Como São Paulo inspirou o Corona Kings a se reinventar no disco “Death Rides a Crazy Horse”

Corona Kings

A guitarra é a força motriz que faz o Corona Kings funcionar. A banda de Maringá chegou em São Paulo e assim que botaram os pés na selva de pedra cinza, o som da banda se transformou. Isso fica claro em “Death Rides a Crazy Horse”, um álbum espontâneo, barulhento, guitarreiro, sem freios e sem um monte de overdubs. O negócio é mostrar como o som é ao vivo, com tudo o que tem direito.

Formada por Caique Fermentão (guitarra/vocal), Murilo Benites (baixo), Felipe Dantas (guitarra) e Antonio Fermentão (bateria), a banda está na ativa desde 2012 e já participou de grandes festivais no Brasil e no exterior, e em projetos de marcas importantes como Fender, Jägermeister e Levis. Conversei com Caíque sobre a carreira da banda desde que era apenas um projeto solo descompromissado até a chegada em São Paulo e o renascimento em “Death Rides a Crazy Horse”: 

– Vamos começar do jeito clichê, mas que eu curto sempre saber: como a banda começou?

É meio difícil ate de responder isso (risos). Eu, meu irmão e o Felipe tocamos juntos desde moleques, mas começou mesmo há uns 6 anos atrás. Eu ganhei uma gravação em um estúdio lá em Maringá, aí tinha umas músicas, fui lá e gravei. Nem tinha banda na época. Aí, quando tava ficando pronto, eu resolvi juntar a galera que era mais chegada pra tocar aquelas músicas. É bizarro que o Corona já tinha disco pronto e não tinha banda pra tocar (risos)!

– Então o Corona basicamente começou como um projeto solo seu, só que sem pretensão e sem nome.

Isso. Mas eu queria ter banda sim. Pra caralho!

– E depois dessa gravação cê já percebeu que esses sons podiam ser a fagulha pra uma banda rolar.

Ah, sim. Nosso som mudou bastante. Mas eu acho o nosso primeiro disco bem legal.

– E como rolou a formação e esse primeiro disco? Já foi gravado com o nome Corona Kings? Como o nome surgiu e o que ele significa?

Cara, a gente sofreu pra caralho pra achar um nome. Todas as idéias boas que a gente tinha já existia alguma banda com o nome. Eu sabia só que queria dois nomes, e não sei porque fiquei pensando que tinha que ser alguma coisa “kings”. Aí depois de muito tempo rolou o Corona Kings. E nem tem porque (risos). Só foi o primeiro nome aceitável que ninguém usava!

– Fala mais sobre os sons que estão no disco e como o som era nesse começo

Cara, eu meio que copiei as bandas que mais ouvia na época. Tem muita coisa boa no disco, mas hoje eu vejo que tem muita música que parece com alguma música (risos). Tá ligado? E nem era por querer, é porque eu fiz as músicas pra mim mesmo, nem pensava em ter alguém escutando meu som. Mas foi o melhor que eu pude fazer na época, e já que gravei sozinho tive muito tempo pra criar o que eu quisesse, gravar quantas guitarras eu queria… Foi uma escola, eu curti muito na época.

– Quais eram essas bandas que você se inspirava na época e quais inspiram o Corona hoje?

Na época era principalmente o Nirvana, Foo Fighters, Queens of the Stone Age e Pearl Jam. Claro que tem mais, tudo influencia, mas eu queria soar como essas bandas. Hoje em dia é muita coisa que influencia, agora com Spotify você descobre bandas diariamente, se quiser. Mas eu particularmente vou mais pra onda das bandas que a guitarra meio que “manda” no som, o ultimo disco do Corona eu sempre falava no estúdio que a guitarra era o principal e depois a voz. Ouvi muito Hellacopters, muito Kiss, Stooges, AC/DC, The Who… Mas queria pegar essa pira da guitarra rock’n roll e misturar com Nirvana (risos).

– Um negócio que hoje em dia talvez tenha sido deixado meio de lado, esse “rockão” movido à guitarra no tímpano, né.

Sim, mano, pra caralho. Tem uma galera q escuta o corona e as bandas do nosso rolê forever vacation e fala “caramba, eu nem sabia que ainda tinha banda assim”. É bizarro o quanto de gente vem me falar isso. Sinto que a galera quer produzir demais a parada hoje em dia e não se preocupa tanto em ter “veneno” no som, tá ligado.

– Tem aquela coisa de “limpar” o som na produção, né.

Sim, mas ao mesmo tempo tem muita banda foda. É que tem tanta banda que é difícil a galera descobrir que existe (risos).

– Aí veio o “Dark Sun”, já como banda, né. Como foi a produção desse disco? Como ele evoluiu do primeiro?

Foi bem diferente, primeira vez que eu só gravei a minha parte, fiquei até meio nervoso no começo! Mas acabou sendo legal. Eu tava numa época meio deprê quando fiz as músicas e gravamos o disco, não sabia se queria continuar a tocar. Aí dá pra ouvir um pouco disso no som. As músicas são bem mais “pesadas” nas letras e tal.
Nos primeiros 30 segundos do disco você já vê que eu não tava muito feliz (risos).

