Filosophone: Edy Star, a estrela doce que balançou as estruturas

Filosophone, por Matheus Queirozo

Início da carreira – quando Edy se torna Edy Star

Edy Star e Raul Seixas eram conterrâneos, nasceram na mesma Grécia brasileira, a Bahia, e se conheceram, ainda meninos adolescentes, no Elvis Rock Club, um devoto fã clube em homenagem ao Rei do Rock, “Elvis, The Pelvis” (como ficou conhecido por causa de suas performances beirando o erotismo).

Raul, já na fase engomadinho pós-Raulzito e Os Panteras, com estadia fixa no Rio de Janeiro, trabalhando como produtor musical, voltou rapidamente à Bahia para reencontrar Edy, buscá-lo e contratá-lo para a CBS. Edy (que era só Edy na época), primeiramente, gravou em 1970 um disco compacto chamado “Aqui É Quente, Bicho!”, sendo essa uma canção composta pelo grande Raulzito para seu amigo recém chegado da Bahia. Foi justamente nesse período, mais precisamente em 1971, que gravaram, juntamente de Miriam Batucada e do maldito Sérgio Sampaio, o disco frakzappiano e Sgt.Pepper’sLonelyHeartsClubBandiano tropical “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez”, um baita disco psicodélico brazuca.

(Edy vestido de “ídolo da juventude” na ponta da direita)

É bom que se diga que, na época em que foi lançado, o disco “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez” não teve seu merecido reconhecimento, nem por parte da crítica, nem por parte do público, até porque o disco nem teve a oportunidade, nem o tempo necessário, de tentar ter esse reconhecimento, visto que a CBS autorizou às escondidas o seu recolhimento urgente, pois, além de terem um profissional da empresa (diga-se de passagem Raulzito) se metendo a artista (isso era heresia, já que ele era produtor, o que significa que deveria manter seu terno bem limpo e longe de qualquer anarquia artística: ou seria cantor ou seria produtor, ele que decidisse, os dois não poderia ser!), para eles o disco não tinha valor comercial algum. Vale lembrar que a importância que o “Sociedade” conseguiu ter veio muitos anos depois, depois que Raul já tinha seu nome consagrado. Isso quer dizer que ninguém ali (Miriam Batucada, Sérgio Sampaio, Raul Seixas e Edy Star) virou celebridade, ninguém ali do bando enriqueceu. Muito pelo contrário, tiveram que começar do marco zero.

Seu (único) disco, de 74

Os astrônomos definem a estrela como um corpo celeste que emite brilho próprio, portanto um corpo que emite energia própria, luz natural. Edy Star se encaixa perfeitamente nessa definição astronômica – sem falar que já leva no nome artístico a estrela (star).

Ele é considerado o primeiro artista a assumir publicamente sua homossexualidade. E isso contém uma importância estrondosa dentro da nossa história, não só da música, mas história social e política.

Pensem bem vocês leitores: o contexto em que Edy Star viveu não era nada amistoso. O Brasil estava afundado em um cenário político de chumbo! O povo, os meios de comunicação, o meio intelectual e artístico vivam sob uma Ditadura Militar mascarada de revolução – só se for uma revolução fajuta! – militar, onde quem não dançasse conforme a música sofreria duramente nas mãos de militares e de uma censura moral baseados numa hipocrisia que visava tão somente o controle social por meio dos que deram o Golpe de 64. E toda agressão moral e física foi legitimada a partir da data de 13 de dezembro de 1968, que foi o tão covarde e tenebroso Ato Institucional Número Cinco (AI-5), emitido pelo então presidente Costa e Silva. Era a tortura por parte dos militares devidamente legalizada! A vida comportamental era dramaticamente padronizada, ou pelo menos deveria ser: cabelos longos, trajes extravagantes, homens afeminados, tudo isso era considerado uma verdadeira afronta aos “bons costumes” (que de bons não têm nada, convenhamos). Essas características que eu acabei de elencar são da nossa estrela. Além de enfrentar todo o machismo de uma sociedade patriarcal (como está na moda dizer), Edy Star enfrentava ainda um regime político nada favorável. Não é por acaso que o artista baiano pode ser considerado uma resistência política ambulante. Prestem bem atenção na capa do seu único disco (único até a data em que esse texto está sendo escrito):

Quem teria a coragem de posar de Drag Queen?

Nesse disco, Star interpreta da sua forma performática muito autêntica (a voz de Edy é uma voz inconfundível dentro da música) canções de grandes nomes da nossa música, como “Claustrofobia” de Roberto e Erasmo Carlos, “Edyth Cooper” de Gilberto Gil, “Conteúdo” de Caetano Veloso, “Esses Moços” de Lupicínio Rodrigues, “Olhos de Raposa” de Jorge Mautner e “Pro Que Der na Telha” de Morais Moreira e Galvão. Só os fracos, né?

