Globelamp tira de seu diário um som que transita entre a psicodelia, o rock e o pop “trevoso”

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Globelamp

O som expressivo e etéreo de Elizabeth Le Fey e seu Globelamp caminha entre a psicodelia de Syd Barett e o pop sombrio de Lana Del Rey. A cantora e compositora, que antes participava dos shows do Foxygen, faz músicas que remetem a um clima cinzento e outonal, com influências que vão de Grace Slick a Stevie Nicks.

Com “The Orange Glow”, seu mais recente disco, ela cunha seu estilo que transita entre o rock, o shoegaze, o pop e até o grunge. Além deste álbum, lançado em 2016 pela Wichita Records, Elizabeth já lançou “Star Dust” (2014), “Covers Album” (2014), com versões de gente como Beatles, Velvet Underground, Blondie, Lana Del Rey, David Bowie e Elliott Smith, e sua estreia, “Globelamp EP”, de 2011. No momento ela trabalha em novas músicas, sempre baseadas em suas experiências pessoais e seu inseparável diário.

Conversei um pouco com ela sobre sua carreira como Globelamp:

– Como a banda começou?
Começou como um projeto solo no meu quarto com meu violão e meu diário.

– E como surgiu o nome Globelamp?
Foi inspirado por um capítulo do livro “Witch Baby”, da Francesca Lia Block, chamado “Globe Lamp”.

– Quais são suas principais influências musicais?
Ainda é difícil identificar artistas individuais! Eu amo tanta música. Devendra Banhart, Nico, Joni Mitchell, Kimya Dawson, Cat Stevens

– Me conta mais sobre o material que você lançou até agora!
Primeiro eu lancei um EP em 2011. Regravei algumas dessas músicas como “Crocodile” e “Crystal” para o meu primeiro álbum completo, “Star Dust”. Meu álbum mais recente, “The Orange Glow”, foi lançado em todo o mundo pela Wichita Recordings em 2016. É a primeira vez que eu tenho um vinil gravado com a minha música!

– Como você se sente sobre a cena independente hoje em dia?
Sem comentários.

– Como é o seu processo de composição?
Escrevo muito no meu diário e de lá eu pego idéias para as letras!

– Você está trabalhando em novo material?
Sim, eu já escrevi o próximo álbum … Eu só preciso começar a gravá-lo!

– Quais são os próximos passos da banda?
Bem, eu toco sozinha, então acho que o próximo passo para a minha banda é encontrar membros da banda!

– Recomende bandas (especialmente se forem independentes) que chamou sua atenção ultimamente!
Acho que os mais jovens deveriam procurar artistas dos anos 90 como Tracy Chapman, Belly e Alanis Morissette!

RockALT #13 – Lê Almeida, Passante, menores atos, Rosa Idiota e Slowdive

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RockALT, por Helder Sampedro

Lê Almeida
Figura conhecida nos meios underground e faça-você-mesmo, o carioca Lê Almeida não é novidade para aqueles que consomem música de fontes diversas e não apenas o que o mainstream apresenta. Fundador da Transfusão Noise Records em 2004, Lê grava de forma caseira e despreocupada seus inúmeros trabalhos nesses 10 anos desde o elogiado EP ‘Loufailândia’. Um verdadeiro herói do lo-fi nacional, o som garageiro e cheio de distorção parece sair pelos poros do músico, levando em consideração a quantidade de singles, EPs, e LPs lançados, sem contar seus trabalhos com outros músicos. A mistura equilibrada de power pop, indie rock, noise e lo-fi está disponível no bandcamp do artista.

