Filosophone: O Canibalismo Tropicalista d’Os Mutantes

Filosophone: O Canibalismo Tropicalista d’Os Mutantes

17 de julho de 2017 0 Por Matheus Caio Queiroz

Filosophone, por Matheus Queirozo

Para fazer uma música bem feita, não tem fórmula, não tem receita, não tem uma bula, não tem uma matemática exata, não tem um “modo de fazer”. Os ingredientes que podem ser utilizados são muitos. O que vale é o resultado final da gororoba toda, de letra, melodia, ritmo, instrumentos, tom, entre outras coisas. Claro que o resultado final depende muito dos componentes usados. Mas o que mais influi na finalização de uma obra é, sem dúvida, o autor ou autora ou autores. São eles que dão a sua impressão àquela obra, são eles que mastigam o mundo ao seu redor e cospem, da sua maneira, em um acorde, em uma música, em uma letra, em um disco, por fim, em uma discografia. Esses cozinheiros, quer dizer, esses autores podem ter métodos, podem ter uma peculiaridade que se transforma na marca registrada deles. Mas pode ser também que eles não tenham uma marca fixa, pode ser que eles se transformem a cada disco, numa transformação bem mutante mesmo, se tornando essa mudança sempre criativa a sua essência estética. E quem mais mutante do que os próprios Mutantes? Quem se puser a ouvir toda a discografia da banda, desde o primeiro compacto ainda, “Suicida/Apocalipse” de 1966, quando a banda ainda se chamava O’Seis e tinha integrantes a mais, vai perceber o quanto os Mutantes mudam de acorde em acorde, num experimentalismo difícil de se comparar no cenário da música mundial. Eu, mero escritor e apreciador de música, não ousaria comparar a singularidade deles com artista/banda nenhum(a), porque, como ficou dito, eles são singulares. Se tentarmos uma classificação, uma espécie de catalogação, seria: singular. Estão na prateleira das artes singulares.

Antes de serem Os Mutantes, e já cheios de mutações sonoras, eles eram Os Bruxos. Que nome louco! O cantor Ronnie Von despontou no cenário da música nos anos 60 no Brasil. O rapazinho, queridinho da galera, que balançava o cabelo sedoso pra lá e pra cá quando entoava “Meu beeeeeem… Meu beeeem” (uma versão bonitinha da música bonitinha “Girl” dos Beatles), ganhou um programa de televisão chamado O Pequeno Mundo de Ronnie Von.

Sim, o nome do programa é uma certa alusão ao clássico infantil (Será infantil? Tão psicodélico!) “Pequeno Príncipe” do francês Antoine de Saint-Exupéry. Isso porque a apresentadora Hebe, numa entrevista, achou o Ronnie, que falava que tinha como gosto a aviação, parecido, não com o aviador, mas com o personagem principal do livro. A imprensa, na época, criou uma espécie de competição entre Roberto Carlos, o rei, e Ronnie, o príncipe. No programa do Ronnie, só ia quem não fosse ao programa Jovem Guarda do Roberto Carlos, assim em vice-versa. Mas, como Ronnie mesmo disse, rindo, no documentário sobre sua trajetória “Quando Éramos Príncipes“, tudo era fruto de marketing, publicidade, polêmicas para gerar audiência, venda de discos, revistas, e jornais e otras cositas más. N’O Pequeno Mundo de Ronnie Von, quem ficou como banda de apoio foi uma tal de Os Bruxos.

Esses Os Bruxos eram bem irreverentes musicalmente. Além do talento sonoro, tinham uma apresentação performática bem peculiar. Depois de ler o livro de ficção científica O Império dos Mutantes do francês Stefan Wul, Ronnie decidiu que o nome da banda de apoio de seu programa seria Os Mutantes.

E o nome pegou! Grudou! Os artistas que se apresentavam no programa, adoravam a banda. Adoravam tanto que um baiano resolveu chamá-los para tocar a música “Domingo no Parque” no Festival da Record de 1967.

A música ficou em segundo lugar. Mas o que saiu mesmo em primeiro lugar desse festival foi a ideia de romper com as estruturas! O baiano de “Domingo no Parque” era Gilberto Gil, se juntou com outro baiano cabeludo chamado Caetano Veloso e encabeçaram o que o mundo todo hoje conhece como Tropicalismo. Chamaram os três guris para fazerem parte do movimento. Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, que começaram timidamente na adolescência com o grupo Six Sided Rockers, depois viraram O Conjunto, mais adiante passaram a ser O’Seis, gravando um compacto, depois viraram Os Bruxos, como banda de apoio, logo depois Os Mutantes, protagonizaram a cena tropicalista. Não tinham nada a perder comparados a Beatles e Rolling Stones. Eram iguais em grandeza, tinham irreverência e uma forma satírica de criar. Essa é uma característica que os Beatles e os Rolling Stones nunca dominaram: o humor ferino, a sátira ácida, a ironia inteligente. Outra coisa que os Beatles e os Rolling Stones não tinham era a Rita Lee, uma garota cheia de talento e vigor, com uma voz capaz de encaixar em qualquer música, de alma artística, com um desempenho performático múltiplo. Quer dizer, além de uma boa cantora, além de uma compositora inteligente, era também uma ótima intérprete. Em 1968, é lançado o disco Tropicália ou Panis et Circences que destaque a participação ativa dos Mutantes.

