Conheça músicas que usam samples do assassino Charles Manson

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Ontem, 20 de novembro de 2017, morreu Charles Manson. Independente do que se pense sobre ele, a sua influência, principalmente na música, foi tão grande que no disco ao vivo “Rattle and Hum” do U2, Bono anuncia “esta música Charles Manson roubou dos Beatles, e nós estamos roubando-a de volta.”

O mais bizarro desta história é que Manson não se destacou por ter feito algo bom, alguma composição que tenha se tornado referência ou um simples poema. Após se tornar líder de um culto religioso, que ele pretendia usar para alcançar o poder supremo americano, uma desavença com o produtor de discos Terry Melcher resultou em uma das maiores tragédias do folclore americano no ano de 1969: o assassinato da atriz Sharon Tate, grávida de 8 meses e esposa do cineasta Roman Polanski, da socialite Abigail Folger e seu namorado Wojciech Frykowski, do cabeleireiro Jay Sebring, e do entregador Steven Parent.

O culto a Charles Manson foi crescendo. Começou na ligação com Beatles, onde ele usou a expressão “helter skelter”, algo como “caos desordenado”, para mandar seus seguidores cometerem os assassinatos, sendo que esta expressão dá nome a uma das músicas mais famosas do quarteto inglês. Também influenciou com a transformação da casa onde ocorreram os assassinatos num estúdio de gravação, pelo músico do Nine Inch Nails Trent Reznor, deu nome a uma das maiores bandas de rock americanas, Marilyn Manson, e foi sampleado por alguns artistas.

Dentre os samplers, o que mais se destaca é um pedaço de entrevista onde ele fala “I make the money, I roll the nickels”, que aparece na música “Beware”, do Death Grips.

Marilyn Manson usou um sample de “Mechanical Men” na música “My Monkey”.

E também, no final da década de 1980, os canadenses do Skinny Puppy samplearam a “Helter Skelter” de Manson e dos Beatles em “Worlock”. Abaixo você vê o vídeo de “Worlock” onde aparece não somente os samples, como também imagens de Manson e dos Beatles.

A importância do sampling: como ele nasceu e os processos envolvendo Kraftwerk

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Como vimos semana passada, o ato de samplear uma música sempre existiu, apesar de só ter recebido este nome lá pela década de 80, quando o processo explodiu de forma tão maluca com a popularização do hip-hop e outros ritmos que “pegavam emprestado” loops de bateria, ou guitarra, ou voz, ou qualquer coisa proveniente de alguma música lançada há alguns anos, para se criar uma nova música.

Em 2010, Adam “Ad-Rock” Horovitz, dos Beastie Boys, deu uma entrevista à Propellerhead onde ele conta como que ele criou seu processo de sampling. “Pause tapes é basicamente quando você possui aqueles rádios com dois toca-fitas, e aquilo era o equipamento mais avançado que você tinha, ao menos era o que eu tinha, que eu podia comprar. Você basicamente fazia loops com a batida tocando do lado esquerdo, o lado que tocava, e gravando no lado direito, o lado que gravava. Você precisava apertar o botão de pausa exatamente no momento que a batida começava e apertava pausa de novo quando a batida terminava, exatamente antes da música começar. Então você voltava a fita esquerda e fazia de novo, repetidamente, e você tinha pequenos loops rolando na fita cassete. É um negócio de homem das cavernas.”

Dentre as histórias engraçadas, há uma de quando ele chegou na casa de outro beastie boy, Adam “MCA” Yauch, e viu uma fita literalmente rodando pela sala, usando pedestais de microfone como suporte, para que essa fita ficasse esticada, numa posição que fosse possível ser tocada infinitamente, com um loop da batida inicial de “When The Levee Breaks”, do Led Zeppelin. “Quem sabia? Quem sabia que você podia fazer aquilo? Eu não sabia!” Segundo Ad-Rock, Yauch ainda exemplificou: “Jimi Hendrix fazia isso! Sly Stone fazia isso!” Até que ele encontra dois grandes problemas: direitos autorais e processos legais.

Adam acredita que o Beastie Boys foi a primeira banda a sofrer um processo judical por sampling. Jimmy Castor Bunch foi um dos artistas que entrou com processo contra ele. Jimmy e outros artistas queriam receber parte dos lucros das músicas. Assim sendo, os Beastie Boys descobriram que, pagando, você pode samplear o que quiser.

