Donnie Darko: A lua sangrenta, o coelho das trevas e a trilha apocalíptica para o fim do mundo

Donnie Darko
arte por Rogue Wombat

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Filmes muitas vezes por mais ~sessão da tarde~ que aparentem ser, podem conter trilhas sonoras um tanto quanto maravilhosas e cheias de pérolas musicais. Alguns são mais lembrados que outros, outros são imortalizados por alguma espécie de cult hype.

Donnie Darko (2001)

E esse é o caso de Donnie Darko!

Eu sei que alguns amam esse filme e outros ficam confusos, tanto com a trama quanto por seu desfecho. O filme de 2001 mescla estilos como ficção científica, drama e terror e não teve sucesso comercial imediato. Porém, com o passar dos anos, numa espécie de boca-a-boca, foi resgatado e ganhou ares de “clásssico cult”.

Boa parte disso é por conta da obra ser a primeira aventura cinematográfica de Richard Kelly. O filme chegou até a estrelar e ganhar várias premiações técnicas pela trama, e principalmente por ela… Sua incrível e respeitável trilha sonora.

Mas antes disso, vamos falar do elenco de Donnie Darko, afinal de contas ele é de tamanho respeito – e de dar inveja a muito filme vencedor de Oscar. Quem ainda jovem teve a árdua tarefa de interpretar o neurótico Donnie foi ninguém mais, ninguém menos que Jake Gyllenhaal (de Brokeback Mountain, pelo qual foi indicado ao Oscar como melhor ator coadjuvante, Prince Of Persia: The Sands Of Time e O Dia Depois de Amanhã e da comédia Jimmy Bolha). O crítico de cinema Gary Mairs (CultureVulture.net) comenta:

“Gyllenhaal alça o truque difícil de parecer tanto uma pessoa suavemente normal como uma profundamente perturbada, frequentemente dentro de uma mesma cena”.

O elenco ainda conta com Drew Barrymore (E.T. (1985), Pânico, As Panteras, Batman Forever, Como Se Fosse A Primeira Vez), Ashley Tisdale (Cantora e atriz com participação em High School Musical, Todo Mundo Em Pânico 5 e vozes em Vida de Inseto e Phineas And Ferb), Noah Wyle (Piratas do Vale do Silício e do seriado de TV E.R.), Maggie Gyllenhaal (irmã de Jake e participou de vários filmes, incluindo Mais Estranho que a Ficção e Batman: The Dark Knight), Jena Malone (Jogos Vorazes, Batman Vs. Superman, Suckerpunch), Mary McDonnell (Independence Day, Pânico 4, E.R.), Daveigh Chase (O Chamado, Lilo & Stitch, Inteligência Artificial) e o ator mais icônico das décadas de 80/90, que infelizmente nos deixou, devido a um câncer, em 2009: Patrick Swayze.

Ou seja, só pelos filmes citados – alguns grandes trabalhos e atuações, outros alguns grandes blockbusters – percebemos que o filme ajudou a revelar para o mundo grandes nomes do cinema dos 00’s.

SUIT

A história de Donnie Darko se desenvolve numa cidade suburbana estadounidense, no fim dos anos 80. Donnie, é um garoto considerado problemático que inclusive já foi preso por atear fogo na casa de sua família. Certa noite, um coelho gigante todo dark ~maligno~ acorda Donnie, e o leva até um campo de golf onde ele passa a noite. Quando acorda, descobre que o coelho na verdade salvou sua vida, pois naquele noite uma turbina de avião despencou do céu caindo exatamente em sua cama. Numa espécie de Alice no País das Maravilhas, o coelho profetiza que o mundo acabará em 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos.

Tempo

Ouriçado, Donnie começa a aventura de tentar desvendar todo mistério por trás das intenções do coelho perverso. E faz todas as “loucuras” que o coelho lhe pede, como destruir o encanamento da escola durante a noite – o que causa uma enchente em grandes proporções, e queimar a casa de um palestrante motivacional.

Nessa fase nebulosa, ele questiona ao coelho se ele acredita em viagem no tempo. A partir disso, ele fica entusiasmado pelo tema e pesquisa sem parar sobre, inclusive entrando no campo de teorias de física quântica, tirando as dúvidas com seu professor. Tudo isso tendo como base o livro do lendário lorde do terror Stephen King, Uma Breve História do Tempo.

Curiosidade: O diretor Richard Kelly é filho de um físico da NASA. Ou seja, toda essa “brisa” tem sim fundamento científico qualificado. Não foi apenas uma discussão jogada ao vento.

