Florcadáver nasce com um pé no fuzz e outro dentro da van rumo à Argentina e Uruguai

Florcadáver nasce com um pé no fuzz e outro dentro da van rumo à Argentina e Uruguai

30 de maio de 2019 0 Por João Pedro Ramos

Unindo as forças de três grandes mulheres da cena independente, o Florcadáver, de Amanda Buttler (do Sky Down e Miami Tiger), Theodora Charbel (Sixkicks, Papisa e Gali) e Célia Regina (do Miêta), surgiu graças ao acampamento Girls Rock Camp, do qual as três foram ou são monitoras. “Conheci as meninas no voluntariado do Girls Rock Camp, a Célia, guitarrista do Miêta, quando participei pela primeira vez do Camp no ano passado e a Theodora, que eu já sacava de longe no SixKicks, neste ano”, contou Buttler em entrevista ao Trabalho Sujo. Célia conversou com Marcela Matos, fotógrafa e veterana do Camp desde o início, sobre sua vontade dela de ser voluntária no Chicas Amplificadas, a versão argentina do acampamento. A partir daí, surgiu a ideia de montar uma banda para tocar durante o caminho, transformando o trajeto em uma turnê. Esta turnê, que está contando com um financiamento coletivo para acontecer, também contará com Thamú Silva, na produção da tour, e Kaline Toledo, que cuidará do registro em foto e vídeo da viagem toda e também é a responsável pelo primeiro lyric video da banda, “Baleia”.

Em breve, a banda lançará seu primeiro EP, com sete músicas que destilam todas suas influências que vão do grunge e noise noventista à viagem dos Boogarins, passando pelo minimalismo do Metronomy. “Tem músicas mais melódicas, progressivas, dançantes…”, conta Theodora. “Tá vindo um EP dinâmico, com poucas camadas, uma intenção seca e molhada em delays. A gravação é ao vivão também, poucas camadas e pomposidades”, completa Célia. A gravação e produção é de Bernardo Pacheco, que registrou os sons em seu estúdio. Conversei com elas sobre o novo projeto:

– Como começou o projeto Florcadáver?

Célia: Bom, a gente tava bebendo em uma praça de Sorocaba depois do show das meninas do Girls Rock Camp, e nesse grupinho estávamos eu, Gabi Deptulski (My Magical Glowing Lens) e Marcela Mattos (dona da van). Eu e Marcela estávamos conversando sobre nossa viagem pra Curitiba, no Girls Rock Camp de lá, e falamos da possibilidade de ir pro Camp da Argentina. A Marcela comentou que seria uma viagem super possível e botou pilha, a Gabi se animou e eu já topei! Joguei a ideia de fazermos uma banda pra tocar durante a viagem, fazendo shows nas paradas pra juntar uma grana e não deixar a viagem pesada. Pensei na Buttler no baixo e Theo na bateria, porque tinha me aproximado delas por lá e as admiro muito, pelos trabalhos em outras bandas. Daí fiz o convite e elas toparam! Gabi desistiu depois de um tempo, mas seguimos em frente como um power trio mesmo, e assim virou a Florcadáver.

– Podemos considerar a banda um supergrupo, né, reunindo membras de diversas bandas ótimas do cenário independente. Como os outros projetos de vocês influenciam na Florcadáver?

Célia: Valeu pelo “bandas ótimas” (risos)! Eu aprendi muita coisa trabalhando com a Miêta, tipo como marcar shows e fazer contatos diretos e fluidos, como rodar, como construir shows, e mais um monte de coisinha. Tudo isso o Miêta foi e é uma escola pra mim. Então agora não precisei aprender isso de novo, além de já ter alguns contatos. Tenho aplicado tudo de forma mais direta na Florcadáver, já tendo ideia de como funcionam algumas coisas.

Buttler: Sobre como as bandas influenciam no projeto: eu não sei responder isso, eu só saio tocando! (risos)

Theodora: Sinto que no cenário independente a gente sempre ta em constante aprendizado, em como se trabalhar com plataformas de streaming, divulgação, criar rotas de turnês, produção de merchs, mapear o palco, perceber como a passagem de som influencia nos shows, perceber como cada show é único… De um ano pra cá entrei na pira de tocar com vários projetos (SixKicks, Papisa, Gali, Ema Stoned, Ian Carvalho Project, La Leuca, My Magical Glowing Lens, Veronica Decide Morrer, Meia Noite Em Marte) e tudo isso agregou pra que rolasse um crescimento intenso. Agora é muito legal estar em um projeto em que as meninas também já tem uma certa experiência e estão na mesma pilha que eu (risos).

– Qual foi a ideia do nome Florcadáver?

Buttler: Então, a gente ficou meio “presa” um tempo no nome. Meu ascendente é gêmeos e eu sou naturalmente curiosa e adoro pesquisar coisas que geralmente ninguém tem muito interesse, vide meus stories quando pesquiso sobre vida e reprodução de tatu bolinha, por exemplo! (risos) Daí eu fiquei pesquisando nomes de plantas e ervas e flores exóticas. Dai cheguei na Flor Cadáver, que também é conhecida como Jarro-Titã, uma flor asiática que chega a medir 3 metros de altura, abre somente uma vez e tem o “cadáver” no nome pois ao florescer ela exala um cheiro de podre. Ela atrai especificamente uma única espécie de besouro que poliniza a flor, achei doido. Sugeri pras meninas, elas gostaram, porém decidimos que a grafia seria toda junta, “Florcadáver”

– Quem vocês citariam como influências neste projeto?

Célia: De influências, acho que no geral nós três temos essa proximidade dos anos 90. Eu amo as dissonâncias do Sonic Youth, backings coladinhos em outro tom, e praticamente tudo o que eu ouço tem um pouco a ver com isso. Acho que vira um caldeirão de influências que cada uma tem, mas que conversa bastante. E sem querer a gente denuncia alguma influência que temos e reproduzimos às vezes até sem ter sido pensado.

Buttler: Sonic Youth, Slits, Breeders, Pixies.

Theodora: Acho que rola uma influência gigantesca mas meio que inconsciente dos anos 90 (grunge e noise), mas também misturado com tudo que a gente ouve de atual pra também não ficar nessa onda de reviver uma época que já foi. Gosto muito das melodias da Warpaint, Maria Beraldo, Boogarins, da bateria simplista do Metronomy, das letras bregas do Al Green, do noise do The Stone Roses.

– Me contem mais sobre as músicas que vocês criaram nesse projeto.

Célia: As primeiras músicas as meninas me mandaram a cama e eu encaixei minha guitarra. O single foi uma dessas. Elas podem falar melhor sobre esse processo… Daí pensei em dar um up numas músicas mais pra cima, pra deixar um repertório mais dinâmico e estou compondo de forma contrária pra elas encaixarem seus instrumentos depois, mandando o corpo das músicas. Tinha um pedaço de uma música da Buttler que também transformamos. Ela tinha o vocal e violão, incrementamos nossos instrumentos, backings e fizemos uma estrutura quando encontramos pra ensaiar.

Buttler: A música “Baleia” surgiu no primeiro ensaio meu com a Theo. Mandamos a música pra Célia e ela devolveu com essas guitarras derretidas e já piramos pra caramba. Acho que eu e Theo fizemos mais umas quatro músicas, quando a Célia veio pra SP para ensaiar e gravar passamos todas essas musicas que criamos e tudo soou legal pra todas. Criamos à distância, né, vem ideia de Celia, da Theo, minha. Eu acho legal porque quando a gente entra no estúdio, tudo flui com muita naturalidade. A gente se olha, saca as paradas, as pausas, o que é pra ser ponte, refrão, sabe? Tô achando foda demais poder tocar com elas!

Theodora: As primeiras músicas foram basicamente eu e a Buttler pirando num estúdio com tudo plugado e microfones com muito reverb e delay, a gente se olhava e as músicas iam saindo (risos). Mandávamos as bases brisas pra Célia em BH e ela deixava tudo perfeito sem defeitos com a guitarrinha derretida cheia de delay. Agora vamos testar o processo inverso.

– O EP que vem por aí, o que podem me adiantar sobre ele?

Célia: Tá vindo um EP dinâmico, com poucas camadas, uma intenção seca e molhada em delays. A gravação é ao vivão também, poucas camadas e pomposidades (risos).

Buttler: Tem gente que escutou e achou “denso”, achou profundo, saca? Porque sei lá. Galera vê Sky Down mó desgraceira, SixKicks e Miêta também como bandas mais “roqueiras”, e todas nós ali cantando juntas, em camadas de som, de guita, soa bem diferente mesmo dos nossos projetos pessoais. A “Baleia” é bem nessa vibe derretida né. Tem outras mais lentas, outras mais dançantes. Tem pra todos os gostos! (risos)

Célia: Corrigindo, tá vindo um disco com 7 músicas, a gente empolgou um pouco (risos)!

Theodora: Talvez quebre um pouco da expectativa da galera que espera algo parecido com Sky Down, Miêta, SixKicks… Tem músicas mais melódicas, progressivas, dançantes…

– Vocês tem alguma previsão para o lançamento do EP?

Célia: Vamos gravar com o Berna antes de sairmos em turnê, vou 5 dias antes justamente pra ensaio e gravação. A data certa do lançamento nós ainda não decidimos, vai depender da disponibilidade dele, mas esse ano ainda tem Florcadáver!

– E agora os planos são ir pra Argentina, né. Tá rolando inclusive uma campanha pra consertar uma van, é isso?

Célia: Sim, e antes disso passamos pelo Uruguai também. Como o percurso é longo, atravessamos fronteiras e pagamos muitos pedágios, ficamos naquela insegurança de freelas “será que teremos essa grana?”. Daí pensamos nessa idéia de catarse e mergulhamos nisso. Foi ainda mais necessário depois que uma árvore caiu na van da Marcela, numa semana de chuvas intensas em Santos. Já teríamos alguns custos com a van, mas isso encareceu bastante. Então vimos que a única forma viável seria um crowdfunding.

Theodora: A gente pensou em todo esse projeto com muito carinho, conversamos com muitas amigas/artistas sobre o lançamento do Catarse e tivemos respostas muito positivas, muita gente acreditando no rolê e botando a maior fé na banda! É muito bom se sentir conectada a essa rede de pessoas apoiando essa idéia e agora temos que espalhar cada vez mais esse sentimento. Também oferecemos várias recompensas legais, tem camiseta, tem aula de guitarra, oficina de pedais, oficina de fotografia, iniciação no ableton, tatuagens, dá pra muita gente ajudar fazendo essa troca conosco!

Contribua com o crowdfunding da Florcadáver AQUI.