Uma lista de trilhas sonoras pro Dia das Crianças (que já foi, mas tudo bem…)

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Faz um tempo que tô numa brisa bem legal de reassistir umas animações infantis da virada do século. Aproveitando a semana do dia das crianças (a seguinte, na real, né…), resolvi usar este espaço sobre soundtracks pra falar dessas animações (meus xodós), uma vez que nelas a música é um elemento central e que intensifica bastante aqueles feelings bem toscos, mas bem reais que marcam filmes como “Spirit, O Corcel Indomável” e “Shrek”. Óbvio que não vai dar pra falar de todos, mas selecionei alguns que acho mais legais e é isso. Bora lá!

1- A Goofy Movie (Pateta, O Filme) – 1995

Direção: Kevin Lima

Roteiro: Jymn Magon

O filme que mostra a relação entro o famoso Pateta e seu filho adolescente Max, é basicamente um musical. O filho sendo fã do cantor Power Line, um astro do “rock”, tenta imitar o artista numa apresentação que faz interrompendo a fala do diretor no último dia de aula antes das férias de inverno e meio que se fode por isso. O pai, entendendo tudo errado, achando que o Max viraria um “delinquente” bota o aborrecente no carro e os dois vão viajar prum lago, onde o Pateta pescava quando criança. Os conflitos geracionais vão se dando de modo meio tosco, mas bastante bonito, emocionante e cômico, recheado de sons que fazem do filme o filme foda que o filme é.

2- Spirit: Stallion of The Cimarron (Spirit: O Corcel Indomável) – 2002

Direção: Kelly Asbury e Lorna Kook

Roteiro: Jonh Fusco e Michael Lucker

Com a música já não tão importante quanto no outro, o “filme do cavlinho” é absurdamente emcionante e aí sim, isso é MUITO por causa das músicas. Trabalhando sempre em cima da contradição entre o “selvagem e o civilizado”, a animação explora a rebeldia dum cavalo nas pradarias do oeste americano que não se rende às rédeas do exército. A trilha composta por Hans Zimmer e Bryan Adams, traz bastante dessa rebeldia num som bem pop rock, com músicas como “Get Off of My Back” e “You Can’t Take Me”, que trazem bastante duma raiva roqueira meio wild e bem massa.

3- Shrek (Shrek) – 2001

Direção: Andrew Adamson e Vicky Jenson

Roteiro: Ted Elliot, Terry Rossio, Joe Stillman e Roger S.H. Shulman

  

Todos são fantásticos, mas pelo menos pra falar da trilha, o primeiro é com certeza o mais foda. Com Leonard Cohen, The Monkeys, Smash Mouth (por sinal, no filme, todas as músicas são interpretações deles), Shrek arrasa com a subversão do clichê do conto de fadas. O protagonista,  um ogro meio puto com tudo e todos, vai atrás duma princesa trancada numa torre com dragão e tudo, em troca do rei deixar seu pântano em paz. Óbvio que dá ruim e o ogro se apaixona (todo mundo já viu esse né? tipo, não preciso me preocupar com spoillers, certo?). Muito fofo, com músicas incríveis e simplesmente genial, esse acho que entra pro meu top 10 de filmes…

E só pra terminar, deixo vocês com um hino:

Valeu!

“The Wall” (1982) – O mal estar da civilização numa perspectiva Floydiana

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The Wall

Pink Floyd – The Wall
Lançamento: 1982
Diretor: Allan Parker
Roteiro: Roger Waters
Elenco Principal: Bob Geldof, Christine Hargreaves e James Laurenson

Antes de tudo, queria dizer que foi extremamente trabalhoso fazer esse texto. Além da minha conexão com o filme em questão ser muito forte, toda vez que punha Pink Floyd pra me inspirar, só entrava numa brisa intensa e absurdamente profunda (porque é isso que Pink Floyd faz). Foi ainda bastante desafiador fazer isso sem ficar muito intelectualóide, mas nisso já acho que não tive tanto sucesso… Enfim, fica aí o texto sobre o que é pra mim, a maior obra de todos os tempos. Valeu! Curtam aê!

