Filosophone: Tom Zé, o homem que nasceu póstumo – Quando o público não entende seu gênio

Filosophone: Tom Zé, o homem que nasceu póstumo – Quando o público não entende seu gênio

14 de agosto de 2017 2 Por Matheus Caio Queiroz

Filosophone, por Matheus Queirozo

“Eu vo-lo digo: é preciso ter um caos dentro de si

para dar à luz uma estrela cintilante.”

(“Assim Falou Zaratustra” – Friedrich Nietzsche)

 

Ser um grande artista às vezes custa caro. Calma. Deixe-me pensar: teimo em acreditar que seja uma tarefa fácil ser um grande artista, mas como pode existir alguma exceção dentro disso, deixo então em aberto quando digo às vezes. Como acho realmente que ser um grande artista não é nada fácil, reformularei o começo deste texto, vamos lá: ser um grande artista, na maioria das vezes, custa muito caro! Pronto, talvez agora eu tenha conseguido repassar a intensidade da ideia de dificuldade que é ser um grande artista nesse mundo interminável da arte. Não é todo dia que nasce um gênio. E com certeza não há fórmula que mostre o caminho mais fácil. A genialidade é capaz de tornar um artista um ser atemporal, um imortal, assim como Machado de Assis na nossa literatura brasileira, um escritor que foi além do seu tempo, que através das letras conseguiu dar a sua contribuição intelectual para construir a nossa cultura. O gênio se destaca. O gênio sobressai em meio aos iguais, em meio àqueles que não apresentam o novo para o povo que anseia com a sede dos desertos mais caudalosos por uma arte que os preencha, que os satisfaça nesse rastejar misto de alegria e dor que é a vida. Como diria nosso filósofo otimista – otimista foi uma ironia só pra descontrair antes do grande pessimismo – Arthur Schopenhauer, a vida é dor e sofrimento. E em meio a dor e sofrimento, de tempos em tempos, surge um grande artista. E ser um grande artista, um gênio, nem sempre é sinônimo de felicidade, Tom Zé que o diga isso. Baiano nascido no município de Irará, localizado na nossa Grécia brasileira, fonte de arte e de sabedoria, a Bahia de Jorge Amado e Glauber Rocha, Tom Zé é hoje aplaudido, pode-se dizer, no mundo todo, um artista de uma originalidade tremenda que o elevou a gênio. Mas nem sempre foi assim.

Sabemos que em julho do ano de 1968, Tom Zé e os demais baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, juntamente com Nara Leão, Os Mutantes, além dos poetas Capinam e Torquato Neto, sob a regência sobre-humana do maestro Rogério Duprat, compunham um dos maiores discos já feito na história da música, o grandioso “Tropicália ou Panis et Circencis”.

Tom Zé no canto superior direito.

Foi o momento de glória estética! Nesse mesmo ano de 68, momento do ápice tropicalista, Tom Zé lança seu álbum de estreia, o “Grande Liquidação”, que abre com a canção “São São Paulo”. Nesse disco, o baiano de Irará escreve um texto na contracapa, e no final deixa registrado para a posteridade: “A sociedade vai ter uma dor de barriga moral”. Gravem bem esta frase, pequena, mas contundente.

Continuando a consolidação do artista: é nesse mesmo ano, mais precisamente em novembro/dezembro de 1968, que Zé tem a graça de ter sua música “São São Paulo” em 1º lugar no IV Festival de Música Popular Brasileira. Os louros ao baiano de Irará! “Palmas ao Dom Quixote que ele merece!”. Segundo o maestro e arranjador Júlio Medaglia, em entrevista para o programa musical O Som do Vinil do Canal Brasil, “São São Paulo” é o “verdadeiro hino paulista, porque tem a ironia que vê a cidade com um olhar crítico, mostra os extremos daquela loucura maravilhosa que é São Paulo”.

Tom Zé no IV Festival de Música Popular Brasileira, recebendo das mãos de Júlio Medaglia o prêmio pela canção “São São Paulo”, que ganhou o 1º Lugar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“São oito milhões de habitantes

De todo canto em ação

Que se agridem cortesmente

Morrendo a todo vapor

E amando com todo ódio

Se odeiam com todo amor”

(São São Paulo, canção de Tom Zé, do álbum “Grande Liquidação”, 1968)

 

