Colunas em Quarentena: A viagem de Raul Seixas pelo Velho Oeste paraense

Colunas em Quarentena: A viagem de Raul Seixas pelo Velho Oeste paraense

3 de abril de 2020 1 Por Vinicius Kdalm

 

Em tempos de Covid-19, nada melhor que algumas histórias interessantes não tanto contadas sobre a música nacional e internacional. Afinal, se você está lendo isso, eu espero que você esteja em casa, então senta aí, pega um café e larga a mão da ideia de sair para rua e dá uma lida nosso site.

Nos últimos tempos, com a notícia do alastro desse contágio, um artista que tem sido muito lembrado é o músico baiano Raul Seixas, devido a música “O Dia Em Que a Terra Parou” do álbum homônimo datado de 1977 que conta uma história muito parecida com a quarentena voluntária que as cidades tem passado no mundo inteiro por causa dessa doença. E para começar essa nova série de textos, nada melhor do que uma história desse maluco beleza que foi Raul.

Uma das histórias mais loucas da história do cantor ocorreu em 1985 na região de garimpos do Pará em uma das viagens mais absurdas já acontecidas na história da música. A viagem toda iniciou-se em São Paulo, com Raul e sua equipe pegando um voo com destino a Porto Velho. De lá pegariam um monomotor que os levariam até uma cidade em meio a mata.

Quando o monomotor chegou, o piloto estava com uma garrafa de uísque em mãos. Ao levantar voo, falou para o pessoal ficar mais próximo dele para conversarem e tomar o uísque que estava em posse. Raul, sem dúvidas, topou a ideia de primeira e começou uma festa em pleno ar.

Durante o voo, veio uma ideia na cabeça do piloto que logo perguntou se Raul sabia pilotar avião, deixando alguns da equipe atônitos. Raul logo soltou um “Eu sei lá como se dirige esta porra.” e a calma se estabeleceu de novo. Mas não por muito tempo, em seguida o piloto resolveu fazer manobras radicais com o monomotor, chegando em seguida a trocar de lugar com Raul para o cantor assumir o controle do avião. No percurso em seu comando, empinou o avião e gritou para seu guitarrista, Tony Osanah, que estava no voo: “Para o alto, Osanah, que isso é rock and roll, meu filho!” e chegou a levar uma dura em um momento que repararam que o avião estava perdendo altitude.

Ao fim, a banda pousou em um aeroporto improvisado no meio da selva e ao saírem do avião foram atacados por um enxame de muriçoca. Para aumentar aquela situação, ainda estava um calor infernal na região. Raul e a equipe estavam derretendo dentro do monomotor que permanecia estacionado na pista enquanto o voo que os levaria até o garimpo Marupá não chegava.

Lá, antes do voo, ainda se encontraram com Sylvio Passos, amigo e dono do principal fã clube do cantor, e o empresário e produtor de Raul, Gato Félix, para esperar os aviões que levariam eles para o garimpo. Na chegada dos dois monomotores, viram a situação precária que era, dois velhos aviões caindo aos pedaços e sem bancos, pois o dono havia retirado para que houvesse mais espaço para as cargas do show.

Para completar a emoção dessa aventura que nem havia começado direito, Raul, a namorada e a equipe estavam dividindo o espaço nos aviões com mais de 200 litros de gasolina e 150 litros de óleo, enquanto o outro avião havia uma dezena de botijões de gás. Sendo relevante falar também que os pilotos estavam alcoolizados, algo que era comum pra época naquela região.

Apesar de todos os pesares, chegaram bem no garimpo de Marupá para o que seria os primeiros shows de Raul por aquela região. O calor era de mais de 40 graus e foram recebidos por garimpeiros armados até os dentes que começaram a atirar para o alto assim que o monomotor pousou.

Assustado com a situação, Gato Félix bebeu no gargalo uma Johnny Walker e lamentou para o guitarrista Osanah: “Vamos morrer aqui nesta porra”. Obviamente, Raul foi um dos que ajudou a acabar com a garrafa de uísque que havia sido aberta.

Foto retirada da extinta revista Status feita pela fotógrafa Cristina Villares em um dos shows em Itaituba.

 

Na hora do show na boate Califórnia, o clima começou a fechar, a voz de Raul Seixas não estava boa e bem diferente do que os garimpeiros escutavam no rádio. Naquela hora, Raul já não estava bem de tão alcoolizado e também estava cansado da viagem, o que começou a irritar os garimpeiros. Do lado de fora, uma confusão começava a se formar, pois o dono da pista de pouso havia sido barrado, nessa até o empresário de Raul participou da briga.

