Eu Sou o Gabe: música deprê-cômica feita por um cara cômico-deprê

Eu Sou o Gabe
Gabe Cielici

Talvez você conheça Gabe Cielici por vê-lo às vezes pelas ruas com sua mesa com a plaquinha “Piadas de Graça”, ou talvez o tenha visto saindo vencedor do Prêmio Multishow de Humor de 2015. Ou, quem sabe, você nunca tenha ouvido falar do rapaz barbado que sempre começa suas apresentações com a alcunha que usa artisticamente: Eu Sou o Gabe.

Em 2015 ele lançou seu EP “Músicas Para Ex-Namoradas”, um disco com algo de folk e muito de histórias de amores desfeitos e ressentimento. Apesar de se tratar de um trabalho humorístico, recebeu diversas críticas pelos retratos de pensamentos violentos (como os Mamonas Assassinas já fizeram em “Uma Arlinda Mulher”). Hoje o próprio compositor acha que são coisas a serem deixadas para trás. “Eu entendi que a maior parte do problema estava sobre eu não saber lidar com os sentimentos, acho que muita gente passa e passou por isso. Hoje eu não conseguiria escrever músicas sobre ex-namoradas, hoje só consigo olhar pros meus próprios fracassos e julgá-los”, explica.

Suas novas músicas tratam de depressão e tristeza de uma forma que pode-se dizer bem-humorada. É algo que fica entre a trilha sonora para o suicídio e um álbum de humor. Em músicas como “Gabeer” e “Cáries e um Cupido” dá pra notar que a comédia auto-depreciativa é o foco do trabalho de Gabe atualmente. Em breve ele lançará seu próximo EP, “Bueiro das Barganhas”, em homenagem à boêmia Rua Augusta e seus frequentadores.

Conversei com ele sobre sua carreira, o EP “Músicas Para Ex-Namoradas” e sua recepção, a influência do punk rock e seu futuro:

– Como você começou sua carreira musical?

Eu comecei em 1998 influenciando pelo álbum “Nimrod” do Green Day. Meu pai me levou na extinta W&K Music em Santos e me comprou uma Epiphone Special Sunburst pra que eu treinasse ao invés de ficar tocando guitarra virtual na frente do espelho enquanto meus irmãos me zoavam. Aí eu comecei a fazer aulas de guitarra com um grande música da Baixada Santista, o Reinaldo Andrade. 1 mês depois eu já tinha uma banda chamada Memphis (o nome dos prédio onde eu morava e ensaiava no salão de festas).

– E como era o som da Memphis?

Um punk rock melódico bem simples 4/4, como ainda é hoje. O meu animal interior é uma música de punk rock melódico simples.

– E como esse som se transformou no projeto Eu Sou o Gabe?

Desde sempre continuei tendo bandas e tocando. E as partes que eu mais gostava dos shows, era no intervalo entre uma música e outra que eu falava alguma coisa, algum pensamento ou só apenas besteira no microfone. Aí quando teve o boom do Stand Up Comedy no Brasil eu 2009-2011, eu já tinha morado no Texas com minha tia e primos, e lá eu consumia muito Stand Up. E nessa época eu tava parado com banda, deprimido, sem emprego, então me joguei pra SP pra tentar a vida autoral na comédia. Passei 1 ano dormindo na rodoviária da Barra Funda todos os dias, tomava banho na casa de amigos, fazia show e ia pra rodoviária. Aí desenvolvendo as piadas em palcos, não demorou pra eu abrir meu hardcase do violão, o empunhar e tentar escrever canções pra compor meus sets de piadas e musicáliza-las.

– E foi aí que surgiu o EP “Músicas Para Ex-Namoradas”?

Sim sim, falei dos meus relacionamentos e da maneira como eu não sabia lidar com sentimentos, eu era imaturo, ainda sou, mas hoje prefiro ficar sozinho pra não atrapalhar a vida de ninguém. Nunca fiz nada grave e nem traía, mas eu sempre projetava algo que eu não era pra me sentir aceito e isso eventualmente acarretava problemas, eu vivia fugindo de uma bola de neve que ia crescendo e eu era bola de neve.

Eu Sou o Gabe

– Seu EP chegou a receber acusações de ser machista por causa das letras.

