Em terreno bizarro: Rolling Stones – “Their Satanic Majesties Request” (1967)

Their Satanic Majesties Request

Bolachas Finas, por Victor José

O tema dessa coluna de hoje é certamente um dos discos mais injustamente subestimados do panteão do alto escalão do rock. Trata-se daquele que é o mais estranho álbum dos Stones, o controverso Their Satanic Majesties Request”.

Totalmente desconexo das raízes da banda – que sempre se manteve calcada no blues e suas vertentes mais próximas –, esse trabalho vem sendo assimilado com má vontade desde seu lançamento. Isso porque a imprensa insistiu em classificar esse LP como “uma resposta ao Sgt. Pepper`s”, o que é uma grande bobagem.

Além disso, a própria banda passava por um momento complicado. Embora para quase todo mundo da música pop 1967 tenha sido um ano mágico, para os Stones não foi bem assim. Brian Jones, Mick Jagger e Keith Richards haviam sido presos por porte de drogas, fazendo com que a fama de bad boys chegasse em um nível nocivo para eles, botando em cheque o futuro do trabalho que vinham fazendo.

Talvez as incertezas do momento tenham resvalado na obra, que ganhou uma forma bastante diferente de seu antecessor, o excelente Between The Buttons”, que por sua vez já era ligeiramente ousado se comparado com trabalhos anteriores.

Sim, a influência dos Beatles foi grande, tanto que os fab four estão na capa do álbum, escondidos. A homenagem foi uma forma de agradecimento, isso porque em “Sgt. Pepper’s”, lançado meses antes, continha uma boneca vestindo uma roupa com a escrita “Welcome The Rolling Stones”.

A ambição dos Stones com esse LP estava na vontade de “entrar na onda” da psicodelia, e mergulharam de cabeça, ao mesmo tempo em que não sabiam muito bem para onde ir. Aliás, esse é o primeiro trabalho da banda sem a produção de Andrew Loog Oldham, o empresário do grupo. Isso inclusive fez com que os Stones experimentassem ao máximo as capacidades de um estúdio, produzindo eles mesmos.

A começar por “Sing This All Together”, uma faixa meio bizarra com atmosfera hippie, cantanda num coro (pouca gente sabe, mas Paul McCartney e John Lennon estão lá) e acompanhada por uma parafernalha de instrumentos conduzidos por Brian Jones. Vale falar sobre a incrível capacidade de Brian de tirar som de praticamente qualquer instrumento. Nesse disco ele toca guitarra, violão, mellotron, órgão, percussão, trompete, flauta e sei lá mais o quê.

“Citadel” é um rock de primeira, carregada de peso e um riff encorpado, talvez a faixa que mais lembre Stones em todo o disco. A surreal “In Another Land” é a única música cantada e composta por Bill Wyman em todos os álbuns da banda. O vocal cheio de trêmolo, guiado por um cravo rococó, leva qualquer conhecedor superficial do trabalho da banda em um terreno completamente inexplorado. Aquilo está muito, mas muito longe de “Start Me Up”, por exemplo.

“2000 Man”, que chegou a ser regravada pelo Kiss, pousa no folk rock, fazendo dessa um dos melhores momentos do LP. “Sing This All Together (See What Happens)” é nada mais nada menos que piração, que acaba como uma espécie de reprise lento da faixa de abertura.

Chegamos na belíssima “She’s A Rainbow”, um grande êxito artístico dos Rolling Stones, com uma ajuda de John Paul Jones – sim, aquele do Led Zeppelin –, que fez os arranjos de cordas. Poucas vezes essa banda soou tão bela.

“The Lantern” apresenta uma proposta bem embalada de folk, mas que ganha cores de gospel com o piano de Nick Hopkins (músico de estúdio decisivo para a sonoroidade desse disco). “Gomper” flerta com a sonoridade oriental, que só ganhou vida por conta da parede de instrumentos que Brian Jones construiu, com sarode, cítara, dulcimer, baixo, órgão, flauta etc.

“2000 Light Years From Home” retoma o ritmo inconfundível da bateria de Charlie Watts mas com um pé no sci-fi. Um clássico da música psicodélica e considerado por muitos a primeira faixa de space rock. Por fim, “On With The Show” encerra o disco de maneira estranhíssima nos padrões de Stones com um Jagger todo circense, talvez já flertando com a ideia do antológico Rock and Roll Circus”.

“Their Satanic Majesties Request” foi concebido de maneira torta, sem direção, talvez por isso tenha resultado em um LP confuso – o que está longe de significar ruim – e vulnerável. A banda já mencionou algumas vezes que pouco antes da data do lançamento eles não tinham ideia do que lançar e que “Their Satanic” foi no fim das contas um catadão de gravações e pirações. Keith, Bill e Brian criticaram muitas vezes o disco, e até hoje não executam as músicas ao vivo (salvo raras vezes “She’s A Rainbow” e “2000 Light Years From Home”).

50 anos depois fui surpreendido pelo anúncio de um box especial comemorativo de “Their Satanic”… Será que mudaram de ideia ou seria apenas manobra caça-níquel de gravadora? Bom, o que eu sei é que sempre que falo desse disco por aí a reação é quase sempre entusiasmada. Eu, que tenho os Rolling Stones como banda favorita, vejo esse trabalho como algo extremamente inusitado, inédito e sim, muito bom em uma porção de momentos e positivamente curioso nas partes mais bizarras. Não existe nada como esse LP, e isso por si só é um triunfo. 1967 foi generoso até nos fracassos.


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