Impressionante como, mesmo tendo lançado só um disco em todos esses anos, Edy varou décadas e chegou até aqui, permanecendo brilhoso. “Sweet Star” hoje em dia é um belo disco cult. Cada canção contida nele tem um peso, tem uma beleza estética, é um disco por si só, só de colocar para nossos ouvidos apreciarem, que soa como uma estética da irreverência despadronizada.

Vale lembrar que Edy Star já anunciou que vai lançar seu segundo álbum! Com direção de Zeca Baleiro, o disco vai contar com Edy gravando junto de nomes como Caetano Veloso, Angela Maria e Ney Matogrosso. FICA LIGADO!

O doce amargo Edy Star

Edy Star é estrela, é a personificação do artista, mas não o artista comercial que cobra de si mesmo um disco a cada ano, que obedece a demandas de mercado fonográfico. Pode-se dizer com certeza que é um genuíno artista: cantor, ator e grande artista plástico desde seus quinze anos, com 32 exposições (das quais, 16 são individuais) nos Estados Unidos e na Europa, 4 prêmios, 3 bienais, sempre desenhou.

Em entrevista datada de março de 2016 ao canal Interface no YouTube, Edy genialmente finaliza: “Tem gente que gravou vinte discos… não serviu de nada. Eu gravei só um”.

O filósofo francês Michel Foucault na sua obra “Microfísica do Poder”, publicada pelos idos de 1979, analisa diversos temas como, por exemplo, a psiquiatria, a justiça, o corpo, a sexualidade e o Estado. Nos seus ensaios, Foucault detecta que o poder não está concentrado somente na relação política entre governantes e governados. O filósofo francês arremata que em toda relação, seja ela familiar, conjugal, na relação entre os padres, pastores e seus fiéis, em suma, em qualquer relação micro existe uma relação de poder, um conflito entre as partes, ainda que seja um conflito sutil, com o objetivo de ser o detentor do poder.

Fazendo, então, uma leitura foucaultiana do que seria o machismo e a homofobia, podemos dizer que toda forma de tentativa de subjulgar a mulher, de inferiorizá-la, todo comportamento de discriminação e recriminação a todo LGBT, tudo isso seria uma forma de ter poder sobre o outro, de impor seus valores sobre o outro. Essa maneira de viver a vida desrespeitando quem pensa diferente, agredindo quem discorda, quem questiona, quem se comporta de uma maneira não padronizada, é uma forma de vida idiota. A palavra idiota vem da Grécia antiga, do grego idiótes, era aquele que só olhava para o seu próprio umbigo quando, inserido na sociedade política, deveria regular seus atos conforme o bem coletivo, ainda que discordasse dos outros, mas deveria, ao menos, manter o repeito. O idiota é aquele que acha que tem o direito de desrespeitar o outro. O idiota não sabe que, só pra começar, não existe o direito de ser idiota. O Estado de direito é o estado de leis, de regras, que tem por meta garantir o bem público, ou seja, o bem estar de todos os seus cidadãos. A definição de idiota entra em choque com a definição de direito, de sociedade. Isso quer dizer que o idiota não pertence à sociedade, ele é um animal que não foi feito para a vida política. E isso é grave, é preocupante. Isso mostra o quanto não é fácil ser mulher na nossa sociedade, isso mostra o quanto é difícil ser LGBT. Ainda existe um forte machismo que acha equivocadamente que dita as regras. Edy Star não é um artista de luta política panfletária, mas sem sombra de dúvida carrega em si a resistência contra qualquer tipo de preconceito. Edy Star balançou as estruturas de uma sociedade machista que zela pelos bons costumes morais (que não passam de hipocrisia mascarada), uma sociedade que zela pela família tradicional, uma sociedade que cada vez mais mostra sua verdadeira cara conservadora. Edy Star é a personificação do combate, tem no balanço do seu corpo, no seu dançar, a irreverência, o erotismo, o exótico, tem nas mãos a arte, tem aquele tapa sem mão que desestrutura o tabu, tabu que já caducou séculos antes de ser criado e imposto a todos nós. Edy brilhou e sempre brilhará. Edy é uma estrela doce, sweet star, mas um doce amargo para a boca de quem não tem a capacidade intelectual e sensível de apreciar um corpo celeste de brilho próprio.

Meu bem eu sou bombom de cereja
Veja, prove, morda

Não seja bobão
Eu sou um barril, um copão de cerveja
Beba, babe, baby
Se acabe nesse verão, oh não

Não fique aí na mão rebatendo peteca, boneca
Pegue um avião e me alcance no ar
Boneca, não me canse
Sou estrela-do-mar, sou o céu, sou o mel
Pra passar no seu pão
Honey Sweet, Edy Star!


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