Filosophone: Jorge Mautner, o protótipo da Tropicália

Filosophone: Jorge Mautner, o protótipo da Tropicália

11 de setembro de 2017 0 Por Matheus Caio Queiroz

Filosophone, por Matheus Queirozo

Jorge Mautner conheceu Caetano Veloso e Gilberto Gil na época em que os dois baianos foram exilados em Londres, em 1969. Lá firmaram uma intensa e artística amizade. Caetano ouviu Mautner cantarolar uma música chamada O Vampiro e ficou apaixonado pela estética simples e ao mesmo tempo estrondosa, complexa, dela.

Tal música, anos mais tarde, é gravada por Caetano em seu disco antológico chamado Cinema Transcendental, de 1979.

 

“Vampiro” incluída na lista de música do “Cinema Transcendental”.

O Vampiro

Eu uso óculos escuros

Para as minhas lágrimas esconder

Quando você vem para o meu lado,

As lágrimas começam a correr

 

Sinto aquela coisa no meu peito

Sinto aquela grande confusão

Sei que eu sou um vampiro

Que nunca vai ter paz no coração

 

Às vezes eu fico pensando

Porque é que eu faço as coisas assim

E a noite de verão ela vai passando,

Com aquele cheiro louco de jasmim

 

E fico embriagado de você

E fico embriagado de paixão

No meu corpo o sangue já não corre,

Não, não, corre fogo e lava de vulcão

 

Eu fiz uma canção cantando

Todo o amor que eu tinha por você

Você ficava escutando impassível;

Eu cantando do teu lado a morrer

 

Ainda teve a cara de pau

De dizer naquele tom tão educado

«Oh, pero que letra tan hermosa,

Que habla de un corazón apasionado!»

 

Por isso é que eu sou um vampiro

E com meu cavalo negro eu apronto

E vou sugando o sangue dos meninos

E das meninas que eu encontro

 

Por isso é bom não se aproximar

Muito perto dos meus olhos

Senão eu te dou uma mordida

Que deixa na tua carne aquela ferida

 

E na minha boca eu sinto

A saliva que já secou

De tanto esperar aquele beijo,

Aquele beijo que nunca chegou

 

Você é uma loucura em minha vida

Você é uma navalha para os meus olhos

Você é o estandarte da agonia

Que tem a lua e o sol do meio-dia.

 

A música mais conhecida de Jorge Mautner certamente é “Maracatu Atômico”, composta por ele e seu sancho pança Nelson Jacobina no ano de 1972, e gravada primeiramente por Gilberto Gil em 73. Mautner foi gravar a música em 74, no seu segundo disco, que contou com a produção de Gil e a companhia melodiosa e inseparável de seu fiel amigo Nelson Jacobina.

Anos mais tarde, em 1996, a música viraria um manifesto na boca de Chico Science & Nação Zumbi, no épico disco Afrociberdelia”, um manifesto do movimento de contracultura dos anos 90 chamado Manguebeat.

Maracatu Atômico

 

Atrás do arranha-céu tem o céu, tem o céu

E depois tem outro céu sem estrelas

Em cima do guarda-chuva tem a chuva, tem a chuva

Que tem gotas tão lindas que até dá vontade de comê-las

 

No meio da couve-flor tem a flor, tem a flor

Que além de ser uma flor tem sabor

Dentro do porta-luva tem a luva, tem a luva

Que alguém de unhas negras e tão afiadas se esqueceu de por

 

No fundo do pára-raio tem o raio, tem o raio

Que caiu da nuvem negra do temporal

Todo quadro-negro é todo negro, é todo negro

E eu escrevo o seu nome nele só pra demonstra o meu apego

 

O bico do beija-flor beija a flor, beija a flor

E toda a fauna aflora grita de amor

Quem segura o porta-estandarte tem arte, tem arte

E aqui passa com raça eletrônico maracatu atômico

 

Gil e Caetano foram os idealizadores, precursores e realizadores de fato do mais barulhento e rebelde movimento estético que já ocorreu no Brasil, em termos de letra e música, chamado Tropicalismo, anunciado em 1967 através das músicas “Alegria, Alegria” (de Caetano) e “Domingo no Parque” (de Gil) no III Festival de Música Popular Brasileira. O movimento teve sua concretização em 1968 com o disco histórico chamadoTropicália ou Panis et Circencis”reunindo, além dos dois mentores baianos, Gal Costa, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé; os poetas Capinam e Torquato Neto, além do maestro Rogério Duprat.

O fato é que Mautner pode não ter participado de forma ativa deste movimento, mas sua arte, suas letras, sua produção estética é totalmente descomprometida com o comum, é totalmente inovadora. Mautner é um artista peculiar, único; Mautner é o artista de linguagem própria, de linguagem que não se explica, ouve-se, que apenas diz, e que ao dizer surpreende, surpreende abrindo brechas para o múltiplo de interpretações que podem nascer da subjetividade mental de cada um que aprecia sua arte. Sua arte é a arte do incomum, onde o simples é visto por uma ótica de tal modo incomparável que só podemos dizer que o mundo é visto por Mautner por uma ótica de Mautner. Por isso ele é considerado o artista que rompe com a estrutura, que vai além de seu tempo, que não faz arte para agradar ninguém, ele apenas vomita o que enxerga quando observa o simples. Disso se diz que Mautner é o primeiro tropicalista, mesmo que isso não seja oficial, mesmo que a história possa negar isso. Aquele que entra em contato com Jorge Mautner, tanto o seu aspecto filósofo escritor quanto o aspecto do músico e letrista, percebe que ele é um prototropicalista. Ele é aquele cara rebelde que nunca participou de movimentos, que criou a filosofia do Kaos com K (que seria a junção de todas as culturas, resultando na nossa amálgama brasileira), que nunca quis ser artista comercial, por isso é tido como um artista maldito.

Quero vos deixar a trilha sonora do filme (que recomendo que assistam) “Jorge Mautner – O Filho do Holocausto” de 2012, escrito e dirigido por Pedro Bial e Heitor D’Alincourt, e que conta a biografia do nosso maldito prototropicalista.

https://www.youtube.com/watch?v=S3o93YFAM4Y