Imagético, sensitivo e alucinado, o filme faz a partir do disco “The Wall” do Pink Floyd de 1979, uma grande reflexão sobre os muros que nos cercam (individual e socialmente) e suas construções numa perspectiva claustrofóbica que só soma mais tijolos no muro. Contando com o Bob Geldof (vocalista do Boomtown Rats) no papel do protagonista, o musical que é um amontoado de clipes, se constrói como sendo as alucinações dum músico famoso (Pink) em uma viagem lisérgica no seu quarto de hotel antes dum show, misturando lembranças de sua infância com as do seu casamento e paranoias de todo o tipo, criando imagens oníricas dignas das mais intensas interpretações freudianas. As animações do Gerald Scarfe que transfiguram os desenhos do artista, reforçam a potência sonhadora da obra além de darem uma baita ajuda na decodificação das alucinações do cara.

O álbum que inspira o filme é por si só já uma ópera (obviamente sem a parte visual). Bastante auto-biográfico e marcando, junto com o “Final Cut” de 83, o momento da banda de discos DO ROGER WATERS (o que, com razão, deixou os outros membros meio putos), o disco conta a história dum músico famoso que cresceu sem o pai morto na guerra, com uma super proteção da mãe, uma repressão bizarra na escola e por fim já em sua fase adulta, uma uma decadência em drogas que “faz parte do trabalho”.

Sobre o disco, ainda, vale ressaltar o trabalho do produtor e engenheiro de som Bob Ezrin, responsável pelas falas que acompanham as músicas, introduzindo-as e conectando-as, reforçando o caráter operesco do álbum.

Voltando à questão temática, o muro são milhares de muros. São os que construímos ao redor de nós mesmos, mas é também o muro de Berlim (o filme é de 82, a tensão pra queda já tava bem forte) são os muros impostos socialmente que dizem “estes aqui, aqueles ali”, são os muros feitos de carros de luxo que erguemos pra nos defender de nós mesmos (o filme trabalha durante toda sua extensão com a tensão que existe entre o eu e o cara do espelho) e ainda mais uma série de outros que eu ainda na décima vez em que assisto não percebi. O que vai ficando cada vez mais claro pra mim, são as maneiras como o Pink (o cantor personagem no filme) se desespera constantemente com os tijolos que o cercam e tenta quebrá-los em atos de loucura exacerbados e destrutivos (é necessário destruir a si mesmo pra destruir o muro?).

Is there anybody out there?

Esse tal desespero que é meio que a marca duma boa gama de músicas do grupo, e que é marcado sempre com os solos psicodélicos e as letras apocalípticas que indicam “dissociação de identidade”, aparece na “ópera” com os surtos do Bob Geldof pulando e quebrando tudo, xingando o mundo da janela do quarto.

O filme é ainda cheio de referências à banda, como o momento em que o professor lê a poesia escrita pelo Pink criança e a tal poesia é um trecho de money (“New car, caviar, four star daydream/ Think I’ll buy me a football team“). Também quando o cantor entra no banheiro do quarto, raspa a sobrancelha, corta curto o cabelo, raspa os pelos do peito e deixa sangrar umas gotas pelo corpo, é uma referência ao Syd Barrett (fundador do Pink Floyd) que uma vez abandonou um jantar, foi pra casa, raspou a cabeça e voltou ao jantar como se nada tivesse acontecido.

Segue em link o trailer e a trilha sonora. Valeu!

