Não há nada mais punk do que trair o movimento, segundo o Drakula

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Drakula
foto: Fernanda Coronado

Pseudônimos criativos como Obi Wan Kannabis e Don Diego Buena Muerte são apenas uma parte da experiência doentia do Drakula, banda que inicialmente seria de “surf music macabra”, mas traiu o movimento surf e hoje em dia fazem um “garage punk assombrado” da melhor qualidade.

Debaixo das máscaras de lucha libre e alcunhas trocadilheiras temos Fernando Urbano como Lord Chevy Chainsaw Von Urban (guitarra e vocal), Daniel Ete (dos Muzzarelas e Desenmascarado) como Evil Happy Herpes Moralez (baixo e vocal), Sergio Morais (do Leptospirose) como O Selvagem (bateria) e Beto Barbosa (do Labataria) como The Arrombator (guitarra e vocais). Na bagagem cheia de teias de aranha a banda tem os discos “O Inferno com I Maiúsculo” (2007), “Comando Frantasma” (2009) e os compactos “Vilipendio o Cadáver” (2011) e “Death Surf” (2015). A gangue de monstros mascarados prepara para 2016 um novo EP com o nome provisório de “Contos da Nave Morta” com mais de suas composições sangrentas e cheias de assombrações de Bela Lugosi.

Conversei com Evil Morales (que já foi o citado Obi Wan Kannabis) sobre a carreira da banda, dicas de como trair um movimento e a improvável ressurreição do rock brasileiro.

– Como começou o Drákula?

Foi meio por acidente, no final de 2005 troquei uma geladeira velha por umas horas de ensaio com o Fernando que tinha acabado de abrir um estúdio e logicamente precisava de uma geladeira. Aí formamos a banda para gastar essas horas e tocar numa jam session. Gostamos do resultado e resolvemos dar um nome para a banda e seguir em frente. No começo tentamos ser uma banda de surf music com uma temática um pouco mais violenta e macabra que as demais bandas do estilo. No começo ainda não usávamos as máscaras de lucha libre, so usávamos umas capas pretas e como o som era quase todo instrumental usávamos também umas dentaduras de vampiro. Depois traímos o movimento surf music e passamos a colocar voz nas composições, porque afinal de contas, nada mais punk do que trair o movimento. Aí vieram as máscaras os pseudônimos idiotas e mais influências de garage e punk. Porque no fim das contas somos aquele tipo de gente que descobriu a surf music através do East Bay Ray dos Dead Kennedys.

– E como escolheram o nome Drákula? Não tiveram nenhuma treta com direitos autorais ou nada assim?

Treta nunca rolou, mas na hora de buscar no Google é uma merda. Reconheço que o nome não é dos melhores mesmo (risos), mas na época que começamos a pretensão era zero, talvez se a gente tivesse pensado melhor o nome seria outro, talvez ate pior que esse que saiu meio por acidente.

– Agora, já que cê falou das alcunhas bizarras, me fala um pouco sobre elas. Quais são? Vocês assumem personagens mesmo ou é só o nome?

Bom, com uma máscara todo mundo fica mais cara de pau, então acaba incorporando um personagem ou recebendo um santo, o que aparecer primeiro. Os nomes vem de zueira mesmo, tanto que a gente vive trocando os pseudônimos. No fim isso é legal porque já que ninguém acaba tendo cara ou um nome fixo, o foco sai do ego e vai para a onda da banda mesmo, seja no show e nas composições, fora que dá um ar de gangue de filme vagabundo.

– Como você definiria o som da banda atualmente pós-traição do movimento surf, véio?

Garage punk assombrado.

Drakula
foto: Marcos Bacon

– Quais são as maiores influências (musicais e não-musicais) da banda?

Dead Kennedys, Dwarves, Dick Dale, Damned e Deep Purple, só bandas que começam com a letra D. Tudo isso misturado com western spaguetti, mentalidade de gangue ou seita de filme vagabundo, a logística do exército popular do Vietnã do norte, todos os diálogos do Apocalipse Now, piadas de cemitério, manchetes do NP, pastores pregando em línguas alienígenas, o morto do pântano, Lourenço Mutarelli, trem fantasma de parque tosco e o Danger 5… kill Adolf Hitler.

– Me fala um pouco sobre o primeiro disco de vocês, ainda na onda surf music macabra.