– É um disco mais “dark” do Corona, menos “forever vacation”.

Pra caralho! Eu queria que fosse meio ópera rock mesmo, meio progressivo. Bom de não ter fã é isso né, pode fazer o som que quiser (risos)!

Corona Kings

– E agora temos o “Death Rides a Crazy Horse”, um puta disco de rock que me lembrou muito o Supersuckers e o Turbonegro. Como foi a criação desse? Uma retomada ao rock mais puro e pé na porta?

Exatamente! Quando a gente veio pra são paulo saíram dois caras da banda (sim, eramos em três guitarras!), trocou o baixista… Aí em duas guitas pela primeira vez a gente meio que foi obrigado a ser mais cru. A gente aproveitou que ninguém conhecia a gente aqui pra meio que virar uma banda nova. E principalmente ao vivo, funciona muito melhor o som novo.

– E como esse renascimento do Corona Kings refletiu no disco?

A gente só quis se divertir e tentar passar isso no som. Eu lembro que saía pra correr e ficava pensando que queria ter um som que fosse legal pra dar uma corrida (risos). Ou que desse pra dar play numa festa e todo mundo curtisse. O terceiro disco é mais leve em vários sentidos… Eu quase considero ele um primeiro disco de novo.
A banda ao invés de morrer lá no Paraná renasceu aqui em SP!

– Ele é leve porque aposta na diversão, mas pesado porque é praticamente uma guitarrada na orelha.

Exatamente (risos)! Juntei o corona com o Capilé e o Zander, né, e nem precisei falar o som que queria tirar. E cara, é bem cru o disco. A gente não queria mascarar nada, tem que soar como a banda soa ao vivo. Não tem dobra de guita, mano, e olha o som que os caras tiraram! Tenho que agradecer muito ao Costella!

– Eu sempre quis saber de onde saiu o nome desse disco!

(Risos) Foi durante a gravação! Tem um monte de música que começa e o Felipe já entra solando loucamente, aí a gente falava que ele parecia cavalo de corrida esperando abrir a portinha, tá ligado? (risos) Hora que abria a porta vinha babando! (risos) Aí a gente chamava ele de “crazy horse” na época que tava gravando. Eu queria que o disco chamasse só “Crazy Horse”, aí meu irmão deu a ideia do “death rides” e tem uma música que fala meio disso no disco.

– Como você vê a música independente hoje em dia?

Cara, eu acho que quem fica no rolê é porque ama muito a parada, porque 99% da galera não ganha porra nenhuma. Na real gasta pra caralho, não é barato ter banda. Mas isso tem um lado bom: já que só fica quem ama mesmo, aparece muita gente talentosa, você faz amigos no mundo inteiro (porque todo mundo é muito parecido com você), um torce pelo outro e por aí vai.

– Quem estaria nessa pela grana tá ferrada.

Sim. Acho que vai ser muito difícil aparecer AQUELA banda, sabe. Porque com a internet é muito som novo todo dia, não tem mais uma Mtv que vai passar o clipe do Nirvana e o mundo inteiro vai mudar, não vai mais ter um Beatles, um Nirvana, esse tipo de coisa. Mas tem espaço pra TODO MUNDO. Eu aprendi uma coisa muito importante aqui em SP: que você tem que tá nessa porque gosta do rolê e ponto. A hora que você aceita isso, que não vai ter fama, não vai ter grana, tudo fica mais legal. Você acumula experiências e amizades e acabou.

– Então um ressurgimento do rock no mainstream é algo que você acha que não vai mais rolar.

Ah, aqui no Brasil se for aparecer algo vai ser feito pra grande massa, né. Vai ser aquele rock pra tocar na Globo. Brasileiro não é roqueiro, rock no brasil é década de 80 até hoje, tanto que Capital Inicial tá aí, toca no Rock in Rio e pá. Mas no undergound vai rolar pra sempre, e é da hora ser underground. E só quem gosta mesmo vai atrás.
E cara, dá pra fazer turnê, dá pra gravar disco, dá pra conhecer gente, fazer festa. Pô, tá tudo aí!

– Aliás, esqueci de citar o clipe de Death Proof! Baita clipe divertido. A morte da Mtv foi um pouco decisiva pra saída do rock do mainstream?

Eu acredito que sim. É a internet, né, mano. TUDO na sua mão ao mesmo tempo!

– Quais os próximos passos do Corona Kings?

Cara, continuar enquanto for legal, gravar, tocar, viajar… A corona kings é a minha filha do coração: ela sempre vai estar ali. Sem problema todo mundo da banda ter outros projetos, eu inclusive. Acho que o Corona tem muita lenha pra queimar ainda!

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Cara, eu vi uma banda (não lembro de onde são) chamada Cattarse (eu acho que escreve assim). PQP, que banda foda. Power triozaço, o guitarrista toca e canta pra caralho! Outra banda que é muito foda, principalmente ao vivo, é o Molho Negro. O show deles é um acontecimento (risos)! E não é porque são meus amigos , mas eu sempre achei o Water Rats muito foda também. Recomendo absurdamente! Tem muita banda de Maringá foda também: Stolen Byrds, Fusage… pô, Maringá faz bandas bem boas!


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