Passante
O projeto do poeta e compositor Julio de Mattos é um desafio aos nossos ouvidos, claro, digo isso no melhor dos sentidos. A mistura psicodélica de ritmos e instrumentos é surpreendente, empolgante e garante um tom enigmático ao primeiro trabalho da banda. É mais um daqueles projetos que fogem à regra, o oposto total ao “mais do mesmo” uma busca que leva a um som íntimo, quase confidencial que não é feito para ser consumido pelas massas, e sim por um público mais exigente e curioso. Se você está a fim de sair da mesmice e se deixar levar pelas surpresas e distorções das guitarras do Passante, não deixe de conferir o EP ‘Mutilados’, disponível no Soundcloud.

menores atos
Talvez minha banda brasileira favorita no momento, o trio carioca que toca algo que só pode ser definido como rock alternativo de verdade! As letras em português que tratam de angustias amorosas comuns a todos podem fazer o ouvinte incauto rotular a banda como só mais uma de hardcore melódico, mas a verdade está bem longe disso. Influências rebuscadas como Minus the Bear, Radiohead, Deftones e Tool se sobressaem no sensacional álbum ‘Animalia’ de 2014 e impedem qualquer um de tentar rotular o trabalho primoroso da banda. Tive o prazer de vê-los ao vivo há algumas semanas no Estúdio Costella e posso garantir que a banda é ainda maior e mais pesada ao vivo, chamá-los de ‘power trio’ é pouco.

Rosa Idiota
Fundada em Salvador no ano passado, o quarteto lançou em janeiro desse ano o excelente álbum de estreia ‘Circle’ trazendo um rock com influências punk e indie na medida certa entre melodia e peso. Arranjos complexos, batidas cativantes e vocal forte se destacam e agradam logo na primeira audição. As dez músicas fluem amarradas umas às outras e é possível curtir o LP do começo ao fim sem perceber a passagem do tempo, apenas parando para se notar que a faixa ‘Fastio’ é a única cantada em português, fiquei curioso para saber o porquê. Enquanto não matamos nossa curiosidade podemos ouvir mais uma vez o primeiro lançamento dessa promissora banda.

Slowdive
Desnecessário apresentar uma lenda britânica do shoegaze, né? O álbum homônimo lançado em 5 de maio de 2017 pode ser colocado na mesma categoria de outros lançamentos recentes de ícones dos anos 90 como Pulp, Suede, Swervedriver, Stone Roses, Jesus and Mary Chain e Ride. Todas as bandas que eu citei atingiram seu ápice de popularidade no década de 1990 e lançaram ao menos algum single em anos recentes, esse revival do shoegaze noventista chega agora a seu apogeu, com o que certamente será considerado um dos melhores discos do ano. O 4º LP do Slowdive parece ter sido lançado na época em que os orelhões ainda eram úteis e o Brasil ainda era Tetra. E isso é um feito e tanto, poucas vezes uma banda ficou tanto tempo inativa e retorna com uma proeza dessas. O grupo se apresenta em São Paulo domingo agora (14/05/17) e espero não queimar minha língua. Estarei lá para ver.

PS: Siga a playlist da coluna no Spotify: https://goo.gl/lXZ69x

Se você curtiu a coluna, não deixe de escutar o programa do RockALT toda a quinta-feira às 21h na www.planetmusicbrasil.com.br. E nossos mais de 100 programas estão disponíveis no link: www.mixcloud.com/rockalt/

Cantarolando: A teia de guitarras de “Rain On Tin”, do Sonic Youth (2002)

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Sonic Youth

Cantarolando, por Elisa Oieno

Sabe aquelas músicas que dá um orgulhinho de ouvir? Daquelas que, ao terminar de escutar, dá vontade de chegar na banda, dar um abraço em cada um, e falar em tom embasbacado ‘pô, caras, é isso aí, muito bom mesmo, muito obrigada’. É assim que funciona – pelo menos comigo – com “Rain On Tin”, do disco de 2002 “Murray Street”, do Sonic Youth.

Dá para dizer que “Rain On Tin” é como um resumo de Sonic Youth. Uma definição super-simplificada do que está no prato sonoro servido pela banda ao longo da carreira seria algo como melodia, tensão e improvisações livres. Nisso, “Rain On Tin” é quase literal. Praticamente instrumental, exceto por uma breve introdução cantada por Thurston Moore, para a partir daí desembocar em uma teia de linhas de guitarra muito mais nítidas do que as que se costuma ouvir em trabalhos anteriores, mas que a banda já vinha indicando claramente no disco “A Thousand Leaves” (1998).