O professor, por sua vez, vendo este interesse de Donnie, indica o livro que começa a pautar sua vida e as coincidências: o filosófico Filosofia da Viagem no Tempo – escrito por uma vizinha idosa do protagonista, Roberta Sparrow. Sendo assim, Donnie Darko é sobre o tema filosófico do existencialismo. Sobre o que é o mundo real, a noção de espaço metafísico e uma crítica sobre como vivemos nossa vida. Em certo momento do famoso diálogo entre o Coelho e Donnie podemos notar essa discussão:

“- Por que você usa essa fantasia idiota de coelho? – Por que você está vestindo essa fantasia ridícula de homem?”

O filme também tenta ditar como será o futuro de uma maneira um tanto quanto orgânica, graças às habilidades de Donnie, que através de uma bolha quase líquida que sai do seu peito indica o caminho a ser seguido.

O conflito entre o destino e o livre arbítrio. A história sobre um anti-herói que vive além dos dramas adolescentes, atrelado a um senso crítico, metódico e calculista sobre a realidade. O que só serve de combustível para se rebelar contra ela.

Como disse, o filme é um pouco complicado para quem acha que vai ser um blockbuster óbvio. Tanto é que no site do filme, após seu relançamento (2004), foram colocados trechos do livro Filosofia da Viagem no Tempo para melhor compreensão. No Youtube podemos encontrar diversos vídeos tentando ajudar os mais ~perdidos~.

PS: O vídeo abaixo contém SPOILERS. Veja apenas se já tiver assistido o filme:

A Trilha

Mas estamos para falar sobre a trilha e não para confundir vocês. E ela, meu amigo, é demais. Lançada em 2002, contando as faixas da primeira versão do filme, contém 18 canções, sendo 16 delas autorais por Michael Andrews e a originalmente escrita pelo Tears For Fears “Mad World”, originalmente na trilha de 2001 performada por Gary Jules e Michael Andrews.

Inclusive, “Mad World”, escrita por Roland Orzabel e lançada em 1982 no álbum “The Hurting” foi influenciada pelo escritor Arthur Janov,  que escreveu Primal Therapy: The Cure for Neurosis”datado de 1970, onde relata suas experiências com seus pacientes durante os meses da descoberta da terapia do grito primal.

O método “Primal Therapy” criado por Arthur argumenta que a neurose é causada pela repressão da dor durante o período da juventude, o que faz com que quem sofre dela entre num ciclo eterno em re-experimentar toda a dor que ele sentiu e foi de certa forma armazenada no subconsciente. Ou seja, é uma terapia um tanto quanto masoquista, visto que se baseia em voltar a sofrer para enfrentar seus traumas, frustrações, raivas, histeria e violência.

Algo que nos ajuda de forma involuntária a entender perfeitamente a paranoia de Donnie Darko. Sim, a música poderia facilmente ter sido composta pelo R.E.M.

Donnie Darko (2002): Soundtrack por Michael Andrews

“Carpathian Ridge” – 1:35
“The Tangent Universe” – 1:50
“The Artifact and Living” – 2:30
“Middlesex Times” – 1:41
“Manipulated Living” – 2:08
“Philosophy of Time Travel” – 2:02
“Liquid Spear Waltz” – 1:32
“Gretchen Ross” – 0:51
“Burn It to the Ground” – 1:58
“Slipping Away” – 1:17
“Rosie Darko” – 1:25
“Cellar Door” – 1:03
“Ensurance Trap” – 3:11
“Waltz in the 4th Dimension” – 2:46
“Time Travel” – 3:01
“Did You Know Him?” – 1:46
“Mad World” (regravação da música original de Tears For Fears) – 3:08
“Mad World (Alternate Mix)” (regravação da música original de Tears For Fears) – 3:37

Porém, o disco que estamos aqui para revisitar e encher de elogios é Donnie Darko (2004): Disc 2. Este que coincidiu com o relançamento de Donnie Darko, em 2004, e foi lançado como expansão de sua trilha sonora. Ele conta com hits dos anos 80 que são a marca registrada do filme cult. Vamos analisá-las então!

De cara temos “Never Tear Us Apart” do INXS. A banda australiana de 1977 perdeu seu vocalista 20 anos depois em uma morte – estranha – em um motel, envolvendo práticas sexuais nada ortodoxas segundo alguns. Outros dizem que ele tinha mesmo era uma doença grave – e resolveu por um ponto final em sua vida. A banda encerrou suas atividades em 2012. A canção é linda e perturbada, ou seja, perfeita para a profundidade da narrativa de Donnie Darko. O sax tem um ar de morte e ecoa diretamente em sua alma, na melancólica balada.