Trailer:

Trilha sonora:

“Sing Street” (2016) – Romântico, post-punk e adolescente

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Sing Street

Sing Street (Sing Street)
Lançamento: 2016
Direção: Jonh Carney
Roteiro: Simon Carmody
Elenco Principal: Ferdia Walsh-Peelo, Lucy Boynton, Jack Reynor, Aidan Gillen, Maria Doyle Kennedy e Kelly Thornton
 

É incrível o que acontece quando um mauricinho encara o rock. Durante uma crise econômica na Irlanda em plenos anos 80 e uma crise conjugal entre os pais de Connor (Ferdia Walsh-Peelo), garoto acostumado com o ambiente caxias e educado duma escola classe média, é transferido pruma outra a fim de fazer cortes nas despesas da família. A nova escola, gerida por uma velha congregação de padres, é o esteriótipo de “puta zona”: alunos fumando em sala de aula, professor bebendo enquanto dá a aula de latim e etc; E tudo isso em contraposição com regras ridículas, rigidamente impostas e obedecidas, como o uso de sapatos pretos.

O nosso jovem Connor, ainda com dificuldades pra se adaptar ao novo meio, se apaixona por uma mina que fica sempre em frente à escola do outro lado da rua e a convida pra participar dum clipe da sua banda. Mas o cara nem tem banda, então se vê obrigado a formar uma. Seguindo os conselhos do irmão mais velho, que lhe apresenta Duran Duran, Joy Division, New Order, The Cure e outros, o moleque consegue reunir uma galera a fim de fazer um som e eles passam a tocar num estilo que eles chamam de “futurista”, mas que na real é meio que uma reprodução da vibe post-punk da época.

Além dos hits, o filme conta com músicas originais, que dentro da história são composições do Connor pra Raphina (Lucy Boynton, a garota do clipe), o que só intensifica o tosco romantismo adolescente que marca o movimento em todas as letras do Morrissey.

A primeira música da banda, que é a do vídeo pro qual a musa foi convidada, marca a referência nas letras à própria, além da influência do Duran Duran.

A segunda que eles gravam, ainda como homenagem à Raphina, marca agora a influência do The Cure, estilo que permanece até o fim do filme, descrito como “happy-sad” (com direito até às palmas que marcam “Close To Me“).

Quanto ao mauricinho, quanto mais ele se envolve com as músicas e descobre as possibilidades estéticas de se estar numa banda, mais ele abandona o estilo bom moço pra fazer cosplay de Robert Smith, bagunçar o cabelo e usar maquiagem.

Trailer:

Trilha sonora:

É isso aí galera. Assistam, ouçam e curtam! Valeu!

“Christiane F.” (1981) – David Bowie numa trilha sonora prostituída e drogada

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Christiane F

Christiane F. – Wir Kinder vom Bahnhof Zoo (Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída)
Lançamento: 1981
Direção: Uli Edel
Roteiro: Uli Edel, Kai Hermann, Horst Rieck e Herman Weiegel
Elenco Principal: Eberhard Auriga, Natja Brunckhorst, Peggy Bussieck, Lothar Chamski e Rainer Woelk

 
Na ansiedade comum ao início da adolescência, Christiane F., aos 13 anos enganou a mãe com o chavão “vou dormir na casa da minha amiga” e saiu com a amiga pruma balada na noite de Berlim. O lugar, habitado por uma galera usuária de heroína, é um antro de “decadência moral” que espanta e impressiona a menina. Mal criada a
David Bowie e fã do mesmo, a adolescente vai, enquanto se apaixona por um dos “degenarados”, se interessando cada vez mais pela possibilidade da siringa. Experimenta, experimenta de novo, se vicia, faz de tudo pra conseguir um pouco, tenta sair do vício, vê amigos morrerem e etc.

Feito a partir da autobiografia de 1982 “Christiane F: Autobiography of a Girl of the Streets and Heroin Addict” e metendo aflição pacas em quem assiste (principalmente nas cenas de abstinência), o filme pop é recheado com o som pop do pop David Bowie. Contando com a aparição do próprio num show onde vai a menina, parte do filme se constrói com as músicas do camaleão que dão o tom da descoberta da vida na juventude e todas suas consequências.

Vale a pena destacar a cena de “Heroes”. Invadindo uma galeria de madrugada, Christiane, seu “crush”, a amiga e mais uma galera correm, quebram vidros, roubam umas poucas moedas e fogem da polícia até o terraço do prédio onde ficam até amanhecer. Talvez uma das melhores versões dessa música!