Voltando um pouquinho no tempo, em 1977 o Kraftwerk seguia um caminho com um petardo atrás do outro ao lançar “Trans-Europe Express”. O quarteto alemão vinha ganhando um destaque mundial, chegando a ter a música “The Hall of Mirrors” no comercial dos calçados Starsax, tanto nos EUA, quanto no Brasil. No ano seguinte lançavam “The Man Machine” e, em 1982, “Computer Love”, que permaneciam com a mesma criatividade iniciada em “Autobahn”, de 1974.

Em 1982, Afrika BambaataaArthur Baker recriaram trechos das faixas “Trans-Europe Express” e “Numbers”, ambas dos alemães, para compor seu maior hit até os dias de hoje: “Planet Rock”. Esta faixa se tornou pioneira por juntar o hip-hop à música eletrônica, rompendo barreiras entre estilos que não conversavam. Pouco tempo depois era acionado um processo contra a dupla, por não dar créditos e nem dinheiro, ao Kraftwerk.

Maxime Schmitt, da gravadora EMI, e Karl Bartos, do Kraftwerk, comentam sobre o episódio no livro Creative License: The Law and Culture of Digital Sampling, dos autores Kembrew McLeod e Peter DiCola. “Ele [Bambaataa] sabia muito bem o que estava fazendo” diz Schmitt, “ele não colocou os nomes dos autores e não declarou nada”. Bartos adiciona: “era perfeitamente a melodia de ‘Trans-Europe Express’ e a batida de ‘Numbers’. A gente se sentiu muito irritado com isso. Se você lê um livro e copia algo dele, você faz como um cientista, você tem que citar de onde tirou aquilo, qual era a fonte.”

O caso se arrastou por anos, com a vitória dos alemães. Porém, este foi só um dos processos que o Kraftwerk moveu contra outros artistas. A decisão mais recente aconteceu em 2016 onde, desta vez, eles perderam. Este processo se arrastou durante 19 anos e foi contra o produtor de hip-hop Moses Pelham, pelo uso de um sample em “Nur Mir”, single da rapper Sabrina Setlur, lançado em 1997. A corte entendeu que “a liberdade artística se sobrepõe ao interesse dos donos do direito autoral” e que “samplear é um aspecto essencial para a expressão artística de músicos de hip hop”.

Pra não falar só de processos envolvendo samples, Ralf Hütter, co-fundador do Kraftwerk, recentemente entrou com um processo judicial contra uma campanha no Kickstarter de um carregador de baterias que promete ser uma “usina de energia”. “Usina de energia”, em alemão, é “Kraftwerk”. A palavra, que consta no dicionário, é registrada e pertence ao grupo de música eletrônica. A campanha se encontra atualmente suspensa devido ao processo judicial, mesmo após ter arrecadado mais de U$ 1,5 milhão.

Quem sampleou os Beatles? Dica: vai de Frank Ocean a Pink Floyd!

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Beatles

Você pode ou não gostar de Beatles, mas uma coisa não dá pra negar: eles mudaram a música popular pra sempre. Apesar de existirem conspirações que dizem que, se uma pessoa não fizer nada, outra faz, na realidade em que vivemos, no universo em que nos encontramos, na realidade à qual pertencemos, John, Paul, Ringo e George fizeram história. Então, em comemoração ao 54º aniversário do EP “The Beatles (No. 1)” resolvemos listar alguns dos samples mais populares do quarteto inglês, de acordo com o site WhoSampled. Alguns pela sua popularidade, outros pela sua peculiaridade.

1) Frank Ocean – “White Ferrari” (2017)

A baladinha, lançada em junho deste ano pelo cantor, possui sample da música Here, There and Everywhere“. Ocean já havia sampleado Beatles anteriormente na música “Seigfried”. O sample em “White Ferrari” começa exatamente aos 1:25 do vídeo abaixo:

2) Gary Clark Jr. – “Numb” (2013)

Este caso não é apenas de um sample, mas sim é usado apenas o baixo de Come Together com a guitarra por cima cima. O resultado pode ser percebido, com o som do baixo limpinho de Paul McCartney acompanhado de uma guitarra suja com um timbre meio Black Keys.

