrário dos clássicos álbuns conceituais, não há nada de repetições de temas e dramáticas overtures ou interlúdios, pelo contrário, você escuta as 14 faixas em uma tacada só, sem encheção de linguiça e não cansa um segundo. Cada canção funciona muito bem sozinha, se considerar fora dessa pegada conceitual.

“Party Line” abre o LP com bastante força, direto, sem maiores pretensões. Essa na verdade é uma parceria entre os irmãos Davies, que no fim acabou não sendo creditada no encarte. “Rosy Won’t You Please Come Home” traz um ritmo dançante embalado pela bateria sempre bem destacada de Mick Avory e por um cravo meio empolado tocado pelo mestre Nicky Hopkins. Essa música é uma daquelas que tem a incrível capacidade de grudar em sua cabeça pelo resto do dia, semana ou mês. Uma curiosidade: essa canção foi inspirada principalmente pela irmã de Ray e Dave Davies, Rosy. Ela e seu marido, Arthur Anning, tinham se mudado para a Austrália em 1964, o que deixou Ray profundamente triste. No dia que eles se mudaram, Ray Davies teve um surto de choro em uma praia. Dave contou uma vez que ele correu para o mar gritando e chorando. Além disso, a partida de Rosy e Arthur inspiraria mais tarde a banda na concepção de outro grande álbum da banda: Arthur (Or the Decline and Fall of the British Empire)”, de 1969.

Um dos singles para o disco, “Dandy” traz uma ótima letra de Ray, cheia de sarcasmo. Dizem que esta canção fala indiretamente de seu irmão, Dave Davies, o guitarrista da banda. A acidez para com os outros não para por aí, isso porque “Session Man” é um retrato de ninguém menos que Jimmy Page. E pelo visto a banda detestava o então músico de estúdio. Para se ter uma ideia, veja o que Ray já disse sobre isso: “Quando gravamos “All Day And All Of The Night” nós tivemos que gravá-la às 10 horas da manhã, porque tínhamos um show naquela noite. Tudo foi feito em três horas. Page estava fazendo uma sessão no estúdio ao lado, e veio para ouvir o solo de Dave. E ele riu, ficou tirando sarro. E agora ele diz por aí que tocou aquele solo! Então eu acho que ele é um cuzão. Dave é um grande guitarrista. Ele tem suas limitações, mas nunca recebeu o devido reconhecimento. Ele tocou isso com 16 anos de idade. Ele criou um som”.

Embalada pelo belo baixo de Peter Quaife, “Too Much On My Mind” apresenta um ar de folk rock bem dentro dos padrões da época, enquanto que em “Rainy Day in June” e “Fancy” a banda arrisca algo mais experimental com sonoplastias de trovões e cítaras, premeditando os anos psicodélicos (algo que o Kinks nunca chegou a cavar a fundo).

O rock básico dá as caras em faixas incríveis como “House in The Country”, “Holiday in Waikiki” e “You’re Lookin’ Fine”, que mostram a capacidade do grupo de transitar entre a busca de maturidade musical e a rebeldia inerente do rock, sem abrir mão da qualidade. O mesmo ocorre com as mais melodiosas “I’ll Remember” e “Most Exclusive Residence For Sale”, esta última com uma letra hilária sobre um sujeito que compra uma casa suntuosa por puro capricho do status e não consegue manter o estilo de vida.

A super inglesa “Little Miss Queen Of Darkness” traz esse ritmo ligeiramente jocoso, cheio de irreverência e um solo de caixa irresistível. Dá até para dizer que ela faz um belo par com a mais famosa do disco, “Sunny Afternoon”. Um dos pontos altos do catálogo do grupo, essa canção alcançou o primeiro lugar nas paradas do Reino Unido, o que animou bastante Ray, que via nesse novo jeito de compor sua força principal. “Não havia escrito nada por um tempo”, comenta Ray. “Eu estava doente e vivia numa casa muito decorada, tinha paredes laranja e móveis verdes. Minha filha de um ano de idade estava engatinhando no chão e eu escrevi o riff de abertura. A única maneira que eu poderia interpretar como eu me sentia era por meio de um aristocrata decadente. Eu o transformei [o protagonista da faixa] em um canalha que brigou com sua namorada depois de uma noite de embriaguez e crueldade”, disse.

Apesar das ótimas críticas, “Face To Face” não foi um sucesso de vendas, o que viria a se repetir em vários dos melhores trabalhos do Kinks. Talvez o público estivesse mais sedento por folk rock e pirações psicodélicas, que já estava começando a pipocar com força em 1966. Mas fato é que pouco importa o desempenho da banda nas paradas de sucesso. Hoje todos concordam que ali está uma das obras mais importantes da música pop. E termino como comecei: tem como não gostar de Kinks?