Além do mais, “Look Back in Anger” tocando durante o show é outra que levanta o astral do filme com um pique meio 15 anos…

Segue em link o trailer e a trilha sonora do filme.

Trailer:

Trilha sonora:

Vejam e ouçam! Valeu!

“Piratas do Rock” (2009): a primeira vez que vi meu pai chorar

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Piratas do Rock

The Boat That Rocked (Piratas do Rock)
Lançamento: 2009
Diretor: Richard Curtis
Roteiro: Richard Curtis
Elenco Principal: Tom Sturridge, Philip Seymour HoffmanBill NighyRhys IfansNick FrostKatherine ParkinsonTalulah RileyTom BrookeChris O’DowdRhys DarbyWill AdamsdaleTom Wisdom and Ralph Brown

Antes do Big Boy aqui nas rádios tupiniquins nos anos 70 e bem antes do refrão “Kiss FM: depois de um rock, sempre vem outro rock”, na Inglaterra o filho do blues já tocava via antena. Contudo, em 1966, durante o auge do pop rock inglês, a tal música era ainda muito mal vista no país da rainha, e estações como a BBC tocavam o som “degenerado” apenas uma hora por dia. Mas o rock é o rock, não é? Foi respondendo a essa pergunta que malucos se jogaram em barcos no mar fora da região da legislação britânica e transmitiram Kinks, Turtles, Who, Stones e mais uma porrada de coisa.

O filme “Piratas do Rock” de 2009, remonta esse cenário e mostra a vida dentro dum desses barcos e a guerra constante com o parlamento. Carl (Tom Sturridge), um “fine young man” que foi recentemente expulso da escola por ter sido encontrado fumando maconha, é mandado pela mãe para o barco onde é esperado por Quentin (Bill Nighy), seu padrinho e comandante da rádio e do navio. É nessa marítima estação roqueira que o menino se envolve com o bando de caras, no melhor espírito camaradagem cuzona, num ambiente 100% da zuera, 50% da parceragem e 50% da cuzisse dos fura-olhos (mas porra, todo mundo tem aquele amigo cuzão e fura-olho). Sobre o título, é em parte por conta de todo esse espírito sempre cheio de rock, desafiando um parlamento babaca, que meu pai chorou na última cena (eu e meu irmão, com uns 12 anos, achamos aquilo incrível). Contudo, devo parar por aqui, a fim de não dizer mais nada sobre o final…

Obviamente que a trilha é do caralho! Com Cream, Who, Turtles, Otis Redding, Hollies, Jeff Beck, Jimi Hendrix, Procol Harum, Cat Stevens e mais uma porrada de coisa (ao todo o filme conta com mais de 30 sons diferentes), o musical recria fantasticamente o ambiente sessentista do rock britânico. Vale, contudo, ressaltar algumas das músicas, em parte por elas mesmas, em parte pelas cenas que acompanham.

“Lazy Sunday Afternoon” da banda Small Faces, toca no longa numa cena que explica a alma do rolê dos caras do barco. Eles andando juntos, a cada corte de cena mais bêbados e desalinhados, marchando no ritmo da música é o tipo de imagem que faz todo mundo lembrar de algum rolê da hora que tenha dado com os parças.

“Sunny Afternoon” do Kinks, é outra que toca mostrando o espírito do barco. Ao som desse som é que eles jogam futebol no convés e obviamente perdem a bola pra Poseidon. Além disso, a música ainda acompanha a reação do público em solo, em todos os lugares da Inglaterra, dançando fantasticamente a linda música.

Sem enrolar muito, só pra falar de mais uma, vale citar “So Long Marianne” do canadense Leonard Cohen, o som que acompanha ninguém mais ninguém menos que a jovem Marianne (Talulah Riley), sobrinha do capitão Quentin, quando ela faz uma visita ao barco e é apresentada ao jovem Carl.

