Depois do elogiado disco de estreia “Ômega III”, Sara Não Tem Nome prepara novos EPs

Depois do elogiado disco de estreia “Ômega III”, Sara Não Tem Nome prepara novos EPs

1 de fevereiro de 2016 1 Por João Pedro Ramos

A primeira pergunta que todo entrevistador faz para Sara Não Tem Nome é a mesma: porque Sara Não Tem Nome? Pois é, eu não consegui fugir do clichê e deixei a curiosidade falar mais alto ao conversar com a mineira. Seu primeiro disco, “Ômega III”, gravado durante sua residência no Red Bull Starion, ganhou muitos elogios da crítica e admiração do público. O álbum, masterizado por Rob Grant (que também fez as masterizações do Tame Impala e do Death Cab for Cutie) mistura muitas das influências da cantora em uma roupagem só dela. Ouvem-se ecos de Elliott Smith, Nick Drake, Jards Macalé e até Baden Powell, tudo com muita personalidade.

Agora, Sara está trabalhando em um EP com músicas mais intimistas e soturnas (“Penso ser um disco de inverno”, conta) e outro com o nome provisório de “Online Friends”, contendo músicas “mais animadas, mais ‘coloridas’, que já imagino algo mais ‘jovem'”, explica.

Conversei com Sara sobre sua carreira, o disco “Ômega III”, a preocupação com o visual e a performance e a dificuldade dos artistas autorais independentes em terem seus trabalhos reconhecidos pelo grande público no Brasil:

– Primeiramente, porque a alcunha Sara Não Tem Nome?
Essa é uma pergunta recorrente! (risos) São vários os motivos por ter escolhido Sara Não Tem Nome, um dos principais foi notar como as pessoas se preocupam com coisas que pra mim não são o principal que um artista deve ter, por exemplo saber quem é sua família, seu sobrenome, de onde você vem, etc. Na minha opinião isso ajuda a manter um certo elitismo no cenário artístico. Às vezes o “nome” da pessoas tem mais importância do que o seu trabalho e isso é uma coisa que me incomoda, pois quero que as pessoas vejam meus trabalhos independente disso.

– Como você começou sua carreira?
Com uns 14 anos comecei a tocar violão e a fotografar. Antes disso, já escrevia poemas e gostava de cinema e de desenho. Fiz um curso de audiovisual com 15 anos e quando terminei o ensino médio entrei para Escola de Belas Artes da UFMG. Desde então venho produzindo músicas, fotografias, vídeos, etc.

– Então seu trabalho não fica somente no campo musical, se formos considerar. É uma experiência mais ampla.
Sim, tento transitar entre várias áreas da arte principalmente a música, fotografia, vídeo, performance. Esqueci de falar que na Belas Artes eu faço Artes Visuais, aí tem várias linguagens…

– Inclusive, a performance é uma grande parte do trabalho de um músico. Você pensa nisso? Você mesma cria o figurino para os shows? O quanto você acha que isso é importante?
Sim, penso bastante nisso. De certa forma existe uma personagem envolvida nessas apresentações, nas opiniões, na maneira de interagir com o mundo. Fiquei pensando nisso esses dias, por causa da morte do Bowie. Ele era um artista que se preocupava bastante com a estética das apresentações, figurinos, etc. Até agora eu que pensei nos figurinos, mas tenho vontade de trabalhar com os outros artistas em projetos futuros. Convidei outros artistas para pensarem as projeções que acontecem durante o show do “Ômega III”. É sempre muito enriquecedor trazer outras pessoas pra esse processo, o trabalho cresce muito. inclusive, depois dá uma olhada no livro sobre o Bowie que saiu pela Cosac Naify. Ele trabalhava com um estilista incrível que desenvolvia várias peças, uma temática pra cada disco.

Sara Não Tem Nome

– Sim, perguntei pensando nisso! Você pensa em fazer isso? Mudar a “temática” de acordo com o trabalho?
Sim, com certeza. quando escolhi fazer o “Ômega III” separei músicas que entrariam em outro disco que já imaginei outras temáticas, outra estética. No “Ômega III” eu fui escolhendo vários elementos básicos, á água seria o elemento, azul a cor, o peixe o animal, pensei em alguns sentimentos que eu achava recorrente como a melancolia, solidão, raiva. Provavelmente nos próximos discos serão outras coisas. quero fazer um que tenham questões que falem sobre outras questões. Por exemplo estou preparando um EP (até então) com músicas mais intimistas e soturnas, que penso ser um disco de inverno. Lembra bastante Nick Drake, já tem outro que tem o nome provisório de “Online Friends”, que são musicas animadas, mais “coloridas”, que já imagino algo mais “jovem”… Irônico, mas leve ao mesmo tempo…

– Por falar em “Ômega III”, você pode me falar um pouco mais sobre o álbum? Como foi o processo criativo e de gravação?
O “Ômega III” é resultado de um processo de vários anos. Grande parte das músicas foram feitas na minha adolescência em Contagem. Falo sobre vários anseios da época e temáticas que me interessavam como a solidão, melancolia, depressão, questões familiares e territoriais. Uma das minhas vontades era ser uma voz em minha cidade, onde o acesso a arte e cultura é praticamente inexistente. Entre as referências cito o Sérgio Sampaio (a música “Carne Vermelha” é dedicada a ele), Baden Powell, Daniel Johsnton, Nick Drake, Elliot Smith, Jards Macalé, Harmony Korine, Win Wenders. Já tinha tentado gravar um disco outras vezes mas só na residência no Red Bull Station consegui grava-lo mais próximo do que eu imaginava. As músicas já estavam prontas e durante o processo da residência convidei outros músicos para gravarem comigo. Desses encontros surgiram novos arranjos para várias músicas e também fiquei pesquisando ideias para cenário e figurino das apresentações. Convidei o artista Pedro Veneroso para fazer a arte gráfica do disco e o site.

Sara Não Tem Nome

– Minas Gerais já foi um berço de grandes bandas e artistas. Como está hoje em dia?
Eu acredito que Minas Gerais ainda é um “celeiro” de artistas muito bons, com trabalhos que ao meu ver merecem reconhecimento. Na música eu citaria a Luiza Brina, LG Lopez, ambos do Graveola, Téo Nicácio, Jennifer Souza, Deh Mussulini, Invísível, Leo Marques, Young Lights, uma turma nova como o Fábio de Carvalho, Nobat, Sentidor, Marcelo Tofani, Post (BH-SP), enfim, tem muitos projetos legais rolando, mas ainda falta uma divulgação mais ampla pra que um público maior conheça esses trabalhos.
Acho que é mais um “problema midiático” do que falta de pessoas fazendo coisas interessantes.

– Ou seja, esse problema de divulgação é geral? O que você acha que falta para uma cena mais rica, ou pelo menos mais ampla?
Acho que sim. É quase impossível ver esses artistas na dita grande mídia. O público que acompanha é bem menor, na maioria das vezes de um cenário independente. A internet amplia as possibilidade de alcançar novos públicos mas mesmo assim ainda é bem complicado pois não existem muitos filtros e grande parte da população não sabe da existência desses artistas, outros não querem ficar pesquisando por isso, absorvem o que lhes é empurrado todos os dias em programas de auditório, por exemplo. Eu acho que existe uma distância muito grande entre os artistas do mainstream e os artistas do cenário independente. As gravadoras perderam poder, claro, mas ainda conseguem “popularizar” muitos artistas. É uma questão difícil de resolver, algo que sempre é falado é sobre como formar público, como despertar interesse nas pessoas. Temos muitas perguntas pra poucas respostas, e as vezes temos as respostas mas não conseguimos fazer as mudanças necessárias. Penso que temos que inventar novas maneiras de fazer as coisas, e se inspirar em modelos de outros países que estão conseguindo fazer isso.

– Que artistas e bandas novas e independentes você recomendaria hoje em dia?
Tentei fazer uma listinha do que eu escutei nos últimos tempos. Uma seleção de artistas nacionais. Post, Graveola, Luiza Brina e o Liquidificador, LG Lopez, Laura Wrona, Lulina, Andre Whoong, André Prando, Fábio de Carvalho, Marcelo Tofani, Karina Buhr, Sofia Freire, Duda Brack, Carne Doce, Boogarins, Ventre, Ian Ramil, Jennifer Souza, La Burca, Harmônicos do Universo, Reallejo, Barulhista GA, Constantina, Kastelijns, Mustache e os Apaches, Mescalines, Ruído MM, Nunes, Aline Lessa, Walacy Willians, Juliana Perdigão, Ava Rocha, Chico Chico, Camila Garófalo e por aí vai…

– Alguns ligam seu som a um movimento neo-folk. É isso mesmo? Como você definiria seu som?
Nunca tinham me falado isso. Depois de lançar o disco já ouvi-li muitas coisas variadas a respeito. Vi pessoas falando que era pop, non sence, folk rock, emo, MPB… Acho que é difícil me definir em um estilo só, as referências variam. Não sei o que seria o neo-folk, quais artistas e bandas se enquadram nisso. Talvez eu possa ser (risos).

– Acho que essa é a última : quais seus planos para 2016?
Esse ano quero circular com o disco, no Brasil e fora. Estou enviando projetos pra fazer minha primeira exposição individual e quero finalmente entregar minha monografia pra formar em Artes Visuais.