Construindo I Buried Paul: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

Construindo I Buried Paul: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

27 de junho de 2017 0 Por João Pedro Ramos

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o projeto I Buried Paul, de Pedro Oliveira. Não deixe de seguir o perfil do Crush em Hi-Fi no Spotify e ouvir a playlist desta semana, disponível no final do post!

Angelo Badalamenti“Twin Peaks Theme”

É talvez a melhor trilha de todos os tempos; o clima e a instrumentação dessa música é a tradução perfeita da série, e constrói um determinado universo que pra mim é uma das coisas mais importantes na música. O universo aqui é estático, quase amorfo, nublado, e, principalmente, levemente fora do “normal.”

Portishead“Humming”

Eu não consigo descrever direito o que foi ouvir essa música pela primeira vez, numa madrugada passada em claro lá pelos idos de 2004, mas é daquelas que eu queria muito poder ouvir pela primeira vez de novo. A mistura de jazz com eletrônico com film noir é a essência do Portishead, e essa música engloba tudo isso. “Humming” moldou meu gosto musical pós-2004 e não poderia fazer uma lista sem ela.

Julee Cruise“Rockin’ Back Inside my Heart”

Mais uma relacionada com o Twin Peaks, mas aqui eu vejo o trabalho de voz dela como mais uma camada da atmosfera que a música cria, mais do que como algo que flutua por sobre os instrumentos. Inclusive a instrumentação e a leve estranheza dentro de uma fórmula “pop” é pra mim uma aula de como construir um momento estático no tempo e no espaço da música.

Earth“Old Black”

Essa música me mostrou que era possível compor em círculos. Fora isso: o arranjo, o timbre, o andamento, tudo nessa música é perfeito. Fundamental aqui, tanto quanto a guitarra, é a maneira que a Adrienne Davis toca bateria. É daquelas músicas que gostaria de ter escrito, e o Earth é talvez a maior influência direta do IBP junto com a trilha do Twin Peaks e o Coltrane.

John Coltrane“Psalm”

Eu costumo a dizer que o “A Love Supreme” é a minha Bíblia. Essa música, por exemplo, é uma oração escrita pelo Coltrane e lida não pela voz mas sim pelo saxofone. Ela faz parte de um disco que, na minha opinião, é mais do que um projeto musical e sim um projeto de vida. Diferente das outras em “A Love Supreme”, aqui em “Psalm” parece que tudo é aberto, espaçado, e principalmente permanentemente incompleto – três das coisas que eu mantenho na cabeça como guias quando/enquanto toco.

Miles Davis“Shh/Peaceful”

Em contraste ao Coltrane, aqui o espaçamento e a abertura é mais uma técnica de estúdio do que qualquer outra coisa. Essa maneira de trabalhar a improvisação no estúdio, o corta-e-cola de longas sessões de improvisação e, principalmente, a utilização do estúdio enquanto força de expressão pra moldar a improvisação é o que mais me influencia aqui. Esse disco todo, na verdade, é meu “holy grail.” É a tradução perfeita do que eu espero um dia chegar pelo menos perto com a minha música (e eu sei o tamanho dessa empreitada).

Hanna Hartman“Att Fälla Grova Träd Är Förknippat Med Risker”

O trabalho da Hanna Hartman é quase que cirúrgico. O jeito que ela manipula gravações de campo nessa peça é por vezes mais nítido do que a realidade. As sobreposições e a distribuição dos sons no espaço, assim como essa ultra-proximidade desconfortável é uma coisa que marcou muito minha trajetória musical/sonora. Foi por conta desta peça que eu decidi comprar um gravador e começar a coletar sons por aí, coisa que faço até hoje e que é uma peça importante no IBP.

Fennesz“Saffron Revolution”

A música do Fennesz apareceu na minha vida num momento em que eu me encontrava completamente frustrado com tocar guitarra. Ouvir as manipulações estranhas dele me levaram a reconsiderar tocar um instrumento “tradicional” e expandi-lo de alguma maneira. Foi a maior influência do meu segundo disco “in schwarzen Tönen, in lauten Farben” (de 2012), principalmente porque eu entrei na loucura de programar todos os sons eletrônicos na unha. Tanto que só fiz isso nesse disco (mas deveria fazer de novo).

Alice Coltrane and Carlos Santana“Angel of Sunlight”

Esse disco da Alice Coltrane com o Santana caiu na minha mão por conta da segunda música do lado A, que o Cinematic Orchestra sampleou em um dos discos e criou “All that You Give”, que é uma música tão linda quanto essa. Mas nada supera a original e esse disco é o ápice da pira orientalista dos anos setenta. Fora todo o talento absurdo da Alice Coltrane, a guitarra do Santana é algo formativo na minha vida, desde timbre a como ele era capaz de traduzir o pensar do jazz pro rock psicodélico sem soar virtuosamente chato. Esse disco todo é uma obra-prima.

The Dillinger Escape Plan“Panasonic Youth”

Depois que eu ouvi o DEP minha vida nunca mais foi a mesma. Eu gosto especialmente das músicas que abrem os discos porque eles sempre escolhem a mais brutal e chocante que é pra já avisar o ouvinte o que está por vir. O “Miss Machine” é meu disco preferido deles (e olha que sou fã de carteirinha da banda), e “Panasonic Youth” é um clássico absoluto do caos controlado, da agressividade, e do rompimento de qualquer barreira musical ou o que o valha. Na edição que eu tenho desse disco tem um sticker com um review que diz “this is the sound of the future” – e eu concordo plenamente: ainda acho que nenhuma banda chegou no nível deles.