O nosso primeiro disco é quase inteiro instrumental, foi gravado ao vivo no estúdio, método que repetimos em todas as gravações. Nunca gravamos os instrumentos separados, isso é muito chato e custa caro. Foi produzido pelo Caio Ribeiro em 2007, o nome da obra… “O Inferno com I Maiúsculo”. Na época a gente queria misturar surf music com temas de western spagetti, mas como viemos da escola esporrenta punkmetalgaragebarulheira o troço todo ficou mais pesado que a gente imaginava, bem mais pesado.

– Aí como tudo evoluiu pro próximo lançamento, “Comando Fantasma”?

Abrimos a porta para outras influências e começamos a escrever algumas letras, acho que foi nesse segundo disco que encontramos o nosso som e a temática toda. Na verdade foi aí que o monstro nasceu, quando todo mundo aderiu às máscaras (antes era só eu quem usava)… O momento que isso aconteceu exatamente foi quando fomos fazer uma sessão de fotos num trem fantasma de um parque abandonado em Curitiba, foi nessa hora em que vimos a luz… ops, desculpa: as trevas.

– E aí veio o “Vilipêndio a Cadáver”. Me explica esse lançamento aê.

Foi com esse lançamento que a gente decidiu só lancar as paradas da banda em compactos de 7 polegadas, assim o estúdio fica mais barato e podemos ter uma certa regularidade nos lançamentos, depois gravamos o “Deathsurf” que tambem saiu no mesmo formato. Atualmente estamos com mais um 7″ EP pronto que deve sair agora no segundo semestre, provavelmente vai se chamar “Contos da Nave Morta” e também foi gravado praticamente ao vivo no estúdio.

– Opa, me fala mais do “Contos da Nave Morta”! O que vai ter nele?

É nosso novo trampo, já esta gravado e deve sair no segundo semestre, são 2 músicas inéditas, 1 cover do Leptospirose e uma regravação de “7th Son of a Bitch of the 7th Son of a Bitch”, que originalmente saiu no “Inferno com I Maiúsculo”, é a primeira gravação com a nova formação que conta com o Sérgio o Selvagem na bateria, também é a última gravação com o Don Diego Buena Muerte na guitarra, ele saiu da banda, quem entrou no lugar dele foi o Beto the Arrombator, que já tocava com a gente como guitarrista substituto faz um tempo. Inclusive ele foi quem fez a nossa primeira tour Norte/Nordeste em 2013. Ou seja, tudo em família… Manson. E foi produzido pelo Caio Ribeiro.

Drakula

– Você acredita que a cultura do álbum está morta? O povo agora só quer ouvir os singles na internet e pronto?

Não sei, acho que não. Álbuns são legais de ouvir, acho que isso está mais relacionado à cultura de massa, aonde o que é vendido não é necessariamente a música, mas sim um conceito, um visual ou qualquer outra parada desas. Estamos na era da superficialidade, onde vale mais a manchete do que o texto, mais o trailer do que o filme, mais o peido do que a cagada. Mas eu pelo menos ainda acredito no poder de uma coleção de canções.

– Você acredita num retorno do rock às paradas de sucesso? Isso é cíclico, como aconteceu nos anos 90, em que o rock desbancou o pop e depois deu lugar ao pop novamente?

Não sei não, bicho, não sou muito otimista quanto a isso. Ainda mais porque nessa fila antes do rock vem a lambada (risos). Sinto saudade de ouvir o Planet Hemp tocando no rádio e na TV, mas infelizmente eu acho que isso não vai rolar de novo não, acho que muita gente perdeu a referência do que realmente o rock deve ser.

– E o que o rock deve ser?

Lazarento. No sentido de ser excluído. De ser colocado de lado pela sociedade, acho que aí que funciona, quando vai para o porão e fica um tempo trancado lá, aí quando sair está pronto para a guerra, pronto até para fazer parte do mainstream sem se entregar, pronto o suficiente para nunca esquecer de onde veio nem suas raízes.

– Então, nesse sentido, no underground o rock nunca morrerá.

Depois do hecatombe nuclear só restarão as baratas e o underground.

– Quais são os próximos passos da banda em 2016?

Lançar o novo EP, tocar muito e continuar a nossa missão de implantar um belzebuzinho no coração de cada um de vocês. Estamos produzindo um clipe para uma das novas músicas, se chama “Boat Of Terror” e é um dos contos da nave morta também.

– Recomende bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram a sua atenção nos últimos tempos.

Tem algumas bandas novas que eu gosto e recomendo, tanto gringas como nacionais, vamos lá… Radkey, Motor City Madness, Slag, Evil Army, Ghoul, Test, Anjo Gabriel, Bode Preto, Anomalys, Human Trash, Thee Dirty Rats, Lo Fi, Red Dons, Modulares e o Violator que não é tão novo assim, mas é muito foda.