Sim, chegou. O que é normal ao se ouvir uma música sobre trancar sua ex na geladeira, é uma visão bem psicótica. Mas eu nunca falei de todas as mulheres em geral, e a música falava da ideia de congelar o sentimento, o momento, eu não tranquei ninguém em frigorífico algum. E com certeza minha visão mudou desde a época que eu compus o EP, eu entendi que a maior parte do problema estava sobre eu não saber lidar com os sentimentos, acho que muita gente passa e passou por isso. Hoje eu não conseguiria escrever músicas sobre ex namoradas, hoje só consigo olhar pros meus próprios fracassos e julgá-los.

– Ganhar o prêmio Multishow de humor te deu mais força pra continuar fazendo música?

Deu sim, foi nele que eu voltei a me apegar a minha música mais do que nunca. Foi quando eu descobri o câncer da minha mãe, e eu estava numa depressão pesada, e durante o Prêmio Multishow eu me uni de uma maneira com meu violão e minhas piadas como nunca tinha feito antes, como se fosse a última vez que eu estivesse fazendo aquilo. E estou assim desde então.

– As suas músicas são todas autobiográficas ou você se inspira em coisas que acontecem com outras pessoas também?

São todas autobiográficas de coisas que aconteceram ou eu senti. Eu tava passando por um bloqueio criativo recentemente, pois ando passando por situações mais tristes do que o comum, e não tava querendo falar sobre isso pra não me expor no fundo do poço, mas eu lembrei que eu estou aqui pra cantar sobre minha vida, não importa onde eu estiver. E foi daí que veio minha última música “Gabeer – Cerveja & Solidão”. É a realidade que eu tenho vivido, madrugadas nos bares da Augusta depois de sair dos meus shows de Comédia, pensando com o copo na mão e o cotovelo apoiado no balcão. Eu tava querendo emagrecer e viver novas histórias saudáveis pra contar, e dizer que eu saí da Depressão e vai ficar tudo bem, mas pelo jeito esse tipo de composição não vai sair tão cedo.

– Você já pensou em fazer algo com banda novamente?

Penso todas vezes que eu empunho o violão, penso o como seria bom um baixo pesado pra me arrepiar e uma bateria pra fazer minha cabeça sacudir, mas eu tô pra montar uma banda com uma galera, vamos ver.

Eu Sou o Gabe

– Já está compondo para um novo EP?

Sim, o “Bueiro das Barganhas” (apelido carinhoso que dou pra Augusta) sai no dia 11/05. Vai ser produzido pelo Tavares.

– Opa, me fala mais sobre ele! Como foi a composição desse EP? Por que usar a Augusta como tema?

Esse EP é uma crônica musical sobre a minha relação com a Augusta. Eu moro no centro no pé da Augusta, tudo que eu faço, pela Augusta eu passo. Quando vou contar piadas de graça na Paulista, eu subo pela Augusta. Os dois bares que eu me apresento faz 3 anos, ficam na Augusta, eu vou andando pros meus locais de trabalho, pra rua contar piadas e pros bares pra tocar e musicalizar as piadas. Tem madrugadas eu sou tomado por uma inquietação dentro meu kitinete, e então eu calço meus sapatos e vou caminhar na Augusta pra pensar, parar no Bar do Bahia e uma cerveja tomar, a Augusta tem sido a rua da minha vida nos últimos anos. E então, desde que tudo aconteceu, minha carreira de comédia em SP, o Prêmio Multishow, a Comedy Central, desde antes, durante e depois, eu já estava subindo e descendo a Augusta, colando cartazes de shows na ruas, entregando panfletos de shows, conversando com donos de bares pra conseguir fechar shows, os mesmos proprietários de bares que hoje são meus colegas de trabalho e amigos. E é sobre isso que eu estou escrevendo pra poder cantar.

– Quais as suas maiores influências musicais?

The Get Up Kids, Laura Stevenson, Millencolin e Chuck Ragan.

– Você já fez apresentações só musicais, sem stand-up junto?

Não desde que não tenho mais banda.

– Quais os seus próximos passos em 2017?

Emagrecer.

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes!) que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

Bomb The Music Industry e Title Fight, da gringa, e BaySide Kings e BlackJaw de Santos!


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