3) Pink Floyd – “Let There Be More Light” (1968)

Essa é um dos samples que mais me chamou atenção. Primeiro, como falo desde me conheço por gente, o Placebo plagiou essa música do Pink Floyd na sua Taste In Men, isso é algo que ninguém me tira da cabeça. Segundo, eu escuto essa música desde sempre e nunca tinha percebido que existia um sample de “Lucy in the Sky with Diamonds” exatamente aos 2:51. Clique abaixo e ouça com seus próprios ouvidos.

4) Wu-Tang Clan + Erykah Badu, Dhani Harrison e John Frusciante – “The Heart Gently Weeps” (2007)

O nome já entrega que a música sampleada é While My Guitar Gently Weeps, do famoso Álbum Branco lançado em 1968. O curioso é que, assim como a faixa do Gary Clark Jr. citada acima, aqui foram usados elementos apenas das vozes da música original e a batida que marca a entrada do rappers.

5) The Beatles – “I Saw Her Standing There” (1963)

Pra ficar uma parada mais justa, vai rolar uma inversão no quinto lugar. Os Beatles, em 1963, lançaram seu primeiro álbum, “Please Please Me”, com músicas originais e covers. Uma das originais é “I Saw Her Standing There”, que abre o disco. Se você ouvir esta música e depois I’m Talking About You, de Chuck Berry, vai perceber que a linha de baixo é… idêntica! Sample ou Paul McCarntey encarnou Reggie Boyd?

The Weeknd pegou emprestado o please please dos Smiths em “Enemy” (2012)

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Amanhã Johnny Marr, ex-guitarrista do The Smiths, está de aniversário. A banda inglesa é uma das mais influentes dos anos 80, apresentou Morrissey para o mundo, e já foi sampleada por alguns artistas. Vamos falar de um deles?

Quando o assunto é samples, normalmente acabamos focando no que aparece mais, no que é jogado na cara, aquele que você não sabe se é da música original ou da nova. Só que, muitas vezes, um sample que fica em segundo plano, quase imperceptível, e mesmo assim pode ser a base para a parte mais portante da música: o refrão.

E assim fez The Weeknd, quando lançou “Enemy”. O artista canadense, único a ter 3 músicas nas 3 primeiras colocações na tabela Billboard Hot R&B, publicou a música em sua conta do Youtube no ano de 2012. Nela, Abel Makkonen Tesfaye, nome de batismo do artista, se apropriou de um pedaço de “Please, Please, Please, Let Me Get What I Want”, dos ingleses.

A baladinha começa com um sonzinho meio sinistro até entrar um sintetizador bem seco, talvez misturado com um cravo ou piano. O pré-refrão é recheado de “girl I’m just trying to get you high without a word”, até chegar no ápice da música, “Please, please, please / Let me, let me, let me / Let me, get what I want this time”, cantado em cima do sample dos Smiths. Preste atenção na adição do “this time”. “Me deixe ter o que eu quero… desta vez”. Abel parece meio cansado de pedir e quer, ao menos desta vez, ter sucesso.

A Tribe Called Quest convocou Lou Reed em “Can I Kick It?” (1990)

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A Tribe Called Quest
A Tribe Called Quest

Esta semana faz 4 anos que Lou Reed nos deixou. Um dos rockstars mais controversos, em 1975 lançou o primeiro disco de heavy metal “de verdade” da história, chamado “Metal Machine Music”. O álbum duplo tinha, em seus 4 lados, o mais puro barulho de metal sendo raspado, e vendeu 100 mil cópias nas primeiras semanas. Devido ao alto número de devoluções, porque as pessoas achavam que o disco estava com problema, ele foi tirado das lojas após 3 semanas. Até este ponto da carreira, ele já tinha uma das músicas mais conhecidas da sua carreira chamada “Walk on the Wild Side”. A música, inspirada pelo livro homônimo do escritor americano Nelson Algren, foi sampleada por muitos artistas. Um deles foi o grupo pioneiro do hip-hop alternativo A Tribe Called Quest.

Formado em 1985 por Q-Tip, Ali Shaheed Muhammad e Phife Dawg, o grupo tem, entre suas maiores músicas, “Jazz (We’ve Got)”, “Check The Rhyme”, “Eletric Relaxation” e “Can I Kick It?”

“Can I Kick It?” está presente no álbum “People’s Instinctive Travels and the Paths of Rhythm”, foi seu terceiro single, e é composta de elementos de 3 músicas diferentes. A batida veio de “Spinning Wheel”, do jazzista Lonnie Smith. O slide de guitarra foi pego do álbum de estréia do Dr. Buzzard’s Original Savannah Band.

