Garrafa Vazia completa 10 anos na estrada ainda tentando ver o copo meio cheio

Garrafa Vazia completa 10 anos na estrada ainda tentando ver o copo meio cheio

26 de novembro de 2019 0 Por João Pedro Ramos

Em uma montanha russa etílica desde 2009, a banda Garrafa Vazia continua seguindo em frente com o álbum “Cirrose” e prepara novas músicas que podem dar um desvio em suas temáticas. Afinal, em 2019, o país está desmoronando ao nosso redor e uma banda de punk rock que se preze não consegue ficar calada ao ver tudo isso acontecendo… A banda, formada por Mário Mariones (voz de betoneira e baixo), Ralph Faust (bateria), Saulo DS (guitarra, vocais) e Vancil Cardoso (guitarra, vocais), promete soltar o verbo em breve.

“Com o momento reaça escroto que o mundo vive, não podemos ficar isentos”, conta Mariones. “A postura é libertária e temos sons como “Autonomia”, “Hipócrita” e “Resistência” como uma pegada mais hardcore punk. Como professor (fui educador na Fundação Casa, antiga FEBEM) quero alimentar o melhor nas pessoas, mas sem cagar regra”.

– O Garrafa Vazia tá completando 10 anos de vida. Como você faria um panorama dessa década na música?

É meio clichê usar a imagem de “altos e baixos”, “montanha russa”. Mas realmente oscilações em termos de “cena”, “espaço” ocorrem. Mas o panorama é positivo. Quando penso que mais e mais pessoas conheceram a banda ao longo dos anos, de diversos lugares, e às vezes nos shows pedem uma música “antiga”, penso – porra, que legal, o contato com a banda foi marcante, as canções perduram.”

– E como a banda mudou nesses 10 anos?

Puts, aconteceu coisa pra caralho. Eu comecei no punk rock por volta de 97, 98. Vivi com toda intensidade o underground dos 2000. Aqui em Rio Claro tinha o Kenoma, que recebia banda pra caralho. O Ricardo Drago da Mutante Radio fazia corre pra caramba. Ele e o Pedro Brochini do Dezakato fizeram muito pela cena. O Daniel Ete do Muzzarelas também. Só que nessa época eu era o “vândalo autodestroyer”. Eu respirava birita, enchia a cara de manguaça e não “levava realmente a sério” o lance de banda. Mas em 2009 decidi compor em português e montei o Garrafa Vazia. Em 2010 já estávamos num puta festival tocando com o Biohazard e o Cólera no Teatro de Arena em Araraquara. E seguiram-se as composições. Foram várias demos. Fizemos 2 splits com a banda de São Carlos, o Hippies not Dead. Em 2011 até 2017 tivemos a formação clássica – que era com o Ralph Faust (Vadio), na bateria , o Hebert Nascimento (Hb) na guitarra e vocais, e eu no baixo e vocais. Ficamos dois anos ensaiando e tocando sem parar, em tudo que é canto. Foram dois anos pra ajeitar a casa, a cozinha. Então, quando lançamos o “Back to Bacana”, em 2014, gravado num take ao vivo, num porão, tínhamos já consolidada a identidade: letras irreverentes com background literário experimental sarcástico, sem soar pretensioso, na sonoridade a sinceridade mirava pro lado cru e dançante com boas melodias. Fizemos tour, fui entrevistado por rádio argentina junto ao Charlie Harper do UK Subs, saímos em vários coletâneas, até a explosão do “Corotinho”, que realmente viralizou. Até o PC Siqueira tuítou “Corotinho é o milagre no potinho”. Aí seguiram muitos shows. Foram shows no Hangar, em grandes festivais, tocando ao lado bandas gringas e nacionais, praticamente todas as bandas clássicas nacionais do punk nacional. O disco virou um vinil, no final de 2016. A Neves Records, uma gravadora aqui do interior de São Paulo apostou na gente. Foi do caralho. Disco prensado na gringa, edição numerada e com o suporte 100% deles. Valeu cada gota de suor. Aí passamos por mais mudanças na formação, gravamos o novo álbum “Cirrose” com uma produção de primeiro mundo e novamente tivemos 100% de suporte da nossa gravadora. A capa do disco é de um ótimo artista mexicano Olafh Ace. Esse ano tocamos pra caralho, fizemos shows fodas aqui pelo interiorzão, e uns bem fodas em São Paulo, Londrina, Campinas, com o Vibrators e o Linguachula. Fomos convidados pro Rebellion na Inglaterra, mas por logística tivemos que adiar. Agora a formação conta com dois guitarristas: o Saulo DS e o Vancil Cardoso. Isso deu mais riqueza harmônica, sem perder a essência. E a cozinha continuou intacta, com meu irmão Ralph Faust e seu pedal de bumbo pesadão comandando o balanço do baile. O Saulo DS é nosso amigo desde o começo da banda e também assumiu os vocais. Aliás, temos uma PORRADA de sons novos! A vibe é ótima, temos dois shows marcados pra dezembro que vão ser sensacionais.

– Antes de falar dos sons novos, me fala do disco mais recente, que recebeu elogios de um monte de gente bacana!

Porra, isso é gratificante demais. Receber elogios do Quique Brown do Leptospirose, que é uma banda aqui do interior que a gente pira, é uma puta satisfação. O Mao do Garotos Podres elogiando “Geração Yogurte”, o Ariel ressaltando lado “divertido” da banda, o Mozine falando da identidade da banda, do meu vocal que é massa, inclusive o irmão do Joey Ramone, o Mickey Leigh, ouviu “Geração Yogurte” e também pirou no meu vocal. Porra, bicho, é felicidade pura estar vivo e curtir tudo isso. O Ariel, o poeta das ruas, já falava lá em 2011 que o vocal trazia algo de Tom Waits, e eu fiquei bastante contente, que Tom Waits ao lado do Nick Cave e os mestres do blues Howlin Wolf, Muddy Waters e John Lee Hooker são grandes inspirações. Mas não copiei ninguém, desenvolvi essa coisa de misturar a prosaica vida na roça com o meu jeito de cantar normalmente, nos tons que a minha voz cai de um jeito sambarilóvi. É natural, não é aquele gutural forçado. É só “gritar” que sai assim. Quando vou aos jogos do Velo Clube, aqui em Rio Claro, a molecada fala que eu tenho “a voz do Hulk”. Mas voltando aos elogios, fiquei super feliz que o Gabriel Thomaz, que é um dos melhores compositores do praneta, achou genial músicas como “Artista Visionário”, dizendo que ficou com aquela inveja saudável (risos). O Quique Brown falou de uma poética da roça em “Abraça O Poste”, foi foda! O Moreno do Lixomania também elogiou, foi foda demais! O Manolo Almeida do Crise Total, uma das bandas precursoras do punk rock de Portugal também elogia o vocal, falando que é uma bicuda nos tímpanos, haha! Mas o mais legal é que o disco todo tem sido elogiado pela qualidade das composições. O Christian Targa, o Gordo, falou do vocal também, que eu sou o “Barry White do punk rock”. (Risos) O Henrike do Armada, ex-Blind Pigs também elogiou , dizendo que saímos da temática de só bebida, briga, etc. O Daniel Ete também elogiou, e puts, sou muito fã do Muzzarelas. Foram muitos elogios e isso nos dá um gás animal. Temos já um álbum praticamente pronto. Sou leitor voraz e sempre tento compor ou esboçar um canção por dia, ensaio com regularidade, trabalhamos duro e na humildade. Enfim, estamos num estado sambarilóvi, só alegria!

– Me fala mais desses sons que vem por aí! Então a temática vai continuar mudando, certo?

Sim. Com o momento reaça escroto que o mundo vive, não podemos ficar isentos. A postura é libertária e temos sons como “Autonomia”, “Hipócrita” e “Resistência” como uma pegada mais hardcore punk. Como professor (fui educador na Fundação Casa, antiga FEBEM) quero alimentar o melhor nas pessoas, mas sem cagar regra. Por outro lado, a descontração estará presente também: o lado festivo, que é marca registrada da banda estará presente na faixa título, e em outras canções que abordam causos e fenômenos pitorescos aqui, no life style da roça.

– E como está rolando essa expansão pelo exterior, com comentários e convites vindos lá de fora?

