Gourmetização de Lives em tempos de pandemia

Gourmetização de Lives em tempos de pandemia

14 de abril de 2020 1 Por Rebeca Gouveia

O COVID-19, o novo coronavírus, avisou que estava chegando no Brasil e chegou. Tem causado danos irreparáveis para toda a população e coloca o sistema capitalista em cheque, quando a prioridade número um do mundo passa a ser o sistema de saúde pública. Hoje, no Brasil se somam mais de 1.300 mortes por COVID-19 registradas. Ressaltando que não temos testes para toda população, o que nos faz acreditar que esse número esteja bem acima do que é informado. Ainda não existe cura, ainda não existe vacina. Pesquisadores do mundo inteiro estão empenhados na busca de uma medicação ou protocolo eficiente para contenção da epidemia. Por isso, as orientações propostas pela OMS – ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE – é o isolamento social, para que a curva de contágio seja achatada e o sistema de saúde não entre em colapso, e assim possa atender minimamente todos que precisam de leito e cuidado. É uma medida, que vem se mostrando eficiente em outros países, e que pode minimizar o efeito devastador do vírus que soma mais de 120.000 mortes em todo o mundo.

Automaticamente essa medida de segurança coloca em cheque o sistema econômico. Uma vez que além dos serviços essenciais, todo o restante dos comércios e serviços devem permanecer fechados até que passe o momento crítico do contágio. O que faz com que a economia, que sempre foi a prioridade, passe para um segundo plano. O mercado precisa se adaptar rápido. O mundo precisa de ressignificação e o modelo econômico atual está falido. Tudo precisa ser milimetricamente repensado com muita estratégia e responsabilidade para minimizar as consequências mais graves da pandemia.

Estamos finalizando o primeiro mês da quarentena e esse novo modelo de mercado ainda não se encontrou. Não se apresenta sustentável em seus experimentos, ora por quebrar as regras da quarentena. Um exemplo disso é o recorte do mercado da música. Os shows viraram lives depois do confinamento. Uma indústria que movimentava bilhões, hoje se restringe a poucos recursos para transmitir uma nova impressão de show ao vivo vide uma tela. Artistas dos mais diversos patamares se reinventando. Criando com o que se tem para poder executar seu trabalho de forma segura para todos e ainda gerar aquele entretenimento tão necessário neste momento de quarentena. Esse modelo se sustenta?! Paga contas?! Depende de quem. Vemos artistas independentes fazendo suas lives de forma bem simples, mas coracional, que pedem contribuição em dinheiro, por que se trata de um trabalho sendo executado e isso tem um valor e um preço. Muitos, deixam claro que paga quem quer, quem tem consciência e entende que executar música é um trabalho e é com essa “bilheteria” que vão pagar as contas e se sustentar.

Outro modelo de atores neste mercado é o artista mainstream. Esse, já vem estocando grandes fortunas ao longo da sua carreira, o que garante que não serão os mais afetados por essa crise. Estes conseguem sobreviver à recessão econômica e ainda alimentar a sua cadeia de profissionais como produtores, empresários e equipe técnica. Privilegiados, sim. Contudo, são nestes mesmos atores, que o mercado enxerga uma forma de ganhar um pouco de fôlego, respirar em meio à crise do coronavírus e do novo modelo de consumo.

As grandes marcas de cerveja sempre foram as maiores patrocinadoras dos grandes eventos e logo, viram seus lucros escorrendo pelo ralo. As marcas precisaram se reinventar e levar esse patrocínio para o meio digital como uma nova forma de provocar o consumo.  Determinada marca cria um um festival e convida artistas de grande porte, que são consumidos massivamente. Criam uma causa social para não parecer uma ação explicitamente mercadológica. Neste momento, o objetivo da marca em aumentar suas vendas chegou embalado em formato de solidariedade, mas aí se trata de uma prática de marketing já usada. A novidade e o grande desafio é promover-se respeitando o contexto social que estamos inseridos e respeitando as orientações da OMS, por que essa passou a ser a nossa prioridade número um. 

A marca precisa montar uma estrutura para atrair o máximo de público e, com as restrições da OMS, o produto (Live do Cantor X) não pode parecer artesanal. Esse público é exigente e pede requinte. É a mesma lógica dos shows presenciais em aglomerados: a superprodução vai ter que acontecer. E é aí exatamente neste único ponto que toda essa estratégia não se mostra sustentável, porque ela viola a nossa prioridade número um. Para um show acontecer é necessário dezenas ou centenas de pessoas trabalhando, dependendo do tamanho do evento. E, na live é a mesma lógica. Equipe de cenário, equipe de som, equipe de luz, operador de som e luz, roadie, produtor, serviço de camarim e por ai vai… uma cadeia produtiva. Um show não existe sem uma equipe técnica, ao menos que você o faça de forma artesanal e bem simples.

Toda essa cadeia de profissionais precisa sobreviver, precisa ganhar dinheiro, precisa se sustentar, mas precisa principalmente seguir as recomendações da OMS. E, até agora o serviço do entretenimento não foi considerado essencial, embora eu adorasse e me beneficiaria se fosse. Mas, porquê está liberada a aglomeração e a quebra das regras da OMS quando é para uma marca se posicionar no novo modelo de mercado? Enquanto isso, os trabalhadores da música independente, equipe técnica e artistas penam para conseguir o mínimo de audiência e uma atenção sobre o seu trabalho, que é cuidadosamente pensado em ser correto e ético. 

O entretenimento é extremamente importante neste momento de quarentena. A arte salva, a gente sabe. Embora, tenham dito o contrário o tempo todo. Só quem conhece a fundo a luta dos artistas e de toda a cadeia da música/ arte para legitimar esse trabalho, talvez entenda perfeitamente o que eu quero dizer. Este é um outro ponto, mas que abre precedentes para uma discussão mais profunda sobre a valorização da arte. Entendemos o entretenimento como um consumo necessário. Muitas vezes é o que tem de divertido no confinamento e dando um respiro nas tensões. Esse produto contempla (público-alvo) toda as classes sociais e aparenta ser democrático. É como se todo mundo pudesse estar reunido em uma grande festa. É uma sensação deliciosa e, sim, isso estimula o consumo.

 

O fato é que esse conteúdo precisa ser responsável. Uma live que junta 3 milhões de pessoas simultaneamente, não pode ser feita de maneira incorreta. Ela precisa dar o exemplo. Ela precisa mostrar que o mercado precisa se reinventar. E, não é aglomerando pessoas que pedem para outras ficarem em casa que a mensagem vai chegar de forma eficiente. Esta é a maior contradição –  E disso, os donos das marcas já sabem, o objetivo é o consumo. Mas, esse lucro quando é colocado acima das normas de saúde que pode achatar a curva de contágio do novo coronavírus e evitar todo o colapso do sistema público de saúde é criminoso. A ideia não é recomeçar com um modelo errado. E, até agora, nenhum modelo se mostrou sustentável e eficiente, deixando a equação ainda aberta.

Backstage da Live Jorge e Matheus

A pandemia do novo coronavírus vem justamente nos tirar da nossa zona de conforto e de um modelo de mercado falido e nos fazer repensar o nosso consumo, as nossas práticas enquanto cidadão comum e como ator da sociedade. Quantas vidas valem uma Live?!

Por Beca Gouveia – Jornalista e Produtora Cultural