Porém, o que realmente marca é o baixo de “Walk on the Wild Side”. Aparecendo logo após o slide, o baixo fica repetindo enquanto Q-Tip e companhia rimam love com above, shove, glove, love, dove…

“Walk on the Wild Side” também foi sampleada por Marky Mark and the Funky Bunch em “Wildside” (1991). Caso você não saiba, Marky Mark é conhecido hoje como Mark Wahlberg, famoso ator que participou de filmes como “Os Infiltrados”, “Três Reis” e “Uma Saída de Mestre”.

A construção de “Sure Shot” (1994), dos Beastie Boys

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Beastie Boys

O Beastie Boys nasceu no Brooklyn, em 1981, como uma banda punk hardcore, e entrou pra história como uma das maiores bandas de hip-hop do planeta. Ela se consagrou com Mike D, Ad-Rock e MCA, este último falecido em 2012, vítima de complicações decorrentes de um câncer. Esse também foi o ano em que o fim da banda foi decretado, e que seus membros foram induzidos ao Rock and Roll Hall of Fame, sendo o terceiro grupo de hip-hop a receber tal honra, após Run-DMC e Grandmaster Flash.

“Ill Communication”, lançado em 1994, foi o segundo disco da banda a alcançar o primeiro lugar na parada americana da Billboard, e já começava com uma grande música, “Sure Shot”. Com uma letra quilométrica, que cita desde coisas do cotidiano, apoio às mulheres, a uma declaração de amor ao vinil, a música é composta de 6 samples, e conheceremos alguns deles agora.

O primeiro sample é “Howling for Judi”, do flautista de jazz nova iorquino Jeremy Steig, lançada em 1970. Ele começa nos 20 primeiros segundos do vídeo e é, curiosamente, também a base da música de Steig. Durante seus 4 minutos e 38 segundos, a faixa vai repetindo as mesmas notas, que recebem uma camada extra de flautas virtuosas.

O sample de bateria é um trecho curtíssimo da música “ESG”, do UFO. Tida como uma das mais influentes bandas de rock de todos os tempos, os ingleses permanecem na ativa. A faixa original foi produzida por Martin Hannett, conhecido como o criador do som de Manchester, e também é um dos principais nomes por trás do lendário Joy Division.

Outro sample que compõe a faixa, mas que aparentemente não está disponível para o Brasil em plataforma alguma, é do disco “The Funny Sides”, da comediante Jackie “Moms” Mabley. Na música a citação aparece em um scratch aos 1:48. Moms nasceu na Carolina do Norte em 1894, ou seja, 100 anos antes do lançamento da música dos Beastie Boys.

Vale a pena citar também “Rock the House”, do Run-DMC. Ela aparece na última parte de “Sure Shot”, iniciando aos 2:58. O trio iniciou suas atividades também em 1981, e entrou para o estrelato pop ao ajudar o Aerosmith a voltar para os holofotes em 1985, quando resolveram adicionar uma nova batida a “Walk This Way”, lançada originalmente em 1975. A mistureba deu tão certo que levou o Run-DMC ao quinto lugar do Billboard Hot 100, um feito inédito pra um grupo de hip-hop.

O resultado de “Sure Shot” você confere no vídeo abaixo.

Pink Floyd sampleou a voz de Stephen Hawking em “Keep Talking” (1994)

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Em 1994, o Pink Floyd, grupo inglês de rock progressivo, terminava de gravar o que seria seu último registro de estúdio, o aclamado “The Division Bell”. Assim como todos os discos dos ingleses, esse possui músicas que marcam a criatividade de uma banda, mesmo após quase 30 anos de existência. “High Hopes”, a última música do disco, cuja letra deu nome a “The Endless River”, disco de sobras lançado em 2014, é um dos pontos altos não apenas do disco, mas também da extensa discografia da banda. Outras músicas que fizeram bastante sucesso foram “Take it Back”, “What Do You Want From Me” e “Keep Talking”.

Também em 1994, a British Telecom lançou uma peça publicitária que tinha a participação do físico teórico e cosmólogo Stephen Hawking, então com 54 anos. No anúncio, feito pela agência Saatchi & Saatchi, Hawking começa falando: “por milhões de anos a humanidade viveu como os animais. E alguma coisa aconteceu, que permitiu usarmos o poder da nossa imaginação: nós aprendemos a falar”. Com aproximadamente 1 minuto e meio, a mensagem foi tão forte que fez David Gilmour, vocalista, guitarrista e principal compositor do grupo, considerar como uma das melhores peças publicitárias já feitas.

