DIABeth, de Feira de Santana, prepara seu primeiro EP, “Amostra Para Sangue de Barata, Uma Dose de Coragem”

DIABeth, de Feira de Santana, prepara seu primeiro EP, “Amostra Para Sangue de Barata, Uma Dose de Coragem”

16 de dezembro de 2015 0 Por João Pedro Ramos

A banda DIABeth surgiu de rascunhos no caderno da vocalista Leinne Portugal. Essas experiências rabiscadas se tornaram realidade depois de uma pesquisa pela cena underground de Feira de Santana, na Bahia, onde angariou seu companheiros Herivelton Beirão (Bateria), Orlando Carlos (Guitarra) e Vitor Oliveira (Baixo). O nome da banda veio de um dos rascunhos com a história de uma personagem chamada Beth, que levava a vida dentro do quarto que em um determinado momento acordou, se desprendeu das correntes do medo e passou a viver e incomodar as pessoas pelo modo que ela tanto gostaria de viver. DIABeth representa o “dia” que Beth despertou para a vida e o apelido que ela recebeu dos vizinhos e de todos que se incomodaram com o seu despertar.

Os primeiros materiais como banda foram lançados em 2015: as músicas “Passageira” e “Pimenta”, que fazem parte do EP “Amostra Pra Sangue de Barata, Uma Dose de Coragem”, programado para 2016. Conversei com a banda sobre sua carreira, suas influências, a cena atual do rock nordestino e o formato “ópera-rock” das canções da banda:

– Como surgiu a banda DIABeth?

Começo já agradecendo imensamente pelo espaço no blog Crush em Hi-Fi. A vontade em mim já existia há anos, em 2012 comecei a procurar pessoas com o mesmo interesse, inicialmente formei com outros membros o que na época carregava o nome de Espelho de Repúdio. Queria mesclar horror punk com som mais alternativo, o que não durou muito tempo, mas algumas letras estão guardadas em meus cadernos empoeirados até hoje. A DIABeth montamos em 2013, já pensando em colocá-la num festival que comecei a organizar com um grande amigo meu, o Magno (todo dia 13 de Julho é aniversário da DIABeth graças ao festival Rock Para Gente Grande), daí acabou que recrutei dois vocalistas, um da Back To The Classic (Vitor Oliveira) e outro da A Gaiola de Vidro (Herivelton Beirão), que se tornaram meus baixista e baterista, respectivamente, e como toco guitarra no projeto deles também, unimos forças, daí acrescentamos o Orlando pra me auxiliar na guitarra. E com essa formação seguimos até hoje.

– A cena do rock nordestino é forte hoje em dia?

Sem dúvida, desde o Rock Alternativo ao Metal podemos citar várias bandas nordestinas que vem ganhando mais força no decorrer dos anos: Malefactor, The Baggios, Vivendo do Ócio, Maglore, Declinium, Human, Scambo, Novelta, Calafrio… E há sim um público grande e ativo por aqui que chega junto e soma aos esforços de bandas, organizadores de eventos e afins, a manutenção disso tudo por conta do apoio um tanto escasso é que pega no pé de muitos produtores, que por serem muito persistentes não desistem fácil não. Só em minha cidade, Feira de Santana, posso citar 3 festivais anuais que movimentam de forma super positiva tanto o Rock e cultura alternativa local quanto de diversas partes do Brasil: o Feira Noise Festival, November’s Rock, Rock Para gente Grande, fora diversos eventos de menor porte que não deixam de ter sua importância por aqui.

– Quais as suas principais influências musicais?

Minhas influências vem de vertentes distintas, a banda que de fato me influenciou a aprender guitarra foi o Blink 182, que pra alguns só é um bando de moleques com músicas imaturas, mas que me trouxe humor, frustrações cotidianas, uma energia que ainda me toma quando coloco os álbuns pra tocar, meu baterista favorito (Travis Barker) e claro, o vício por acordes oitavados em minhas músicas; a melancolia carregada de inocência do The Cure, o Smashing Pumpkins, banda que costumo dizer que faz mágica e não apenas música (o Billy Corgan é mestre nisso); embora muitos torçam o nariz, o Slipknot é uma de minhas influências também (da série “coisas da adolescência que não me abandonaram), não que eu o coloque de forma direta em minhas músicas, drive na voz, nem nada disso, mas busco colocar minhas feridas no que escrevo, pode até sair pús de tão reais que muitas de minhas letras são, mas procuro ser honesta nesse quesito e eles incomodam e são amados por muitos por isso. David Bowie é de fato uma referência que me mostrou o que é liderar e idealizar algo na música, pensando alto mesmo, entre esquisitices e sofisticação ele ousou sem receios e isso me inspira muito, além de sua própria obra incrível.

– As músicas estão seguindo um formato meio “ópera-rock”, contando uma história, certo?

Todas as minhas músicas contam uma história e no fim todas fazem parte da mesma, se é que consegue me entender. Busco incluir temas reais, que vivenciei, que observo nas outras pessoas e que foram cruciais até no meu interesse e atitude de formar minha banda. Há temáticas que certamente permanecerão rondando nossas músicas no decorrer dos anos, até porque DIABeth representa o “dia do despertar da Beth”, Beth essa que pode ser uma garota, um garoto, um cara adulto, qualquer pessoa que tenha percebido que idealizava mais do que costumava colocar em prática, qualquer pessoa que se deixou enclausurar pelas inseguranças, pelo medo como ensinamento diário pelos próprios familiares e que quer passar ou passou por cima disso tudo pra vivenciar o que tanto sonha. Enfim, quero falar dessas coisas porque tenho certeza de que não só eu passei e passo por isso e esse “despertar” nunca será de um dia pro outro, eu mesma posso dizer que plantar, cultivar e colher a própria coragem não é algo fácil, há dias que a gente tenta camuflar o medo com uma coisa chamada VONTADE e encara as coisas mesmo com as pernas tremendo.

