Cigana aquece os motores para seu primeiro álbum com o single-manifesto “Às Vezes Cansa”

Cigana
foto: KING CHONG

“Às Vezes Cansa”, decreta o single-manifesto da banda Cigana. Com uma letra que bate de frente com o ativismo de sofá e a falta de senso crítico que toma a população hoje em dia, a música foi lançada no Spotify e ganhou um lyric video caprichado. “Realidade dissonante/No seu copo, o escape/’Nós não queremos saber'”, brada a canção.

Formada por Victoria Groppo (voz/synth), Caique Redondano (voz/baixo), Matheus Pinheiro (guitarra), Felipe Santos (bateria) e Pedro Baptistella (guitarra), a banda de Limeira surgiu em 2014 com o elogiado EP “Sinestesia”, se apresentando em festivais como a Virada Cultural Paulista, o Grito Rock e o Amanhecer Contra a Redução. No ano passado lançaram seu segundo EP, “A Torre”, com letras introspectivas e contestadoras com um som que une rock alternativo e pop. Agora, preparam o primeiro disco completo. “Alguns sons que a gente tá trampando têm vibes assim, mais rockeironas, com riffões e tal. Algumas coisas são completamente diferentes, com uma pegada mais melódica. Acho que o álbum vai ser um mix entre riffzões, músicas de “manifesto” e algumas músicas bem melódicas também”, conta Matheus.

Conversei com a banda sobre “Às Vezes Cansa”, as preparações para o próximo disco, o machismo latente no mundo da música e a vida de independente:

– Como a banda começou?

Victoria: A banda surgiu da minha vontade e a do Matheus de tentar fazer um som diferente do que já estávamos fazendo, gravamos “Shine” antes mesmo de ter a banda em si, a gente já tinha em mente do que queríamos, só faltava achar mais pessoas que estivessem afim de embarcar nessa junto e aos poucos as pessoas foram aparecendo da maneira certa até chegar ao que a Cigana é hoje.

– E de onde surgiu o nome Cigana? O que ele significa para a banda?

Victoria: O nome surgiu dessa ideia que tínhamos de fazer um som que fosse livre, que não ficasse preso em uma categoria muito específica de música, por isso que até aceitamos a nomenclatura “rock alternativo” porque é rock, mas ao mesmo tempo se tem essa liberdade do alternativo, da possibilidade que existe nessa “categoria”. Um fato engraçado sobre esse nome é que perdemos a conta de quantas vezes as pessoas nos procuraram pela página do Facebook achando que realmente era uma Cigana, querendo saber sobre o futuro amoroso, e é lógico que não perdemos a oportunidade de zoar (risos).

– Quais as suas principais influências musicais?

Pedro: Eu escuto muito Chon, Blink-182, Braza, Set Your Goals, Tim Maia, Mundo Livre S/A, Daft Punk.

Matheus: Acho que Rancore, Raconteurs e Boogarins são bandas que são influências pra algumas ideias que escrevi, e tem duas bandas mais novas, Highly Suspect e Weaves, que tô ouvindo bastante também.

Victoria: Escuto muito Céu, Lauryn Hill, Bones UK, Tune-yards, Blondie, K.flay, Carne Doce, Ben Harper, Beyoncé, Solange Knowles

– Vocês acabaram de lançar “Às Vezes Cansa”, um single-manifesto. Podem me falar um pouco mais sobre ele?

Matheus: Então, eu acho que é uma música “manifesto” por que ela tem esse tom de desabafo, e fala de uma coisa que me incomoda em particular, que é o lance do ativismo da cadeira do PC saca? E também sobre testar os limites da nossa boa vontade, os limites da nossa calma, de até onde a gente aguenta “tapas na cara” que recebemos todo dia dos nossos não tão queridos governantes (risos).

Cigana

– Essa música já é um aperitivo do que devemos esperar pro próximo disco da banda?

Matheus: É sim! Alguns sons que a gente tá trampando têm vibes assim, mais rockeironas, com riffões e tal. Mas algumas coisas são completamente diferentes, com uma pegada mais melódica. Acho que o álbum vai ser um mix entre riffzões, músicas de “manifesto” e algumas músicas bem melódicas também, em que trabalhamos bastante as texturas e as conversações entre os instrumentos…a gente tá trabalhando bastante com teclados e sintetizadores agora, criando camadas pros sons, o que dá um aspecto mais “psicodélico” também pro que estamos gravando.

– Então me falem um pouco do álbum anterior. Como foi a produção dele? A composição e tudo? O retorno?

Victoria: O “A Torre” foi produzido de uma maneira muito mais corrida, queremos que a produção desse próximo álbum seja bem mais aprofundada, queremos que seja uma imersão mesmo. Estamos fazendo cada som com muito mais calma e atenção. Apesar disso, o “A Torre” deu um retorno incrível! Fizemos vários shows após o lançamento desse EP e foi bem inesperado. Com tudo isso aprendemos que a parte de produção de um álbum precisa ter uma dedicação maior, não basta apenas ter só as músicas criadas.

– Me fala um pouco mais do vídeo de “Às Vezes Cansa”! Qual a importância de se lançar um clipe hoje em dia, sem a exposição que a Mtv Brasil dava?

Victoria: Ainda estamos trabalhando pra fazer um clipe para “Às Vezes Cansa”, mas lançar um lyric video já ajuda a dar visibilidade pra música. Até porque a nossa geração é muito ligada ao visual, as pessoas param pra ver mais do que só o som.

– Qual a opinião de vocês sobre o ainda presente machismo no mundo da música (e fora dele)?

Victoria: O mundo musical é machista assim como toda a cultura do mundo é. Só não enxerga quem não quer, só não vê quem não sente. E é exatamente esse o problema do mundo musical, a maior parte dele é formada por homens, e esses homens não param pra pensar que a diferença de quantidade de minas e caras dentro desse espaço é GIGANTESCA! E muitas vezes não param pra pensar que eles mesmos podem fazer uma mudança com pequenas atitudes. Por exemplo, não fechar o círculo de amigos músicos pra sempre ser aqueles mesmos caras que você já conhece, que você já sabe que tocam, sempre que surgir a ideia de uma participação em algum momento TENTA chamar uma mina pra participar, pelo menos TENTA. Essa ideia muitas vezes nem é cogitada, sabe? Acho que essa parada de faltar oportunidade das minas se expressarem artisticamente afeta muito. Depois que essas oportunidades começam a existir, a galera vai chocar com o tanto de mina talentosa que existe por ai e que muitas vezes só precisava de uma oportunidade de se colocar na cena. Não que isso tudo depende dos caras pra acontecer, mas quando um grupo local é predominante mente masculino há algo que se deve fazer. E se você ai que está lendo essa entrevista for uma mina muito afim de fazer um som e tá com medo da reprovação dos macho… Não tenha medo! Em algum momento vão colocar o seu talento e conhecimento a prova, e é exatamente nessa hora que você não pode desistir, porque você precisa continuar fazendo o que você faz pra outras minas se espelharem em você e não deixarem esse movimento todo morrer.

– Qual a opinião da banda sobre a cena independente no Brasil hoje em dia? Faz falta um pouco mais de rock no mainstream?

Victoria: A minha preocupação com o mainstream não né nem a falta de rock, é a falta de variedade dos artistas que chegam até lá. Não importa quão boa é uma banda, ela nunca vai tocar mais que a Anitta, entende? Meu problema nem é com a Anitta, é com a falta de espaço pra outros artistas mesmo. E quanto à cena independente do Brasil, tô achando tudo bem maravilhoso, a galera tá a mil!

Pedro: A cena hoje está caminhando para melhor, aos poucos as bandas estão percebendo que é se mexendo que as coisas acontecem, muitos lugares ainda são reféns de produtores q cobram dá banda um trabalho que não é dela, muitos lugares são reféns de panelas de bandas, muito subgêneros são reféns de roles “fechados”… Felizmente as bandas estão percebendo que vale muitos mais fazer o seu rolê trocar datas entre si, diversificar o rolê, misturar sonoridades e crescer junto, do que depender de um cara que vai cobrar uma taxa de ingressos ou algo parecido, a cena quase se matou e hoje caminha de volta pro DIY consciente onde todos se ajudam e querem sempre o melhor pro rolê e não ganhar ou crescer em cima dos outros.

Cigana

– Quais os próximos passos da banda?

Matheus: Terminar de compor e gravar o disco, pra gente soltar até o fim do ano. Vamos dar uma focada em gravar e produzir mais material agora, e dar uma desacelerada com os shows. Não que vamos parar de tocar, mas pra dar um atenção maior pra produção, vamos fazer só alguns rolês mais pontuais.

– Recomendem bandas e artistas ( de preferência independentes ) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Matheus: Ó, de gente nacional tô ouvindo Medulla, Bratislava, Boogarins, Catavento, Marrakesh, Odradek e Travelling Wave.
De gringo, tem umas bandas que nem Bones UK, Weaves, Chon… Raconteurs e Dead Weather, que sempre ouço. Ah, outra banda também que queria mencionar é a Doctor Mars!


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