Filosophone: A Guerra Fria entre conservadores e transgressores na música brasileira

Filosophone: A Guerra Fria entre conservadores e transgressores na música brasileira

4 de setembro de 2017 0 Por Matheus Caio Queiroz

Filosophone, por Matheus Queirozo

O sentimento exacerbado de nacionalismo, essa coisa de ser patriota ao extremo, leva sempre a um conservadorismo (quer seja ideológico, quer seja político), e isso sempre é destrutivo, chegando a ser até algo imbecil. Querem fatos? Já ouviram falar da famosa Passeata Contra a Guitarra Elétrica que alguns artistas fizeram? Vamos dar nome aos bois… quer dizer, aos artistas que participaram da polêmica passeata: Jair Rodrigues, Elis Regina, MPB4, Geraldo Vandré, Zé Keti, Edu Lobo e – pasmem! – Gilberto Gil. A MPB organizou em 1967, época de Guerra Fria no mapa mundi e de Ditadura Militar pesada no nosso Brasil, uma espécie de marcha que condenava a guitarra elétrica. Motivo: ela simbolizava a personificação da invasão do imperialismo estadunidense no Brasil. Era preciso combatê-la! Pausa para os risos da leitora e do leitor. Já acabaram? Segue o baile.

Da esquerda para a direita: Elis Regina, Jair Rodrigues, Gilberto Gil e Edu Lobo

A música estava dividida basicamente entre MPB e Jovem Guarda, sendo a primeira o verdadeiro estilo que representava o Brasil, e a segunda a música jovem influenciada tanto pelo iê iê iê britânico quanto pelo rock imperialista ianque. Então a passeata contra a guitarra elétrica representava a reivindicação por uma cultura brasileira pura.

Qual o problema disso? É que, na história da humanidade, qualquer luta por uma cultura pura sempre acabou em brigas idiotas, em guerras sangrentas, enfim, em desastres humanos (diga-se de passagem, para exemplificar, o holocausto judeu nos campos de concentração nazistas). Não estou cometendo a tolice de taxar irrefletidamente a passeata contra a guitarra elétrica de nazifascista. O que quero dizer é que qualquer tipo de reivindicação radical (como a palavra já diz, reivindicação na raiz do negócio) tem na sua essência uma espécie de autoritarismo. E não sejamos ingênuos, autoritarismo gera regimes totalitários, portanto regimes ditatoriais. O movimento tropicalista veio para romper com essa bifurcação da realidade dividida infantilmente entre música entoada com o banquinho e violão e música com guitarra, baixo e bateria. A Tropicália nasce com o intuito de devorar (aí se aplica o conceito de antropofagia dos modernistas de 22) a cultura erudita e a cultura mais popular, considerada comercial e de massa, para fundir tudo isso – e quem sabe foder tudo isso –, criando assim uma arte com a cara dos nossos tristes trópicos, nossa brasa brasileira (esse trocadilho tosco que eu fiz é pra lembrar que a árvore que dá nome ao nosso país tem esse nome, Pau Brasil, porque seu extrato interior é avermelhado, lembrando brasa, daí Pau Brasil).

Não sejamos injustos com Gilberto Gil. Deixemos que se defenda: segundo ele próprio, só compareceu à passeata por causa de Elis. Tudo bem, Gil, águas de março… quer dizer, águas passadas, águas passadas. Passado esse polêmico episódio da passeata que ocorreu em 17 de julho de 1967, quem é que sobe no palco do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, realizado em outubro do mesmo ano de 67, para tocar com um grupo de rock que empunhava uma guitarra elétrica? Ora, quem! Gilberto Gil, o próprio, acompanhado dos psicodélicos Mutantes, ganhando o segundo lugar com a canção “Domingo no Parque”.

Numa entrevista nos bastidores deste Festival de 67 (você pode conferir isso e muito mais no filme “Uma Noite em 67”, de 2010, dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil), Gilberto Gil faz um comentário maravilhoso sobre essa parceria com Os Mutantes: “(…) eu encontrei esses três jovens, dois rapazes e uma moça, são excelentes! Excelentes instrumentistas, excelentes pessoas, como sensibilidade, como percepção artística. Quer dizer, por que, de repente, eu vou me privar, tá entendendo, desse valor que tá junto a mim, que pode contribuir pra o meu trabalho, pra o trabalho de todos? Acho besteira, então eu peguei os meninos mesmo e disse ‘vamo lá e acabou’”.

Nessa busca romântica, quase à maneira de um Gonçalves Dias ou um José de Alencar, de querer construir uma identidade cultural brasileira através da arte, ficamos nesse impasse de não saber como nos autodefinir, fica essa questão em aberto: se seria o toque da sanfona o que mais nos representa, se seria o violão no seco ou uma sequência de percussão a todo gás ou, quem sabe, o gemido de uma guitarra elétrica. Eu, um simples brasileiro, apreciador de tudo que nossa terra produz em matéria de arte, mas não sendo um nacionalista barato, nem um patriota hipócrita e muito menos um conservador imbecil, arriscaria dizer neste pequeno ensaio que a música brasileira, na verdade, é a mistura de tudo isso: é a assimilação cultural do todo. Somos uma antena atenta, captamos o que a globalização nos pode proporcionar e transformamos à nossa maneira brasileira de ser, dessa maneira que é a mais swingada possível, a mais poética, a que tem sabor e balanço.

Não podemos negar que estamos inseridos no que alguns intelectuais chamam de era da informação. No meio de todo esse emaranhado de avanço tecnológico, dessa enxurrada de notícias a todo segundo, de conteúdos sendo gerados infinitamente, o que mantém a identidade cultural de uma nação não é de nenhuma forma combater tudo isso, como conservadores enlouquecidos, tampouco nos tornando consumidores baratos sem nada na cabeça. É devorar tudo isso e emprestar também um pouco do que nós sabemos fazer, é misturar tudo, mas de um jeito bem brasileiro.

Gostaria de finalizar com um comentário do nosso filósofo musical Jorge Mautner, que bem nos definiu culturalmente numa entrevista publicada no site Brasil 247, datada de 09 de dezembro de 2015:

“Temos que injetar a amálgama do Brasil: essa amálgama nossa que foi José Bonifácio de Andrade Silva (poeta brasileiro) quem, em 1823, nos definiu: diferente de outros povos e culturas, nós somos a amálgama, tão difícil de ser feita. Não existe em outro lugar do mundo: o multiculturalismo, a diversidade. Só para dizer da instantaneidade da amálgama: os japoneses chegaram na década de 60 em São Paulo e imediatamente a Umbanda criou o orixá Samurai. Então, tem que injetar essa amálgama nos neurônios de todos os seres humanos”.