Em meio a tudo isso, alguém chegou a reparar que Raul estava tomando insulina (o músico era diabético) e logo achou que o artista estava se drogando. Nisso, a polícia apareceu em busca de droga e queria levar todo mundo preso. Virou a maior confusão, os músicos chegaram a tentar continuar o show, mas Raul foi acometido por uma dor de barriga, tendo que fazer as necessidades em um buraco no chão atrás do puteiro aonde havia ocorrido o show.

Sob escolta da polícia, a banda conseguiu chegar ao hotel que era uma palhoça de pau a pique mequetrefe. O quarto só possuía uma cama, então as malas ficavam no chão e virava um ponto para várias baratas entrarem, fazendo com que, no dia seguinte, virasse um procedimento padrão uma sacudida em cada roupa que seria utilizada.

O segundo show foi perfeito, porém devido ao caos ocorrido na noite anterior, o público foi praticamente nulo. O garimpo inteiro estava revoltado com o cantor, tanto que ao se preparar para levantarem voo para o próximo garimpo, os garimpeiros não queriam autorizar o abastecimento do avião, que por acaso, havia sido alugado de um traficante poderoso da região.

O próximo garimpo que Raul e sua caravana iriam era em Itaituba, onde havia uma intensa atividade de mineração de ouro na região do rio Tapajós. A cidade era um lugar baseado em vários botecos, puteiros e boates e uma quantidade absurda de farmácia, para conseguir conter a demanda de doenças venéreas na região. Era a região mais badalada dos garimpos, chegando a ter uma subida ou descida de teco teco a cada três minutos.

Em Itaituba, o dono de uma das baladas que Raul tocaria, a Dancing Day’s Bar, avisou para todos da cidade e do garimpo que o cantor iria fazer um show no seu estabelecimento, algo que ninguém da região acreditou de verdade que aconteceria.

Atrás dos dois jipes que levavam a caravana de Raul, vinha logo atrás uma kombi precária que o dono da boate gritava anunciando a atração junto com um falho show pirotécnico: “Hoje à noite, na Dancing Days, o carimbador maluco! O maior ídolo do rock brasileiro! O grande Raul Seixas! Não percam!”.

Logo ao chegar, a caravana dividiu-se em dois, parte do pessoal foi descansar e a outra parte, junto com Raul, foram ensaiar e beber na cidade. O cantor chegou a receber o cachê previamente.

Mais uma vez, Rau deixou os garimpeiros revoltados com o show. O show que ele estava fazendo, não era igual ao que haviam visto na TV, houve uma decepção coletiva por parte da galera. Para completar a situação, ao subir no palco, Raul já estava muito bêbado, somado com o cansaço daquela longa viagem e ao calor de 40 graus que assolava a região. O show não atingiu a quarta música e o músico tombou no palco. Os outros músicos não estavam muito diferente do cantor e a situação também era lastimável.

O clima virou um verdadeiro Velho Oeste amazônico e os garimpeiros começaram a atirar para o alto. Raul Seixas e a banda tiveram novamente que saírem escoltado pela polícia, chegando ao ponto de que no próximo show, haveria a presença do Exército para garantir a segurança de Raul e sua equipe.

No último show de Raul por aquelas regiões, com a presença do Exército para fazer a proteção, o cantor fez um ótimo show, porém a situação desandou quando o músico começou a cantar “Mamãe, Eu Não Queria” do disco Metrô Linha 743″ de 1984 que faz duras críticas aos militares. Isso fez com que o clima começasse a esquentar. O que só esquentou mais ainda a situação foi que Raul esqueceu de tocar duas músicas que o delegado da cidade havia pedido para serem incluídas no show. A situação começou a desenrolar de forma errada e de novo, Raul e sua equipe tiveram que sair, pela última vez, escoltados. E assim, terminou a aventura de Raul Seixas por terras do norte do país, sem levar nada de volta para São Paulo. Apenas alguns discos da rara coletânea feita por Sylvio Passos chamada “Let Me Sing My Rock ‘N’ Roll” ficaram perdidas no meio da selva amazônica. Sem dúvidas, uma das mais loucas histórias do rock brasileiro.

Capa da coletânea “Let Me Sing My Rock ‘N’ Roll” de Raul Seixas

Referência

História retirada do livro “Por Trás das Canções – Raul” do repórter Carlos Minuano da editora Best Seller