Filosophone: A Voz das Mulheres Em Chico

Filosophone: A Voz das Mulheres Em Chico

3 de julho de 2017 0 Por Matheus Caio Queiroz

Filosophone, por Matheus Queirozo

Já ouvi dizerem que o homem que conseguir entender uma mulher deve duvidar de seu sexo, como se entender uma mulher fosse uma proeza impossível para homens. Claro que achei um comentário bem infeliz, mas tenho para mim que o caso é que o universo feminino é mesmo muito curioso por justamente ser misterioso, e não pela suposta impossibilidade de ser compreendido. A mulher é um ser fantástico, uma verdadeira poesia e seus gestos são como a legítima arte: polissêmicos! E, por falar em poesia, existe um carioca que tem como musa inspiradora em muitas de suas canções a figura da mulher. Esse carioca, que tece poesias em torno do universo feminino, muitas vezes confundindo-se com suas personagens marcantes, se chama Chico Buarque de Hollanda. Convenhamos: um grande artista!

Nesse breve texto, falaremos, sem querer esgotar o assunto, do aspecto artístico muito único do Chico que é o de se utilizar do eu lírico feminino nas suas músicas, mostrando, sem tirar o protagonismo feminista, que a mulher deve ter sim a liberdade de gritar seus sentimentos.

A história nos mostra que a mulher não tinha vez na nossa sociedade, que a mulher sempre foi vista como inferior ao homem. Esse é o tão vergonhoso machismo, enraizado na nossa cultura há seculos! Isso só começou a mudar, aos poucos, depois que a mulher começou a se impor, mostrando que a fêmea não deve ser submissa a macho nenhum, e com todo o direito e razão. Não foi da noite para o dia que essa reivindicação foi crescendo. Foi através de muita luta! E a mulher lutou: no início dos anos 70 começaram a surgir mulheres que queriam discutir seu lugar no mundo. Nessa década, o movimento feminista começou a se propagar na América Latina.

Com o Brasil cada vez mais se modernizando, com a industrialização se instalando, a mulher sentiu necessidade de atuar dentro desse novo mercado de trabalho. A mulher queria mostrar que podia sim ajudar no orçamento familiar através de sua força de trabalho fora de casa.

As músicas mais marcantes de Chico que giram em torno da mulher foram compostas na década de 70. Direta ou indiretamente, não se pode negar que Chico contribuiu com a luta das mulheres pela vez delas na sociedade. Apesar de ele descrever algumas mulheres afetadas por paixões arrebatadoras, sem dúvida deu voz às mulheres em suas músicas, abriu o microfone para que elas pudessem vomitar tudo o que queriam falar, deixou a mulher desabafar numa época de censura irremediável. Alguns criticam Chico dizendo que suas músicas são machistas, que elas mostram a mulher do ponto de vista machista. Mas esquecem de observar o óbvio: Chico retrata a mulher como ser humano, com suas qualidades, com seus defeitos e suas fragilidades, que todo ser possui. Independente de ser homem ou mulher, todos somos frágeis. Chico deu voz às mulheres para que derramassem suas forças e fragilidades.

Cada eu lírico feminino de cada música que fala da mulher na obra de Chico pode ser visto tanto como o retrato da personalidade toda de uma mulher, quanto pode ser visto como a descrição de um momento, de alguns instantes da personalidade feminina. A mulher é um múltiplo de emoções, de ações, reações, comportamentos. E Chico conseguiu transportar isso muito bem para as suas canções.

  • – Na música “Cotidiano” (do álbum “Construção”, de 1971):
    Não é uma canção de eu lírico feminino, mas que retrata uma mulher que faz tudo, todos os dias, sempre igual, com o mesmo gás de amor sempre, como se fosse a primeira vez a cada manhã, tarde e noite, tudo para o conforto do marido, para não perdê-lo. Uma crítica ao pensamento que define a mulher como a dona de casa? Quem sabe!

  • – Na música “Atrás da Porta” (do álbum “Caetano e Chico Juntos e Ao Vivo”, de 1972):
    A mulher se encontra submissa ao amado, se encontra despedaçada de amor sem aceitar a separação.

  • – Em “Olhos nos Olhos” (do álbum “Meus Caros Amigos”, de 1976):
    A mulher sofreu com o rompimento do relacionamento, mas, depois, consegue juntar forças para superar a dor e voltar a viver outros casos, outros amores, outras emoções.

  • – Em “Folhetim” (do álbum “Ópera do Malandro”, de 1979):
    É uma mulher consciente de sua autossuficiência e de seu charme entre seus amantes, adorando viver vários flertes, onde cada caso, depois, é considerado página virada em seu folhetim.

Como vimos, Chico retrata a mulher em suas mais variadas facetas. Depois desse pequeno texto, podemos ter certeza, sem receios de equívoco, que na história da música Chico foi e continua sendo o único artista no mundo que conseguiu e consegue descrever tão belamente e tão detalhadamente o universo feminino, mostrando que a mulher pode ser quem quiser, sentir as emoções que mais lhe aprouverem, com quem quiser e quantas vezes quiser. E Chico não precisou duvidar de seu sexo.