“Death Proof”: a trilha de Tarantino à prova de críticas

Death Proof

Sinestesia, por Rafael Chioccarello

Hoje vamos falar de uma trilha sonora de tirar o fôlego. Sangrenta, voraz, perversa, dura, arriscada e à prova de morte. Pois é, hoje subimos a bordo do carro mais indestrutível de Hollywood em mais uma odisseia de Quentin Tarantino.

Quen

Antes de qualquer coisa temos que saber que Death Proof” (“À Prova de Morte” – 2007)  faz parte da saga “Grindhouse” (2007), que foi co-escrita, produzida e dirigida por Robert Rodriguez e Quentin Tarantino e que conta também com o filme Planet Terror” (“Planeta Terror” – 2007, de Robert Rodriguez).

Uma curiosidade à parte está na parte de divulgação do projeto, que inclui trailers fictícios para atrações, comerciais e anúncios de teatro, assim explorando ainda mais a transmídia do “produto final” e inovando esse segmento.

Grind House (Death Proof)

“Ao cair da noite, Jungle Julia (Sydney Tamiia Poitier), a DJ mais sexy de Austin, pode enfim se divertir com as suas duas melhores amigas. As três garotas saem noite adentro, atraindo a atenção de todos os freqüentadores masculinos dos bares e boates do Texas. Mas nem toda a atenção é inocente. Cobrindo de perto seus movimentos está Stuntman Mike (Kurt Russell), um rebelde inquieto e temperamental que se esconde atrás do volante do seu carro indestrutível.” (Sinopse por AdoroCinema)

O filme conta com uma fotografia incrível em tons mais escuros. Claro, em parte temos isso por ser um filme de terror. Alguns inclusive encaixam a saga “Grindhouse” como um filme B, porém refinado.

Briga

A narrativa e a velocidade dos acontecimentos e personagens com personalidades fortes também são uma marca do plot. Tarantino neste filme empodera os personagens femininos que, diferentemente dos roteiros convencionais, comandam o rumo da história.

Mas sem SPOILERS, pois é um filme que merece ser assistido mais de uma vez para não se perder um segundo desta trama que deixa tudo de cabeça para baixo – e seu queixo caído. Vamos então a uma das soundtracks mais elogiadas de toda carreira de Tarantino, por mais que a que tenha levado o Oscar tenha sida a de seu mais recente filme, The Hateful Eight” (“Os Oito Odiados” – 2015).

Logo de cara já temos a belíssima – e instrumental – “The Last Race”, uma antiga canção de Jack Nitzsche datada de 1965. As ondas surfadélicas dão todo o ritmo da prosa. A canção também é o tema do filme Village Of The Giants” (1965), que explora a ficção científica mesclada com o gênero da comédia.

Seguimos com “Baby It’s You” (1969) do A Group Called Smith, que foi uma banda californiana do fim dos anos 60 que bebia da fonte do blues e do melhor do groovie de artistas como Etta James, Tina Turner e beirava a psicodelia. A canção que estrela o filme é uma versão de Burt Bacharach, um pianista nascido no começo do século XX que ao longo da carreira ganhou 6 Grammys por suas composições.

O maestro preferido de Tarantino não poderia ficar de fora, não é mesmo? Em Death Proof” Ennio Morricone entra na trilha sonora com a canção “Paranoia Prima”. Vale lembrar que não é a primeira vez que ela aparece na sétima arte. Ennio compôs ela para o filme “O Gato de Nove Caudas” (1971), do lendário diretor de cinema italiano Dario Argento. Outra canção que também toca no filme – mas que não entrou para o disco da trilha – é “Violenza Inattesa”.

Para dar uma incrementada na narrativa da soundtrack, Tarantino coloca um diálogo do filme na quarta faixa do disco. Nele, o vilão do filme conta de seu plano macabro para “dopar” suas vítimas indefesas.

