Days of Dahmer prepara seu primeiro (e último) disco – e tem data para acabar

Days of Dahmer

Vocês têm até o dia 9 de maio para assistir o Days of Dahmer se apresentar. Depois disso, a banda se dissolverá e ficaremos apenas com o registro do seu primeiro (e último disco), que foi gravado no Estúdio Costella. Nascida em Milwaukee, Samara St. John (vocal e guitarra) é a líder e responsável pelas letras da banda, formada por Gabriel (baixo), Layon (guitarra, vocal), Gilberto (guitarra, vocal) e Gabi Lima (bateria).

“This is it. Debut e fim”, explica Samara. “Eu vou para uma fazenda, casando com o baixista vamos cuidar dos animais em troca de lugar para morar e comida, até que eu ache um trabalho sério em Seattle. Na verdade é transitório esse projeto”. Ou seja: se você quer conferir a energia punk crua do grupo, tem até o dia 9 de maio para fazê-lo. “Tipo um cara que pegou câncer e sabe que tem ate X data para viver. Acho que por isso também os shows vão ser divertidos, intensos. Esse é nosso clímax!”, afirma.

Conversei com Samara sobre o disco que está por vir, a cena independente, as influências da banda e seu fim iminente:

– Como a banda começou?

Cheguei aqui em julho 2015 e fui procurando com quem tocar. Comecei a sair o com Gabriel Bivanco, da banda DVCO, e o cantor deles, Norton Bell, tinha montado uma banda, The Factory, e me pediu cantar o parte da Nico. Então fiz e tocamos uns shows. Um dia tocamos na Livraria Martins Fontes, eu estava conversando com os fãs de Velvet Underground e conheci o Gilberto. Ele estava com camisa de Sonic Youth… Sonic Youth é desproporcionalmente popular no Brasil, comparado com fora! Mas ele gosta da banda, eu também… Falou que tinha banda nos anos noventa e perguntou se eu queria fazer um som com ele. Naquela época estava ensaiando também com uma banda, do Carlos Reis, a Fraude, mas também ficava ensaiando sozinha minha músicas. Então falei, sim, OK, vamos tentar com minhas músicas. Ele conheceu o baterista também e começamos ensaiar no Luhmen, na Vila Mariana, em Agosto de 2016. Depois conheci o Layon no OK Cupid, transamos uma vez no julho, antes que eu pudesse aprender a falar português. Viramos amigos e ele tem uma banda, Maru, e às vezes ensaiava comigo. Sabia das minhas músicas, ele toca muito bem, então convidamos ele pra fazer o baixo. Logo depois mandamos o baterista embora porque ele furou em um show da gente que ia ser na Casa da Luz. Eu conhecia o Raul (Retrigger, DJ), que toca theremin, de Minas Gerais, e ele me apresentou a Gabi Lima, que é de Pelotas – e é musica de verdade, faz produção a sério. Então o Layon mudou para lead guitar, o Gil noise, a Gabi na batera, meu namorado Gabriel entrou com o baixo e eu faço guitarra base e canto. Temos essa formação desde… hmm… recente… Acho que dezembro. Então ficamos ensaiando – como ela trabalha no Costella – e ficou natural gravar um disco lá com ela como produtora.

– E de onde surgiu o nome da banda? O que significa?

Eu cresci no Milwaukee, Wisconsin, nos anos 90, e quando tinha 8 anos rolou um crime sinistro com um cara chamado Jeffrey Dahmer. Ficou sempre nas notícias, então minha lembrança disso foi quase surreal, porque eu ficava cortando as Barbies e guardando na geladeira, porque estava sempre nas notícias. Depois, quando era adolescente, minha mãe me chamou de psicopata porque eu sou artista, pinto coisas – muito grandes – nas paredes. Como “teenager”, eu tinha que conviver com os caras dela, que tinham muito dinheiro mas eram FDPs, então expressei isso pela arte. As músicas do Days of Dahmer contam dos eventos que rolaram na minha família e como eu me sentia quando adolescente. Eu não sou psicopata como Dahmer, mas expresso a verdade e os meus sentimentos, o que não foi permitido em casa, então coloquei esse nome. Porque o som da musica
é dos anos 90 e eu também sou de Milwaukee, além de expressar os sentimentos e acontecimentos que causam vergonha para algumas pessoas. É tabu como o Dahmer.

– Quais as principais influências musicais da banda?

A gente gosta muito do noise do Sonic Youth, as melodias bonitas do Dinosaur Jr… e punk também, tipo simples, como Mudhoney, Beat Happening, Pixies, Big Black – intenso – poesia como PJ Harvey… Eu gosto de ter uma dinâmica em cada musica. Acho que com as três guitarras conseguimos ter uma fusão de noise e melodia.

– Me conta um pouco mais sobre o material que você lançaram até agora.

Estamos no processo de lançar. Até agora temos 6 músicas pra nosso debut e álbum final, “Defrost”.
Eu tinhas as bases e a letra prontas para 5 delas. A outra, “Apt 213”, o Layon e o Gil compuseram e eu coloquei a letra depois. Essa é explicitamente sobre o Dahmer: conta como ele era criança normal e virou assassino. As outras músicas peguei das minhas experiências.., Escrevi diários desde que tinha 12 anos. Eu viajo muito e não tenho nada comigo, só os diários, então consultei eles para ver de novo as músicas. A Gabi mapeou cada uma comigo e assim conseguimos gravar. Nosso fã Ronaldo Miranda, que trabalhou muito tempo para a Mtv, fez 2 vídeos de “Apt 213” pra gente. Ele também corta o meu cabelo. Ele é legal. Apesar de termos feito Kickstarter, eu não recomendo lançar fundraisers do tipo no Brasil.