Fantômas“Delirivm Cordia”

Mike Patton é talvez o músico que mais me influencia diretamente – por conta do ecletismo e da falta de vergonha na cara (com o primeiro eu me identifico, já o segundo eu admiro de longe). Fantômas é uma das bandas da vida pra mim, mas acho que o “Delirivm Cordia” é uma aula de composição em formato mais longo que funciona como uma narrativa em si própria. Assim como quase tudo que coloquei nessa lista, esse som constrói um universo próprio e deixa o ouvinte livre pra explorá-lo, porque dá espaço e dá material suficiente pra quem ouve poder se situar dentro desse espaço. É genial.

Menace Ruine“Not Only A Break In The Clouds But A Permanent Clearing Of The Sky”

Eu poderia botar muita coisa de metal aqui – muita mesmo, – mas acho que o Menace acaba sendo uma influência mais direta por conta da maneira com que eles trabalham com a distorção, o barulho, camadas, e melodias. É, de novo, aquela coisa entre o sujo e o entendível, o harmônico e o desconfortável que mais me fascina aqui. É metal sem ser necessariamente metal, sem apelar praquela coisa hipermasculina. Tem muita influência da Nico na voz da Geneviève, o que também é um ponto positivo.

Morphine“Empty Box”

A melancolia do Morphine e essa transposição do jazz prum contexto de bar pé-sujo com sinuca numa tarde nublada de quinta-feira é o que me pega no Morphine. Tem algo na maneira que o Mark Sandman compunha que eu ainda tou tentando entender como funciona, e o niilismo sutil da letra dessa música me intriga demais. É uma música que respira, se desenvolve sozinha e não chega a lugar algum. Do jeito que eu mais gosto.

Nico“Frozen Warnings”

O que me pega nessa música é o contraste: é uma peça quase de drone, mas a voz da Nico aqui tem uma urgência profética e apocalíptica. É como se o mundo tivesse ruindo e ela tivesse te avisando pra procurar abrigo, mas no fundo você sabe que vai ser inútil e que já era. Como não amar?

Steve Reich “Electric Counterpoint”

O pulso dessa peça do Reich é hipnotizante. Claro que influenciou metade do que se tem por “rock experimental” até hoje (alô Radiohead), mas eu ainda acho uma das melhores peças do Reich e uma das melhores composições minimalistas pra guitarra já pensadas.

Ulver“Hallways of Always”

O “Perdition City” foi um disco que me fez rever meus conceitos sobre música eletrônica. A complexidade dos arranjos e como ele passeia por gêneros é uma grande influência pra mim até hoje. A parte “central” do meu primeiro EP (“633”, de 2009), que é fundamentalmente diferente do que eu faço hoje com o IBP, é toda baseada nesse disco. Sonoramente eu deixei de tentar copiar (ahem) o Ulver, mas conceitualmente eu sempre volto nesse disco como referência de precisão e arranjo.

Satanique Samba Trio“Gafieira Bad Vibe”

O SS3 é daquelas bandas que está sempre no fundo da minha cabeça quando eu componho. Eu me lembro da fascinação que foi ouvir o “Misantropicália” pela primeira vez, e tentar sacar tudo o que tava acontecendo ali em tão pouco tempo. É uma parada muito profana em muitos níveis, mas principalmente pela pachorra que os caras tiveram de mexer com coisas “tradicionais” e “canônicas” no Brasil como o samba, e fazer isso sem o menor escrúpulo. O SS3 sempre me faz pensar “como eu posso deixar isso mais torto?” quando estou tocando. Nem sempre dá certo.

65daysofstatic“Radio Protector”

Essa banda me influenciou de uma maneira muito curiosa; foi bem numa época em que eu estava tentando entender o que é que me fascinava tanto em música eletrônica. O 65dos faz essa ponte entre o que, na época, ainda eram dois mundos distintos – post-rock e glitch –, e o trabalho deles com melodias “assobiáveis” é assustador. Eles me influenciam tanto que eu tenho uma série de gravações minhas que eu chamo de “clichês de pós-roque,” porque vez ou outra eu me pego tocando uma melodia que parece um plágio deles. Talvez um dia eu ponha isso no mundo, ou não.

Nine Inch Nails“4 Ghosts IV”

Eu poderia colocar o “Ghosts” inteiro, na verdade. O Trent Reznor é talvez um dos músicos mais importantes dos últimos 20+ anos, e apesar dele ter criado quase que um “blueprint” do próprio som, aqui no “Ghosts” é onde o NIN se desconstrói totalmente. A parte mais legal é como o disco é todo um projeto audiovisual, onde as músicas respondem às fotos que respondem às músicas, num processo cíclico.

Almir Sater“Vinheta do Capeta”

Eu cresci no interiorzão de SP, então a música dita “caipira” é um marcador muito nostálgico pra mim. O som do Almir sempre se destacou dos demais na minha cabeça – eu tenho pra mim que ele toca a viola como se fosse guitarrista, mesmo nas músicas com voz. Mas esse disco instrumental dele é inteiro bom, do início ao fim. É ótimo pra quebrar pré-conceitos (os meus inclusos) e perceber que há todo um contínuo entre a viola caipira e o blues, ou o que se veio a chamar de “american primitive”, por exemplo.