Entrevista com Klaus Koti, O Lendário Chucrobillyman: sobre capas de discos, usar sucata para criar instrumentos e saber fazer quase tudo

Entrevista com Klaus Koti, O Lendário Chucrobillyman: sobre capas de discos, usar sucata para criar instrumentos e saber fazer quase tudo

31 de julho de 2018 0 Por Paula Holanda

A entrevista que segue foi realizada por Paula Holanda para “Chachacha!, um zine sobre contracultura latino-americana e também seu trabalho de conclusão de curso em jornalismo pela Faculdade de Comunicação da UFBA. A publicação, orientada por Carla Risso, será oficialmente lançada no dia 01/08 em seu perfil do issuu (https://issuu.com/pppholanda).

Adepto às filosofias que compreendem o faça-você-mesmo, Klaus Koti, artista visual e multi-instrumentista, nunca espera por apoio ou aprovação de terceiros para concretizar seus projetos. Ele se opõe ao conformismo e submissão sistêmicos ao demonstrar-se capaz de gravar, produzir, ilustrar, divulgar e distribuir seus próprios discos quase sem recurso ou assistência nenhuma. Koti, por exemplo, não se deixou desmotivar ao perceber que, conforme o próprio, “ninguém queria lançar seus trabalhos” e enxergou nessa situação uma alternativa individual e autogestionária: a criação da Fonfon Records, o seu próprio selo independente.

Com influências que rondam o punk, o pós-punk e o delta blues, o artista consegue notar possibilidades artísticas onde alguém com olhar genérico e desimaginativo dificilmente perceberia. Klaus Koti empenha-se em fazer o máximo gastando o mínimo, seja gravando uma banda de cinco integrantes com um microfone de lapela ou utilizando objetos aleatórios que encontra no lixo como instrumentos musicais. Suas composições são pequenos monólogos; causos que transitam entre o urbano e o rural, entre o mundano e o sobrenatural.

Em 2015, Klaus fez a abertura do primeiro e único show em terras brasileiras do The Sonics, banda cultuada do proto-punk e pioneira do garage rock estadunidense, com sua monobanda O Lendário Chucrobillyman, que segue sendo o seu projeto mais ativo e conhecido desde que passou a ter videoclipes exibidos na programação da MTV Brasil, após o lançamento do disco “The Chicken Album” (2008). Em 2011, a emissora o indicou para o extinto VMB, na categoria “Aposta MTV” — no mesmo ano, Koti foi preso por um dia na Tinsley House, um centro para imigrantes ilegais aos moldes de uma prisão em Londres, na Inglaterra.

Em sua discografia, constam mais de 15 trabalhos; só com O Lendário Chucrobillyman são seis, e um sétimo já está em curso. O currículo de Koti apresenta uma série de bandas e monobandas, entre elas, destacam-se também Os Penitentes e Wi-Fi Kills, seu mais novo projeto. Nas artes visuais, Klaus tem influência da xilogravura e ilustra capas e cartazes de eventos culturais. Confira uma entrevista com o engenhoso multitalentos.

As ilustrações que você faz costumam ser monocromáticas ou ter poucas cores, acredito que muito por conta da influência da xilogravura. As cores que você utiliza desenvolvem um estilo bem característico e interessante em seu trabalho. Como você as escolhe? É intuitivo?

É bem intuitivo. Eu componho imagens fazendo uma distribuição de pesos. Se você utiliza branco, pode balancear com o preto ou usá-lo para dar ideia de profundidade. Eu uso muito as cores para dar ideia de profundidade, de sombreamento, iluminação; sempre escolho elas ao final das ilustrações, mais com esse intuito de atribuir a elas essa sensação de dimensão — de trazer alguns detalhes para frente e levar outros detalhes para trás. O preto remete a mim a noção de preenchimento, enquanto o branco me remete ao vazio, à pausa.

Você cursou belas artes, estou certa? Estudar em uma faculdade contribuiu para o seu processo criativo? De que maneira?

Sim, acho que sim. Tanto em relação às artes visuais quanto em relação à música, pois as duas coisas estão interligadas. A criação gráfica é uma etapa muito importante da produção de um disco, e sou eu quem ilustro as capas dos meus. Minhas ilustrações também têm muitas influências musicais, a exemplo do Devo. Primeiro eu fiz um curso de design na CEFET-PR; era um curso técnico, que misturava design gráfico com design de produto. Eu queria realizar trabalhos mais livres, mais artísticos, então entrei na faculdade de belas artes na EMBAP, que era totalmente oposta ao curso técnico. Mas ambos são universos legais, inclusive complementares. É importante ter o rigor e a sistematização do curso técnico, ao mesmo tempo que é importante ter a liberdade da faculdade de belas artes.

Quais são os artistas visuais, especificamente do mundo da música — artistas que idealizam artes de capa, cartazes —, que você mais gosta?

Eu gosto muito das ilustrações do Jad Fair, guitarrista do Half Japanese. Um outro artista-músico que me influencia bastante é o Billy Childish. Ele era cantor, guitarrista, compositor, e então virou pintor e passou a usar suas pinturas como capas de discos. Eu admiro muito os artistas visuais que são também músicos e participam de diversas etapas da produção de um disco — que compõem, executam, fazem a arte de capa. E eu sinto que isso está cada vez mais comum; eu faço isso há 20 anos, mas parece que essa geração nasceu meio faz-tudo.

Sim. E isso acontece não só em relação às artes visuais. Os músicos independentes têm se inserido em seus próprios trabalhos cada vez mais, em diversas etapas. Nota-se um crescimento significativo no número de músicos que gravam e produzem seus discos em casa, por exemplo; certamente em decorrência da facilidade promovida por avanços tecnológicos.

Sim, acho que isso tem relação principalmente com os smartphones. Antes disso nós gravávamos usando desktops, o que já era um excelente avanço, pois músicos independentes passaram a gravar e a produzir seus próprios trabalhos usando seus computadores pessoais. Eu comecei a gravar em casa porque gravei em estúdio e não gostei do resultado. A pessoa que está te produzindo tem que te conhecer, conhecer o que você gosta, conhecer a sua linguagem; e às vezes, quem está te produzindo é alguém que quer produzir o seu trabalho do jeito dele, e às vezes “o jeito dele” não tem nada a ver com o seu jeito. Por isso que o “faça-você-mesmo” é importante — ele te possibilita fazer algo que está de acordo com o que você gosta, com o que você acredita.

Você costuma julgar os discos pela capa? Você acha que discos com boas capas tendem a ser bons discos?

Aí é difícil! Não dá para julgar o disco pela capa, né? Mas tem alguns discos que parecem ser muito certeiros — você vê a capa e pensa “eu tenho certeza de que esse disco é bom”. Mas às vezes não é, às vezes a capa é muito boa e o disco é muito ruim. E às vezes a capa é muito ruim e o disco é do caralho!

Acho que é mais comum o disco bom com a capa ruim.

[Risos] É, acho que sim. Mas pensar nas capas dos discos é extremamente importante. Apesar de toda essa evolução tecnológica, materializar os discos ainda é bem caro e difícil. Prensar um vinil é um puta gasto! Então é importante pensar nessa possibilidade do material físico e fazer um trabalho bem-feito também visualmente, para que esse possível material físico possa ser valorizado — seu álbum pode vir a ser prensado em vinil, nunca se sabe. É engraçado ver discos antigos e perceber o quanto as capas deles são randômicas. Algumas capas de discos brasileiros que se tornaram clássicos parecem ter sido muito improvisadas, não houve um cuidado com a parte gráfica. Talvez se esses músicos soubessem que seus discos se tornariam clássicos, eles dariam mais atenção às suas capas.

Acho que as capas antigas brasileiras, especificamente as capas da jovem-guarda, eram meio narcisistas. Eram quase sempre fotos dos artistas, das bandas.

[Risos] Ah, isso também é legal! Existem umas capas muito boas nesse modelo também.

Lembrei que você tem umas capas assim.

Pois é [risos].

Nesse caso, retiro o que disse. Não é tão narcisista assim.

[Risos] No sertanejo também tem muitas capas nesse modelo, algumas muito estranhas. São capas tão ruins que são boas. Tem umas capas ótimas de Milionário & José Rico. Outro dia eu estava com alguns amigos vendo capas de Duduca & Dalvan. Eles têm um disco chamado “Massa Falida” que tem uma capa que nossa, cara… aquilo lá é muito extremo! Simplesmente não dá para entender.

Fale sobre a criação da Fonfon Records. De onde surgiu a necessidade de criar o seu próprio selo independente?

Ah, a Fonfon Records é o selo mais tosqueira do Sul. Ninguém queria lançar meus trabalhos, então juntei uma graninha e comecei a lançar meus próprios discos. Não criei o selo pensando que ele se tornaria algo grande, mas para divulgar o que faço. Se um dia eu montar um estúdio e gravar outras pessoas, talvez eu pense em idealizar um selo “de verdade”. Mas atualmente, ele funciona como uma espécie de acervo da minha própria produção.