DIABeth

– Como é seu processo de composição?

Tudo começa com minha pessoa, meu violão e notebook (já faz um bom tempo que deixei o papel e caneta um tanto de lado), na grande maioria das vezes dentro de meu quarto super bagunçado. Em dias de mente fértil, escrevo músicas inteiras, daí o corpo da melodia e alguns backings acabam vindo junto também. Gravo tudo num programa, já que não dá pra confiar 100% que eu vá lembrar da melodia de um dia pro outro e já perdi boas músicas por confiar apenas em minha mente, daí o restante do processo, sento com os rapazes da banda e desenvolvemos juntos (baixo, bateria, segunda guitarra e por aí vai).

– Quais são as principais vantagens e dificuldades de ser uma banda independente?

A liberdade de experimentar ideias, de fazer um som mais despretensioso é bem maior quando a banda é independente, não há coleiras, somos cachorros soltos mesmo, com a língua pra fora de exaustão e de alegria também. O lado complicado é que pagamos até o que não temos pra “viver a música” e não “viver da música”, que é a esperança de cada um que se joga de cabeça nessa aventura.

– O machismo ainda atrapalha bandas capitaneadas por mulheres?

Só digo uma coisa em relação a isso: só atrapalha se a mulher deixar e abaixar a cabeça pra isso. Quando ela prova que tá na música pra valer e se impõe como tal, qualquer resquício de machismo vai por água abaixo. A gente tem que mostrar competência de fato, mostrar que somos mais que rostos, peitos e coxas grossas em cima de um palco, independente de quão expostos eles estejam. O respeito na música é conquistado com muita luta e mostrando serviço, independente de sexo. Se não tem medo de quebrar a unha, de estragar a chapinha com o suor da maratona de shows, se sua guitarra não é pra enfeitar o quarto, então, simbora! Que o que vem pela frente é bem mais desafiador.

– A banda diz não pertencer a nenhuma vertente musical. Como você definiria seu som?

O fato de não definirmos nosso som vem da observação do muito que já foi feito em comparação com o que a gente faz. Daí nos demos conta de que DIABeth não se encaixa em nada disso (indie, grunge, hardcore, emocore, gothic rock ou sei lá mais o que). Já citaram algumas bandas que consideraram parecidas com nosso som, mas não conseguimos concordar com nenhum comentário até hoje. O som que fazemos é uma mescla do que nossas influências acrescentaram a nós e de nossa criatividade espontânea, a única coisa que cheguei a definir foi: temáticas que estarão mais presentes em minhas composições. Já chegamos a aceitar que chamem de rock alternativo, foi a única vertente que soou confortável para o que fazemos, já que nossas influências são variadíssimas e não escolhemos nenhuma delas para ser nosso norte em relação ao que desenvolvemos com a DIABeth. Mas damos brechas para que tirem suas próprias conclusões em relação a isso.

DIABeth

– Quais são os planos da banda para 2016?

Como em 2015 entramos em estúdio pela primeira vez e foi uma baita escola pra gente, já que aprendemos mais com os erros do que com os acertos dessa experiência que resultou num conjunto de três músicas, que rotulamos como EP “Amostra Pra Sangue de Barata, Uma Dose de Coragem”, a gente quer voltar pro estúdio de forma mais segura em 2016, regravar algumas coisas, acrescentar músicas nossas mais recentes e soltar um EP com uma proposta mais sólida e depois, tocar, tocar e tocar pra expandir cada vez mais nosso som.

– Recomende bandas ou artistas (de preferência independentes) que tenham chamado sua atenção nos últimos tempos!

Há poucos meses atrás me surpreendi de forma certeira com o som da Circo de Marvin (banda de Salvador – BA) ao ouvir o CD “Modo Hard”. Senti aquela explosão do rock nacional novinho em folha e cheio de gás pra mandar muita verdade em meio a groovadas de primeira linha por aí. Já que estou respirando as lembranças do último Feira Noise Festival que trouxe nos dias 27, 28 e 29 de novembro grandes nomes da nova safra do rock nacional, fiquei de queixo caído com a Plástico Lunar, banda sergipana com um pé bem firme na psicodelia e com músicos incríveis que te arrebatam automaticamente (incluo a Far From Alaska, que também esteve presente no mesmo festival e o efeito foi no mesmo caminho, e a Boogarins, que não tocou no festival, mas o som também me arrebatou recentemente ).
Não poderia deixar de citar o som do Aletrix, que conheci através do Magno, tanto o som como o idealizador do projeto, o Alê Lima. Uma proposta ousada, que pra alguns pode soar como birras de um cara que odeia tudo e todos, mas ele só destaca de forma ácida, sarcástica, a partir do seu ponto de vista, o que absorve do que percebe ao seu redor e considera interessante salientar em suas músicas. Uma das que fogem desse esquema é a “Louie Louie Chuva Dourada”, que posso considerar um horror-indie (não manjo bem de nomenclaturas, mas é por aí, pelo menos no que diz respeito a letra (risos)). Não tem como não rir e se sentir vingado ouvindo o álbum “Herpes aos Hipsters”, já que alguma situação presente no álbum, ou quase todas, você pode ter vivenciado, ou presenciado, o que dói menos.