Garimpo Sonoro #6 – Porque os bootlegs oficiais de Bob Dylan são mais que caça-níqueis

Bob Dylan

Tenho um certo apreço pela obra de Bob Dylan. Talvez eu goste um pouco mais do que qualquer outra pessoa que você conheça. Talvez eu até tenha um blog chamado Dylanesco, focado apenas no universo deste senhor. E talvez eu cometa algumas loucuras financeiras em decorrência dos lançamentos fonográficos deste ser. Mas gostaria de contextualizar e até te convidar a entrar em parte deste universo: o da arqueologia musical.

Desde 1991 a equipe de Bob Dylan faz uma verdadeira limpa no porão fonográfico do músico e presenteia o público, e o bolso de Dylan, com boas pérolas desse verdadeiro garimpo. O próprio cantor não parece ter qualquer influência nessa coleção de discos, lançada paralelo à produção de Bob e intitulada ironicamente de Bootleg Series.

Por que ironia? Porque o termo bootleg está relacionado à produção e distribuição de whiskey ilegal (na Lei Seca dos EUA). No mundo da música, os bootlegs são os discos piratas de gravações de shows, sobras de estúdios que não foram lançadas e coisas não autorizadas pela gravadora que escapam e acabam entrando neste mercado paralelo.

Bob Dylan e sua trupe, malandros que são, institucionalizaram esta cultura. Contudo, a artimanha é realmente boa, vai muito além de um mero caça-níquel e tem se aprimorado a cada edição. Já existem 12 volumes dessa Bootleg Series e os mais recentes se especializaram em períodos específicos.

E mesmo com o fortíssimo mercado de bootlegs “reais”, essas compilações conseguem tirar leite de pedra e sempre apresentam coisas novas, que nem os bootlegers tinham. E é aí que a coisa começa a ficar interessante…

Existem dezenas de livros sobre Bob Dylan e todos se baseiam em informações oficiais e não-oficiais para tirar suas conclusões. Porém, nessas revisitações dylanescas, muitas coisas são apresentadas ao público pela primeira vez, podendo abrir espaço para uma nova interpretação da história.

São músicas que ninguém sabia que existiam; versões primitivas que mostram um novo horizonte para a canção e sua intenção; sobras de estúdio que ilustram um apreço muito maior do que se imaginava do artista. Cada volume da Bootleg Series cria um enredo próprio, que se mistura ao mesmo tempo que reescreve parte da história. E Bob Dylan talvez seja um dos poucos que possa fazer isso, por conta principalmente de seu formato de criação no estúdio.

Okay, talvez a afirmação acima seja um pouco tendenciosa. Mas deixa eu tentar explicar de um jeito didático que não pareça um físico espumando para te fazer entender sobre as teorias de Einstein. Bob Dylan trata sua obra como algo tão mutável quanto o próprio sentimento, a vida, o mundo. Uma vez, ao ser questionado porque ele não interpretava uma determinada canção do jeito que gravou, ele respondeu algo como: “Aquela gravação é só o registro daquela música, naquele dia. Você não gostaria de viver o mesmo dia mais de uma vez, gostaria?”.

E ele nem está sendo tão sincero. Seus discos não são apenas registros do dia, mas registros daquele exato momento. Uma música rápida e raivosa em um take pode se transformar em algo melancólico e suave no take seguinte. A letra pode mudar, o andamento pode mudar, os acordes podem mudar. Tudo a favor de uma Musa que não só possui sentimento, como também humor.

Para Bob Dylan, a música é um ser vivo com vida própria, que escolhe suas trilhas enquanto reconta seu enredo. E os Bootleg Series são os manuscritos das histórias registradas nos discos. Com eles, temos acesso aos bastidores da criação, vivenciamos a mutação da canção como um time-lapse da criança para o adolescente.

Tá, talvez eu tenha me empolgado.

Para terminar, meu jabá: quem quiser saber mais sobre o recente Bootleg Series do Dylan e minhas observações sobre, só acessar: http://dylanesco.com/resenha-cutting-egde-observando-o-big-bang/


One thought on “Garimpo Sonoro #6 – Porque os bootlegs oficiais de Bob Dylan são mais que caça-níqueis”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *