Deformando o rock ‘n’ roll: Quicksilver Messenger Service – “Happy Trails” (1969)

Deformando o rock ‘n’ roll: Quicksilver Messenger Service – “Happy Trails” (1969)

19 de janeiro de 2017 0 Por Victor José

Bolachas Finas, por Victor José

No final da década de 1960, no auge da cena de São Francisco, uma apresentação ao vivo era como um ritual, onde o público embalado pelas drogas psicodélicas buscava uma experiência sem padrões ou regras preestabelecidas. E a música – quase sempre improvisada, chapada e estendida ao máximo – servia como pano de fundo ao mesmo tempo em que o próprio público estimulava essas possibilidades encorajando a banda. Era uma troca e, na medida do possível, um sincero sentido de comunhão.

Talvez por isso, um detalhe bastante interessante que ocorreu nesse período foi o lançamento de álbuns ao vivo – ou parcialmente gravados em estúdio – contendo repertórios de faixas inéditas. E considerando a fertilidade artística do período, somada ao poder de performance de algumas bandas e ao clima efervescente das casas de show, dá para perceber que a vibe orgânica presente naquelas gravações eram de fato um ingrediente a mais. Os casos mais clássicos são “Cheap Thrills” (1968), “Anthem Of The Sun” (1968) e “Happy Trails” (1969), do Big Brother and The Holding Company, Grateful Dead e Quicksilver Messenger Service, respectivamente.

Embora amplamente celebrado na região da Costa Oeste, o Quicksilver não ganhou a mesma notoriedade que seus conterrâneos Jefferson Airplane e Santana, mas de fato foi um dos pilares que ajudaram a moldar o som da cena hippie e de toda uma ideia em torno da arte do improviso.

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Em “Happy Trails”, segundo álbum do grupo formado por John Cipollina (guitarra e vocais), Greg Elmore (bateria e vocais), Gary Duncan (guitarra e vocais) e David Freiberg (baixo e vocais), percebemos como o rock‘n’roll tinha se transformado até então, isso porque o lado A do disco é uma suíte de pouco mais de 25 minutos do clássico “Who Do You Love”, de Bo Diddley, um dos roqueiros pioneiros dos anos 1950.

Alguns poderão imaginar que deve ser um pé no saco escutar quase meia hora de piração em torno de um rock básico, mas eu digo com toda certeza que não: aí está um dos momentos mais criativos, dinâmicos, entorpecentes e inspirados da música pop. Exagero? Então imagina você há quase 50 anos atrás escutando a releitura de uma música lançada há pouco mais de dez anos, de modo que em alguns trechos você se confunde e mal sabe se ainda se trata do mesmo tema ou se está ouvido rock, jazz, pura dissonância ou sabe-se lá o quê. Pois bem… É um daqueles casos na história da música em que se percebe de modo gritante que houve um verdadeiro salto estético dentro de uma vertente específica – neste caso, o rock‘n’roll.

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De fato, é como se a banda quisesse depositar na música as possibilidades psíquicas proporcionadas pelo LSD, mostrando que é possível descaracterizar o “ego” de uma canção, indicando que ao ir além dos dois minutos da versão original você encontra um vasto “inconsciente” a ser explorado.

O legal é que a versão do Quicksilver tem divisões bem delimitadas, ao todo seis: “Who Do You Love Part 1”, “When Do You Love”, “Where You Love”, “How You Love”, “Which Do You Love” e “Who Do You Love Part 2”. Cada uma das quatro partes do meio da suíte contempla um membro específico da banda, então em um momento a música enfatiza mais no baixo, em outro na guitarra e assim por diante.

O lado B de “Happy Trails” continua na linha do improviso e da experimentação, mantendo a qualidade em um nível invejável. “Mona”, outro cover de Bo Didldey, demonstra uma banda no auge de seu vigor no palco, enquanto que “Maiden Of The Cancer Moon” e “Calvary” (esta última sendo a única gravada em um estúdio) ressaltam o compromisso das bandas do período com o rompimento de estruturas. O som é livre e irresistivelmente volátil, como deveria ser o comportamento do público das lendárias casas de show Fillmore East e West, onde o grupo gravou as faixas ao vivo. O álbum acaba com a faixa-título, que também dá título ao programa de TV estrelado por Roy Rogers e Dale Evans nos anos 50.

Hoje pode até ser que a obra-prima do Quicksilver Messenger Service não pareça assim tão revolucionária, e realmente é bem provável que os próprios integrantes não estivessem interessados em soarem pretensiosos. Mas, embora sutilmente, esse disco contribuiu muito para um arsenal de bandas naturalmente ousadas.
Para quem gosta de guitarras e improviso, “Happy Trails” é um prato cheio, em todos os sentidos.