Quinteto Café Tango reverencia Piazzolla e mostra que o tango vive no Brasil

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Quinteto Café Tango

Na estrada desde 2005, o Quinteto Café Tango tem como grande mestre Astor Piazzolla, o bandoneonista e compositor argentino que reinventou o tango. Formada por Fabio dos Santos (violino), Edu Guimarães (sanfona), Diego Beirão (guitarra), Pedro Assad (piano) e Taís Gomes (contrabaixo), a banda toca muito do estilo típico da argentina, mas também trabalha em composições próprias que absorvem influências de rock, jazz, música clássica, música cigana e etc.”Tentamos ao máximo estar abertos para todos os tipos de música que chega até nós, sempre procurando ouvir música de qualidade e músicos interessantes”, explica Fabio.

Com dois discos na bagagem (“Quinteto Café Tango”, de 2011, e “Café Tango Toca Astor Piazzolla”, de 2013), o quinteto agora busca trabalhar novas sonoridades e apostar em canções autorais, sendo que algumas delas já podem ser ouvidas nos shows do grupo. Conversei com Fabio sobre tango, influências, o processo de composição e planos para o futuro:

– Quando o grupo começou?

O grupo foi formado em 2005, quando ainda cursávamos música na Unicamp. Como parte de disciplina, um professor disponibilizou as partituras originais para a formação do quinteto do Astor Piazzolla (piano, violino, contrabaixo, bandoneon e guitarra elétrica). Não é muito comum encontrar grupos com essa formação e partes originais são coisas difíceis de se encontrar. Apenas substituímos o bandoneon por uma sanfona. Damos vida às composições originais do compositor para essa formação.

– Porque o enfoque na obra de Astor Piazzola?

As primeiras peças iniciamos porque as obras estavam à nossa disposição. À medida que nos aprofundamos mais na pesquisa do compositor, foi se consolidando a ideia de se dedicar a outras obras dele. Há muitas coisas que nunca foram publicadas, outras que são desconhecidas e que pouca gente toca no Brasil.

– Me falem um pouco sobre o material que já lançaram.

O primeiro disco, “Quinteto Café Tango”, foi lançado em 2011, gravado ao vivo no Estúdio Cachuera em São Paulo. Esse disco foi feito por necessidade de divulgar o trabalho. O segundo disco foi gravado no mesmo estúdio em 2012, depois que fomos contemplados pelo Fundo de Investimento a Cultura de Campinas (FICC). Com mais calma para gravar e programar como seria o disco, nosso segundo disco “Café Tango toca Astor Piazzolla” traz uma boa referência da pesquisa que fazemos sobre o compositor, incluindo obras importantes como “As Quatro Estações Portenhas”, “Suite do Anjo” e “Adios Nonino”… Também gostamos bastante de algumas peças “Lado B” do Piazzolla, também compostas para essa formação. Andamos explorando algumas composições e arranjos de grupos que gostamos, como o Tin Hat Trio – que explora sonoridades diferentes  – e o Quinteto Real – que toca repertório tradicional de tango com uma formação igual a nossa, e com arranjos bastante elaborados.

– Vocês também tocam material autoral nos shows. Como é o processo de composição destes sons?

Nossa primeira peça autoral foi compostas por encomenda para a trilha sonora do curta metragem “O Argentino”, de Diego da Costa. O resultado dessa parceria pode ser visto no YouTube. A proposta era fazermos um tango na linguagem do Piazzolla. Então ficamos nesse universo.  No momento estamos desenvolvendo um trabalho totalmente autoral, que sai do universo do tango e de Piazzolla. Temos uma música nova, do nosso pianista Pedro Assad, que deve ser lançada em breve como single e como vídeo online. As ideias para composições autorais geralmente partem de um dos integrantes do grupo. Mas tocamos há tempo suficiente para sugerir alterações, passar algumas coisas de ouvido, ou simplesmente dizer “inventa aí e depois a gente escreve”.

– Quais as maiores influências para a composição do material próprio?

No caso das encomendas, o próprio Astor Piazzolla. No caso do projeto que temos em mente de fugir um pouco da linguagem do tango, varia muito. Nós 5 temos formações e vivências musicais muito diversas, e estamos sempre em contato com muita música diferente. Para citar alguns gêneros que podem ser considerados influências para o grupo – música instrumental brasileira, jazz, canção brasileira, música clássica, pop, rock, música cigana, etc. Tentamos ao máximo estar abertos para todos os tipos de música que chega até nós, sempre procurando ouvir música de qualidade e músicos interessantes.

– Vocês pretendem gravar material autoral?

Em maio de 2015 fizemos uma gravação de música e vídeo no Estúdio 185, da música “Vento no Varal”, de Pedro Assad. Está tudo pronto para ser lançado. No momento que estivermos com o single cadastrado nas plataformas online, e com um show com estrutura para exibição do vídeo em telão, lançaremos  o trabalho. Pretendemos dar continuidade à produção autoral no grupo.

Quinteto Café Tango

– Como o tango é recebido no Brasil?

Não podemos responder com propriedade, mas sim com nossa experiência. Todas as vezes que tocamos, fomos muito bem recebido pelo público. Há muitas pessoas que gostam muito de tango e entraram em contato com ele por causa de aulas de dança. Parte desse grupo gosta muito da música de Astor Piazzolla. Há também pessoas que gostam de música instrumental de qualidade, e outras ainda que nos escutam pelas composições de Piazzolla. Temos também nosso público cativo: esse que reclama quando não encontramos lugares para tocar. De forma geral, sentimos que as pessoas sentem falta de escolher a música que escutam e de escutar música bem tocada. Pensamos que esse é um dos apelos do grupo.

– Qual é o público que os shows de tango atingem hoje em dia? A juventude está em sintonia com ritmos que não são “da moda”, como o tango?

Essa pergunta não tem resposta simples. A música de Astor Piazzolla não é exatamente “tango”. Também não é exatamente “popular”. A formação do grupo não encaixa nas categorias mais comuns. Esse trabalho atinge a muitos públicos diferentes, mas pequenos, por razões distintas. Nós somos jovens músicos. Estamos fazendo uma música com a qual nos conectamos e gostamos. Sabemos que estamos tocando obras que tem qualidade – como foi a música de Beethoven em sua época, por exemplo. É material que temos certeza que persistirá na história.

Quinteto Café Tango

– Quais os próximos passos do grupo em 2016?

Estamos procurando pensar de maneira criativa, pesquisando novos conceitos, novas formas de se conectar com as pessoas para podermos divulgar melhor nosso trabalho e expandir o público. A situação do país não é nada favorável para os artistas independentes em geral, então o momento é de produção para o futuro, organização interna e muito ensaio.

– Recomende bandas e artistas que chamaram sua atenção nos últimos tempos. Se forem independentes, melhor ainda!

Optamos por colocar grupos de música instrumental brasileira que têm nos chamado a atenção. Bora Barão. CarcoArco. Duo FoleRitmia. Scrutinizer. Jams Jellies and Marmalades. Rumpilezz. Quatro a ZeroHércules Gomes. Hamilton de Hollanda. Marcelo Onofre Quarteto.