Essa teia de guitarras é o que mais soa diferente e maduro, apesar de manter o ponto central do que sempre foi o inconfundível som do Sonic Youth. Um fator que com certeza ajudou a dar aquela expandida nos som da banda foi a entrada de Jim O’Rourke e seu background experimental e improvisacional, formando um conjunto de três guitarras e um baixo.

Desta vez, a banda desenvolve as partes instrumentais de jams com linhas muito mais melódicas e menos noise do que se ouvia anteriormente, esticando as músicas de uma forma muito mais ‘tradicional’ enquanto banda de rock improvisacional. Tanto que a influência de Grateful Dead, por exemplo, se torna bastante evidente no som do Sonic Youth. Lee Ranaldo já se declarou um ‘deadhead’ – alcunha dada aos fãs de Grateful Dead – em diversas ocasiões, e confirmou a referência como algo que ele sempre buscou com os improvisos do SY. Junta-se isso com a escola ‘no wave’, experimentações artísticas e começa a ficar muito claro o mapa sonoro fascinante dessa banda. Sim, estou babando ovo.

A letra da música fala do ataque de 11 de Setembro, que foi responsável pela destruição do estúdio em que eles estavam gravando o disco, localizado na Rua Murrey, próxima às Torres Gêmeas, onde inclusive caiu um pedaço do motor de um dos aviões, representada pela foto de sua placa amassada na contra-capa. A letra simples tem uma imagem forte, do pessoal estarrecido entrando em contato com parentes e amigos, com vontade de ficar juntos abrigados da chuva.

We all hope
To signal kin
Rays of gold
Now rain on tin
Gather round
Gather friends
Never fear
Never again

Nós esperamos    
Sinalizar parentes
Raios dourados
Agora chuva na lata
Reunirmos
Juntar amigos
Nunca sentir medo
Nunca mais

É muito inspirador saber que, após mais de 20 anos juntos, uma banda ainda foi capaz de criar algo tão forte e revigorante quanto os trabalhos do começo da carreira, no começo da juventude deles. E, ao invés de apenas repetir uma fórmula criada por eles mesmos, ou de começar a abraçar as referências de rock clássico e começarem a soar como ‘tiozões’ do rock, eles olham para si próprios e se aprimoram, dando a cara do que seria um Sonic Youth maduro e convicto, presente nos álbuns seguintes até o fim da banda.

Construindo Dum Brothers: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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Dum Brothers

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o duo paulistano Dum Brothers, que indica suas 20 canções indispensáveis.

Elton John“Street Kids”
Bruno: Essa música eu já ouvi tanto que eu acho que ela já faz parte da minha vida, tipo um anexo.

Grand Funk Railroad“I Come Tumblin”
Bruno: Bom, essa música foi a primeira que ouvi da banda, me fez ficar apaixonado na hora pela guitarra e a voz do Mark que são sensacionais. Nem vou mencionar a bateria de todas as músicas do Grand Funk que são uma palhaçada de tão boas.

Black Sabbath“Children of The Grave”
Bruno: Quase todos os bateristas e guitarristas do mundo tem o Black Sabbath como inspiração e Black Sabbath sem Bill Ward não é Black Sabbath.

Kiss“Deuce”
Bruno: “Deuce” foi uma das que mais teve peso na inspiração, foi ouvindo ela que me veio na cabeça a letra de “Volta pro Sul”, Peter Criss foi o ponto chave nessa inspiração.

Eagles“One Of These Nights”
Bruno: Bom, Eagles eu sou suspeito de falar, é minha banda de cabeceira! Gosto de todas as músicas, ouço todos os dias… Don Henley, Joe Walsh, Glenn Frey, Don Felder… Esses caras juntos são muito foda, e essa música é muito boa, a bateria dela com levadas de jazz… Foda.

