Firgun, de Portugal, transpira inspirações de pós punk e indie em seu EP “Lotus”

Firgun, de Portugal, transpira inspirações de pós punk e indie em seu EP “Lotus”

10 de abril de 2019 0 Por João Pedro Ramos

O português de Santa Maria da Feira Lécio Dias é a mente por trás do projeto Firgun, que transpira pós punk e indie rock sem deixar de lado a inspiração em bandas de rock clássico como The Doors. Em maio de 2018 lançou independentemente seu primeiro EP : ”Lotus…”, com arte de capa de Alexandre Andrade e produção de Michael (Mic) Ferreira (Sine Factory), com 4 faixas em inglês compostas separadamente que, reunidas, formam um conjunto coeso e interessante. Segundo Lécio, todos os sons estão associados a uma pessoa, trazendo uma unidade para a obra.

Agora, ele trabalha em dois EPs para 2019: um em inglês, “Magnolia”, com Bossa Nova, Samba e Flamenco e um em português, “Gato Bravo”. Conversei com ele sobre sua obra e os novos trabalhos que vem por aí:

– Me conta mais sobre seu novo trabalho, “Lotus”. Como foi a composição desse EP?

O “Lotus…” é um trabalho datado de 2018. A composição deste trabalho nutre algo especial (em si): os temas foram compostos numa vertente descontextualizada; ou seja, não foram idealizados para pertencerem ao “Lotus…” especificamente. Foram temas soltos e, aquando de um concerto no famoso Mercado Negro em Aveiro, tomei consciência de que eles fariam todo o sentido juntos! Fechei-me na garagem de minha casa para poder reabilitar as letras, reforçar a mensagem e enaltecer a lírica envolvente na intenção de “amar alguém”. Os temas estão todos associados a uma pessoa. Cada um deles havia sido escrito e composto para ela… Limitei-me a dar-lhe mais valor artístico, assim como coesão e coerência. A escolha minimalista (quanto aos instrumentais), os falsetes tremidos e a interpretação vocal são as armas que reforçam a ideia de “vontade”, “esforço” e “dedicação”… Assim como a obra o foi; uma vontade enorme, aliada ao esforço de fazer algo digno e livre; ainda que com um orçamento muito baixo. Nada aconteceu por acaso; mas, por acaso, compus o “Lotus…” sem ter consciência disso.

– E o “Better Man”, como foi criado?

Foi o meu primeiro tema a solo (ainda tocava com a minha antiga banda, Limbus)… Esse tema surge com a minha aprendizagem no piano! Tornei-me autodidata e decidi compor algo… Quando compus (perante o término de um namoro da adolescência) decidi que seria aquele tema o marco da minha maturidade… Amar exige, por vezes, que deixes a pessoa que antes ir embora… E construir uma nova história sem ti. Grande parte do mérito do tema prende-se com o trabalho do meu acarinhado amigo, Bernardo Costa (Deepbreathers)! Além da produção do tema, é o responsável pela linha de baixo e pela magia rítmica da bateria.

– E agora você está trabalhando em dois novos singles. Pode me contar mais sobre eles?

Estou a construir dois EPs de raíz! Um em inglês “Magnolia” e um em português “Gato Bravo”! Aliás, o single do EP em português está perto da apresentação, sendo um trabalho realizado com o supra mencionado Bernardo Costa (Deepbreathers)! O EP em inglês, “Magnolia”, está a ser desenvolvido há um ano, levando (em si) uma preparação na qual me concentrei, aprendendo Bossa Nova, Samba e Flamenco! Sairão (se tudo correr bem) até ao final do ano!

– Como surgiu o nome do projeto? O que significa?

Firgun é (em hebraico moderno) uma palavra com origem no Yiddish. Esta traduz a ideia de se sentir feliz com o sucesso de alguém; significa compartilhar ou contribuir para o prazer ou destino de alguém, com generosidade e sem ciúmes ou inveja. É, na base de tudo, um sentimento… Não me lembro de como conheci a palavra… Mas sei que encontrei o seu significado e associei-a logo à mensagem dos meus temas!

– Como começou sua carreira?