A genialidade de Tom Zé consiste na sua complexidade diante da sociedade composta pela massa. A massa é feita de cada pessoa que passa a vida em busca de sua identidade, é uma busca tão dedicada que alguns chegam a vender suas almas em troca de uma tribo, tudo para fazer parte de um grupo, tudo para fazer parte daquilo da galera que ouve os mesmos sons, que lê os mesmos livros, que fala as mesmas palavras, e tudo isso forma a massa, a massa que exige que você deixe de lado a sua identidade, aquilo que identifica você enquanto único em troca de uma vida massificada. É nesse momento que as pessoas perdem a sua identidade e são engolidas pela massa até se perderem dentro dela, até formarem algo unilateral, com os mesmos pensamentos, com a mesma visão de mundo, com os mesmos desejos programados. Diante de uma sociedade massificada, a genialidade de Tom Zé foi sendo aos poucos ignorada pelo público consumidor. Isso é comum com pessoas de personalidade autêntica, a peculiaridade as exclui da massa. Num planeta de enlatados, em que só é preciso requentar a comida feita anos trás, botar no prato e comer, porque é mais cômodo viver assim, o produto que cheira como diferente de tudo isso já soa como uma ameaça aos preguiçosos mentais, uma ameaça àqueles que sonham em morrer em suas zonas de conforto. O novo sempre vem para abalar as estruturas, “mas as pessoas na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer”.

Quem diria, o gênio de Irará, em meados de 1972, lança sua pérola “Se O Caso É Chorar”, seu terceiro álbum, recheado das suas complexidades populares, que só o gênio autêntico possui. No programa O Som do Vinil, Tom Zé fala sobre a música título do disco: “em 1973, ela ficou na parada (de sucessos) durante uns seis meses e um dia ela foi primeiro lugar na parada da Rádio Nacional. E naquele tempo, você concorria com os Beatles, com Rolling Stones, com todo mundo, era uma parada só”.

“É somente requentar
E usar,
É somente requentar
E usar,
Porque é made, made, made, made in Brazil
Porque é made, made, made, made in Brazil”

(“Parque Industrial”, canção de Tom Zé, do álbum “Grande Liquidação”, 1968)

Com o álbum “Todos Os Olhos”, de 1973, é confirmado o aforismo do filósofo alemão Nietzsche, que diz: “há homens que já nascem póstumos”. Tom Zé nasceu póstumo. O gênio nasce incompreendido pelo seu tempo. Tom Zé, mesmo depois de todo o movimento tropicalista, teimou em continuar sendo Tom Zé, teimou em ser artista experimental do som e das palavras. A sua obra poética e sonora, cheia de jogos de palavras, repletas de experimentações inusitadas, lhe rendeu o exílio artístico. A massa não conseguiu engolir Tom Zé. A massa não tinha sistema digestivo competente para entender um homem póstumo. Ele era intragável para a sociedade.

Quando nasceu enquanto artista, nos idos de 1968, ele já havia previsto seu hiato: “A sociedade vai ter uma dor de barriga moral”. E a sociedade teve essa dor de barriga. Com isso, a massa expulsa o seu poeta da ágora tropical, condenando-o a tomar a mesma cicuta que levou Sócrates à morte. Mas a cicuta do gênio de Irará o leva a uma morte dos meios de comunicação, que é a reclusão das grandes mídias.

O diferente assusta, causa temor, tira qualquer um da sua zona de conforto. O novo amedronta, causa nervosismo, faz um rebuliço, causa até dor de barriga, porque o homem, depois que passou do estágio de nomadismo em que era um destemido andarilho pela natureza em busca da sua subsistência, perdeu a coragem de ver o mundo por novas perspectivas. Seu prazer agora se concentra naquilo que lhe parece mais seguro, por isso se prende a rotinas, a mesmices, a comportamentos cíclicos. A novidade é difícil de ser decodificada porque exige um esforço intelectual. Fazer parte de grupos é importante, pois, segundo o psicólogo russo Lev Vygotsky, o desenvolvimento intelectual do ser humano se dá através de suas interações sociais. O problema é quando o indivíduo perde a sua individualidade, enquanto identidade que lhe define, no meio de uma massa de pessoas que pensam do mesmo jeito, que se comportam da mesma maneira. É muito importante ser autêntico, ser original. A liberdade de pensamento só existe quando nós somos autônomos, quando somos donos de nós mesmos.

Tom Zé foi longe. Sua obra sempre foi permeada de experimentalismos tanto vocabulares quanto instrumentais. Ouvir sua música é uma viagem única. E quem embarcou nessa viagem e gostou foi o norte-americano David Byrne, ex-integrante da banda The Talking Heads, que redescobriu Tom Zé no final dos anos 80, numa viagem que fez ao Rio de Janeiro.

A história nos conta que Byrne, andando pelo Rio, queria conhecer um pouco mais do samba da nossa terra, bateu então os olhos num disco de capa branca que tinha apenas o nome e um desenho de arames, coisa simples. Ouviu e adorou. Era o quarto álbum de Tom Zé, “Estudando O Samba”, de 1976.

Daí por diante, o anarquista de Irará ficou conhecido nos Estados Unidos, depois na Europa e voltou a ser notícia.

Considero Tom Zé o artista mais tropicalista da Tropicália. Sem dúvida é o único do movimento que tem a alma tropicalista e que continua produzindo regularmente com toda sua carne e sangue tropicais, ele é aquele que nunca, jamais, perdeu o espírito tropical de poeta zombeteiro e ácido. Ave Tom Zé!