Deep Purple “Maybe I’m A Leo”
Bruno: Quando tinha 16 anos comprei o vinil “Machine Head” do Deep Purple e transformou minha mente, de lá pra cá não fui a mesma pessoa. Influência master na minha forma de compor e tocar, essa música representa essa fase de transformação na minha vida.

Queen“Liar”
Bruno: Essa música a primeira vez que ouvi quase não acreditei que fosse Queen, aí depois que ouvi o lado B do deles vi que eles são muito mais que “We Will Rock you” e “We are the Champions” e até hoje é influência.

The Hellacopters“Same Lame Story”
Bruno: Com certeza essa banda tem influência no nosso som de formas variadas.

Muñoz“Run”
Raul: A primeira vez que eu vi Muñoz foi no Inferno, abrindo pro Kadavar. Já tinha ouvido os caras mas aquele show foi foda, falei “É isso!”. Depois a gente foi em um monte de show deles. Um duo super foda e que toca alto pra caralho.

Huey “Sex & Elephants”
Raul: Um ano antes de formar o Dum eu fui num show deles e aquilo deu um clique: guitarras graves, distorções, confusão, fiquei impressionado. Chamei o Bruno pra ir e um show deles e falei “Tava querendo fazer algo assim”. O Dum ficou bem diferente de Huey, bem diferente, mas pelo menos a guitarra é grave e a gente fica confuso.

Elder“White Walls”
Raul: Na onda do Doom/Stoner/Sludge, essa foi uma das músicas com guitarras graves que mostrei pro Bruno antes de começar a tocar, muitas das loucuras e riffs vem dessa banda.

Grand Funk Railroad“Inside Looking Out”
Raul: A gente gosta muito de Grand Funk, escutamos desde sempre, sem dúvida uma grande influência para vários aspectos do nosso som.

Queens Of the Stone Age“If Only”
Raul: O vocal estranho do Josh Homme e as guitarras em C já estão no sangue, nessa música dá pra sentir uma melancolia na cantoria dele e a batida mantida no surdo do verso.

Royal Blood “Little Monster”
Raul: Não podia faltar outro duo nessa lista. Esse é de baixo e guitarra, fiquei impressionado quando ouvi e depois vi como que o Mike Kerr transforma o baixo e duas guitarras e um baixo, resolvi tentar fazer igual. Essa música foi uma que estava na setlist do primeira jam que fizemos.

Baroness “Cocainium”
Raul: Essa é de uma banda que era bem pesada no começo e depois foram experimentando. Continuou pesado mas com umas variações estranhas no som. Nessa tem uma batida mais marcada no bumbo e umas doideras com as guitarras, a música chegar a ser dançante.

Graveyard“The Siren”
Raul: Um pouco de blues, sofrimento e gritaria. Suécia é um berço de influências pra gente, muita coisa boa que a gente ouve vem de lá. A variação de calmaria e barulho dela é um bom exemplo do que a gente curte fazer em algumas músicas.

Steve Miller Band“Jet Airliner”
Raul: A melodia dessa música é maravilhosa, mesmo sendo uma versão do Paul Pena ela preservou o sentimento do cantor. Uma época a gente tocava ela nos ensaios, mas o tom é muito alto, ficava foda cantar depois de um tempo.

Rival Sons“Open My Eyes”
Raul: Esse riff é demais. Mesmo usando uma fórmula antiga, ainda fica foda quando tem o baixo junto com a guitarra, a gente faz bastante essas coisas usando o pedal oitavador.

Mastodon“The Motherload”
Raul: Em uma tentativa louca de fazer o mais difícil possível, colocamos essa música no setlist da jam, ficou estranha mas conseguimos testar nossos limites. A música é foda, o riff é foda, a bateria é foda, e o clipe é foda (risos)!

The Hellacopters“Toys and Flavors”
Raul: Realmente gostamos de Hellacopters. O clipe dessa música me fez querer tocar guitarra!