E por mais despretensioso que seja, ele é mais bem-feito e cuidadoso do que muitos “selos de verdade” que eu conheço. O seu site é bem organizado!

Ah, que massa! Como comentei, eu gosto de usar esse site como uma espécie de acervo. É uma ferramenta legal para catalogar meus trabalhos e fazer uma clipagem do material sobre eles que sai nos veículos de comunicação.

Alguns de seus discos são de sua completa autoria — você compôs e executou todas as linhas instrumentais, fez a gravação, mixagem e masterização, idealizou a arte de capa e identidade visual e, por fim, divulgou e distribuiu o produto final. Você acredita que um processo como este, por ser extremamente independente, torna a obra mais sincera, mais pessoal?

Acho que “sinceridade” não é bem a palavra. Talvez sinceridade consigo mesmo, sim. Com o que você quer dizer, com o que você acredita. Porque você independe de opiniões externas — em processos como esse, ninguém vai te falar “olha, isso aqui não vai funcionar”, “isso aqui não pode ser assim”. Isso é legal. Por outro lado, você pode acabar ficando um pouco fechado. É sempre bom criar com outras pessoas também. Ambas as coisas podem ser legais. Eu também tenho bandas e componho com outras pessoas. A diferença é que quando crio com os outros, existe uma troca que não acontece quando crio sozinho. Eu comecei a tocar só para registrar as músicas que faço, pois não tenho o costume de escrever as minhas composições. Mas alguns desses registros me agradavam muito, então eu pensei, “por que não lançá-los em discos?”. Foi uma necessidade de documentação. A minha memória é muito ruim e eu não queria esquecer das coisas que estava fazendo. E nessa época eu já desenhava, então eu também fazia as artes de capa para esses discos; acabou sendo algo muito gostoso de fazer. Eu tenho uns 16 discos agora. 16? Nem me lembro de quantos discos eu tenho. Mas é por aí.

Você acha que atingiu o ápice da independência? Existe algo no processo de produção de um disco que você ainda não faz e gostaria de ter autonomia para fazer?

Nossa, existem muitas coisas. Como eu gravo e aprendi a gravar sozinho, eu desenvolvi um método de gravação que não sei se é certo; é muito intuitivo. Acho que se um dono de estúdio me visse fazendo algumas das coisas absurdas que eu faço, pensaria “nossa, velho, quê que esse maluco tá fazendo” [risos]. Eu não tenho muita noção de técnicas de gravação, a maior parte do que sei aprendi pesquisando sozinho. Algumas coisas eu aprendi com o [Marcus] Coelho, que é um amigo que tem um estúdio e toca comigo no Penitentes. Mas essas lacunas acabam sendo legais, pois eu sempre tenho algo para aprender. Cada disco é uma nova experiência. É um sentimento bom e ao mesmo tempo frustrante, porque você nunca consegue fazer exatamente o que você quer.

Para você, os avanços tecnológicos mais limitam ou ampliam o processo criativo do artista?

Que pergunta difícil! Eu acho que quanto mais a tecnologia avança, mais promove possibilidades. É um acúmulo de alternativas: você pode usar as novas tecnologias e isso não te impossibilita de experimentar também com as antigas. Eu gravo boa parte do que faço analogicamente e só uso instrumentos também analógicos; nunca experimentei usar MIDI, por exemplo. E tem algumas músicas antigas que são melhores do que muitas músicas atuais produzidas em estúdios fodidos, elas são quentes. Eu escuto umas músicas do T. Rex, por exemplo, e não faço ideia de como se faz digitalmente o que eles fizeram analogicamente. As gravações de rocksteady, da década de 1960, nossa… aquilo é muito espacial e poderoso! Mas eu gosto tanto das coisas analógicas quanto das coisas digitais, também gosto do híbrido entre os dois. A maior parte dos meus trabalhos foi produzida com equipamentos bem ruins, muitas vezes gravei direto na placa mãe. As facilidades que os avanços tecnológicos promovem acabam fazendo com que todo mundo tenha a impressão de que consegue fazer tudo. É um bombardeio de informação — quando todos estão fazendo tudo, nada parece tão importante. E a tecnologia também transforma a maneira de como as pessoas fazem música. Eu estava conversando com o Luis [Tissot] e ele me disse, “cara, as pessoas não querem mais tocar bateria porque moram em um apartamentozinho no centro da cidade e não têm espaço para ter uma bateria — por isso que elas preferem usar o computador”. Então eu acho que a maneira de como fazemos música depende muito das relações entre espaço e tecnologia. É difícil refletir sobre o que estamos vivendo hoje, talvez a gente possa falar melhor sobre isso daqui a uns 10 anos.

