Ciganoblues passeia pela música brasileira dos anos 60 e 70 com viola caipira e um pé fincado no blues

Ciganoblues passeia pela música brasileira dos anos 60 e 70 com viola caipira e um pé fincado no blues

12 de setembro de 2019 0 Por João Pedro Ramos

Em um certo domingo de setembro, um som na Avenida Paulista fechada me chamou a atenção. Com uma viola caipira em punho e um som que me transportou imediatamente para uma viagem pela lisergia e peso do rock setentista no Brasil, o Ciganoblues me pegou pelas orelhas.

A banda nasceu em 2017 na periferia de São Paulo, formada por Koelho (voz, viola caipira), Regis Soares (guitarra), Tuco Sobral (baixo, gaita, voz) e Viktoria Lorrane (bateria). Sempre com letras em português, o quarteto aborda temas como crítica social e diversão, falando sobre os contrastes do Brasil, de estradas de terra e concretos urbanos, de bares, culturas e contraculturas.

Em 2018, a banda lançou seu primeiro disco, “A Ferro, Fogo e Viola”, com apoio do Edital Música da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, se apresentando em diversos locais, incluindo o Festival Semana Rock de Osasco, a Virada Cultural de São Paulo (2017), Festival Folk Blues de Paranapiacaba e no programa Showlivre. Este ano, a banda assinou contrato com o selo Curumim Records e lançou o single duplo “Ritual”, com as músicas “Ritual da Lua Cheia” e “Liberdade”, inserindo ainda mais ritmos brasileiros como baião, maracatu e moda de viola em sua mistura de rock, blues e música cigana. Conversei com o vocalista Koelho sobre a carreira da banda e seus próximos planos:

– Me conta mais sobre como começou a banda Ciganoblues.

Começamos no começo de 2017 quando fizemos nosso primeiro show na Casa Raiz Libertária, uma ocupação artística no Parque Raposo Tavares, Zona Oeste de São Paulo. A banda começou dentro desse coletivo de artistas, num espaço que reunia grafiteiros, skatistas e músicos da região. Eu, Koelho, tinha um acúmulo de composições próprias que queria dar vida e mostrei pro Regis Soares, nosso guitarrista. Concebemos um nome, uma proposta básica e depois fomos chamando outras pessoas. Hoje a banda é formada por mim na voz e viola caipira, Regis na guitarra, Tuco Sobral no baixo, gaita e voz e Viktória Lorrane na bateria.

– Me chamou a atenção ao ver vocês tocando na Paulista, enquanto passava, o uso da viola caipira com muita selvageria. Como vocês definiriam o som da banda? Apesar do nome, acho que eu não diria que é blues.

Pois é… A gente também não sabe definir muito bem, costumamos dizer que é uma alquimia sonora de rock dos anos 60 e 70, música brasileira ( baião, maracatu, moda de viola) e o blues. No começo da banda tinha até mais blues, mas já com viola caipira. Nunca foi nosso propósito fazer sempre um blues tradicional, esse é um dos motivos de ter “cigano” no nome… A intenção sempre foi andarilhar nos estilos musicais, ser nômade, mas com um pé no blues, que é algo que amamos e que temos em comum.

– Foi isso que senti ao ver o show: algo de Brasil sessentista/setentista com um pouco de rock rural e sim, um pouco de blues ali no meio. Quem você citaria como influências principais para o som?

Cada um tem a sua, mas posso dizer no geral: Led Zeppelin, Beatles, Mutantes, Raul Seixas, Luiz Gonzaga, Chico Science e Nação Zumbi, Muddy Waters, Bob Marley, Robert Johnson… Pra ficar em nomes mais famosos e que sintetizam bastante coisa. Depois quando eu ler essa entrevista vou ficar bem puto que esqueci de citar algum bem foda (risos).

– Como rola o processo de composição da banda?

Geralmente eu chego com os sons. Crio bastante à partir da viola caipira, vou pensando em melodias, as letras e temas vão surgindo… Aí levo pra banda e vamos trabalhando em ensaios, depois testando nos shows… Teve uma mais recente que foi feita pelo Tuco, num processo parecido dele trazer o som e a gente criar os arranjos em cima.

Ciganoblues

– Me conta mais sobre o material que vocês já gravaram.

Já de cara em 2017 gravamos um single, “Blues do Vagabundo”, e no mesmo ano gravamos mais duas faixas e lançamos um primeiro EP, bem amador, uma demo mesmo. Em 2018 lançamos nosso primeiro Full Album, “A Ferro, Fogo e Viola”, que conseguimos produzir quando fomos contemplados por um Edital da Secretaria de Cultura de São Paulo. Poucos meses depois lançamos um ao vivo no Showlivre e agora em 2019 assinamos com o selo Curumim Records e distribuidora iMusics e lançamos “Ritual”, um single duplo com as músicas “Ritual da Lua Cheia” e “Liberdade”. “Ritual” com certeza é nosso melhor trabalho até o momento.

– Ainda faz sentido gravar um álbum cheio hoje em dia, ou é mais interessante lançar no formato single?

Olha… A prática tem demonstrado que hoje em dia realmente é mais interessante lançar singles… Ainda não sabemos se iremos aderir a isso totalmente, a gente cresceu ouvindo álbuns cheios, todas as nossas referências são de álbuns, não de músicas soltas. Por outro lado, somos uma banda pequena que não pode se dar ao luxo de torrar grana gravando tudo o que gostaríamos e ninguém ouvir… É complexo, também não sabemos o que pode vir por aí… EP é algo interessante, fica ali no meio termo… Umas 5 faixas já dá um gosto melhor, né…

– Já dá pra trabalhar em algum conceito, né.

Sim, e dar mais atenção a cada faixa, com clipes etc… Versões ao vivo, incluir todas nos shows…
Muita banda boa teve que fazer álbuns às pressas e meia-bomba pra atender interesses de gravadoras, então tem que ver o quanto o álbum cheio é fetiche e o quanto se faz necessário em dados momentos.

– Falando em gravadoras: o sucesso no mainstream ainda é algo que as bandas independentes almejam?

Acho que todo mundo quer viver do seu som, não passar fome, tocar com aparelhagens boas, viajar, tocar em tudo quanto é canto… Não precisar pedir carona pro motorista do busão pra tocar na Avenida Paulista (risos). Acho que um pouco abaixo do mainstream existe uma estrutura de nichos que pode proporcionar isso pras bandas, sem você precisar vender a alma, apelar no som, pasteurizar. Assim imagino eu, não me tire essa ilusão (risos).

– Quais os próximos passos da banda?

Tocar o máximo possível tanto em São Paulo quanto interior e outros estados próximos, isso a curto prazo. Estamos bem focados em shows, mas visando também manter essa pegada de sempre ter material novo todo ano.

– O quanto tocar na Paulista atrai novo público para a banda? Como vocês veem esse palco de rua?

Na verdade esse show que você viu foi o nosso primeiro lá! Já sabíamos que era vacilo ainda não termos feito, mas sentimos na prática o quanto é importante e vamos fazer sempre que der, esse tipo de espaço é fundamental. E como estamos em tempos esquisitos, vai saber quanto tempo dura!

– Recomende bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Hmm… tem bastante coisa acontecendo, muita banda boa … Posso te falar aqui do Monstro Extraordinário, Cabaré Dolores, Reggae a Planta, Orkestra Bandida, Caraná, 25ª Experiência, Monstro Amigo… E os tiozão do Ave Sangria voltaram com álbum novo que tá lindo demais! Tem muita mesmo, já sei que esqueci umas 20 (risos)!