– Porque?

Temos 5 pessoas na banda, mas só meus amigos do resto do mundo (França, Suécia, Áustria, Austrália, Alemanha, EUA, Espanha, Holanda) doavam. (Risos) Parece que ninguém que conheço aqui tem dinheiro para doar para arte!

– Você acha que no Brasil hoje em dia as pessoas não estão valorizando a arte? Qual a sua impressão?

Não sei. Ou estou mais conectada do que eles, pois eu pelo menos valorizo muito as artistas que conheci aqui. Eles não tem apoio nenhum. Sim, tem pessoas de família rica que tem banda e todos os membros pagos pra tocar… Mas o som não é autêntico. As pessoas que realmente conseguem fazer arte nesse estado, parabéns – você é autêntico. Você cria não para alguém, mas porque tem que criar. Fora acho mais fácil fingir… Aqui encontrei autenticidade. Mas tem 2 extremos: a arte – e o outro – as cover bands. Lá fora, as pessoas veem as bandas cover como tios velhos tocando num casamento chato músicas do Simply Red. Aqui eu acho que são supervalorizados…

Days of Dahmer

– Como você vê a cena musical independente hoje em dia?

Toda coisa independente é difícil. Acho que depende muito da personalidade do grupo – as conexões deles – e também você tem que querer produzir não só para agradar, para ter um sucesso. Eu vejo o mesmo com meu trabalho de cientista. Sou bióloga molecular, fiz doutorado e tal, por isso cheguei aqui. Mas eu preciso lutar quando quero mostrar resultados que são fora do padrão, fora dos dogmas. Então, eu não estou aqui tempo suficiente para comentar da cena. Às vezes parece para mim meio dividido, como no colegial. Às vezes parece ter mais apoio e ser mais aberto, mas se você é independente tem que ser disposto a procurar o apoio certo, com outras bandas, nos estúdios, nos shows, etc. Não vai aparecer do nada. Acho que desde julho de 2015 eu já tinha tocado com 20 pessoas diferentes antes de achar as pessoas certas. Não é tão mau para alguém que não conhecia nada de SP, não fala português… Acho que por causa do meu foco, insistindo, e também porque estava disposta a arriscar pagando 2000 pela gravação, rolou muito rápido depois de ter achado as pessoas.

– Vocês estão gravando no Estúdio Costella, é isso? Como está sendo?

Gravamos já, em fevereiro, em 2 dias. Durante a gravação foi filmado o Indiegogo. Foi muito trabalho pra Gabi, não podíamos ter feito nada isso sem ela. Ela sacou o melhor de cada um, estamos esperando ela mixar e fazer a master. Acho que vai sair em maio ou junho.

– Como você descreveria um show do Days of Dahmer?

A verdade é que nunca tocamos juntos nessa formação, mas acho que vai ser intenso. Adrenalina. Se estiver como no ensaio… Eu fico arrepiada! Tinha muitos momentos assim com eles durante ensaio. Acho que temos algo bom para compartilhar.

– E vocês já estão trabalhando em novas músicas?

Não. Como falei, this is it. Debut e fim. Eu vou para uma fazenda, casando com o baixista vamos cuidar dos animais em troca de lugar para morar e comida, até que eu ache um trabalho sério em Seattle. Não conheço a área… Faz 10 anos que não moro nos EUA. Mas essa região, o estado de Washington… Sabe, foi o primeiro estado para processar o Trump e o muslim ban. Também o lugar onde nasceu o grunge, um estilo pelo qual sinto um apego. Mas no futuro queria fazer coisas também mais experimentais, com voz, som, tudo. Mas vou ficar super orgulhosa do que a gente atingiu aqui.

– Então o Days of Dahmer já tem data pra acabar?

Sim, 10 de maio. Não fala pro Gilberto, ele vai chorar. Mas na verdade é transitório esse projeto.
Ah, pode falar sim. Mas imagina: banda independente levando 3 músicas pros EUA… Se uma label nos pegar nos EUA, talvez, mas não acho que a música está desenvolvida o suficiente para atingir um próximo nível.

Days of Dahmer

– Então é bom as pessoas irem nos shows que vocês têm marcados, antes que a banda acabe, né?

Sim. Na verdade até 9 de maio estamos disponíveis para tocar. O Gabriel, eu e o trashcat saímos daqui dia 10. Por isso estamos tocando tanto também em abril. Tipo um cara que pegou câncer e sabe que tem ate X data para viver. Acho que por isso também os shows vão ser divertidos, intensos. Queria ter mais músicas… Talvez vamos tocar as 6 duas vezes. Vamos ver. (Risos) Mas sim… isso é nosso clímax!

– Recomende bandas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Deixa eu ver aqui… Gostei muito de Sheila Cretina. Firefriend tem label agora, então nao são mais independentes, mas a Julia e o Yury vamos ver nos EUA. Preciso falar também do DVCO e Maru, bandas do Gabriel e Layon. Color for Shane… But my favorite most recent show was Porno Massacre. Edgar Pererê tem um show interessante também. É artista autêntico na minha opinião. O show do Retrigger também é incrível. E o show da sara não tem nome. Sempre ótimo ver mulher no palco!


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