Você já abraçou o minimalismo ao ponto de gravar uma banda com cinco integrantes em um único canal, com um microfone encontrado no lixo — me refiro ao disco “Cavalera”, dos Penitentes. Para você, qual a importância de tentar fazer muito com pouco?

Isso é muito importante para mim, pois representa uma não-submissão ao sistema. Eu ouço algumas pessoas dizerem que você precisa do “instrumento x” ou do “instrumento y” para fazer um som legal, mas isso não existe. O som é tudo, vem de tudo; velho, eu uso coisas que encontro no lixo e utensílios de cozinha como instrumentos musicais! E sempre uso esse microfone que usei no “Cavalera”. É um microfoninho de lapela, é ridículo. É mais uma das minhas afrontas aos donos de estúdio [risos]. Mas agora eu tenho mais microfones além dele. Quando gravei o “Cavalera”, essa era a única possibilidade. Eu não tinha outra opção. Às vezes esse tipo de improvisação pode até tornar o som que você faz mais exótico, mais interessante; as pessoas ouvem e pensam “opa, que som é esse?”. Isso acaba criando uma estética própria, muita gente teve um processo criativo semelhante ao longo da história da música — no punk, no pós-punk, no começo do indie, lá na década de 1990. Somos apenas herdeiros desses artistas e de suas filosofias.

De onde surgiu o interesse pela sucata? Como você percebe que algo encontrado no lixo pode se tornar um instrumento musical interessante?

Esse interesse parte muito das minhas referências. Os discos do Tom Waits, por exemplo, têm um monte de percussão maluca. Isso tem muita relação com as monobandas que me influenciam também, como o Bob Log III. Eu observo os sets desses caras e eles são sempre uma doideira, você nem entende direito o que está rolando ali. O Doo Rag tocava com uma roda de trem. Eu tenho um amigo que tem uma monobanda chamada Slate Dump, uma vez nós tocamos juntos nos Estados Unidos. Ele vem de uma região de carvoaria, em que uma das principais atividades econômicas é a mineração de carvão — é uma atividade que causa muitos danos à natureza. Ele grava os sons da mineração para usar como paisagem sonora. É legal pegar sons que simbolizam algo e a partir deles construir um conceito para suas músicas.

Mesmo produzindo com tanta simplicidade, você tem uma identidade extremamente original e diferenciada. Dá para ouvir uma música e perceber que é sua. Conte-me seu segredo.

Ah, não tem segredo não! A minha identidade é muito baseada nas coisas que eu gosto de escutar. Eu tenho influência de vários artistas, principalmente do blues, punk e pós-punk, então quando vou compor, já tenho esse background — é como uma nuvem pessoal de referências, em que eu posso escolher quais usar conforme minhas necessidades. Por exemplo, eu tenho um disco chamado “The Relaxing Sounds From Tinsley Prison”, que assino sob o nome de Koti & Thee Immigrants. Foi um disco que idealizei depois que fiquei preso um dia na imigração. Quando eu voltei para o Brasil, pensei em fazer um disco com banjo; mas tocando como um charango, sem seguir o estilo norte-americano — seria um trabalho em que eu misturaria garage rock com reggae e alguns elementos latino-americanos, uma espécie de reggae invertido. Eu escrevi sobre prisão, sobre imigração e até sobre paganismo. Eu gosto muito desse disco; é um disco meio soturno, meio carregado. O conceito veio naturalmente, as letras e referências também. E cada álbum é uma nova atmosfera, eu gosto de estar sempre fazendo novas experimentações; meu trabalho em O Lendário Chucrobillyman mistura delta blues, garage rock e alguns elementos brasileiros. Quanto mais referências a sua nuvem tiver, mais original o seu trabalho vai ser. É importante estar sempre ampliando a sua nuvem, e é importante sair dela também. Isso pode ser meio difícil, mas sair da zona de conforto pode render ótimos resultados.

Você foi preso em Londres, é isso?

Fui. Eu estava indo tocar e eles me grampearam, pois eu não tinha o visto. Eu estava com uma guitarra nas costas e eles acharam que eu queria ficar por lá, morar lá, tocar na rua e não voltar nunca mais.  Dei muita sorte de ter ficado só um dia, mas foi um dia bem comprido.

Ser preso influenciou de alguma maneira na sua percepção sobre as coisas? Como?

Sim. Nesse dia, eu vi o quanto o mundo é excludente — eles nos excluem sem dó, eles querem nos mandar embora. É um controle feio, fascista. Eles prendem pessoas que às vezes só querem entrar para passear, trabalhar. Foi nesse dia em que percebi que não dá para andar por aí de boa e fazer o que você bem entender. Foi uma experiência boa… boa não, né, meu, uma merda! Na hora é muito ruim, não recomendo a ninguém, mas agora é bom, de certa forma. É uma experiência que sim, muda sim a sua percepção sobre as coisas. Lembro que, na prisão, me falaram “relaxa, depois você vai ter algo legal para contar para seus amigos”, aí pensei “ah, tá, que legal, hein…”. Eu preferia ter coisas mais legais para contar para meus amigos.

Li que você conheceu outros brasileiros na prisão e quis deixar seus discos para eles. É verdade?

Sim, é verdade! Eu queria muito ter feito isso. É engraçado que os brasileiros eram os únicos que riam e faziam piadas na prisão. Eu vi chineses, iranianos, paquistaneses e ninguém mais ria, ninguém mais fazia piadas, só os brasileiros. Realmente, o brasileiro é o único povo do mundo que continua rindo e fazendo piadas mesmo quando está afundado na merda. Um dos brasileiros com quem conversei me disse que estava lá há dois meses; iam deportá-lo e ele surtou no avião. Ele me pediu um disco meu, mas na prisão tiram tudo de você e você só entra na cela com um sabonete. Então ele disse que conhecia todo mundo daquele lugar, disse que ia falar com os policiais e pegar o disco. Ele se achava o dono da prisão [risos]!

Você lançou um disco chamado “O Chamado Dos Espíritos” sob a assinatura de “Koti & Os Grimpas”, com canções que refletem sobre o além-vida. O que você acha que acontece quando nós morremos? Você acredita em vida após a morte?

Eu acredito, acredito sim, mas acho que vamos para um lugar semelhante ao mundo dos mortais quando morremos. Na própria vida nós passamos por acontecimentos que parecem mortes e ressurreições, como pequenos ciclos dentro desse ciclo maior que é a vida. Nesse disco quis fazer algo sombrio, meio fantasmagórico, misturando country e garage rock. Eu gosto de muita coisa do dark country, a exemplo do Those Poor Bastards. É uma dupla da Virgínia Ocidental, se não me engano. Eles fazem uns discos muito bons, um gospel meio assombrado. É muito foda. Eles falam do inferno, do pecado, mas não de uma maneira cristã, religiosa — de uma maneira muito rock ‘n’ roll. Quis fazer algo semelhante aqui no Brasil, com letras em português.

Qual a sua ligação com espiritualidade? Você tem uma religião?

Eu não tenho religião, mas gosto do budismo e de filosofias orientais. A minha mãe é espírita, então tive muito contato com o espiritismo. Eu acho muito massa e também acredito em algumas coisas, mas não sou adepto. Eu gosto de conhecer as religiões e de me aproveitar do que é legal nelas.

Como um sincretismo.

Exatamente. Eu gosto de misturar religiões; assim, eu crio a minha própria religião.

Eu também percebo certa influência de histórias de terror em suas músicas.

Tem sim. Minhas letras são como roteiros de curtas-metragens. Eu só consigo escrever assim — eu gosto de músicas ilustrativas, que você escuta e consegue imaginar imagens.

Para finalizar. Você poderia falar um pouco sobre como está o cenário de música independente de Curitiba?

Aqui em Curitiba eu sempre vejo bandas novas que são formadas por pessoas que eu conheço há muito tempo, que tiveram muitas outras bandas. Eu não vejo muita renovação, não vejo tanta vontade por parte da galera mais nova, mas às vezes vejo adolescentes fazendo um som do caralho também. Aqui em Curitiba sempre teve um cenário bem forte de surf music, rockabilly e psychobilly, ele ainda existe, mas está um pouco mais fraco. Esse novo cenário está um pouco menor em comparação ao cenário anterior.

Confira as ilustrações e lançamentos de Klaus no site oficial da Fonfon Records…

http://www.koti.com.br/fonfon/

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