É um lance complicado. Temos família, responsabilidades, então a questão do tempo sempre pega. Mas rolaram já convites pra tocar pela Argentina, e foi muito massa que despertamos o interesse de bandas do Chile, do Uruguai, que queriam tocar conosco, numa tour massa, cujo festival mais foda seria num estádio de rugby. Passaríamos pelo Paraguai e outros países. Infelizmente por problemas burocráticos de lá, acabou não rolando. Bateu na trave. A aceitação por lá é bacana. Tem gente até vendendo nossas músicas no bandcamp sem autorização, haha.

Assim como foi legal o lance do Rebellion. Por enquanto, permanecemos com os pés no chão. Que ocorra naturalmente. Seguimos trabalhando com paixão nas novas composições, preocupados com a substância envolta na razão de existir do Garrafa Vazia. É óbvio que projetamos expandir as fronteiras e levar nosso som ao vivo com toda nossa energia para outras países. Na humildade e com planejamento vamos seguindo, bastante gente lá de fora curte nossos sons, acompanha a banda. O lance é seguir trampando e planejando.

– Vocês se consideram punks? Como anda o punk em 2019 na opinião de vocês?

Sou punk. Minha namorada, Stephanie Guardia é punk. Punk é livre iniciativa. Punk é faça você mesmo. Saulo DS também é punk, basta você ver a sua outra banda, o Alerta Mental. Ralph Faust, o batera também é. Na verdade, considero o termo punk rocker mais adequado, afinal, cresci ouvindo Chuck Berry, Little Richard, Jerry Lee Lewis, aí o Stooges, Ramones, Clash, Pistols entortaram minha vida, verdadeira cotidiana insubordinação , prontidão reluzente, alma punk – juntamente com o Cólera, Olho Seco, Lixomania, o Restos de Nada. O punk anda bem. Veja o show do Cólera de 40 anos, de disco novo, que celebração! O Ariel sempre construtivo, poeta das ruas, o Inocentes acaba de vir de uma tour na Europa, Garotos Podres está mandando brasa, Replicantes na ativa, as bandas novas por todos país dando o sangue… dia 14 de dezembro vamos tocar agora com o Flicts, que é uma excelente banda, formada em 96 com letras diferenciadas. O punk nunca vai morrer. Só acho que não deve existir cartilha de “como ser punk”, saca? Jello Biafra já falava sobre isso em “Chickenshit Conformist”. Quão arrogante é propor “qual o melhor significado, melhor essência” do punk a outra pessoa, não é mesmo? Punk Rock é liberdade, construção, atitude, não patrulhamento alheio. Punk rock é minha vida.

– Quais são os próximos passos do Garrafa Vazia?

Estamos divulgando o “Cirrose”, o vinil verde musgo 10″ que saiu pela Neves Records, prensado na Europa. Ele vem com encarte com colagem old school, feito pela minha namorada, Stephanie Guardia. Em edição numerada de 320. Pode ser adquirido no site da gravadora: www.nevesrecords.com.br “Cirrose” está tendo excelente saída, mais da metade da prensagem já foi. Inclusive a música “Artista Visionário” está concorrendo a hit do ano no Prêmio Gabriel Thomaz de Música Brasileira. Enquanto isso, vamos cumprindo a agenda, e claro ensaiando com afinco: com suor, com gana, obstinação. Nosso lance é a ENERGIA. O show do Garrafa Vazia transmite essa veia visceral, sempre. Temos muitos, mas muitos sons novos mesmo. Vamos em breve começar a pré produção pro próximo disco. Vamos com calma, maturando as canções, no capricho sambarilóvi. A alegria sempre estará presente. Afinal, faltou folia? Garrafa Vazia, chefia! Aliás, dia 08 de dezembro estaremos no festival 1º Marafo com Farofa no Woodstock em Campinas: Satanagem, Garrafa Vazia, The Bombers e Tolerância Zero. A Brazilit Films vai produzir um clipe de Corotinho durante o evento, que é realização da Bode Preto.

– Recomende bandas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Bom, falando de maneira geral: o The Cavemen da Nova Zelândia, o Los Vigilantes, de Porto Rico, o The Riptides do Canadá, e aqui no Brasil acho muito foda o Muzzarelas que vem com disco novo por aí, além do Drakula, Leptospirose, Alerta Mental , Corazones Muertos, o Hillbilly Rawhide, Statues On Fire e o Gabriel Thomaz Trio! E o Merda!