Ainda, o filme é cheio de pequenas referências imagéticas ao rock’nroll. Os próprios radialistas, há quem diga que sejam homenagens aos membros da banda The Turtles (sua música “Eleanor”, toca no musical). Além disso, há uma cena que “lembra de leve” o encarte do disco “Eletric Ladylandda banda Jimi Hendrix Experience: o cara que faz o programa da meia noite, Gavin (Rhys Ifans), conhecido como sex symbol, aparece em seu quarto rodeado por uma série de mulheres nuas (uma vez por semana o barco recebe um grupo de fãs da rádio).
             

Segue em link o filme e a trilha sonora!

Filme: http://putlockers.fm/watch/EdZD29xp-the-boat-that-rocked.html

Trilha sonora:

Bom, é isso aí galera. Ouçam, assistam e curtam!

“Cowboy Bebop” (1998): um anime futurista e cheio de jazz

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Cowboy Bebop
Cowboy Bebop

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Cowboy Bebop
Lançamento: 1998
Direção: Shinichiro Watanabe
Elenco Principal: Steven Blum, Beau Billingslea e Koichi Yamadera


“Cowboy Bebop” se passa em 2068, um futuro muito loko com portais intergalácticos que permitem viagens em minutos e numa estilera Blade Runner, cheio de jazz e meio blazè gostosão, Spike, um caçador de recompensas, vive junto do amigo/sócio no que parece uma espécie de trailer espacial. Com um cigarro na boca e um cabelo muito style, o personagem anda sempre atormentado pelo seu passado, que vai se revelando de modo meio misterioso a cada encontro que acontece, seja com quem vai ficar pro resto da história, seja com quem aparece só em flashbacks… (Meio clichê, mas da hora pacarai!)

Perfeito pra quem tá a fim de assistir uma coisa de boa e que não exija muito da cabeça, o anime de 98, apesar de se apropriar duma série de elementos e soluções de roteiro bastante mainstream, é com certeza uma delícia, e se não impressiona pela originalidade da estrutura, a trilha deixa qualquer um que assista boquiaberto.

O adjetivo escolhido pra caracterizar o cowboy no título da série é o que leva os fãs do beat Thelonious Monk a clicar no play. Com um jazz bebop fantástico, às vezes intercalado com algum delta blues, a série japonesa ataca com aquele climinha smooth que dá sempre uma ótima sensação.

Devo dizer, contudo, que a minha música favorita da trilha é uma valsinha no melhor estilo valsa-jazz, tipo “Waltz for Debbie” do Bill Evans: “Waltz for Zizi”, música que toca várias vezes ao longo da série, acompanhando as cenas de reflexões nostálgicas e lhes empresta um lindo caráter felizinho good vibes.

Além disso, a música também está presente no título dos episódios, muitas vezes referentes à icônicas faixas do jazz, do blues e do rock, como no episódio “Honky Tonk Women”, que leva o nome do som dos Stones.

Foi feita em 2014 pelo Adult Swim uma série chamada Space Dandy, uma referência/plágio/homenagem ao anime noventista, porém sem a trilha jazz bebop que enfeita a série do Cowboy.

Em cima: Bebop; embaixo: Dandy.

Segue em link o primeiro episódio legendado e a trilha sonora completa.

Ep.1: http://mais.uol.com.br/view/tyccl3p7nhf5/cowboy-bebop-01-04024C99376AE0A14326?types=A&

Trilha completa:

“Orfeu Negro” (1959) – O mito grego inserido no Carnaval carioca

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Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Orfeu Negro
Lançamento: 1959
Direção: Marcel Camus
Roteiro: Marcel Camus, Jacques Viot
Elenco Principal: Breno Mello e Marpessa Dawn

Orfeu, motorista de bonde e sambista na escola Unidos da Babilônia, na véspera do baile de carnaval e prestes a casar com uma que não se chama Eurídice, conhece uma que chama-se assim. A menina que chega no morro onde vive o sambista incorpora bem a personagem grega e cai romanticamente nos braços do “herói”, que pelo menos na primeira aparição da morte, salva-a de Hades.

