Festival Guaiamum Treloso ataca de CarnaIndie Feminista e agrada o público

Cidadão Instigado

Prévia carnavalesca do Recife, a capital do frevo, apostou em artistas da cena independente para o line up e contou com discurso feminista

Fantasias, looks ousados, glitter e muita música boa. Foi assim o Festival Guaiamum Treloso, que aconteceu na Fazendo Bem-ti-vi, em aldeia. A festa, que é uma prévia carnavalesca tradicional em Pernambuco, nesta 18ª edição resolveu apostar em um line up diferenciado, trazendo para a terrinha do frevo sons da cena independente brasileira. Deu certo!

O Festival aconteceu em uma grande fazenda no meio de uma área de mata e armou uma grande estrutura com três palcos, uma tenda, praça de alimentação, bares, lojinhas e muitos banheiros para recepcionar e impressionar bem os seres da mata que habitaram o local. Esse espaço, embora seja distante da cidade e cheio de vibes boas, deu trabalho para a produção conseguir a liberação de alvarás, mas, como dito, além de Treloso, o Guaiamum é teimoso e manteve o endereço, o que acabou afetando um pouco a estrutura do evento. Os palcos acabaram ficando muito distantes e mal ornamentados. O público sentiu.

Festa pronta, os seres da mata chegaram cedo no evento, que estava previsto para começar às 13h. Mas, os shows atrasaram! E muito! Dessincronizou os horários e alguns shows aconteceram simultaneamente. Também aconteceu de não tocar nada por mais de meia hora em nenhum dos palcos principais. Mas, a magia do lugar e o astral da festa não deixou o público abatido.

A banda Marsa, que tocou com mais de 1h de atraso, reuniu um grande número de fãs. Tocaram as músicas do seu disco “Circular Movimento” e levou os Seres da Mata ao estado de êxtase. A voz única, doce, suave e especial de Tiago Martins causou grandes emoções. O show da Marsa foi um dos melhores do festival.

No outro palco, subia Jorge Cabeleira, banda da carrada do manguebeat, que passou muitos anos em stand by. Mas, que está de volta à cena. Esse ano estão com previsão de lançar disco novo. O show estava quente e quem viu gostou. No repertório, Dirceu Melo apresentou as músicas clássicas do Jorge e apresentou uma inédita.

O dia já era noite quando Cidadão Instigado subiu no palco e fez um show impecável. Mas, o público do Recife tem uma certa particularidade de ser difícil de ser conquistado. As bandas sentem isso e as produtoras mais ainda, quando nem sempre podem arriscar trazer nomes diferentes porque o público não comparece. Não tem interesse pelo novo. Um ponto negativo do Recife, que se diz uma capital multicultural. Homem velho, besouros e borboletas e outros sucessos da banda de Fernando Catatau embalou os fãs e os curiosos que lotaram o espaço ao redor do palco Bem-ti-vi.

Metá Metá subiu no Palco Skol e não surpreendeu. A incrível Juçara Maçal fez um show muito tímido, que não empolgou e nem atraiu muita gente. Fizeram uma apresentação curta e deixaram de lado o hit “São Jorge”, que o público tanto esperou. Aqui, não decolou.

Era a vez dela, a mulher do fim do mundo, mostrar porque está em dias com os palcos apesar da avançada idade. Deslumbrante, Elza Soares apareceu no palco como uma verdadeira rainha para apresentar seu show “Elza e a Máquina”. Ela, como sempre, chegou recheada de discursos feministas, e levou público a loucura. O show em particular não empolgou tanto o público no início. Essa versão de Elza remix pegou o público de surpresa e dessa vez não agradou a gregos e troianos. Mas, levou sua mensagem da melhor forma. “Maria de Vila Matilde” foi o ápice da apresentação. Seu show foi um verdadeiro ato de discurso feminista, enquanto embalava os Seres da Mata com as músicas, vídeos eram exibidos falando os dados do feminicídio. O conjunto da obra foi incrível!

Em tempo, a produção foi muito feliz na escolha do line up. Artistas com discursos engajados, fortes e grandes influenciadores. Todo o festival teve uma pegada feminista e é disso que precisamos mais.

Di Melo subiu ao palco Skol e mostrou que ainda vive. Não trouxe a sua banda oficial, mas representou bem. Levou o público a cantar em coro seus grandes clássicos como “Pernalonga” e “Kilariô”, entre outras. Nada de inovador, mas como dito, o público do Recife gosta do que já conhece. E Di Melo acaba sempre agradando.

Chegou a hora do Baco Exú do Blues mostar porque stá estourado. Um show esperadíssimo e que superou às expectativas. ‘Te Amo Desgraça’ levou o público ao delírio. O show foi empolgante e dançante o tempo inteiro. O Baco é realmente incrível e colocou o povo para pular, abrir roda, se tocar, sentir a energia. Por falar em roda e voltando ao discurso feminista, esse Exú abriu uma roda de mulheres. Só mulheres e glitteres. Um momento de reflexão. Uma ideia certa e muitos aplausos! Baco causou e ganhou, apesar de novidade, o carinho do recifense. Ponto altíssimo do festival.

Nação Zumbi chegou e chegou destruindo tudo. Fez um show instigante e afinadíssimo, o que ficou devendo desde a sua apresentação no Réveillon. O clima do carnaval colocou os mangueboys a dar o melhor e lacrar no palco. O batuque das alfaias em sincronia com as batidas do coração. Tocaram poucas músicas do seu último disco “Radiola”, que não empolgou muito. Mas, a versão “Refazenda” de Gilberto Gil ficou sensacional. “Da Lama ao Caos”, “Banditismo Por Uma Questão de Classe”, “Um Sonho”, “A Melhor Hora da Praia” e mais uma sequência de pedradas tirou o público do chão. Um dos melhores shows do dia.

Letrux e Francisco El Hombre, colocados como headliners do festival, acabaram tocando simultaneamente. Letrux, a feminista, rainha do soud out, a musa do climão, subiu incrível no palco e, se não fossem por atrapalhos técnicos no som, teria feito uma apresentação impecável. Ela estava lá, linda e perfomática representando a ala feminista e mandando a real com seus discursos. “Que Estrago”, “Vai Render”, “Ninguém Perguntou por Você” e quase todas do seu disco solo embalaram seu público fiel que estava ali afim de um climão. Que mulier é essa?!

Francisco El Hobre lacrou com chave de ouro. Que apresentação empolgante, feliz, extraordinária e agradável. Eles fizeram um dos melhores shows da noite, quiçá o melhor. “Calor da Rua”, “Bolso Nada”, “Soltas Bruxas”, “Triste, Louca ou Má”. Pera, uma pausa para esse momento. Ju foi incrível cantando esse hino: “Triste, Louca ou Má”. Deu uma aula de feminismo e pediu: “Homens falem menos e escutem mais as mulheres”. Ela foi ovacionada. Sem contar que ela arrasou com o seu gogó! Ápice da festa. Melhores momentos ever. Francisco El Hombre. Um lacre, é um lacre. Aqui, as portas vão estar sempre abertas!

A 18ª edição do Guaiamum Treloso Rural representou como prévia. Apresentaram uma grade de apresentações dignas de um verdadeiro carnaindie. A produção está de parabéns por ter conseguido realizar, apenas das brigas judiciais, o festival, como ter lotado e agraciado o público com uma vibe de paz e alegria. Pequenos ajustes na produção e a certeza de que a 19ª edição vai entrar para a história. Que venha!


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