Quem chega chegando com um clássico literalmente sacado da cartola é Marc Bolan com “Jeepster”, um clássico do T.Rex. A canção está presente no disco Electric Warrior” (1971), o sexto lançamento do grupo, sendo considerado um dos discos fundamentais do rock inglês. Outro hit do disco é “Get It On”, ou seja, veredito: discaço!

Para deixar a atmosfera ainda mais feroz, Tarantino coloca um diálogo entre o personagem Stuntman – nosso motorista impiedoso – e uma de suas vítimas.

Com uma veia mais sagaz, espírito do funk/blues e soul music temos “Staggolee” (1970) do grupo Pacific Gas & Eletric. Os vocais mais melódicos e bem cantados têm origem na música gospel americana. Inclusive o maior hit da banda está presente nesse mesmo disco, mais precisamente na faixa “Are You Ready” que tem essa levada mais espiritualizada.

Na sequência temos Joe Tex com a balada romântica cheia de groove e melodia “The Love You Save”, canção datada de 1966 e um dos destaques do southern soul americano das décadas de 60/70. Funk, blues e gospel é a essência do som do texano.

Do Alabama, mas criado no estado do Michigan, temos outra lenda viva na trilha que atende pelo nome Eddie Floyd. Com as mesmas raízes musicais do Pacific Gas & Eletric e Joe Tex temos uma tríade que bebe do southern soul e do R&B. Tarantino escolheu para o filme “Good Love, Bad Love”.

Uma das cenas imortalizadas na memória dos fãs de Tarantino com certeza é a cena de lap dance de Death Proof”, tanto pela sensualidade explícita como pela incrível trilha de “Down In Mexico” do The Coasters.

Não é à toa que a canção escrita por Jerry Leiber e Mike Stoller chegou ao oitavo lugar da parada R&B em 1956. Uma curiosidade: a versão que entrou no filme é uma regravação feita em 1970.

Para chegar chutando tudo para o alto e aumentar o volume quem chega é Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick & Tich com o clássico garageiro “Hold Tight”. O single foi lançado em 1966 e chegou ao quarto lugar das paradas britânicas e foi escrita por Ken HowardAlan Blaikley.

Mais uma vez de olho na Itália, Tarantino nos traz o pianista Pino Donaggio com a dramática “Sally & Jack”. A canção também está presente no filme Blow Out” (1981) de Brian De Palma, estrelando John Travolta e Nancy Allen, um slasher movie. Bons entendedores de filmes de terror lembrarão.

Para deixar tudo mais rock’n’roll e caótico temos “It’s So Easy” do Willy Deville, um músico que viveu de sua guitarra com seu blues que mesclava ritmos latinos, country e uma infinidade de estilos folclóricos. A canção também está presente na soundtrack do filme Cruising” (1980).

Chegando à beira do abismo, Tarantino apimenta a trilha com um diálogo mais ríspido entre as garotas do filme. Para deixar o clima lá no alto com uma percussão marcante de tambores, cítara e muita tensão em seguida temos Eddie Beram com “Riot In The Thunder Alley”, canção instrumental que também figura na soundtrack do filme Thunder Alley” (1967).

A cartunista April March, nascida como Elinor Blake é uma cantora que canta tanto em inglês como em francês. Inclusive, Elinor inclusive atua no filme e vou deixar a tarefa de descobrir quem é a personagem dela para vocês. Acharam que iam ter tudo de mão beijada? No filme a canção escolhida é “Chick Habit” (1995). A versão francesa da canção também está na trilha mas não entrou no disco.

Também figuram a trilha e não foram incluídos no disco: Guido & Maurízio com a fugaz e funkeada “Gangster Story”,  a trilha a la 007 de Franco Micalizzi com “Italia A Mano Armata”, Stelvio Cipriani com a orquestrada “La Polizia sta a guardare”, o funk good vibes “Funky Farfare” de Keith Mansfield e “Twisted Nerve”, que também aparece em “Kill Bill” e reforça ainda mais a teoria apocalíptica de que todo filme do Tarantino é interligado.


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