O helênico brasileiro, que é o perfeito Don Juan, é um apaixonado pela vida de um modo geral, sempre sorrindo e brincando com as crianças, mas apaixonado principalmente por seu violão, que faz o sol nascer todo dia cantando um “tristeza não tem fim/felicidade sim”.

Seguindo o mito grego, o Orfeu se apaixona pela Eurídice com o seu jeito bobo e romântico, mas como já diziam os vasos antigos dos museus de arqueologia, a heroína morre e aí lá se vai o sambista a tentar encontrá-la, agora diferente do que na história antiga, num ritual candomblé.

Orfeu e Eurídice, Nicolas Poussin

O filme é inspirado na peça “Orfeu da Conceição”, obra de 1954 de Vinícius de Moraes que conta com músicas em parceria com Tom Jobim, e ganhou vida nas telas em 1959 com direção do francês Marcel Camus, mantendo a absurdamente linda trilha sonora.

Passando-se no Carnaval, seria um absurdo que o pandeiro e a cuíca não fossem protagonistas. Em muitos momentos acompanhando os frenéticos pés das personagens, o samba enredo compõe o clima carnavalesco que a todo instante se contrapõe ao medo de Eurídice da morte, deixando o filme com um feliz astral sambístico.

Ah, e sabem aquela música “Afterlife” do Arcade Fire? Então, tem um clipe dessa música que é com cenas do filme, bem massa!

Segue em link a trilha sonora e o filme completo.

Trilha sonora:

Filme completo:

Como sempre, assistam, ouçam e curtam!

“Stand By Me” (1986): moleques legais fazendo coisas de moleques legais

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Stand By Me

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Stand By Me (Conta Comigo)
Lançamento: 1986
Diretor: Rob Reiner
Roteiro: Bruce A. Evans e Raynold Gideon
Elenco Principal: Richard Dreyfuss, River Phoenix, Corey Feldman e Jerry O’Connell

Baseado no livro “O Corpo” (1982) de Stephen King, o filme com nome de música conta a história de um grupo de quatro amigos de uns 12 anos que saem sós pela mata para procurar o corpo de um colega que, segundo o que se dizia, havia morrido na floresta. Atravessando rios e lagos e ganhando beijos das sanguessugas, passando por pontes onde passavam trilhos do trem e correndo da locomotiva, indo a um ferro velho fugindo de um cão de guarda e acampando intercalando o sono entre duplas e fumando cigarros roubados dos pais, os garotos convivem intimamente, criando um laço de amizade particularmente bonito.

O filme, apesar de apontar para essa questão tétrica do cadáver, deixa isso apenas como uma espécie de pano de fundo: ele fala sobre esses garotos, suas histórias, seus desejos e as relações entre os quatro. Fala sobre a descoberta da vida e os momentos em que se fazem as memórias. E nesse sentido, a trilha aponta bem o caminho do longa.

Com cenas dos quatro andando sobre trilhos e cantando músicas bem ao estilão década de 50 (música de salão romântica toscona e uns R’n’B), a parte sonora do filme desponta pro clima good vibes que a tela gruda nas retinas contando com músicas como “Great Balls of Fire” (de Jerry Lee Lewis) e “Lollipop” (das Chordettes).

Contudo, o auge musical definitivamente é a última música. Tocada nos créditos finais, o som “Stand By Me” (1961) de Ben E. King, fecha o filme com chave de ouro, deixando pra quem quer que assista uma deliciosa sensação nostálgica.

Segue em link a trilha sonora e o filme completo.

Trilha:

Filme :

Valeu! Assistam, ouçam e curtam!

“20th Century Boys” (1999) – Um mangá pra lá de rock’n roll!

