Debatendo o fenômeno “bolsowave” (e trumpwave, fashwave)

Debatendo o fenômeno “bolsowave” (e trumpwave, fashwave)

20 de agosto de 2019 0 Por Sidarta Landarini

Recentemente a mídia brasileira noticiou diversas reportagens sobre o movimento “Bolsowave”, culminando em um tweet propagado nas redes de Carlos Bolsonaro questionando “o que é vaporwave?”. Retratada na mídia como uma apropriação pela extrema direita a um gênero musical que carregou em seu início uma crítica a indústria cultural e até mesmo do próprio sistema capitalista. O que nos deixa uma indagação: Como e por que tais elementos culturais são emergidos de significação simbólica para a nova direita, independente da intencionalidade proposta inicialmente? Ou seja, como elementos de crítica à ideologia capitalista se tornam elementos de apologia ao sistema vigente?

Em sua estética sonora reside emulações retrô, com músicas pop (ou j-pop) dos anos 80 e abuso de sintetizadores e baterias eletrônicas. Visualmente, há um gatilho afetivo dos primórdios da internet e dos primeiros sistemas operacionais. De acordo com um artigo de Carolina Stary para o site Capitolina, o conceito de vaporware seria “um produto que é só anunciado e nunca realmente lançado ao público, instigando a competitividade entre as empresas e o interesse do consumidor.” Ou seja, seria “esse limiar nebuloso entre existir ou não, real ou virtual, obra de arte ou piada de internet.” Na DummyMag, em um artigo publicado em 2012, no início do movimento, o gênero é definido como um resultado do capitalismo tardio global, “Is it a critique of capitalism or a capitulation to it? Both and neither. These musicians can be read as sarcastic anti-capitalists revealing the lies and slippages of modern techno-culture and its representations, or as its willing facilitators, shivering with delight upon each new wave of delicious sound”.

Como atentado nos artigos anteriores, há ambiguidade, negação da negação, através da sua não definição surge o apelo a distopia, a constatação da prisão de um eterno ‘mesmo’ modo de produzir a vida, que o sujeito urbano estaria submetido. E para realizar esses efeitos, a ironia e o sarcasmo são escolhidos. Onde a escolha de músicas plastificadas pela indústria cultural são resignificadas e derretidas. Logo, é nessa ambiguidade que mora a chave de reflexão para compreender os processos sócio-históricos que o gênero emerge e sua relação com o humor, posteriori com a extrema-direita.

O nascimento do vaporwave se deu em 2010, mas desde 2003 os memes na internet começam a estabelecer um processo de padrão estético, popularizado por sites como 9gag e 4chan. Esses sites começam a dominar o humor pelo mundo, as formas do fazer piada e dos padrões de humor que atravessavam fronteiras físicas ganham contornos jamais visto antes. Então, falar sobre vaporwave é falar do mesmo fenômeno de estabilização de supostos contornos de uma cultura do ciberespaço. Onde justamente o resgate aos tempos iniciais da internet, exaustivamente utilizados na estética vaporwave, se torna um esforço de contar certa narrativa histórica do ciberespaço, o constituindo de identidade.

Pois bem, pincelado esse contexto e estética dos fenômenos, cabe responder: o que leva os mesmos símbolos sonoros e visuais serem acionados e operacionalizados para diferentes fins políticos?

Em um tweet do Corrupção Brasileira Memes (página de memes da direita) no dia 13 de Outubro de 2018, diz o seguinte “O 4chan elegeu Trump e o Zap zap vai eleger bolsonaro, a era dos memes chegou pra ficar !”. A “era dos memes” que a página exalta, é a de um tipo específico de memes e é colocado como se houvesse apenas essa forma de fazer meme. E que forma é essa? A do ressentimento do homem médio branco. Do reforço aos elementos racistas, misóginos, lgbtfóbicos em resposta a um tímido avanço das conquistas (ou apenas visibilidade) de parcelas historicamente prejudicadas na sociedade. Mas se inserido no campo macroeconômico, ele se torna um dos sujeitos sob os efeitos da crise de 2007.

Há um campo de disputa sobre o significado dos produtos culturais do ciberespaço.

Se por um lado a memeficação da vida foi muito importante para a eleição de Trump e copiada em uma versão tupiniquim com Bolsonaro, por outro lado, páginas de memes progressistas conseguem fazer o trabalho contra hegemônico em prol do absurdismo da realidade. No caso brasileiro, páginas no Instagram como o Saquinho de Lixo com 397 mil seguidores e Melted Videos com 208 mil, são exemplos disso. É uma das disputas colocadas em nossa sociedade que se polarizou muito nos últimos anos. (Bourdieu e Gramsci podem nos auxiliar a compreender melhor esse panorama de disputa).

