Cinnamon Tapes inicia caminhada com excelência confessional e crueza sutil

Cinnamon Tapes

É fato que me alegra muito perceber que os lançamentos que mais gostei em 2017 são de artistas da cena independente, basicamente do mesmo rolê que costumo frequentar, ou seja, pessoas potencialmente próximas, fazendo música pela música, livres. Outra coisa que me chama atenção é que todos esses projetos são liderados por mulheres. Já era tempo de ver isso acontecer.

Não que isso seja algo extremamente inusitado, longe disso, mas não é preciso se esforçar muito para perceber que a predominância do viés masculino nas artes é brutal, a ponto de parecer boicote. Acha exagero? Então tenta contar quantas diretoras de cinema de renome você conhece, ou quantas guitarristas, pintoras, grafiteiras, romancistas… Bem, como tudo nessa vida carece de um meio termo (Aristóteles e Sidarta não podem estar errados), estamos sendo presenteados com um período de gratas mudanças de comportamento, ao menos nesse aspecto de gêneros. E o tema deste texto é um belo exemplo disso.

Fruto de Susan Souza, cantora, guitarrista, violonista e compositora, o Cinnamon Tapes chega até nós como um projeto contundente, bem-acabado e belo. Esta muito claro que em Nabia” (Balaclava Records) cada canção foi pensada, repensada e aprimorada com muito cuidado, até chegar a este resultado incrível.

O lançamento funciona bem considerando cada faixa separadamente, mas também traz requintes de um álbum conceitual. Isso porque Nabia seria uma personagem, uma espécie de alter ego de Susan, que já afirmou que “Ela [Nabia] é um tipo de sereia mística que se permite viver em terra firme e suas vivências são contadas nas músicas”. Sendo assim, tudo que está ali parece ser verdadeiro, vivido por Susan e transmutado em arte.

Brisa, umidade, azul, zodíaco, sal, ciclos, areia, lágrimas, caminhadas, petricor, escuridão, isolamento, esperança, esoterismo e mulher. Pessoalmente falando, essa enigmática figura evoca todos esses elementos. Está tudo lá, no som e nas palavras.

Apesar de ser fácil notar que em toda a tracklist há uma profunda marca da individualidade da compositora, não posso deixar de ressaltar a importância do produtor e baterista do play, Steve Shelley, o impecável membro do Sonic Youth, que ornamentou o álbum com aquela perspicaz expressividade tão marcante que ele carrega (quem manja de SY sabe do que estou dizendo). Há uma sinergia muito bonita entre os dois em todo o disco, tudo executado e pensado de forma vaporosa, discreta. O peso está na mensagem que fica. Afinal, um bom disco guarda essa habilidade. O discurso musical de Nabia é bastante pessoal, sem aquela maquiagem pesada, quase nu, o que por si só o torna um projeto notável.

A primeira coisa que senti quando ouvi “Sol” foi uma mistura de acolhimento e conforto com uma instantânea identificação. A letra é humana, despida de artifícios, um som extremamente certeiro, honesto e puro, como pouco se ouve de uns tempos pra cá. Que música incrível. Ela fica na sua cabeça e persiste como um sabor agradável.

“Road” é outra faixa impecável e que resume o trabalho de forma certeira: sons limpos de guitarra, bateria minimalista, baixo profundo e uma dobra de vozes bem destacadas. Aliás, o grave e belo vocal de Susan é o que tem de mais denso em todo esse conjunto. Embora o timbre não seja similar, é inevitável deixar de pensar em algum momento em Cat Power, talvez pelo fato de que Steve também a produziu, no início da carreira.

Em “Estrela” temos uma densa melancolia com um quê de astrologia e um cenário de depressão, falando de quadratura de Plutão e diabo. Talvez seja o momento mais vulnerável de “Nabia”, na verdade, talvez seja o momento mais vulnerável que escutei há um bom tempo, o que é artisticamente muito bom. Não há como não deixar de se comover minimamente com esse som. Susan faz letras corajosas. “Faz quantos anos que este minuto existe?”, um belo verso.

A levada arrastada de “Skull” embala uma letra cheia de duras confissões e uma atmosfera de tons escuros. O sentimento transborda. Acho que muita gente que curte aquele clima do pós-punk vai curtir essa faixa. O mesmo acontece com “Lua”, e aí notamos como Steve Shelley é um baita produtor: poucos elementos, uma grande quantidade de espaço, sutileza e dinâmica. Você pode até achar que isso é fácil de se conseguir, mas se assim fosse seria mais comum encontrar álbuns tão redondinhos como este.

As agradáveis “Sacred Waves” e “Salty Eyes” incorporam uma persona ligeiramente inclinada ao folk rock, chegando a resvalar em Neil Young e até no sadcore dos anos 1990. A sensação é de estar caminhando na beira de uma praia, com aquele sol tímido pouco colorido. A envolvente trama de guitarras forma uma paisagem quase etérea em “Cinnamon Sea”, e não há como deixar de reparar na alta carga de PJ Harvey e Sonic Youth que a compositora carrega na bagagem, independe de Shelley estar na jogada. As referências estão acentuadas em todo o disco, porém “Nabia” tem uma cara, um corpo e uma voz autênticos.

“Ventre” fecha a tracklist exaltando a feminidade com uma intenção redentora, guiada por um belo piano. É um ótimo desfecho. Aí então você para e pensa nessas nove faixas e percebe que Nabia, essa personagem quase arquetípica, parece ter travado uma conversa franca, aberta, como poucas pessoas são capazes de fazê-lo. Isso é um dom. Um dom ainda maior quando você fala por meio da língua da arte.

Pegando o taoísmo emprestado, acima de tudo, “Nabia” é um álbum “yin”, com uma estética legítima, decorado de introspecções notáveis e uma linguagem arrebatadora. Faz falta ouvir coisas novas que priorizam o espaço, o silêncio, a natureza dos timbres de cada elemento que ali está, e isso este álbum supre com maestria. Com certeza um dos melhores discos do ano. Mulheres, continuem assim. Susan, continue assim.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *