“Orfeu Negro” (1959) – O mito grego inserido no Carnaval carioca

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Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Orfeu Negro
Lançamento: 1959
Direção: Marcel Camus
Roteiro: Marcel Camus, Jacques Viot
Elenco Principal: Breno Mello e Marpessa Dawn

Orfeu, motorista de bonde e sambista na escola Unidos da Babilônia, na véspera do baile de carnaval e prestes a casar com uma que não se chama Eurídice, conhece uma que chama-se assim. A menina que chega no morro onde vive o sambista incorpora bem a personagem grega e cai romanticamente nos braços do “herói”, que pelo menos na primeira aparição da morte, salva-a de Hades.

O helênico brasileiro, que é o perfeito Don Juan, é um apaixonado pela vida de um modo geral, sempre sorrindo e brincando com as crianças, mas apaixonado principalmente por seu violão, que faz o sol nascer todo dia cantando um “tristeza não tem fim/felicidade sim”.

Seguindo o mito grego, o Orfeu se apaixona pela Eurídice com o seu jeito bobo e romântico, mas como já diziam os vasos antigos dos museus de arqueologia, a heroína morre e aí lá se vai o sambista a tentar encontrá-la, agora diferente do que na história antiga, num ritual candomblé.

Orfeu e Eurídice, Nicolas Poussin

O filme é inspirado na peça “Orfeu da Conceição”, obra de 1954 de Vinícius de Moraes que conta com músicas em parceria com Tom Jobim, e ganhou vida nas telas em 1959 com direção do francês Marcel Camus, mantendo a absurdamente linda trilha sonora.

Passando-se no Carnaval, seria um absurdo que o pandeiro e a cuíca não fossem protagonistas. Em muitos momentos acompanhando os frenéticos pés das personagens, o samba enredo compõe o clima carnavalesco que a todo instante se contrapõe ao medo de Eurídice da morte, deixando o filme com um feliz astral sambístico.

Ah, e sabem aquela música “Afterlife” do Arcade Fire? Então, tem um clipe dessa música que é com cenas do filme, bem massa!

Segue em link a trilha sonora e o filme completo.

Trilha sonora:

Filme completo:

Como sempre, assistam, ouçam e curtam!

Tributo ao Pato Fu “O Mundo Ainda Não Está Pronto” traz 30 versões de bandas independentes

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Em 2017 a banda mineira Pato Fu completa 25 anos trazendo na bagagem 10 discos de estúdio, 2 discos ao vivo, 5 DVDS e 34 singles. Pensando nisso, João Pedro Ramos (Crush em Hi-Fi) e Rafael Chioccarello (Hits Perdidos) decidiram criar seu segundo tributo em parceria, “O Mundo Ainda Não Está Pronto”, homenageando a criativa e divertida banda mineira. Nada como seguir o exemplo dos Patos e criar versões desconstruídas e inovadoras, assim como fizeram em repaginações de hits como “Eu Sei” do Legião Urbana, “Qualquer Bobagem” dos Mutantes e “Eu”, da Graforréia Xilarmônica. O disco duplo pode ser ouvido no www.omundoaindanaoestapronto.com.br

Em 1992, Fernanda Takai (vocal e guitarra) frequentava uma loja de instrumentos musicais e lá fez amizade com dois funcionários, John Ulhoa (vocal e guitarras) e Ricardo Koctus (vocal e baixo). Surgia o Pato Fu, trio que abusava do experimentalismo pop com influências que iam da psicodelia ao punk rock, passando pela new wave, bossa nova e rock and roll. “Fazemos muitos sons diferentes, mas, no fim, podemos dizer que somos uma banda do universo pop, que vai de Beatles a Sepultura. Tudo isso vale”, explicou John Ulhoa. Desde então, a banda só cresceu, lançando os discos “Rotomusic de Liquidificapum” (1993), “Gol de Quem?” (1995), “Tem Mas Acabou” (1996), “Televisão de Cachorro” (1998), “Isopor” (1999), “Ruído Rosa” (2001), “Toda Cura Para Todo Mal” (2005), “Daqui Pro Futuro” (2007), “Música de Brinquedo” (2010) e “Não Pare Pra Pensar” (2014) e colecionando hits como “Sobre O Tempo”, “Perdendo Dentes”, “Canção Pra Você Viver Mais”, “Pinga” e muitas outras. Hoje, a banda conta também em sua formação com Glauco Mendes na bateria e Richards Neves nos teclados.

A coletânea reúne diversos artistas do cenário independente nacional dando seu toque em versões para as canções do Pato Fu, as recriando em passeios por estilos como rock, tecnobrega, forró, rap, MPB, folk, stoner rock, psicodelia, experimentalismo…

Participam do tributo Antiprisma (São Paulo/SP), Berg Menezes (Recife/PE), Capotes Pretos na Terra Marfim (Fortaleza/CE), Der Baum (Santo André/SP) , Djamblê (Limeira/SP), Eden (Salvador/BA), Dum Brothers (São Paulo/SP), Estranhos Românticos (Rio de Janeiro/RJ), FELAPPI e Marcelo Callado (Rio de Janeiro/RJ), Floreosso (São Paulo/SP), Gabriel Coelho e Renan Devoll (São Bernardo do Campo/SP), Gilber T e os Latinos Dançantes (Rio de Janeiro/RJ), Horror Deluxe (Pouso Alegre/MG), João Perreka e os Alambiques (Guarulhos/SP), Lucas Adon (São Paulo/SP), Lerina (Santo André/SP), Mel Azul (São Paulo/SP), Molodoys (São Paulo/SP), Paula Cavalciuk (Sorocaba/SP), Pedroluts (São Paulo/SP), Serapicos (São Paulo/SP), Silvia Sant’anna (São Paulo/SP), Subcelebs (Fortaleza/CE), The Cabin Fever Club (São Paulo/SP), The Outs (Rio de Janeiro/RJ), Theuzitz (Jandira/SP), TucA e Thaís Sanchez (Campina Grande/PB), Valciãn Calixto (Teresina/PI), Venus Café (Volta Redonda/RJ) e Yannick com Camila Brumatti (São Paulo/SP).

A arte da capa, inspirada nos robôs gigantes do clipe de “Made In Japan”, foi feita pelo designer Pedro Gesualdi, que também é músico e atualmente toca nas bandas DERCY, Japanese Bondage e Danger City.

Como Chico Science e Nação Zumbi modernizaram o passado em 1994 com “Da Lama Ao Caos”

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Da Lama Ao Caos
Da Lama Ao Caos

No Walkman, por Luis Bortotti

“Modernizar o passado é uma evolução cultural.”

Por mais que seja óbvio iniciar uma análise sobre “Da Lama Ao Caos”, álbum de estreia da banda Chico Science e Nação Zumbi, o primeiro verso de “Monólogo ao Pé do Ouvido” consegue expressar com muita perfeição toda a obra.

Com o seu lançamento em 1994, e juntamente com Samba Esquema Noise” do Mundo Livre S.A. estava iniciado o movimento manguebeat.

Nele, Chico Science caminha pelas ruas do Recife nos apresentando situações, personagens e problemas cotidianos da cidade. No final do trajeto, ele finca uma parabólica na lama e espalha a sua poesia pelo mundo.

As letras, que apresentam a marginalidade das classes financeiramente inferiores sofrida pela evolução e exploração industrial, os passos diários de uma alienada classe média desde os anos 70 e o miserável e violento estado em que a cidade se encontrava, podem ser tratadas como estudos sociais e antropológicos do Recife nos anos 90.

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Nelas, também é possível encontrar uma grande influência do livro Homens e Caranguejos, do escritor pernambucano, Josué de Castro. No disco, Chico Science e Nação Zumbi tentam recuperar o orgulho do homem-caranguejo, destruído através dos anos pelo esquecimento cultural e social do Recife por parte do Brasil.

Tudo isso é contado através de uma melodia única, que mesclava (e ressuscitou) os ritmos locais com a cultura pop mundial, injetada graças à globalização e virtualização dos anos 80/90.

Em “Da Lama Aos Caos”, temos o maracatu nos overdrives do rock, a ciranda no dub e soul, o samba nas rimas do hip hop.

Essa tropicália mistura foi arquitetada pelo próprio Chico, quando ele resolveu unir as bandas que fazia parte. Antes da Nação Zumbi, a banda chegou a se chamar Chico Science e Lamento Negro, mas logo adotou o nome utilizado até hoje. Na obra produzida por Liminha, temos Dengue (baixo), o fantástico Lúcio Maia (guitarra), Toca Ogam (percussão), Canhoto (caixa), e Gilmar Bolla 8, Gira e Jorge Du Peixe (alfaias).

No geral, “Da Lama Aos Caos” é um álbum obrigatório para todos os tipos de ouvidos. Um mangue de ritmos e estilos que fez o mundo inteiro se antenar no Recife e voltar a curtir a fértil cena cultural da cidade.

Chico Science e Nação Zumbi – Da Lama Ao Caos | #temqueouvir!

01. “Monólogo ao Pé do Ouvido”
02. “Banditismo Por Uma Questão de Classe”
03. “Rios, Pontes & Overdrives”
05. “A Praieira”
06. “Samba Makossa”
07. “Da Lama Ao Caos”
09. “Salustiano Song”
11. “Risoflora”

Chico Science e Nação Zumbi – Da Lama Ao Caos | #ouçaagora!

Finalistas do Breakout Brasil, Donna Duo lança primeiro disco e single “Acordei Te Amando”

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Donna Duo

Dani Zan e Naíra Debértolis fazem o que chamam de “pop milongueiro”. Cantoras, compositoras e multi-instrumentistas, as duas formam o Donna Duo, com um repertório que mistura MPB, samba, milongas, rock, pop e o que mais der na telha da dupla. Finalistas do reality show do Canal Sony Breakout Brasil, Dani e Naíra lançam este ano seu primeiro disco, patrocinado por um bem sucedido crowdfunding. O primeiro single é “Acordei Te Amando”, lançado em junho.

Conversei com Dani e Naíra sobre a carreira da dupla, a participação no Breakout Brasil e realities musicais em geral:

– Como a banda começou?

Através de uma fã em comum nos conhecemos, foi coisa de internet. Ela conhecia os trabalhos que as duas tinham na época, a banda da Naíra precisava de composições, e ela nos apresentou via Facebook, com a pretensão de que as minhas composições pudessem agregar naquele trabalho. Mas realmente não sabíamos que esse acaso se transformaria no Donna Duo.

– De onde surgiu o nome Donna Duo?

Boa pergunta, a gente começou com o nome DebertoliZando, mas ninguém entendia que era a mistura dos nossos sobrenomes, e gaguejavam no pronunciar (risos). Pronto, mudamos o nome por livre e espontânea insistência do universo. Passamos a pesquisar o que bem nos definia, em outras línguas, e chegamos a esse conceito bem simples de Donna Duo, duas mulheres. Já que Donna é mulher em italiano.

Donna Duo

– Quais são as maiores influências da banda?

A gente tem várias influências brasileiras, de ritmos brasileiros variados, desde o samba, até a milonga, o afoxé… temos essa tendência e ela flui muito naturalmente, gostamos desse som Brasil. Porém, a gente ao mesmo tempo mergulha no pop e no rock. A Dani tem dessas de escutar Tião Carreiro e Elvis, a Naíra vai da gauchada aos Beatles, e todos esses sons, históricos, nos influenciam, positivamente.

– Como vocês definiriam o som da dupla?

O Donna Duo tem dois anos de vida, e como o duo surgiu sem direcionamento do que íamos fazer, como um hobby, um projeto parelelo das duas, experimentamos muita coisa, fizemos tudo o que queríamos e naturalmente nos tornamos um caldeirão musical. Daí veio o CD, e enfim lacramos quem somos. A mistura, a variação de cor que o álbum vai trazer não foi intencional, ficou a nossa cara, bem como as composições que já nasceram com essa imagem imprimida.

– Quais os maiores desafios de ser uma banda independente no Brasil?

Se comunicar com o público de forma singular. Você precisa aproveitar as oportunidades e as vezes até inventá-las. A produção independente não tem um espaço demarcado na mídia e por conta disso você precisa utilizar-se de todos os recursos que tem. Internet tá aí, e é o território mor de quem faz música autoral independente. Porém, você precisa sair do digital, precisa ter contato com os fãs, eles precisam olhar no teu olho e saber que a tua música tem vida, fora da rede.

– O que vocês acham do sistema de crowdfunding?

Pra nós foi a chance de meter o pé no acelerador. Só que o crowdfunding é uma ferramenta, a banda que se utiliza da crowdfunding é a engrenagem, e pra quem pensa em fazer o seu próprio financiamento coletivo, é preciso ter essa consciência, acreditar em si, trabalhar pra que vejam a banda e vejam o projeto. Com o Donna Duo passamos dois meses de sufoco, de gastrite, de ansiedade, mas hoje a gente ri! E foi ótimo, gratificante.

– Quais bandas foram as preferidas de vocês no Breakout Brasil?

Bom, The Outs nos ajudaram na prova do inglês, emprestaram os seus instrumentos, escutavam nossas versões antes das apresentações, davam sugestões. Eles são o máximo, são de um universo musical diferente do nosso, mas parte de nós uma admiração tamanha pra com esses guris que é difícil explicar. São grandes pessoas e profissionais! Tanto quanto o Capela, que inclusive gravou a música “Amor Gramatical” que era do nosso repertório. Também fizemos apresentações juntos, nos encontramos em São Paulo com uma certa frequência e temos planos futuros. Gostaria de pontuar mais gente por aqui, mas enfim, fica aqui nossa, quase, declaração de amor pro Capela e o The Outs. (risos)

– Como foi participar do Breakout Brasil?

Acho que foi um crescimento pessoal muito grande, nosso maior presente nisso tudo foram os amigos e oportunidades que aconteceram durante e após o programa. E poxa, foi o Breakout que nos uniu mais e nos deu força para iniciar um Catarse e ver as coisas se concretizarem de verdade.

– O que vocês acham da proliferação de realities musicais que rola hoje em dia?

Como eu disse, temos que usar dos recursos disponíveis. Mas é preciso ter uma coisa em mente, reality show é programa de TV, música é arte! Contudo, que a música prevaleça!

– Quais os próximos passos do Donna Duo?

Bom, acabamos de lançar a música “Acordei te Amando” que é um aperitivo pro que vem por aí! Estamos planejando cuidadosamente o que será de nós pós lançamento do CD, já estamos marcando shows do segundo semestre do ano e nosso objetivo é ampliar os estados em que estamos trabalhando, queremos cada vez mais ter esse, olho no olho!

Donna Duo

– Quais bandas novas e desconhecidas vocês acham que todo mundo devia conhecer?

Cada uma vai escolher uma então, hein? Bom, a Naíra vai dos meninos da The Fire Departament de Porto Alegre. E a Dani vai de Confraria da Costa, os piratas de Curitiba.

“Kabaluerê”, a música que trouxe toda a ginga samba rock funky de “Qual É”, de Marcelo D2

Quando Marcelo D2 lançou “Qual É”, estava carimbada sua passagem para o mundo do pop (mesmo ele se auto-referenciando como “Pesadelo do Pop”) e a consequente queda do Planet Hemp. Muitos samples brasileiros, um balanço que até então o rap brasileiro ainda não havia explorado com força e as letras malandras e cheias de referências à maconha (se bem que mais comedidas do que no Planet) reforçaram o sucesso com público e crítica.

Em “Qual É”, D2 já começa utilizando uma frase inteira de “Voz Ativa”, dos Racionais MC’s (“Eu tenho algo a dizer / Explicar pra você / Mas não garanto, porém / Que engraçado eu serei dessa vez”), algo que é comum no rap lá de fora, mas aqui causou um certo mal-estar entre o grupo de Mano Brown e o rapper carioca.

Porém, o sample que dá todo o balanço e “dançabilidade” da música vem de Antonio Carlos e Jocafi, com “Kabaluerê”. A música vem do disco “Mudei de Idéia”, de 1971. A dupla, nascida na Bahia, começou a carreira em 1969, no Festival Internacional da canção. Muitas de suas músicas fizeram parte de trilhas sonoras de telenovelas. Entre os outros sucessos estão “Você Abusou”, que ficou conhecida na voz de Maria Creuza.

“Kabaluerê” também foi sampleada em “Comin Thru” por Charli 2na, rapper americano que fez parte dos grupos Jurassic 5 e Ozomatti. Ficou diferente do que D2 fez com a música e usa bem o refrão e título da música.