Empoderamento feminino, cultura negra e os cenários capixabas no rap das Melanina MCs

Melanina MCs
Melanina MCs

“Somos mulheres negras, nascidas e criadas em periferia, que fomos entender o feminismo na correria do dia a dia depois de bater muita cabeça”, conta a MC Mary Jane. E foi assim que se formou o grupo Melanina MCs, em 2013, buscando transmitir sua mensagem de empoderamento feminino, respeito à cultura negra e todas as coisas que devem ser valorizadas ou combatidas em sua área, a cidade de Vitória, no Espírito Santo.

Formada por Mary Jane, Lola, Geeh e Afari, a banda acaba de lançar o single “Cenários”, que ganhou clipe dirigido por Juane Vaillant. A música fará parte de “Sistema Feminino”, sucessor do EP “Tesouro Escondido”, lançado no ano passado. O disco de estreia do quarteto tem previsão de lançamento para este mês. “A gente se apresenta no disco, colocamos toda nossa essência nesse projeto e tentamos fazer com que fosse o mais plural possível. As músicas são sensíveis, mas ao mesmo tempo vem um tapa atrás do outro, porque é isso mesmo, sabe? O sistema feminino é uma rede e esperamos que cresça cada vez mais”, explica Geeh.

– Como a banda começou?

Lola: Duas de nós, eu e Mary Jane, através do convívio, descobrimos a cena cultural do rap no estado. Com o tempo formamos um grupo em 2013, a Geeh ja tinha envolvimento na cena, batalhava, somou no grupo e a Afari veio depois pra fechar o bonde (risos).

– Quais as principais influências do grupo?

Mary Jane: Desde que percebemos a importância de reconhecermos nossa identidade na música e ideológica ampliamos muito nossas influências. Somos mulheres negras, nascidas e criadas em periferia, que fomos entender o feminismo na correria do dia a dia depois de bater muita cabeça. Então hoje a gente tem como referência uma diversidade de nomes da música brasileira e internacional, ritmos pra além do rap e bandas da cena independente que conhecemos, mas que sobretudo dialogam com o que somos, gostamos de fazer e acreditamos. Bora citar uns nomes: diva Elza Soares, Flora Matos, Psalm One, Oshun, Ventre, Baco Exu do Blues, RZO.

– Vocês acabam de lançar o single “Cenários”. Podem me falar um pouco mais sobre o que esta música significa para vocês?

Afari: Essa foi uma das músicas mais marcantes pra nós, com certeza! Ali foi o momento de expor nosso cotidiano, o que pensamos, onde moramos e principalmente, nossa opinião mais sincera sobre todas as coisas que devem ser valorizadas e mudadas lá. Rotina mesmo sabe? Convidamos mais mulheres negras da Grande Vitória que são artistas e também vivem a correria de garantir o pouco de cada dia. Tivemos com a gente: dançarina, DJ, estilista, outras minas da música e por aí vai. E também não podemos deixar de citar o trabalho de todas as pessoas maravilhosas que fortaleceram a gente pra o som e o videoclipe. A participação da Anna Tréa, da Thaysa Pizzolato, Jone BL e do Henrique Paoli na faixa do single, além do trabalho do Rodolfo Simor, deram vida ao instrumental da música. O videoclipe nem se fala, né? Produção e equipe de audiovisual pesadona!

– Vocês são um grupo de rap, mas transitam por outros estilos. Quais estilos compõe o som da Melanina MCs?

Mary Jane: Nesse último projeto decidimos partir para músicas com composições mais orgânicas, tanto nos instrumentais, como nas letras. Todos esses detalhes têm influência do funk, do reggae e do rock, soul, músicas de raiz negra.

Melanina MCs

– O que podemos esperar do próximo disco, “Sistema Feminino”? Me falem como tá sendo a produção dele.