BTRX investe em experimentalismo e discute a coletividade em seu mais recente álbum, “Motirõ”

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BTRX

Em uma fase mais política e engajada, a BTRX (lê-se “Beatrix”) está a 300 km/h na divulgação de seu mais recente disco, “Motirõ”, produzido por Martin Mendez e o Duda Machado, que tocam com a cantora Pitty. Formada por Lize Borba (vocal e guitarra), Bruno Espindola (baixo), Vinicius Souza (guitarra) e Thiago Augustini (bateria), a banda é a atual vencedora do programa “Temos Vagas” da 89FM Rádio Rock, que aposta em bandas independentes e as divulga na programação da rádio. No disco, lançado em 2016, eles abordam alguns dos temas mais discutidos no momento, a coletividade. “‘Motirõ’ é uma palavra indígena que significa o ato de várias pessoas se unirem para resolver algo em comum. Foi uma inspiração da Lize numa viagem que ela fez pra uma aldeia em Roraima. Isso foi ditando os tons do disco, tanto na mistura de sonoridade, a gente agregou muito de percussão nesse disco, hoje até viajamos com um percussionista”, conta o guitarrista.

Conversei com ele e o baterista Thiago sobre a carreira da banda, suas influências, o disco “Motirõ”, Quentin Tarantino e a cena independente atual:

– Como a banda começou?

Souza: A banda nasceu de uma vontade do baixista Bruno em fazer um som com uma mina no vocal. Na época tanto o Thiago quanto a Lize e o Bruno moravam na mesma cidade, no interior de SP, Cachoeira Paulista, trampavam por lá, e na primeira formação todos se encontraram ocasionalmente e a coisa começou; existiam identificações entre as ideias em comum, tanto pra sonoridade quanto pra temáticas, formas de expor, aí foi um processo natural, gravamos um primeiro disco ainda moleques mesmo, a Lize passou assumiu o vocal no segundo disco que é um disco mais sólido, que já tem uns traços mais maduros, até agora pro “Motirô” que é o disco mais sério e desenvolvido da banda.

– E porque a escolha de ter uma mulher no vocal especificamente?

Souza: Cara, creio que a ideia a princípio era somente um desejo pessoal mesmo do Bruno, tanto influenciado por algumas referências na época do mainstream, a Pitty tava começando a se destacar, havia a ascensão do Evanescence, acho que foi aquela empolgação geral, pela novidade, pelo impacto que dava ter um figura feminina cantando rock… Porém hoje analisando, já com a formação da Lize no vocal, a formação que agente considera a mais sólida e definitiva que agente teve, pro segundo álbum no caso quase considerado o “primeiro”, agente vê que a Lize era a pessoa certa manja, independente dos esteriótipos e muito além de uma questão de gênero, a pessoa da lize e tudo o que isso embarca era o ideal e assim que naturalmente foi, hoje mais maduros nós vemos que de certa forma, a questão dela ser mulher ou não se tornou sem sentido perante a figura do que ela é pra banda assim, e talvez estejamos num momento hoje onde a sociedade está mais consciente das questões, ao ponto que creio que daqui uns anos a própria pergunta sobre “qual o impacto de ter uma mulher na banda” vai perder o sentido, e se tornar algo natural….

– Quais são as principais influências da banda?

Souza: Pô, essa é uma questão interessante, a gente gosta de dizer que as nossas influências vão além do universo da música, e obviamente que cada um da banda, em suas particularidades, traz um pouco do pessoal na hora de compor e pensar as coisas da banda. O cinema é um fator que nos influencia bastante, muito pelo fato da Lize trabalhar com cinema, (é diretora de arte) mas também por um gosto geral mesmo de todos, da banda ter uma identidade visual, agente gosta muito de trabalhar com o abstrato com simbologias sejam poéticas ou de linguagem, nisso entra um pouco de tudo, Literatura influencia muito, Filosofia particularmente é um ponto que agente sempre está discutindo, eu sou formado em filosofia, estudo, enfim… mas especificamente no campo da música, agente tem se inspirado muito em sonoridades como Arcade Fire, principalmente nesse último álbum, o “Reflector”, Radiohead é uma influencia gritante, (acho que pra qualquer um né?) mas também gostamos muito de música brazuca, a Lize estuda muito a forma de compor do Tom Zé, eu adoro as misturas de sonoridade do Lenine, em “Chão” principalmente… e várias outras bandas indiretas afora.

