De 60 anos pra cá: álbuns essenciais de 58, 68, 78, 88, 98 e 2008

Quem diria, um ano da coluna Bolachas Finas! Como estamos em clima de ~comemoração~ aqui vai um texto um pouco diferente. Dessa vez falo um pouco sobre discos relevantes de 1958, 1968, 1978, 1988, 1998 e 2008. Que tal?

Enfim… De sessenta anos pra cá muita coisa mudou e muita coisa perdurou. Sim, são detalhes aparentemente óbvios, mas que enriquecem ainda mais a qualidade do velho e a proposta do novo. Quero dizer, o seu eu de 1958 poderia escutar o então moderno Lady In Satin” de Billie Holiday e se apaixonar (ou não) pelas canções, mas naquele momento você não teria como afirmar que aquele disco é um dos maiores monumentos da história do jazz cantado. E hoje podemos perceber esse grande álbum resvalando em uma enxurrada de coisas, de Aretha Franklin a Janis Joplin e Amy Winehouse.

O mesmo aconteceu com 2008, ou 1998… O que uma obra como “Moon Safari” do Air consegue comunicar? Será que artistas revisitarão aquele som daqui 30 anos, olhando aquilo como algo cheio de pioneirismo? Existem coisas que só o tempo é capaz de avaliar.

Pois bem, aqui vai uma breve lista com alguns desses “discos especiais”:

“Canção do Amor Demais” – Elizete Cardoso (1958)

É “apenas” o marco zero da bossa nova. Composições de Vinicius de Moraes e Tom Jobim com o revolucionário violão de João Gilberto, tudo isso pela primeira vez… Não é pouca coisa! A “Santíssima Trindade” do gênero faz uma cama generosa para a potente e dramática voz de Elizete Cardoso, que com sua pegada de “era do rádio” manda muito bem em todas as 13 faixas. Canção do Amor Demais” é um disco fundamental, daqueles que você precisa saber da existência. O álbum não fez sucesso logo de cara, a prensagem inicial foi de 2 mil cópias, e sua grandeza só foi reconhecida quando a bossa nova explodiu fora do Brasil. Isso precisa ser preservado no imaginário popular brasileiro. Destaque para “Chega de Saudade”, “As Praias Desertas” e “Canção do Amor Demais”.

“Astral Weeks” – Van Morrison (1968)

O segundo LP da carreira-solo do irlandês Van Morrison é tido até hoje como um dos melhores álbuns de todos os tempos. Logo é fácil notar a potência artística do trabalho: uma mistura de folk com a improvisação do jazz e arranjos inventivos. O jeito de Morrison cantar, que une gospel, soul e pop (meu Deus, sempre me lembra demais Mick Jagger!), é emocionante, perfeito para aquela atmosfera meio relaxada. Astral Weeks” foi concebido em apenas três sessões, o que endossa o tom de improviso da base instrumental. Apesar de ser um trabalho de um artista essencialmente inclinado para a veia singer/songwriter, o resultado sonoro é impressionante, e toda a banda consegue destaque. Esse é pra ouvir muitas vezes. Destaque para “Astral Weeks”, “Sweet Thing” e “Cyprus Avenue”, que assim como “Madame George” Morrison empregou a técnica literária do fluxo de consciência para produzir a letra.

“The Last Waltz” – The Band (1978)

Considerado por muita gente como um dos espetáculos mais venerados da história do rock, o último show da canadense The Band foi muito mais que isso. Foram mais de quatro horas de música, com direito a convidados como Paul Butterfield, Eric Clapton, Neil Diamond, Bob Dylan, Emmylou Harris, Ronnie Hawkins, Dr. John, Joni Mitchell, Van Morrison, Ringo Starr, Muddy Waters, Ronnie Wood e Neil Young. O concerto foi tão chique que foi servido um verdadeiro banquete para as 5 mil pessoas presentes no Winterland Ballroom, em São Francisco (era Dia de Ação de Graças). Poetas declamando e baile dançante também fizeram parte do roteiro. Sobre a música… olha, realmente esse show é uma covardia. O repertório de primeira linha passa por toda a carreira do grupo e ainda visita versões dos artistas convidados. Imperdível e obra de arte fundamental para entender a realeza que já foi o rock ‘n’ roll. Martin Scorsese transformou a noite num dos documentários de música mais aclamados do cinema, que por sinal é realmente lindo. Destaque para “Up on Cripple Creek”, “Mannish Boy”, “Helpless”, “The Night They Drove Old Dixie Down” e “I Shall Be Released”.

“Daydream Nation” – Sonic Youth (1988)     

         

Mais de meio mundo passou por esse disco para fazer o som da década posterior. Talvez o mais importante LP do Sonic Youth, Daydream Nation” de certa forma sedimentou a proposta da banda e elevou seu som inventivo e ruidoso em status de obra-prima. Todas as faixas são relevantes, e ali é fácil notar algo estranhamente acessível, bizarro e ao mesmo tempo (até então) novo. O casamento das guitarras de Lee Ranaldo e Thurston Moore impressiona até hoje, e o carisma do vocal falado de Kim Gordon cai como uma luva, muito embora no fundo eu sempre esteja inclinado a acreditar que o ritmo sólido de Steve Shelley (aliado ao baixo constante de Kim) seja o segredo dessa banda incrível. Em Sister” (1987) o SY apontava para essa sonoridade, porém em “Daydream Nation” a afirmação musical é mais contundente e segura. Discaço que parece jamais envelhecer. Destaque para “Teen Age Riot”, “The Sprawl” e “’Cross The Breeze”.

“The Miseducation of Lauryn Hill” – Lauryn Hill (1998)

Esse enorme sucesso de público e crítica da ex-vocalista do influente grupo de rap Fugees ainda soa incrível e já é um trabalho de indiscutível importância. A mistura de hip hop, r&b, reggae, gospel e soul rendeu uma enxurrada de Grammys (cinco no total) e, até hoje, oito milhões de cópias vendidas somente nos Estados Unidos. Hill conseguiu com sua salada musical mostrar os limites do rap e como esse gênero consegue ser tão flexível e ainda assim íntegro, algo como o Exile on Main St.” da década de 1990: uma reverência aos gêneros norte-americanos mais tradicionais em uma roupagem adequada ao seu tempo. É impressionante pensar que agora esse álbum já tem 20 anos! Mais um que você precisa ter na estante ou no celular. Destaque para “Everything Is Everything”, “Lost Ones” e “To Zion”.

“Fleet Foxes” – Fleet Foxes (2008)

Revisitar o passado foi a tônica da década de 2000. Enquanto uma penca de grupos persistia até saturar no post-punk e proto-punk até mais ou menos 2007, o Fleet Foxes veio com essa pegada completamente “fora da curva”. Essa atmosfera de Crosby, Stills & Nash com Fairport Convention, quem diria, deu tão certo a ponto de chamar atenção desse público reticente em relação ao folk rock. A verdade é que a banda faz um som verdadeiramente bonito, e é difícil não respeitar esse tipo de coisa. Robin Pecknold, líder da banda, além de talentoso vocalista é um compositor de mão cheia. Melodias e harmonias memoráveis, algo não tão explorado de uns anos pra cá, e sim, isso já é um incrível mérito. Revisitar é bom, mas poucos fazem isso com o devido respeito e capacidade. Seria essa obra aspirante a clássico? Destaque para “White Winter Hymnal”, “Your Protector” e “Quiet Houses”.


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