Bem; eu sou formado em contrabaixo clássico (pela Academia de Fornos em Santa Maria da Feira); finalizando o meu 5.º grau, tomei a decisão de me afastar do ensino clássico e de começar a tocar com bandas. Estive em inúmeros projectos, mas o mais bem sucedido foi o Limbus. Com eles assinei o meu primeiro contrato editorial e tive as minhas primeiras experiências sérias enquanto compositor e letrista (no ambiente de estúdio). A banda terminou pouco depois da minha entrada na universidade. Foi uma fase muito complicada, tendo pensado inúmeras vezes em desistir… Entretanto, tomei a decisão de prosseguir o meu trabalho a solo! Desde muito pequeno que me lembro da simbiose entre o meu crescimento (e consequente amadurecimento) e a música!

– Quem você citaria como inspiração para seu trabalho?

Poderia sugerir inúmeras bandas… Mas há 5 essenciais! The Cure, The Doors, The Smiths, Joy Division e New Order! A maior influência artística; sem sombra de dúvidas, Jim Morrison!

– Porque o Jim Morrison?

Não o vejo como um Role Model; mas tenho consciência do valor das suas letras.. Artisticamente falando, ele acabou por se tornar numa artista “sem o querer”; apesar disso, nunca descuidou a sua mensagem, nem abdicou das suas crenças ou princípios perante as influências e pressão das autoridades americanas.

– Como anda a cena independente em Portugal hoje em dia?

Vivemos tempos favoráveis em Portugal… Faz-se e vive-se boa música… E isso é reflexo do trabalho intenso de muitas editoras mais pequenas que desenvolveram um mercado e um circuito próprio… Em contrapartida, essas editoras começaram a cresce e, consequentemente, passaram a controlar esse mesmo circuito com “mão de ferro”, não abrindo esses espaços e festivais a novos artistas… sendo cada vez mais difícil o “brilho” de novos artistas; ainda pior se esse artista for plenamente independente… Exige-se muito dinheiro para edições próprias e, além disso, não há uma procura forte no que toca à edição de novos artistas alternativos… Costumam dar o argumento de que Portugal não tem mercado para os alternativos; eu não concordo… há um mercado, e bem vigoroso… Mas (infelizmente) vemos é o auge da ideia da “alternativa pop” (o que não é concretamente negativo; mas demonstra que a chegada do “dinheiro” a este pequeno “mundo” acabou por conduzir à entrada de influências de major labels).

– Ou seja: o que é algo negativo no mainstream acabou também se instalando no meio independente.

Exactamente! Se já era difícil assumir o risco do investimento num artista, ainda o é mais agora!

– A música brasileira tem alguma entrada em Portugal? Por aqui ainda há um pouco de resistência em aceitar música portuguesa, infelizmente…

Sim! A música brasileira tem imensa força em Portugal! Não só o Sertanejo e o Funk conseguem vingar entre as fronteiras lusas! Também a música independente brasileira entra no nosso quotidiano! Exemplo disso é o trabalho de cantautores como Rubel, Tim Bernardes, Cícero vingam imenso por cá! E os Boogarins, por exemplo, são os favoritos de muita gente! Já para não falar dos clássicos como Gilberto Gil e Caetano Veloso, por exemplo!
Eu sou suspeito; consumo imensa música independente brasileira! Gosto imenso de consumir clássicos e modernos! Muito por influências do inúmeros amigos brasileiros que fui fazendo por culpa de estudar em Coimbra!

– Quais os seus próximos passos musicalmente?

Lançarei um single em português daqui a algum tempo (que aparecerá num EP chamado “Gato Bravo”)… Além disto, sairá (ainda este ano) o meu novo EP e continuação do “Lotus…”, “Magnolia”. Investi um ano de aprendizagem em Samba, Bossa Nova e Flamenco para construir este novo EP! A par disto, procuro dinamizar trabalho o suficiente para atingir alguns festivais com impacto aqui em Portugal, e para subir a palcos de sonho, como o do Cineteatro Antônio Lamoso (em Santa Maria da Feira; minha terra)!

– Recomende bandas e artistas portugueses, independentes ou não, que você acredite que os brasileiros deveriam ouvir.

Mais conhecidos:
Sunflowers
Luís Trindade
Capitão Fausto
Cave Story
Conjunto Corona
The Weatherman
B Fachada
Noiserv
Samuel Úria
Linda Martini
Paus
Black Bombaim
JIBÓIA
Best Youth
Ermo
Sensible Soccers
E duas estrelas atuais: Salvador Sobral e Conan Osíris.Mais pequenas (e a um nível local) chamo à atenção para projectos como The Grind Fever, Deepbreathers, Ferro, Terebentina, Maria-Rapaz, Toothless e Maia, por exemplo!