Duel citizenship: um pouco sobre a cena musical afro-irlandesa

Duel citizenship: um pouco sobre a cena musical afro-irlandesa

7 de novembro de 2019 0 Por Vítor Henrique Guimarães

A música é muita coisa: uma forma de se comunicar, de falar, de se expressar, um apanhado de notas musicais, uma infinita possibilidade de arranjos, de sons. Música é a circulação de uma mensagem, a difusão de uma ideia, é a potencialização da voz. Tem uma galera de origem africana na Irlanda que se apropriou muito bem disso. Vindos de diversos países do continente africana (Serra Leoa, Zimbábue, Zâmbia…), alguns artistas estão se unindo e se fortalecendo, criando uma cena identitária muito forte, potente e enraizada. Vou apresentar aqui uma lista o que achei de mais interessante nessa festa:

God Knows + mynameisjOhn

Num belo dia, um cristão zimbabuano (o MC God Knows) e um irlandês pagão (o produtor/beatmaker mynameisjOhn) se juntaram e resolveram mudar a cena hip-hop da Irlanda. Dessa fusão saíram alguns dos álbuns mais fortes e elogiados no país. O primeiro veio em 2014 com o nome Rusangano/Family”. Enquanto mynameisjOhn cria atmosferas de reinvindicação, lamentação e ânimo, God Knows versa sobre identidade, exclusão/inclusão, cultura e vida em músicas que referenciam de Shakespeare a Black Eyed Peas. É um disco de hip-hop completo, com flertes com sons africanos (e beats que lembram a primeira fase dos trabalhos do Sango – antes do funk) e que merece uma conferida pra já.

Open in Spotify

Destaques: “Standard”, “Habakkuk”, “Twentyfourseven”

Rusangano Family

God Knows e mynameisjOhn seguiram juntos e aumentaram a família com a adição do rapper togolês MuRli. Em 2016, o trio lançou o álbum Let The Dead Bury The Dead”, que foi sucesso de crítica e ainda levou o prêmio de Melhor Disco Irlandês de 2016 pelo RTE Choice Music Prize. É compreensível porque o disco é impecável: a mistura de intercontinental de sons fica ainda mais polida do que no álbum citado acima (a percussão de “Love in The Time of War” e “Soul Food” são bons exemplos disso) e os temas e letras estão ainda mais interessantes. A abre-alas é “Kierkegaard”, muito provável referência ao filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, tido como o primeiro a abordar o existencialismo na filosofia ocidental, tema que é tratado e relacionado à negritude e identidade ao longo do álbum; “Blabber Mouth” fala sobre as impressões familiares sobre a carreira de músico dos rappers (“My friend Ben’s son’s already tipped to become the Irish Obama / And all you do is making up lies on paper, calling it drama”); “Wisdom Teeth” debate sexismo e masculinidade; o refrão de “Politricks” bota o dedo na ferida sobre o quanto a política nos engessa na hora de fazer a coisa certa. Sobram referências diretas à etnicidade no álbum – em pelo menos duas faixas são citados os termos igbo e yoruba, dois povos da África Ocidental.

Os picos emocionais do disco estão na metade final: “Losing My French” condensa em uma música os temas imigração, (perda de) identidade e pertencimento (“when home become just a property”), contando com uma melodia dramática que atua como coadjuvante frente às histórias de vida de God Knows e MuRli. Já em “Isn’t Dinner Nice?”, quem tá com o microfone é Denise Chalia, que faz um incrível monólogo/desabafo feminista, trazendo fatos, momentos constrangedores de violência psicológica diários que mulheres de todas as idades passam no mundo inteiro. Um baita disco, um dos mais interessantes e indicáveis dessa década.

Destaques: “Blabber Mouth”, “Losing My French”, “Isn’t Dinner Nice?” (feat. Denise Chalia).

