#EmicidaAmarElo – O Theatro Municipal pintado de povo

#EmicidaAmarElo – O Theatro Municipal pintado de povo

28 de novembro de 2019 0 Por Pedro Vivas

Em show apoteótico, Emicida “pinta” o teatro de povo na primeira exibição da turnê AmarElo

 

Eram precisamente 4 horas da tarde quando descia o telão do Theatro Municipal de São Paulo exibindo o vídeo de “Silêncio”, parceria de Emicida com a Deezer que rendeu um belíssimo vídeo, concluído pela frase: “Quando todos querem falar, Silêncio é um convite à reflexão.”. O que veio depois desse momento de quietude, entretanto, foi uma explosão de sentimentos e sons construída de maneira cirúrgica pelo artista e sua excelente banda. Foi a primeira de duas exibições no Municipal, da turnê do disco “AmarElo”, lançado em outubro.

É verdade que “AmarElo” por si só é um ótimo disco, mas a performance ao vivo deu outros tons para a obra. A impressão posterior ao show é de que o álbum foi concebido para ser tocado nos palcos do Brasil e do mundo. Tudo soou muito orgânico e bateu forte. O abre alas da turnê já mostra que serão exibições históricas de um Emicida em momento iluminado.

No repertório do show, todas as músicas do recém lançado disco foram tocadas, conciliando com outros sons de todas as fases do artista, desde mais recentes, como “Pantera Negra” (2018), até as já clássicas do excelente “O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui” (2013), como “Levanta e Anda” e “Hoje cedo”.

Na parte “amarela”, destaque para “Ismália”, que já era uma das principais do disco e ganhou ainda mais potência ao vivo. Os versos antirracistas denunciaram, mais uma vez, o massacre diário da geração de jovens negras e negros que “quiseram tocar o céu, mas terminaram no chão”.

As participações também deram toque especial ao show, com destaque para Mc Tha, Drik Barbosa, Larissa Luz, Majur, Pabllo Vitar e Jé Santiago, nas mesmas faixas em que tocaram no disco. A entrada da dupla Majur e Pabllo talvez tenha sido o momento mais iluminado da noite, quando no meio do setlist a platéia ficou de pé e cantou junto o refrão do sampleado Belchior: “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” de “Sujeito de Sorte”. Foi emocionante. Quem fez muita falta foi Zeca Pagodinho… 

No bis, o começo do fim foi com a popular “Passarinhos”, seguida por algumas figurinhas repetidas da turnê “10 anos de Triunfo” (2018): “Gueto” e “A Chapa é Quente”. Leandro vira e brinca com a banda: “Acharam mesmo que a gente vinha pro municipal e não ia tocar essas?”. Pra finalizar, “Libre”, que fecha o “AmarElo” e o quase-mantra “Ubuntu Fristaili”, que fechou com a energia mais alta possível. O que restava de voz na garganta acabou no “axé pra quem é de axé”. 

O LOCAL

Não foi à toa que o primeiro local escolhido para a exibição da obra foi o Theatro Municipal. Em quase todas as falas que Emicida fez ao longo do show o componente do teatro se fez presente. Ironizou, quando disse para o público “se comportar, ter elegância” para aparecer nas fotos assim como os “homens brancos de cartola” nos quadros pendurados nas paredes do teatro. 

As conversas com o público mostravam que ele estava emocionado. Estar ali, naquele lugar construído e pensado para a elite, entoando seus versos antirracistas e libertadores. Duas frases dele marcam – o show seria “resultado de um sonho coletivo de gente que não tá nem encarnada mais e que tá presente aqui”. O que o show significa? “Hoje pegamos a nossa alma de volta e libertamos a de todos os nossos ancestrais”.

Inaugurado em 1911, o Theatro Municipal de São Paulo veio para atender os anseios da elite branca paulistana por música erudita. É revolucionário que um século depois ecoem pelas galerias, outrora brancas, versos igualmente revolucionários.  

ENSINAMENTO AOS AMERICANOS?

Em 2012, a (já) lenda do rap americano, Jay-Z, fez um concerto no Carnegie Hall, o que pode ser considerado o “Theatro Municipal” americano e nova iorquino. Como Emicida, ele colocou nas estacas brancas de um teatro da música “erudita” o som do hip-hop, das ruas. Embora tenha feito um show para ficar na história e marcante, uma grande diferença – ele cantou para a elite americana. Um povo alvo embasbacado em versos que para eles não faziam sentido. Os ingressos estavam nas casas das centenas e até mesmo milhares de dólares. Emicida não entrou nessa. O Theatro Municipal estava pintado de “amarelo”. Os ingressos, esgotados em minutos, tiveram preços acessíveis. 

Para quem não conseguiu ingressos, também ficou disponível um telão do lado de fora, exibindo o show na íntegra e de graça.

O cenário do show, por outro lado, teve um conjunto de “vitrais” tecnológicos, exibindo imagens de acordo com as temáticas das músicas. A estética, de modo interessante, lembrou a capa do filme “Jesus is King”, do disco de mesmo nome de Kanye West. O figurino também lembra em alguma medida as roupas do “Sunday Service”. Emicida, entretanto, não segue as mesmas direções políticas. Embora algumas canções sejam quase-orações, não existe temática “gospel” e, mais precisamente, não se faz presente o boné com dizeres “Make America Great Again” ou qualquer outra frase reacionária. Nem boné nem qualquer tipo de componente fascistoide. Muito pelo contrário.

VEREDITO

Show histórico, banda fenomenal, Emicida no auge. Os shows dessa turnê são imperdíveis.

BANDA:

Julio Fejuca (baixo, cavaquinho, violão e programações) também responsável pela produção musical do espetáculo – DJ Nyack, Michelle Cordeiro (guitarra) e Silvanny Rodriguez “Sivuca” (bateria e percussão).

SETLIST:

Ordem Natural das Coisas part. Mc Tha

Quem tem um amigo (Tem tudo)

Pequenas alegrias da vida adulta

Cananéia, Iguape e Ilha comprida

Baiana

Madagascar

Alma gêmea

9vinha part. Drika

Paisagem

Hoje cedo

Amarelo

Pantera Negra

Zica vai lá

Bang!

Eminência Parda part. Jé Santiago

Boa Esperança

Ismália

Levanta e Anda

Principia

BIS

Passarinhos

Gueto

A chapa é quente

Libre

Ubuntu Fristaili

LINKS e REFERÊNCIAS

https://theatromunicipal.org.br/pt-br/evento/emicida-lancamento-de-amarelo/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Theatro_Municipal_de_S%C3%A3o_Paulo