Em uma entrevista de rádio, o músico contou que “ele [Hawking] sofre de uma doença degenerativa, está numa cadeira de rodas, não pode falar, e sua voz é sintetizada por uma coisa computadorizada feita especialmente pra ele. Eu acho que ele só consegue mover um dedo, bem pouquinho, e seu trabalho é feito apenas com isso”. O comercial foca no poder da fala, de como ela possibilitou fazermos o impossível, também de como a falta dela causa destruição, guerras e sofrimento, e da importância de continuarmos conversando. “Sua voz estava no anúncio, e esse anúncio quase me fez chorar. Eu nunca senti isso antes”, prossegue, “[esse] foi o comercial de televisão mais poderoso que eu já vi na minha vida. Eu achei fascinante.”

Após este choque inicial, Gilmour achou interessante usar a voz de Hawking em uma de suas novas músicas. Entrou em contato com a agência de publicidade e perguntou se ela poderia disponibilizar a voz usada no comercial. Com o material em mãos, a voz foi modificada, para encaixar no tempo da música, e a música foi adaptada, para que tudo fizesse sentido. O resultado é simplesmente uma música belíssima que fala muito sobre um problema bastante atual: a falta de comunicação entre as pessoas, entre os povos, entre países. Precisamos conversar mais, pois só o poder da conversa pode construir o impossível.

Os retalhos de samplers de Liam Howlett chamado “The Dirtchamber Sessions” (1999)

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O Prodigy, filho querido de Liam Howlett, já foi assunto aqui no Crush em HiFi em 2016, quando mostramos como foi feita a música “Smack My Bitch Up”. Em 1999, Liam resolveu dar um tempo na banda e trilhou um caminho um pouco diferente em “The Dirtchamber Sessions Volume One”. Ainda trabalhando com muitos samples, dessa vez não houve uma deformação das músicas para produzir novas composições. A ideia era fazer uma colcha de retalhos, naquele estilão DJ, de colar uma música na outra. Cada colcha foi chamada de Session, e o álbum possui 8 Sessions.

A primeira Session termina com um sample do Chic, sobre o qual a gente também já escreveu aqui e aqui, mas vamos começar do começo.

O encarte do disco é bem direto e mostra o que você vai ter pelos próximos 42 minutos: uma mesinha de som de 8 canais, um sintetizador e muitos, muitos LPs, de todas as décadas. Sem se preocupar em limpar os plic-plocs do vinil, Liam passeia pela história do sample, através de uma pesquisa na qual ele acaba “cortando a própria carne para expor os ossos”, mostrando além daquele recorte de 5 segundos, que todo mundo conhece, mas que poucos sabem a origem. Um grande exemplo dessa exposição é, já na primeira faixa, ter “Give the Drummer Some”, do Ultramagnetic MC’s, origem do refrão “change my pitch up / smack my bitch up”, da música “Smack My Bitch Up”, um dos maiores hits do Prodigy. Antes disso, ele também brinca com “Different Strokes”, de gravada por Sly Johnson em 1967; “Apache”,  gravada em 1973 pela Incredible Bongo Band, e “Chemical Beats”, gravada em 1994 pelo Chemical Brothers, entre outras músicas das mais diferentes idades.

A segunda faixa, ou Session 2, já vem na cola mostrando o quanto Howlett sabe que sua criação é influente, até pra ele mesmo. Ao lado de “Bomb The Bass” e “Trouble Funk”, ele puxa do próprio Prodigy com “Poison”, do disco “Music for the Jilted Generation”, de 1994, para, logo em seguida, botar “Been Caught Stealing”, do Jane’s Addiction, uma das bandas que ganhou os holofotes na década de 90. Pra quem não sabe, Perry Farrell, vocalista do Jane’s, é o fundador e curador do festival Lollapalooza.

O restante do disco é tão diverso que daria uma bela dissertação de mestrado, ou até mesmo um livro, devido ao tratamento que tantas músicas históricas receberam. É “Babe Ruth” misturada com o já comentado Chemical Brothers, três faixas do Frankie Bones coladas com Meat Beat Manifesto e Public Enemy. A Session 5 fica entre Sex Pistols, Fatboy Slim e Medicine, banda da filha do Bruce Lee, Shannon, aquela que aparece tocando no “O Corvo”, estrelado por Brandon Lee.