– Então vocês não se consideram uma banda apenas de rock, correto?

Souza: Pô, agente é daquelas bandas que quando perguntadas que tipo de som fazem se enroscam pra responder (risos). Eu acho que por tudo aquilo que implica no “ser uma banda de rock”, agente é apenas uma banda de rock sim, alternativo acho que se encaixa, experimental em alguns pontos…

BTRX

– Antes de falarmos do “Motirõ”, me conta um pouco mais sobre o primeiro disco.

Souza: Então, “Motirõ” é o nosso terceiro albúm de estúdio, mas com essa formação, é o segundo, antes dele veio o álbum chamado “Lugar Comum”, que é um disco muito significativo pra todos da banda, foi um disco de transição, de passagem, não só de vocalista, antes era outra mulher, mas também esteticamente mesmo, a temática já girava em torno do que agente pretendia enquanto banda, que são questionamentos acerca da nossa condição social, existencial, é um disco em alguns pontos mais críticos; e sonoramente ainda é um disco agressivo no sentido de ter mais guitarras, mais distorção, o que diz um pouco da época, agente ainda era bem jovens, eu tinha uns 22 anos se não me engano. Num geral agente tende a ser bastante crítico em relação a esse primeiro disco, como qualquer banda q se analisa normalmente, mas ao mesmo tempo é um disco que foi importante, onde agente conseguiu trabalhar e amadurecer um pouco da sonoridade nossa, e refinar a poética e o teor mais politico da banda.

– E como rolou essa transição entre o primeiro e segundo discos? O que mudou?

Souza: A principio foi um mini caos organizado, depois que agente fecho a formação mesmo com a Lize assumindo o vocal não só a guitarra, existiam algumas ideias já, agente vinha trabalhado em algumas prés alguns arranjos crus, mas tudo teve um ar diferente, de passagem mesmo, porque quando agente mudou a formação mudou-se também a forma de trabalhar né, o jeito que a Lize assimilava as coisas era diferente, a forma como ela propunha e argumentava estimulou agente e procurar outras maneiras de expressão, e o disco é um retrato disso, agente ainda fazia um som que era pesado como na origem da banda com dobras de guitarra, também mais diretamente politico, mas já transitava um pouco no que viria a ser a sonoridade do atual “Motirõ”, mais clean, com arranjos mais trabalhados, enfim…

– Então me conta mais sobre a produção de “Motirõ”. De onde saiu o conceito do disco e porque ele tem esse nome?

Souza: A produção do “Motirõ” foi um divisor de águas, foi o primeiro disco que agente conseguiu trabalhar com um produtor, no caso dois, O Martin Mendez e o Duda Machado, que são os músicos que tocam com a Pitty, que a gente conheceu por intermédio do Rafael Ramos, que fez um ponte com eles e tal, e que também acompanhou com a pré produção, foi um cara muito importante nesse processo todo… Aí poderia falar horas sobre a produção em si, a vibe foi sensacional, o Estúdio Madeira do Duda é um lugar muito propício a coisas mais intimistas, agente se isolou lá pra esse álbum, e foi um ambiente exatamente da forma como a ideia do disco pretendia, de coletivo, de compartilhamento, de arte; Motirõ é uma palavra indígena que significa o ato de várias pessoas se unirem para resolver algo em comum, é a origem etimológica da palavra mutirão. foi uma inspiração da Lize numa viagem que ela fez pra uma aldeia em Roraima, na época ela voltou muito empolgada, e isso foi ditando os tons do disco, tanto na mistura de sonoridade, agente agregou muito de percussão nesse disco, hoje até viajamos com um percussionista… Foi um divisor de águas justamente pela dimensão que a produção se tornou, o disco foi financiado por uma campanha de financiamento coletivo no Catarse, foi uma experiência incrível pra todos e o trabalha nos agrada muito.