Porém…

Dentro desse campo de disputas, o vaporwave mergulha em todos os elementos que ele critica. Por um lado, poderíamos dizer que quem escuta e produz “bolsowave” não entendeu a mensagem ou parou nos elementos superficiais. Mas por outro lado, a apropriação justamente pode residir no que o gênero traz de mais crítico: a expressão do cansaço, da saturação, do incômodo com um suposto (inventado) status quo. Esse sujeito ressentido, criou um mundo de crenças a combater, para dar voz aos seus sentimentos difusos, e encontrou na estética vaporwave, antes, anticapitalista, seu refúgio.

Porque, no esforço de criticar e ressignificar o passado para criar o novo, ela causa nostalgia. Um sentimento agregador, de conforto para um sujeito fragmentado, que não consegue focalizar a culpa do seu desemprego, da sua casa hipotecada ou da alta dos preços dos alimentos no modo de funcionamento do capitalismo. Inventando um mundo, onde o bilionário George Soros é a URSS reencarnada. Logo, o paralelo entre a necessidade de fazer piadas da sua infância que diminuem os outrem para se sentir seguro, encontra o conforto nostálgico do vaporwave.

Só que o vaporwave usa da nostalgia como combustível para sua crítica, é um uso profundamente denso de ironia e sarcasmo, na verdade, a ironia é justamente a nostalgia. É o caldo que derrete a indústria cultural, onde há a denúncia explícita sobre a aceleração do modo de vida capitalista, onde a nostalgia não é utilizada para cultivar o que já passou. É o contrário, é um grito de desespero sobre a saturação desse modo de vida em fluxo, em uma máxima da liberdade só causou mais homogeneização. E nesse processo homogeneizador, a estética vaporwave foi amplamente apropriada pelas empresas, muito antes da extrema direita. Chegamos em 2019 com uma série de produções audiovisuais, moda, música e etc. de enaltecimento dos anos 80 e anos 90. A sensação é que não chegamos no ‘futuro’.

Se após toda a animação dos anos 1990 e anos 2000 com o avanço rápido das tecnologias era o que constituía diversas reflexões na produção do saber. Chegamos ao fim dos anos 2010, com a alt right assumindo protagonismo na vida das pessoas. Se não saímos dos anos 80, então é totalmente plausível esse sujeito ressentido criar quantas conspirações quiser sobre hipotéticas URSS. O futuro ainda não chegou, porque o modo de produzir a vida ainda tem o mesmo formato em sua essência, desde a revolução industrial. E as críticas? De forma, cada vez mais rápida, são engolidas pelo sistema. Vai, desde o ascenso dos movimentos sindicais nos anos 80 no Brasil, culminando no seu engessamento pós 2002, resultando na conciliação de classe como única opção para a esquerda (Ou Syriza, na Grécia, como exemplo mais recente). Para assassinarmos esse sujeito ressentido, de sentimentos difusos, é preciso antes, assassinar a castração dos sonhos que é praticada dentro da esquerda.

Sendo assim, o manuseio das representações simbólicas anticapitalistas estão congeladas pelo reformismo da esquerda e sua falta de imaginação política. Dando abertura para ser utilizada como “liberdade” em um mundo inventado por sujeitos ressentidos e suas emoções desorganizadas, onde seu olhar não consegue ir além do horizonte, portanto a terra é plana. E o pior, é o olhar da esquerda, que também não consegue ir além do horizonte, portanto a conciliação de classes é sua única opção.

Textos que expandem alguns debates minimamente apresentados aqui:

https://medium.com/@caioalmendra/mais-metamodernismo-por-um-metamodernismo-pol%C3%ADtico-175d0bca2457 (Sobre ironia)

https://medium.com/@caioalmendra/nostalgia-pelo-presente-conformismo-e-reacionarismo-a80a6b7ff34a (Sobre nostalgia)

https://medium.com/@caioalmendra/o-rel%C3%B3gio-acultural-como-recuperar-a-imagina%C3%A7%C3%A3o-pol%C3%ADtica-55e85a513a20 (sobre imaginação política e tecnologia)

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/06/o-que-e-vaporwave-a-estetica-criada-na-musica-eletronica-e-apropriada-pela-nova-direita.shtml

https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/noticia/2019/06/estetica-criada-na-musica-eletronica-vaporwave-e-apropriada-pela-nova-direita-cjwqjkmuc008j01l01nlk1v0m.html

https://veja.abril.com.br/tecnologia/fashwave-o-que-e-o-novo-simbolo-da-direita-radical-brasileira/

Vaporwave: tudo o que é sólido se desmancha no ar