Geeh: O projeto desse disco foi muito especial. O disco é voltado pras mulheres, pra cultura negra, fala do cotidiano, o que vemos nele. Até por isso o processo das composições foi muito inspirador, fizemos nossas rimas pensando que poderiam ser de todas as mulheres. Mudou alguns conceitos, a estrutura das musicas, a naturalidade com que são transmitidas, e a pegada é bem mais orgânica do que de costume, isso deu uma nova identidade ao grupo. A gravação foi uma experiência nova, entendemos nesse processo o que era o sistema feminino na busca por autonomia e dia após dia fomos vendo o conceito do disco se materializar na produção, na equipe e entre nós. O que as pessoas podem esperar disso? A gente se apresenta no disco, colocamos toda nossa essência nesse projeto e tentamos fazer com que fosse o mais plural possível. As músicas são sensíveis, mas ao mesmo tempo vem um tapa atrás do outro, porque é isso mesmo, sabe? O sistema feminino é uma rede e esperamos que cresça cada vez mais.

– Podem me contar um pouco mais sobre “Tesouro Escondido”, do ano passado?

Lola: Tesouro Escondido foi nosso primeiro projeto divulgado. Foi ali que entendemos muito sobre nossa vontade de fortalecer nosso trabalho e viver dele. O lançamento foi exclusivamente virtual, mas chamou a atenção de muitas pessoas. Um grande passo pra nós do grupo, por ter marcado o fim de um ciclo, e o início de outro ainda melhor. Chegamos no “Sistema Feminino” através desse EP.

– Vocês são de Vitória, no Espírito Santo. Como é a cena do rap por aí?

Afari: A cena local é bem abrangente, mas é claro que poderia contar com mais investimento e políticas públicas pra fortalecer o rolê. Batalhas de MCs, apresentação de grupos de música, dança de rua, DJs, tudo isso tem enorme importância aqui e a galera reconhece. O público é fiel e comparece em todos os eventos, mobilizações e ações culturais. A cena do rap feminino ta crescendo agora, minas batalhando e se envolvendo cada vez mais, inclusive como grafiteiras e bgirls. Sentimos faltas de minas DJs, mas já temos visto várias botando a cara e aí ninguém vai segurar o bonde.

– Vocês tem uma proximidade com artistas da cena independente que inclusive não são do rap, como Anna Tréa, Larissa Conforto (Ventre), Carol Navarro (Supercombo), Gabriela Deptulski (My Magical Glowing Lens), Henrique Paoli (My Magical Glowing Lens/ André Prando) e Fepaschoal, que participam da gravação do disco. Como é hoje em dia essa miscigenação maior de estilos?

Lola: Durante a produção surgiram muitas influências, fomos da Dinna Di ao Baiana System, muitas referências novas mas sem perder a linha underground do rap. Então o disco passa pelo rap, o trap, o R&B, o soul e ritmos latinos. Nossa parceria com o Paoli vem desde o EP. Além disso, participamos de festivais que não eram da cena hihop e acabamos ficando próximas de minas e bandas de tudo quanto é tipo de música. Foi natural trazer essa galera e influências pro disco. Fizemos o pré-lançamento no SESC Glória aqui em Vitória e fomos acompanhadas por uma banda maravilhosa, a Thaysa Pizzolato nos teclados, a Maria Oliveira na guitarra, a Natalia Arrivabene na bateria e o DJ Jone BL, o único da cena do rap. A real é que essa diversidade somou muito e entendemos isso, então enquanto o Sistema Feminino rodar, nós vamos juntas nessa porrada de sons.

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– Quais os próximos passos da Melanina MCs?

Geeh: Bom, estamos planejando um lançamento pra logo! O disco ta no processo final, estamos só a ansiedade pra iniciar a circulação e mostrar o que saiu dessa roda de conversa. Estamos estudando alternativas pra apresentar o trabalho em outros estados, começando por São Paulo.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Todas: É muita gente, vamos lembrar de alguns: Rincon Sapiência, Flora Matos, Thassia Reis, Baco Exu do Blues, e tem o trampo novo do Fabriccio aí, sonzera demais!


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