Desperte a lua em você com Linda Perhacs, “Moons and Cattails” (1970)

Linda Perhacs
Linda Perhacs

A canção cantarolada de hoje, “Moons and Cattails”, está em um dos discos mais femininos que já ouvi, o Parallelograms” (1970), de Linda Perhacs. É o primeiro disco dela, que, assim como a Vashti Bunyan, só lançaria seu próximo álbum mais de 40 anos depois, em 2014.

Uma das coisas que mais gosto desse disco é que a energia feminina nas músicas é escancarada e colocada como protagonista. Mas antes de falar da música em si, só vou esclarecer rápida e superficialmente o que será considerado aqui neste texto como “energia feminina” ou “energia masculina”.

Lembremos que todos nós – assim como todas as coisas na Natureza – carregamos tanto energias masculinas quanto femininas. Algumas características de cada energia podem aparecer mais ou aparecer menos em cada indivíduo, o que não tem nada a ver com gênero ou sexualidade. Nossos aspectos masculinos, associados ao arquétipo do Sol, ou energia yang, seriam no sentido da iniciativa, ação, objetividade, proteção, poder, inteligência intelectual. Em desequilíbrio, podem levar à agressividade, opressão, violência, frieza, rigidez, etc. Já nossos aspectos femininos, representados pela Lua, ou energia yin, têm a ver com a nutrição, beleza, receptividade, sedução, acolhimento, sensibilidade, conexão com a Natureza. O desequilíbrio da energia feminina pode nos levar à fúria absoluta e irracional, assim como a uma excessiva passividade.

Logo de cara, dá para perceber que o nosso modo de vida, baseado no patriarcado, faz com que essas energias sejam desequilibradas em cada um de nós, de modo que temos essas energias polarizadas e em conflito. No caso, vivemos em uma lógica que tem em vista e prestigia muito mais aspectos masculinos do que femininos, resultando nos problemas todos que conhecemos muito bem, desde a opressão do machismo, até a nossa desconexão com a natureza.

Mas o que isso tem a ver com a canção “Moons and Cattails”, da Linda Perhacs? Primeiro, porque sua voz é completamente feminina, sem medo de parecer frágil e sem grandes arrobos técnicos, e ainda assim é forte e acolhedora. Mas, principalmente, esta canção remete tipicamente ao universo da “bruxaria”, ou de rituais ancestrais pagãos. A ideia da “bruxa” – historicamente atribuída como algo pejorativo, reforçando o desequilíbrio que falei acima – é tipicamente feminina, e vive em total congruência com a natureza, observando seus fenômenos e os aplicando na vida. Não à toa, as canções desse disco foram escritas por ela após um período de imersão no mato.

Nessa canção, talvez nem intencionalmente, ela lembra do aspecto cíclico da luz e da sombra, o Sol e a Lua, pela pedra basalto. Basalto é uma pedra vulcânica negra, formada a partir do magma, ou seja, do fogo.

Come along Back to dark nights… To the heavy sleep of fire To the naked blackness Of basalt [“Venha de volta às noites escuras, para o sono profundo do fogo, para a escuridão pura do basalto”]

 

Essa canção representa muito bem o que seria um som intimamente feminino. Nesse sentido, a pioneira foi Joni Mitchell, que abriu o campo para as outras cantoras/compositoras da época, fora do estilo country e soul, segundo afirma a própria Linda. Para competir com Joni Mitchell, a Warner Bros. assinou com Linda Perhacs, porém esta não alcançou o sucesso comercial esperado.

Por aqui, 40 anos depois, no cenário da música independente, muitas artistas estão surgindo com uma proposta voltada para um sentido parecido com esse: o do autoconhecimento atrelado à busca da valorização do feminino, a conexão com a natureza e os aspectos místicos e lunares da vida. É o caso de artistas como a Ava Rocha, a Papisa e o disco da Cinnamon Tapes.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *