Climão de Letrux em noite de despedida, magia e viagem no tempo

Climão de Letrux em noite de despedida, magia e viagem no tempo

21 de outubro de 2019 1 Por Vítor Henrique Guimarães

Eu vou adiantar um pouco a cronologia do show e começar esse texto com um momento bem do meio dele: logo depois da banda sair do palco, a Letícia Novaes, frontwoman de Letrux e dona da porra toda, contou uma história enquanto tocava na guitarra as duas notas de “5 Years Old”, última faixa do disco Letrux em Noite de Climão”. A história foi a seguinte: exatamente 10 anos antes do show desse sábado, ela fazia um show na esperança de que as pessoas estivessem curtindo e tinha uma moça que parecia de fato estar realmente empolgada com as músicas. “Ó, já estamos criando um público!”, ela pensou. Daí a moça entregou um guardanapo pra ela, que Letícia abriu empolgada… até ler o que estava escrito: “toca Ana Carolina”.

Como de costume depois de contar suas histórias durante os shows (Letícia é uma exímia contadora de histórias, o que é sempre um atrativo em seus shows), a plateia inteira riu e bateu palmas. Letícia fez questão de continuar e falar sobre aquele exato momento no espaço-tempo e disse que era muito bacana e doido ver que, 10 anos depois de pedirem pra ela tocar Ana Carolina, o Circo Voador estava lotado de pessoas cantando as músicas até mais alto que ela.

Letícia, tartaruga e lagosta, bem coisa banho de mar. Foto: Matheus Tavares / @mav.doc

Voltemos pro início.

O mestre de cerimônia do Circo, o DJ Lencinho, fez toda uma retrospectiva da história da relação dele com os shows da Letícia, desde sua encarnação como Letuce, que se encerrou em novembro de 2016. As luzes se apagaram e rapidamente voltaram com o vermelho característico dos shows desses últimos dois anos de turnê da palavra do Climão. Como num ritual, a banda subiu ao palco no meio de muita fumaça, reforçando o mistério característico das apresentações.

E tal como no álbum, “Vai Render” abre como profecia da noite. Sabe-se lá o que vai render, mas é certo que vai. Eles emendaram em “Ninguém Perguntou de Você”, uma das preferidas do público, uma das que mais fazem a galera pular. O vermelho persistia, mas agora o ambiente era bem menos misterioso. A única dúvida que seguia era o que era que tava na roupa da Letícia, mas antes que a gente pudesse até mesmo pensar em responder, a guitarrista Nathalia Carrera irrompeu um solo tão absurdo de impressionante que rolou até uma breve anestesia.

A guitarrista Nathalia Carrera. Foto: Matheus Tavares /@mav.doc

Aqui o texto fica um pouco pessoal (porque é difícil não tornar pessoal quando se fala de Letrux e isso é parte da magia): a Letícia é a artista que eu mais vi ao vivo na vida, juntando suas fases Letuce e Letrux. E esse só não foi o melhor show que fui porque estive em Paquetá – e aí só quem viveu sabe. “Amor Ruim” reforçou que a banda não estava pra brincadeira. Por causa do arranjo da bateria a música se torna um pouco mais complicada de se executar, mas ali a banda tava numa sintonia incrível. Todos estavam nas suas melhores formas. O baterista Lourenço Vasconcelos fez o que eu sempre quis ver dessa música, de maneira tão estelar quando no álbum. Foi como ver fogos de artifício no palco e, certamente, foi um dos momentos mais intensos do show.

Foi logo depois dessa música que ela contou a história do guardanapo e começou a modelar a linha do tempo da maneira que ela bem quis. Porque logo depois ela convidou ao palco o seu ex-parceiro de Letuce, o Lucas Vasconcellos – e aí foi cataploft. Ela de lagosta, ele todo de vermelho. Entoaram o que Letícia chama de um dos maiores hinos desse milênio [e que eu concordo], que é a música “Areia Fina”, do segundo disco de Letuce, Manja Perene” (2012), e fizeram a melhor rendição da música que eu vi na vida. E foi simples: Lucas manhoso na guitarra e voz, Letícia perfeita na voz até mesmo trocando a ordem dos versos.

Letícia Novaes e Lucas Vasconcellos. Foto: Matheus Tavares / @mav.doc

Quando a banda voltou, foram pra “Todos Querem Amar”, do Estilhaça” (2015), terceiro e último disco de Letuce. Enquanto no estúdio a música saiu num improviso, no palco letruxiano ganharam perceptivelmente uma cara mais… Letrux. Terminaram o momento letuciano do show com a forte “Lugar Para Dois” e “Quero Trabalhar com Vidro”.

Lucas seguiu no palco a pedido de Letícia pra tocar “Além de Cavalos”, composta em parceria pelos dois. Mais uma vez a galera louca, mais uma vez Nathalia deusa nas guitarras. Daí, para surpresa geral do público, a banda emendou em “Eu e Ela”, cover do pagode clássico do Grupo Raça que Letuce tocava no início de sua carreira. E foi depois desses mágicos minutos que parte do público, já emocionado, voltava a ser órfão de Letuce – até segunda ordem.

Depois de apresentar os integrantes e seus signos (Letrux não é Letrux sem signos), tocaram “Hypnotized” e “Que Estrago”, que contou com um momento que eu ainda não havia visto nos shows de Letrux: trajada de vestido dourado e óculos escuros, uma menina armou um buraco no meio da plateia. Devo admitir que foi extremamente divertido ver que ninguém ali estava entendendo nada, mas foi ainda mais divertido ver que quando todos entenderam, a rodinha virou uma festa maravilhosa de se ver.

Foto: Matheus Tavares / @mav.doc

E a partir daí deixou de ser só um baita espetáculo e virou uma festa. As pessoas dançaram em “Ouro Puro”, cover de Elba Ramalho, pularam ao som de “Flerte Revival” (e às luzes do globo espelhado que surgiu por cima da plateia) e aí chegamos no final com “Noite Estranha, Geral Sentiu” e aqui eu vou ter que me alongar um pouco.

Como eu disse, eu já vi Letícia ao vivo algumas vezes. Como algumas pessoas gritaram durante o show, ela é uma verdadeira artista e é bonito de ver sua presença e paixão em palco. É ótimo ver a capacidade dos músicos que ela junto e como ela mobiliza os elétrons ao redor de todos pra criar uma parada lúdica e original. Eu tava lá no primeiro show do Climão, no Centro da Música Carioca Artur da Távora, meio de semana. O show foi ótimo e emocionalmente carregado porque foi realmente um climão que geral sentiu. Dava pra sentir um certo nervosismo de quem fala “entra, mas não fica à vontade que eu não tô”. E é lindo ver que dois anos depois, mesmo com borboletas no estômago e lagostas nas pernas, a banda tá mais à vontade e em sintonia do que nunca.

Não se sabe ainda o que veremos nos próximos capítulos de Letrux (que serão gravados ainda nesse ano, segundo a própria), mas ver o nível de sintonia que a banda tá agora é uma parada extremamente animadora. O climão que se sente no palco não é de estranheza. É terra e fogo e água e ar num caos misticamente organizado, com a mesma habilidade que Letícia brinca com o tempo (que a gente nem vê passar durante o show) como se fosse massinha de modelar.

A banda quase completa, sem o baterista Lourenço – que talvez estivesse ainda quebrando tudo na batera. Foto: Matheus Tavares / @mav.doc

Certamente o melhor show da banda.