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Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

20th Century Boys
Autor: Naoki Urasawa
Desenho: Naoki Urasawa
Lançamento: 1999
Editora: Shogakukan

 

Tava eu assistindo “Meteoro” (um filme brasileiro, muito bom por sinal) na sala quando meu irmão me chama no quarto pra me mostrar um mangá que ele tinha achado. “20th Century Boys” (sim, o nome é uma referência à música do T-Rex!) de Naoki Urasawa, autor de títulos importantes como “Monster”, é por excelência um quadrinho pop. Com uma série de referências musicais que vão muito além do título, o mangá se passa simultaneamente em tempos diferentes, contando a história dum grupo de amigos e explorando a dualidade entre a infância e a vida adulta, dum jeito lindo que lembra a nostalgia das músicas do Jair Naves.

Os personagens principais passaram a infância no verão de 69 numa “base secreta” (um esconderijo feito pelos moleques com galhos e folhas num terreno baldio), ouvindo música na rádio, vendo revistas pornográficas roubadas dos pais e lendo toscos quadrinhos de heróis. Além disso, escrevem um louco livro das profecias de como o mundo seria ameaçado por um grande vilão no futuro e como eles salvariam a todos, tornando-se os heróis. Já em 97 eles são caras normais que seguem suas vidas sem as grandes ambições “infantis”. Kenji, o protagonista, vive a década de 90 tendo abandonado já uma carreira dos sonhos como guitarrista e cuidando da filha da sua irmã que sumiu enquanto trabalha numa loja de conveniências. Mas pera, vamos voltar: lembram da parte do “livro das profecias”? Então: nesse mesmo ano de 1997, um cara começa uma seita que vai ganhando cada vez mais seguidores e usa como símbolo um desenho feito pelas crianças na base secreta. A partir daí, revelando aos poucos os personagens e as lembranças de cada um, eles vão se reunindo e criando um grupo de resistência contra o cara da seita, que incorpora o “vilão” do livro que haviam escrito. Eles, mais por necessidade que por vontade, incorporam o papel dos heróis com o qual tanto sonharam.

Tá dito então!

Contudo, apesar de parecer ser o mais clichê da jornada do herói, seguindo o mesmo modelo que “Senhor dos Anéis”, “Harry Potter” e outros, a história contrapõe as noções de heroísmo na infância e na vida adulta de modo particularmente interessante e que emociona por tratar a realidade caótica que o cara da seita criou com a simplicidade da inocência infantil que foi afinal, quem bolou tudo.

O que alguns anos não fazem pra pele, né, Kenji?
Pra introduzir a importância da trilha!

Quanto à trilha (por mais que talvez seja meio estranho pensarmos nesse conceito, uma vez que não é um vídeo), boa parte da história se passa no final dos anos 60 e começo dos 70 e é cheia de referências musicais. Na base secreta, o rádio fica sempre ligado e foi quando os personagens ouviam “Jumping Jack Flash” na FEN (Far East Network, uma rádio americana) que o Kenji começou a se interessar pelo rock e pela guitarra (o instrumento da sua adolescência).

Outras referências importantes são o Woodstock, dito como o evento onde pessoas movidas pelo sonho hippie invadiram o festival, Robert Jonhson, o bluseiro que encontrou o diabo numa encruzilhada da estrada, e um pontual Creedence Clearwater Revival que é mais um detalhe que qualquer outra coisa.

Todavia, o auge musical do mangá é a composição do Kenji. “Bob Lennon”, música que recebe o nome em homenagem a dois grandes nomes da hipongagem (Bob Dylan e Jonh Lennon), é um hino do heroi marginal japonês à vida em sua cósmica simplicidade, com uma letra que parece ser um poema do Drummond. O mangaká Naoki Urasawa chegou inclusive a gravar a música e tocou na expo de Tóquio de 2012.

Bob Lennon

O sol se põe, e em algum lugar,sinto o cheiro do Curry cozinhar
O quanto nós teremos de andar até chegarmos em casa?
Irão os croquettes da minha loja favorita
Ter o mesmo gosto?E esperando por mim?

A noite se opõe sobre a terra
E agora, estou correndo para casa.

Eles dizem que os ogros estarão rindo no próximo ano
E eu digo, deixe eles rirem como quiserem
Eu continuarei falando sobre os 5 ou 10 anos no futuro
E 50 anos depois, eu ainda estarei com você

A noite se opõe sobre a terra
E agora, estou correndo para casa.

