“Nosso meio ainda é muito xenófobo”: entrevista com Nanda Loureiro, do Banana Records

“Nosso meio ainda é muito xenófobo”: entrevista com Nanda Loureiro, do Banana Records

22 de agosto de 2019 0 Por Mateus Magalhães

Nanda Loureiro, ou Nanda Banana, é uma das mais importantes articuladoras do cenário da música independente no Nordeste e no Brasil. E pronto. Começar o texto de uma entrevista assim não é de praxe: porque uma afirmação como esta não é fácil de fazer. Entretanto, no caso da nossa personagem, dona de um currículo extenso de realizações na cultura, seria injusto não fazê-la. Ela, entre muitas outras coisas, é label manager do selo Banana Records, o qual fundou junto a Daniel Iglesias em 2016, quando ainda tinha 17 anos.

De lá pra cá, o Banana já lançou dezenas de artistas, impulsionou a carreira de muita gente e produziu eventos responsáveis por colocar Fortaleza, onde o selo se baseia, no circuito de bandas importantes do underground, como o Terno Rei e o Ventre. Entretanto, Nanda Loureiro tem muitas outras ocupações. Além de ser produtora cultural e de administrar o selo, ela é assessora de bandas, artista visual, DJ e performer. Ela é, também, umas das criadoras do Mortífera, um coletivo que busca dar visibilidade para as mulheres, para os negros e para a comunidade LGBT dentro do meio punk & goth.

Nós conversamos sobre xenofobia, incentivo à cultura, netlabels e muitas outras coisas. Em suas respostas, Nanda levantou questões importantes e deu opiniões agudas, como esta: “vejo nosso circuito como algo paralelo e até mesmo contra um possível mercado musical”. Confira, abaixo, nossa entrevista exclusiva com Nanda Loureiro, do Banana Records.

O Banana Records surgiu em 2016, com a visão de cuidar melhor dos talentos de casa. Casa esta que em pouco tempo deixou de ser só Fortaleza e se expandiu pra artistas de outros estados do nordeste, como a Ximbra, e até alguns de outras regiões do Brasil, como o Fogo Caminha Comigo. Além disso, o Banana também abre portas para a circulação de artistas do Sudeste, tipo o Terno Rei e o Vitor Brauer. O rolê do Nordeste sempre é muito receptivo com o pessoal da “aristocracia operária” da música underground, mas você acha que o sudeste do país tem sido receptivo também, no sentido de mobilizar pessoas e trabalhar junto, pra ajudar artistas do Nordeste que decidem descer o Brasil?

Vejo uma movimentação muito maior dentro do próprio Nordeste, nosso meio ainda é muito xenófobo mesmo que isso não seja tão escrachado. Nosso cenário é muito grande, diverso e forte, e, apesar de sermos muitos e de estarmos produzindo o tempo inteiro e termos grandes parcerias pelo sul e sudeste, nós vemos pouco espaço nessas regiões. O que cabe a nós é continuar ocupando e invadindo, porque a circulação de bandas nordestinas por esse eixo ainda é muito importante e necessária. Nós devemos cada vez mais afirmar e espalhar a nossa cultura, que é tão rica e tão bonita.

Em Fortaleza, de maneira semelhante às outras capitais do Nordeste, lugares para produzir eventos existem, mas não são abundantes. O underground de cidades assim, então, costuma ser cooptado por grupos específicos, que flutuam ao redor de artistas e produtores mais velhos, os quais pertencem a nichos pequenos e fechados de gêneros musicais ou acordos de camaradagem. Quase todos são homens. O poder público, também, tem tendência a se adaptar a esses grupos que dominam a cultura e, talvez por preguiça ou por má intenção, acabam tendo como contemplados em seus editais sempre os mesmos nomes ou grupos culturais. Num tweet do ano passado, você disse que queria fazer cultura, e não rolê. E que queria fazer isso ocupando cada vez mais espaços brancos e masculinos. Como é que se faz cultura driblando tudo isso?

Sempre falo de resistência porque é justamente isso: uma mulher, pessoa não-branca e/ou LGBT, nesse cenário, precisa trabalhar duas ou três vezes mais e ainda assim ter seu trabalho diminuído simplesmente por ser quem é. São preconceitos diários, muitas vezes pesados, e que não são exceções. Mas isso não é algo exclusivo do cenário musical, é sistemático. Simplesmente existir nesse meio é político, e é perceptível como a nossa presença incomoda.

Você também disse, nesse mesmo tweet, que queria ocupar a rua e os espaços públicos. Esse tem sido um caminho para o Banana?

Ocupar espaços públicos ficou ainda mais difícil no nosso contexto político com a ascensão da direita e do conservadorismo. Casos de censura e perseguição política como o do Facada Fest em Belém nos desanima muito, então tem sido um caminho, mas não o único. Apesar disso, nós nunca vamos deixar de fazer eventos a baixo custo para garantir o acesso para todos. Esse é o meu maior desejo, produzir cultura acessível e inclusiva.