Depois desse álbum, o trio mutante começa, digamos, a sua independência fonográfica, lançando no mesmo ano de 68 Os Mutantes, o primeiro disco só deles, depois lançamMutantes em 1969 e A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado em 1970. Mas, mesmo depois desses discos de distância do “Panis et Circences”, que todo mundo chama de disco manifesto, Os Mutantes continuaram sendo tropicalistas, entretanto com elementos sempre novos, numa espécie de tropicalismo sempre inovador. O disco “A Divina Comédia” carrega muito de tropicalismo ainda. O conceito utilizado pelo movimento tropicalista é a reciclagem, aquela ideia de recriar um clássico, recriar um sucesso popular, enfim, quer seja da elite ou das massas, o objetivo é devorar a realidade, fazer uma digestão artística e, em seguida, pôr para fora em forma de arte. Não tem como não lembrar a primeira geração do Modernismo de 22, que se caracterizaram pela busca da instauração de uma cultura genuinamente brasileira através da antropofagia artística, de devorar e, a partir daí, recriar.

A começar pelo nome e pela capa do disco “A Divina Comédia”, já notamos uma antropofagia: o nome faz referência a um clássico da literatura mundial, “A Divina Comédia” do italiano Dante Alighieri, e a capa é a recriação de uma ilustração do século XIX de Gustave Moré para a parte do Inferno dessa mesma obra literária.

Os Mutantes se utilizam da sua ousadia estética e com humor mordaz criam uma das capas de discos mais icônicas da história da música mundial. Por aí já se percebe que o grupo mantém a alma tropicalista. Outro exemplo dessa alma tropical são as onze músicas do álbum que fazem uma mistura de um cem números de ritmos, desde o popular, ao rock até chegar em música clássica, com, claro, o gênio Rogério Duprat fazendo todo o arranjo orquestral, deixando um disco popularmente erudito. Mas, meus amigos e amigas, uma música em especial chama a atenção deste que vos escreve: “Chão de Estrelas”. Ela é uma regravação da clássica seresta, de mesmo nome, composta por Orestes Barbosa e Silvio Caldas. Meus caros, que petulância a desses Mutantes! Quanta blasfêmia foi para os apreciadores da seresteira original “Chão de Estrelas” quando ouviram a regravação desses tais de Mutantes! Comeram até esse clássico dos rádios! Oh Céus! Essa canção registrada no disco “A Divina Comédia” eu diria que é a mais genuína amostra do canibalismo tropicalista dos Mutantes. A composição original é tão mumificada que foi criada por Orestes Barbosa com o intuito de ter versos decassílabos. Os Mutantes quebram essa coisa caquética, recriam a canção e infestam-na de reproduções de sons engraçados. É como se eles ridicularizassem tanto a música quanto o próprio personagem dela, tanto é que Arnaldo Baptista, quando canta, incorpora o eu lírico de uma forma sentida e faz uma voz empachada, uma sátira aos cantores de rádio. Confesso que quando ouvi pela primeira vez, na minha tenra adolescência mutante, caí no riso.

Quando penso nessa recriação de “Chão de Estrelas”, lembro do que o modernista Oswald de Andrade fez com uma poesia de 1843 do poeta romântico Gonçalves Dias. Lembram-se do poema “Canção do Exílio”?

[Canção do Exílio]

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar – sozinho – à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho – à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que eu desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
(in Nossos Clássicos, Poesia. Rio de Janeiro: Agir, 1979).

Oswald de Andrade, por sua vez, faz uma paródia se utilizando de uma técnica chamada de intertextualidade, com fins de criticar o texto original:

[Canto de Regresso À Pátria]

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não catam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a rua 15
E o progresso de São Paulo
(in Poesias Reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971).

Enquanto o primeiro respira a saudade pelas terras e sua paisagem vegetal, o outro quer voltar, antes da morte, para ver o progresso da cidade cinza.

Os conservadores e puristas devem ter enlouquecido com esses deboches estéticos. Mas é justamente isso que faz d’Os Mutantes um grupo inteligente, quer dizer, não só são gênios musicais, mas também entendiam o que faziam, tinham consciência do início, meio e fim do seu próprio trabalho, e faziam disso um meio para desencaretar a arte, deixa o mundo menos bundão. Acho que precisamos de mais canibalismo tropical dos Mutantes hoje em dia, pra ver se o mundo volta a ser um lugar mais suportável de se viver, com mais humor e irreverência inteligente.