O Tears For Fears vem em seguida para arrepiar ainda mais. “Head Over Heels” cria uma atmosfera ainda mais intimista e desesperada, soando como um conflito desde o começo de sua melodia. Ao ouvir essa música a primeira coisa que me remete é um fim de tarde de domingo chuvoso, ou seja, uma bela de uma fossa.

Para nos jogar nos subúrbios dos anos 80, na mesma linha de New Model Army, vem “Under The Milky Way”, single de 1988 do The Church, com um certo cheiro de morte e elementos que marcaram a década. Solos precisos na linha dark wave e neo-psicodelia aliados a uma interessante gaita de fole… uma viagem no tempo.

Em seguida temos duas faixas compostas por Sam Bauer e Gerard Bauer. A instrumental “Lucid Memory” conta com guitarradas e percussão com cara de trilha sonora de video-game. Já “Lucid Assembly” vem numa levada 8-Bits que me remete a esse vídeo feito por fãs da trama:

Logo depois vem a fantástica ópera “Ave Maria” composta por Giulio Caccini & Paul Prichard, em uma vibe completamente pós-apocalíptica. A bonita canção é capaz de destruir bem mais do que a turbina do avião da trama. Aliás, é bem paradoxal termos essa música na trilha, já que o filme questiona a religiosidade e a hipocrisia familiar.

Talvez a música responsável por um dos momentos mais dramáticos do roteiro seja “For Whom The Bell Tolls”. Não, não estou falando da canção do Metallica, e sim a erudita canção do duo Steve Baker & Carmen Dave. Ao final da canção você se questiona: porque você está usando essa estúpida fantasia de homem?

Ainda na linha mais Enya, temos Quito Colayco e Tony Hertz com “Show Me [Part. 1]”, com uma densa cantiga erudita. Nesta altura o tom dramático e existencial ganha outro nível de densidade. Tudo para logo depois te colocar na pista de dança ao som do potente baixo a la Flea de “Notorious”, do Duran Duran. Quer mais anos 80 que isso? Impossível. Clássico demais, a chance de você colocar no VH1 e estar passando o clipe é razoavelmente significativa. Hit que lota as festas Trash 80’s, sem sombra de dúvidas. Neste momento você se vê vestindo ombreiras e dançando com o manequim da loja que estiver passando o video.

Chover no molhado é elogiar “Stay” do Oingo Boingo. Baita canção né? Daquelas que te colocam no DeLorean a caminho dos anos 80. A balada romântica tem uma levada que brinca com a temática country e fez a alegria das pistas de dança da época. Tem até metais que me remetem ao belo ska do Madness – e sua loucura, literalmente.

Para quebrar as pernas de todo mundo, a trilha ainda tem algo para culminar com o desfecho de nosso amigo Donnie: “Love Will Tear Us Apart” do Joy Division. Um filme sobre os anos 80 com trilha post-punk e personagem com esquizofrenia não poderia JAMAIS deixar este clássico de fora. Um tremendo gol de letra da trilha. Para fechar o disco com muita dignidade e vendo o mundo desabar, nada mais NADA como “The Killing Moon”. Cheia de trevas, escuridão, apocalipse e veneno, o hit do Echo & The Bunnymen é talvez a mais lembrada e querida pelos fãs.

Em 2009 saiu uma espécie de sequência do filme, S. Darko – Um Conto de Donnie Darko, esta focada na vida da irmã de Donnie, Samantha (Daveigh Chase). A sequência foi trucidada pela crítica e não tem quaisquer relação com a obra de Richard Kelly, segundo ele mesmo. A direção do fiasco ficou por conta de Chris Fisher. Mas como não se vive do passado, vai aí uma dica para fãs da série: em março deste ano a DarkSide Books lançou uma nova edição do livro Donnie Darko. Segundo amigos que já compraram, além da incrível capa, a obra vem com um marcador de página do avião do filme. Demais, né?

O livro Donnie Darko foi lançado recentemente no país pela editora DarkSide Books
O livro Donnie Darko foi lançado recentemente no país pela editora DarkSide Books

2 thoughts on “Donnie Darko: A lua sangrenta, o coelho das trevas e a trilha apocalíptica para o fim do mundo”

  1. Só uma correção, o livro “Uma Breve História do Tempo” é do físico Stephen Hawking, e não de Stephen King.
    Mas, de resto, o texto está incrível, muito explicativo e me ajudou bastante a entender essa magnífica história.

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