 

Você trabalha com assessoria de comunicação para bandas independentes, o que é, cada vez mais, crucial para a expansão delas no mercado. O quê, pra você, é crucial nesse processo? O que uma banda, na hora de enviar o seu material para sites e selos, não pode fazer nunca?

Como produtora e como selo, eu nunca dei muita importância para spam, recebemos centenas de mensagens de bandas que não tinham nada a ver com a estética e com o conceito do selo, do pagode ao metal. As bandas precisam saber com quem estão lidando e que tipo de material eles estão produzindo. Precisa haver muita pesquisa antes de um lançamento, nenhuma banda independente precisa de um assessor se tem informação. Não existe muito segredo, é preciso entender que do outro lado da tela existe outra pessoa e que você precisa saber se comunicar e saber passar a sua mensagem para ela. Eu recomendo os materiais principalmente da Valente Records sobre o que fazer para atingir mais pessoas dentro e fora das redes sociais, do mailing até o palco.

Na pergunta anterior eu falei de mercado. Você acha que existe, de fato, um mercado para o circuito de música independente?

Nós temos grandes organizações de selos, bandas, turnês, lançamentos e distribuição, mas vejo nosso circuito como algo paralelo e até mesmo contra um possível mercado musical, uma indústria que transforma nossa cultura em um sistema que favorece e prioriza músicas brancas e limpas enquanto alguns artistas ainda são marginalizados pelo tipo de arte que produzem. Nosso circuito é justamente contra tudo isso e se não fosse assim ele nem existiria, pois ele é formado justamente por essas minorias marginalizadas e excluídas de uma indústria normativa.

Show de Vitor Brauer e Larissa Conforta, realizado pelo Banana em setembro de 2018

Ideais como o do Faça Você Mesmo, e toda uma aura do movimento punk e do riot girl pairam sobre você e sobre o Banana Records. Qual a importância desses três elementos na sua vida pessoal e profissional?

Esses movimentos mudaram totalmente a minha visão sobre o mundo e sobre a arte. São (quebra de) valores que moldam diariamente um caminho revolucionário na minha vida, coisas como a ideia da independência de um sistema capitalista e patriarcal ou a vontade quase indomável de fazer arte sem me preocupar com dinheiro, distância ou qualquer outra barreira que nos impeça de gritar essas coisas que acreditamos. Nesses movimentos que encontro força e vontade para resistir em um meio tão difícil e, novamente, tão normativo, porque é neles que encontro pessoas e ideias que me mostram que eu não estou sozinha e que somos muitas.

Em entrevista pro Noisey, em junho de 2017, você disse pra Maíra Valério que sentia um avanço da presença feminina na música independente. Disse, também, que achava que algo grande estava começando a acontecer. Agora, mais de dois anos depois, você acredita que esta “profecia” se concretizou?

É um avanço lento. Dois anos não são suficientes pra um movimento de fato se concretizar, mas sem dúvidas são suficientes para ele se fortalecer. Ainda vemos mulheres do meio musical sofrendo ataques e sendo boicotadas e invisibilizadas, então ainda é difícil. Mas sim, houve um avanço significativo, acredito que principalmente pelo discurso de resistência no cenário e pela união das mulheres que se formou nesses últimos tempos. A criação de selos exclusivamente femininos como a PWR Records fez com que esse movimento de mulheres alavancasse ainda mais. Muitos fatores melhoraram no sentido de inclusão das mulheres no underground, mas ainda temos muito o que caminhar para construir um cenário realmente inclusivo e seguro.

Houve, desde alguns anos antes do surgimento do Banana, uma explosão de netlabels no Brasil. Apoiada na era de ouro dos pequenos blogs de música, essa explosão durou até mais ou menos o fim de 2016, com o estabelecimento de fato das plataformas de streaming, que se tornaram mais acessíveis e mudaram em definitivo o consumo de música e o mercado de comunicação ao seu redor, o que fez com que muitos selos deixassem de existir e com que muitos dos blogs passassem a replicar matérias de sites gringos e a ousar menos na produção de conteúdo. A Banana sobreviveu. Sobreviverá ainda? O que o selo tem planejado pros próximos meses e pros próximos anos? O que o Banana ainda quer alcançar?

A Banana sobrevive com muita dificuldade, mas vive. A gente sempre fala de voltar a produzir as coisas mais ativamente, em 2016 e 2017 fazíamos pelo menos um evento por mês. Não falta vontade, mas o contexto do país, da cidade e das pessoas acabou direcionando nossos projetos pra lados opostos. Agora, o que nós fazemos com a Banana – nossos eventos, nossas reuniões, nossos lançamentos – são sempre tão bonitos e feitos com tanta vontade e energia que não queremos que isso seja interrompido ou atropelado. Eu e o Daniel Iglesias, criador do selo junto a mim, temos muitos outros trabalhos em paralelo. São mais de três anos de história, produzimos e aprendemos coisas inesquecíveis pelo Brasil, mas tudo tem seu fim e seus recomeços. Há exatamente um ano anunciamos o fim do nosso hiato, desde então a gente tem feito as coisas no nosso tempo e trabalhado com nossos amigos. Tem sido um processo longo de criação e de imersão.