Denise Chaila

Depois de três anos colaborando com a Rusangano Family, em janeiro desse ano a Denise lançou duas músicas no EP Duel Citizenship”  – brincando com as palavras dual e duel, a primeira estando relacionada à “dupla cidadania” e a segunda demonstrando o conflito socioidentitário dessa mesma dupla nacionalidade. Denise é nascida na Zâmbia. “Where are you from originally?” é a pergunta que abre a faixa título, que é tranquilamente uma das músicas mais empoderadoras do ano. Denise consegue exceder a emoção que botou em “Isn’t Dinner Nice?” e mostra sua singularidade como letrista ao procurar responder de onde ela é, resgatando memórias e valorizando suas múltiplas raízes culturais e experiências de vida como imigrante. “We are the same stamp, with diferente leaves / Same love, with diferente means / Same heart, with different dreams. Same journey, just with different wings”. Porradão. A outra faixa é “Copper Bullet”, que segundo a própria é uma celebração de autoconfiança, um hino pessoal de alegria depois de um longo período de dúvidas e estagnação”. Ou seja, são duas músicas que chegam com os pés na porta.

Sim Simma Soundsystem

Sim Simma era uma festa que rolava em Dublin e que celebrava músicas de origens caribenha e africana. Depois que seus organizadores tiveram suas diferenças com organizadores de outras festas da cidade, eles incorporaram às suas atividades aulas de dança, yoga e outras práticas que enfatizavam o relaxamento ao som de músicas que poderiam ser pouco conhecidas ao público. Os organizadores são DJs e criaram esse coletivo chamado Sim Simma Soundsystem, que traz o dancehall jamaicano pra dançar com a cena hip-hop irlandesa. Já antenados, eles chamaram artistas como os já comentados God Knows e Denise Chaila, mas também Chilli Cherry e Breezy Ideygoke para lançar o EP Pass the Aux Cord”, em fevereiro desse ano. É como se Sean Paul ou Shaggy se propusessem a fazer uma parada mais década de 2010, política e misteriosa. E é sucesso.

Destaques: “Pass the Aux Cord” (feat. God Knows), “Man Like Me” (feat. Denise Chalia) (uma das melhores e mais empolgantes do ano), “Cats & Dogs” (feat. Chilli Cherry).

Fedah

Saindo um pouco do hip-hop e botando a mente e o corpo pra descansar, a gente chega na Fehdah, nome artístico de Emma Garnett. Vive na Irlanda, mas é de origem e passou parte da infância na Gâmbia e em Serra Leoa. Ela e os dois irmãos foram desde sempre encorajados pelos pais a aprenderem a tocar instrumentos musicais e assim se foi. Ela aprendeu a tocar flauta, violino, piano. Amante da música dessa região da África, os sons que ela cresceu ouvindo acabaram se imprimindo na maneira como ela pensa e faz música: o violão que surge inesperadamente em “Like No Other” te faz pensar em tocadores de kora como Toumani Diabaté e Ali Farka Touré. Já o riff de “Money” lembra alguns outros do rockstar nigeriano Keziah Jones. E isso eu digo apenas do EP Like No Other”, lançado em 2017. Não falei nem das empolgadíssimas “Saharakungoh” e “Buffer Fly”, essa última em parceria com sua irmã Loah. Vale citar também “Follow The Sound”, do Kean Kavanagh, onde ela faz participação especial, que super poderia estar tocando em várias festas por aí.

Destaques: “Like No Other”, “Saharakungoh”, “Money”

Loah

Provavelmente a artista mais versátil dessa lista. Só na faixa título de seu EP This Heart” (2017), ela pincela um violão que te transporta pro clássico “Spanish Guitar”, da Toni Braxton, e canta em inglês, latim e krio (da Serra Leoa); vai full rock’n’roll em “The Bailey”, onde critica a relação conflituosa entre intuição individual e governo (“this is love, this is government / these are twenty-four o four seven sins”); ainda sobra pro blues folkeado em “Unveiled”. Nesse ano ela lançou a deliciosa e envolvente “April Brave”, em parceria com o produtor irlandês Bantum. Ela é praticamente Midas: não faz nada de ruim. Garantia certa. E um bônus: a irmã Fehdah faz backing vocal em “Nothing”.

Destaques: “The Bailey”, “Cortége”, “April Brave”

__________________________________________________________________________________________________________________

Na real, a galera tá se juntando, se apoiando e se fazendo crescer. E isso é bonito pra cacete. É Ubuntu. É um fazendo a voz do outro ser escutada, replicada. Ser imigrante é deixar um pouco de si em todos os lugares por onde se passa, mas também carregar em si uma gama de experiências marcadoras de identidade que são invisíveis num esbarrão na rua. E isso é forte, é potente. E é o que essa galera tá fazendo, num momento onde isso é extremamente necessário.