Garimpo Sonoro #9 – A Vida é Obra de David Bowie (1947-2016)

David Bowie

Ainda está fresca a notícia da morte de David Bowie… e Bowie andava fresco em minha mente. Coincidentemente, estava justamente numa fase bowiesca… No final do ano ouvi por completo com amigos o disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars; na semana passada estava ansioso para ouvir na íntegra sua última obra, mas enquanto não era liberada, me continha com um show de ‘72; na sexta ouvi algumas vezes Blackstar, seu agora disco-testamento, e gostei muito.

Mesmo sem pensar, recentemente apreciei Bowie como se deve: por completo. Ouvir faixas isoladas é a maneira mais viável – ainda mais neste mundo ansioso que vivemos -, mas algumas artes só são perfeitamente absorvidas em sua totalidade.

E Bowie é um artista completo. Tão completo que transformou sua própria morte em um capítulo de seu último trabalho. Pensando friamente, o enredo não poderia ser mais perfeito: lanço um aperitivo com um mês de antecedência, com um clipe sombrio que se tornaria profético. Presenteio a todos, no dia do meu aniversário, com um álbum denso, pesado e diferente. Dou três dias para um primeiro contato, para que todos possam se familiarizar com as músicas. Então, como um epílogo surpreendente de um livro clássico, adiciono a morte do protagonista.

E não é a primeira vez que Bowie se mata. Lembremos de Ziggy Stardust, cuja última aparição foi em julho de 1973.

Como um artista real, seu principal objetivo não era o agrado da audiência, mas o respeito à suas crenças. É creditada a ele a frase: “Eu não sei para onde eu estou indo daqui, mas eu prometo que não será entediante”. Dylan, tão referência para Bowie que foi sua musa em “Song for Bob Dylan”, uma vez disse que um artista não pode se confortar com um momento, tendo sempre que estar num estado de constante mudança. Algo tão coerente sobre Dylan, quanto sobre Bowie.

Perder um Bowie é perder um artista em constante ressignificação. Contudo, é também um momento para refletirmos sobre o que somos e o que queremos ser. A pergunta que ele fez décadas atrás pode ser adaptada para hoje: existe vida na Terra?

E o quê podemos tirar de bom em tudo isso? O senso de missão artística que sempre pairou sobre Bowie. O artista imortal venceu o homem moribundo. Ao saber de seu fim, escolheu curtir a vida através de um último suspiro como David Bowie. Um David Bowie que quis amenizar as dores de David Jones e sua família.

Assim, podemos afirmar: esta foi a última transformação do eterno Camaleão.

Ou a primeira, esteja onde estiver.


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