Pode chover
Podem ocorrer tempestades
Lanças poderão cair
Então vamos todos voltar para casa
E agora, estou correndo para casa

A noite chega para todos
E todo o mundo
Está correndo para casa
Rezo para que
Esses dias
Continuem para sempre…

Bom galera, segue aqui em link o primeiro capítulo pra quem quiser ler online (juro que vale muito a pena!):

https://mangahost.org/manga/20th-century-boys-mh31897/1#1

Valeu! Espero que curtam!

“Harold and Maude” (1971) – Um filminho feliz com musikitchas felizes

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Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Harold And Maude (Ensina-me A Viver)
Lançamento: 1971
Diretor: Hal Ashby
Roteiro: Colin Higgins
Elenco Principal: Ruth Gordon, Bud Cort e Vivian Pickles

Pra curte a brisa hippie diboísta do Cat Stevens, esse é o melhor filme, já que além das músicas do próprio, o enredo em si também é absurdamente lindjo e diboistão.

Tem um cara que vive só com a mãe (o pai morreu) numa mansão gigante, sempre em meio a jantares e ocasiões sociais supérfluas. Cansado dessa futilidade burguesa e com um estranho fetiche pela morte, ele forja suicídios pra mama (ela já nem dá bola, acostumada com a estranha mania do filho) e curte dá uns rolê indo por aí em funerais aleatórios. A mãe “preocupada”, esperando que o filho tenha mais “responsabilidade e ambição”, manda o garoto pro psicólogo, tenta meter ele no exército e fica tentando achar uma mina pra ele em estranhos sites de namoro. O cara contudo tá tacando o foda-se na melhor expressão niilista e num dos funerais que vai, encontra uma simpática senhora que assalta carros pra voltar pra casa e devolve no dia seguinte, quando depois da cerimônia o carro roubado é o seu, ele vai reclamar com a velha e ela acaba pedindo uma carona. O cara topa, leva ela em casa (um antigo vagão de trem, encostado num canto da estrada) e recusa a oferta pra entrar e tomar um chá, prometendo voltar outro dia.

<3

por dentro!

Ele volta, conhece a casa, toma um gostoso chá de vó com a maluca, dança (por insistência da senhora que mata o jeito quebradão do cara) e acaba obviamente se apaixonando, com seus vinte e poucos anos, pela hippie quase octogenária. A doida bem loka e feliz que faz por sinal, qualquer um se apaixonar, ao longo da semana quando se passa o longa e que é a última dos seus 79, tira cada vez mais o cara do seu jeito tímido e apático pra apresentá-lo ao fantástico mundo da louca e linda felicidade rebelde, simples e magnífica (tipo Mogli e Baloo: eu uso o neeeecessário!), que manda pra casa do caralho todas suas “angústias” existencialistas.

A música, nesse filme, que inclusive é parte importante da introdução do Harold (o garotinho) ao mundo dos felizes, é lado a lado com as cambalhotas que o casal inter geracional dá no mato, a responsável pelo clima good vibes. A trilha com músicas do Cat Stevens (e alguns clássicos do séc. XIX), deixa qualquer um chapadão num clima bem gostosinho e alegrinho (como sempre fazem as músicas dele).

Com letras que resumem bastante a filosofia da velha, a parte sonora do musical desafia qualquer tipo de “grande filosofia” e sorri boba um sorriso apaixonado, gostoso e aconchegante, cantando músicas como “If You Want To Sing Out” e “Don’t Be Shy” que dizem dos modos mais profundos e poéticos possíveis, exatamente o que se propõe nos títulos e inspiram o espectador a pular por aí cantando alto (como se faz no filme).

 

Segue em link o filme completo e a trilha sonora.

Filme:

Trilha (em playlist):

https://www.youtube.com/playlist?list=PL02CB3E1F7937EF4F

Ouçam, assistam e curtam!

Valeu!