Se você tem interesse na história da música, precisa fazer uma pesquisa de samples pra uma composição própria, ou simplesmente quer um monte de hinos compilados, esse disco é perfeito!

“The Dirtchamber Sessions Volume One” foi lançado em 1999. Não seria hora de um Volume Two, Liam?

“Good Times” virou “Rapper’s Delight” e se transformou em “2345Meia78”, “Aserejé” e “Ragatanga”

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O Chic é uma das bandas mais importantes da era disco. Criada pelo super guitarrista Nile Rogers e pelo baixista Bernard Edwards em 1975, o grupo criou vários hinos como “Le Freak” e “Good Times”. No ano de 1979, o trio Sugarhill Gang resolveu usar “Good Times” como base para “Rapper’s Delight”, com um detalhe interessante: ambas as músicas foram lançadas em 1979. A música também virou um hit, chamando a atenção de Rogers e Edwards, que entraram com um processo judicial e ganharam a co-autoria da música.

Com uma letra gigante, que poderia servir inclusive como capítulo de um livro, e 14 minutos na versão original, “Rapper’s Delight” foi um sucesso tão grande que continuou servindo como base para muitas músicas, sendo sampleada por artistas como Gabriel o Pensador, em 2345Meia78″, e virando base para uma língua inventada em 2002 pelo trio de irmãs Las Ketchup em “Aserejé”, também conhecida como “The Ketchup Song”.

A letra de “Aserejé” é muito bem humorada, e conta a história de Diego, uma pessoa nascida na Espanha, que não sabe nada de inglês, tipo a Sol do BBB, esperando sua música preferida na balada. No refrão das Ketchup, o rapaz cantarola “Aserejé, ja deje dejebe tude jebere / Sebiunouba majabi an de bugui an de buididipí” ao invés de “I said a hip hop / Hippie to the hippie / The hip, hip a hop, and you don’t stop, a rock it out / Bubba to the bang bang boogie, boobie to the boogie / To the rhythm of the boogie the beat.” Quem nunca?

No Brasil, a música ganhou uma versão “em portunhol” feita em conjunto com as meninas do Rouge, com o nome de “Ragatanga”, e também foi sucesso absoluto. Essa versão ajudou inclusive a impulsionar as vendas das Ketchup!

Tricky transformou o grunge do Alice in Chains em um trip hop com pitadas globais

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Quando Tricky lançou “Adrian Thaws” em 2014, seu 11º registro fonográfico e que também leva seu nome de nascimento, houve uma tour mundial, que passou pelo Brasil. Convidou Mallu Magalhães pra gravar “Something In The Way”, tomando o lugar de Francesca Belmonte na divulgação de seu álbum por aqui. Ele também já teve um relacionamento amoroso com Bjork e é um dos muitos pais do trip hop, ao ter participado dos dois primeiros álbuns do Massive Attack.

Continuando com a herança do hip hop, suas composições se baseiam em samples, muitas vezes de artistas extremamente consagrados, como Michael Jackson e Alice In Chains. E esse texto é exatamente sobre essa interessante mistura pessoal de Seattle com os guetos londrinos. “Heaven Beside You”, a música sampleada, faz parte do terceiro disco do Alice in Chains. A música que fez sucesso tanto como single, no lançamento do álbum, quanto na participação da banda no “MTV Unplugged”, em 1996.

Essa fusão mostra a genialidade de um artista seguro de si, que sabe extrair o melhor para sua obra, independente do estilo e da exposição da música original, fazendo tudo soar novo, como se fosse feito para ele.

Tricky se apropria dos 5 segundos iniciais em “Keep Me In Your Shake”, fazendo um loop que se repete por 47 segundos enquanto o músico acende um baseado e reclama da segunda (Can’t wait for Sunday / It’s heartbreak Monday). Adicione ao itinerário da nossa viagem a Nigéria, país de Nneka, que divide os vocais e tem, em seu currículo, a música “Viva Africa”, tema da Copa do Mundo de 2010. Perceba que a conexão mundial segue fluindo.

Curiosamente, no canal de You Tube do artista, o sample não está presente. Foi substituído por uma guitarra com melodia parecida com a criação de Jerry Cantrell, mantendo boa parte da sua essência.