Filosophone: Alcides Neves, a fratura que rompe com bossanovistas e tropicalistas

Filosophone: Alcides Neves, a fratura que rompe com bossanovistas e tropicalistas

28 de agosto de 2017 0 Por Matheus Caio Queiroz

Filosophone, por Matheus Queirozo

Sem medo e a fratura exposta

(Alcides Neves, 1979)

 

Tempo de Fratura é um disco que rompe com a Bossa Nova e a Tropicália. Seria isso um parricídio? Você perguntaria: mas que diabo é isso? Eu respondo: segundo o dicionário “Mini Aurélio” de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, “parricídio” é um substantivo masculino que significa “o assassinato do próprio pai”. Durante a história da filosofia, muito se nota o rompimento de pensadores com seus mestres. Platão, em um determinado momento dos seus Diálogos, passa não mais a dissertar sobre as ideias de Sócrates, mas resolve usar a figura de seu mestre, que é seu personagem principal, para colocar na boca dele as ideias agora platônicas; Aristóteles, estudante da Academia de Platão, rompe com o mesmo, seu mestre, e com sua Teoria das Ideias (ou Formas).

E a vida segue dessa maneira. No mundo da psiquiatria, psicanálise e psicologia isso acontece muito também. Carl Jung rompeu com seu mestre Sigmund Freud. Mas será que isso Freud explica? Quem sabe.

Para não ir muito longe, vamos falar aqui de um cearense que é psiquiatra. Talvez ele tenha encontrado a cura para os seus males da alma fazendo arte, portanto, além de psiquiatra, esse cearense radicado em São Paulo também é cantor, poeta e compositor. Talvez a maioria de vocês leitores nunca tenha ouvido falar nesse artista. Isso porque ele não é um artista comercial, daqueles que lançam discos e mais discos e singles e jingles de natal durante todo o ano, que faz comercial de cerveja, que vai aos programas do Faustão, da Ana Maria Braga ou no Programa do Ratinho. A praia dele não é o mainstream. Tenho certeza que você nunca teve um vizinho que colocasse a todo volume alguma música dele. Esse sujeito é misantropo? É o escritor Dalton Trevisan, vampiro de Curitiba, que foge de jornalistas? Não, nada disso. Ele é uma pessoa normal (normal de comum; normal de normal, nem tanto). Não é a estrela do mundo pop, não tem os vídeos mais visualizados do YouTube, nem tem canal no YouTube. O nome dele é Alcides Neves.

Alcides Neves produziu em 1979 um disco que rompe com a Bossa Nova dos Tons Jobins, dos Vinicius de Moraes, compositores de amores boêmios, das Naras de voz de voo de passarinho (o poeta Ferreira Gullar foi quem escreveu que a voz dela lembrava passarinho, mas não passarinho cantando, e sim voando), das Garotas de Ipanemas quenão têm o que fazer da vida e vivem exibindo sua beleza europeia pelas praias, enfim, rompe com toda essa beleza de burguês entediado; rompe também com a vanguarda esteticamente precursora da “mistureba” de erudito com popular (que tem mais de impopular do que não sei o quê, cheio de letras que mais pareciam poesia concreta; nunca vi, para ser considerado popular, pessoas comuns no dia a dia ouvindo esse tipo de música cheia de jogos de palavras, de aliterações e metáforas), que era o movimento da Tropicália. A sua arte é independente, independente de demandas, de empresários, de gravadoras, independente de mestres.


Acabaram os anos 60 e os anos 70. Eis que chega a vez do novo – de novo! Mais uma vez o novo querendo ser mais novo que o novo que o antecedera? No início dos anos 80, Alcides Neves lança “Tempo de Fratura” (ele afirma em entrevista que o disco foi feito em 79 e lançado em 80). Não é nenhum manifesto querendo ser novo como o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil” dos modernistas da Semana de 22, não é nenhum “Chega de Saudade”, muito menos um “Tropicália ou Panis et Circenses”. Mas é algo novo mesmo sem que seu autor tenha dito que queria fazer algo novo. É aquele tipo de artista que não planejou a inovação de nada, ele é a própria renovação.

Esse disco do início de 80 é uma fratura, uma espécie de parricídio com qualquer coisa que tenha vindo antes. Esse disco soa como uma atitude corajosa de um artista experimental. Alcides Neves lançou esse disco de uma forma independente, sem compromisso com modismos que visasse o lucro.

Muitos tentam enquadrá-lo na nova vanguarda que surge na década de oitenta com Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, a chamada Vanguarda Paulistana. Mas ele, como legítimo artista independente, psiquiatra de si mesmo, um criminoso estético – posto que cometeu o parricídio – insiste em dizer que não, não faz parte de nenhum movimento!

Alcides Neves é dono de si. Sua individualidade, sua independência e seu experimentalismo são a fratura, o rompimento, com qualquer tipo de vanguarda.

Escreve Alcides Neves na contracapa do seu álbum: “se algum mérito tiver esse LP, é o de se achar inteiro na sua deformidade, tendo sido totalmente planejado sem interferências externas”. Esse é o “Tempo de Fratura”.