– Falando nisso, o que vocês acham da utilização de financiamento coletivo por bandas? É a melhor maneira depois da queda das grandes indústrias da música?

Thiago: Financiamento coletivo não é foda só por conta da grana, mas eu diria que é uma experiência de vida para as bandas. A proximidade que você cria com os fãs é algo incrível. Já fazem alguns anos que gravadora não significa investimento garantido, e o financiamento coletivo veio pra selar essa independência de vez.

– Qual a opinião de vocês sobre a cena independente atualmente? O mainstream não é mais o objetivo?

Souza: Eu acredito que vivemos uns dos melhores períodos da música independente no Brasil, acho que as novas possibilidades abertas pelas novas ferramentas de acesso deram um suporte, uma base para que as bandas pudessem ser levadas mais a sério, ter mais espaço e criar suas próprias formas de divulgação e organização… Embora ainda os meios estejam um pouco misturados o independente constamente se relaciona com os tradicionais meios do mainstream, as vezes como meta de sucesso, as vezes como pura possibilidade aberta, eu acho que no futuro isso tende a ser mais consolidado, os cenários mais estabelecidos e os nichos mais organizados, mas é difícil dizer, tudo é muito orgânico hoje né? A velocidade com que tudo acontece e se transforma é impressionante, na mesma pegada o mainstream também está se adaptando, vendo o que dá mais certo, observando como as coisas fluem. Eu acho um sintoma muito interessante acerca disso, o fato dos grandes veículos de midia se renderem ao poder dos streamings, dos youtubers etc., isso diz muito sobre o atual momento, mas eu creio que de fato o mainstream não é mais objetivo no sentido de que não detêm mais o controle sobre a relevância dos conteúdos e a forma de manifestação dos mesmos, mas o tempo dirá como sempre…

– Aliás, por curiosidade, o que significa o nome da banda?

Souza: Cara, agente já achou vários significados ao longo da banda e tal, descobrimos a origem do nome Beatrix, que é do latin beatrice, ou beatitude, alegria né, o que leva felicidade, mas pra ser honesto o nome nasceu mesmo quando a Lize terminou de ver o Volume 2 do filme do Quentin Tarantino “Kill Bill”, onde a personagem da Uma Thurman finalmente releva o seu nome que é “Beatrix Kiddo”, ela ficou extremamente empolgada com o nome e tal haha ai acabou ficando todo mundo curtiu e tal e tá ai até hoje. Agora agente mudou a grafia só por questões estéticas, e por dizer um pouco mais, pra salientar a mudança natural entre os discos, quase uma aliteração, na verdade uma remoção das vogais em BTRX, mas é isso aí.

BTRX

– Quais os próximos passos da banda em 2017?

Thiago: O foco ainda é na divulgação do “Motirõ” que ainda é bem recente. Vamos lançar o primeiro clipe do álbum nas próximas semanas, focar em continuar construindo uma agenda bacana, iniciar novas produções de clipes e mais pra frente iremos lançar um documentário sobre a gravação do Motirõ.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram a sua atenção nos últimos tempos!

Souza: Pô, dá pra fazer uma lista boa hein. Eu tenho gostado muito do som de bandas como a Baiana System, o som da Baleia, gosto da Mahmundi, Mombojó, Vivendo do Ócio, Medulla… a lista pode continuar ad infinitum!

Thiago: Tô mais colado em Francisco el Hombre e Carne Doce no momento.

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo pela cantora Samara Noronha

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Samara Noronha
Samara Noronha

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, a convidada é a cantora e compositora Samara Noronha!

Aurora“Murder Song”
“Essa menina tem uma presença fortíssima, sensacional! Eu a conheci por uma performance com apenas voz e um rapaz a acompanhando no violão no canal NPR Music. A versão oficial é fantástica também!”

Pomplamoose“Happy/Get Lucky”
“O que duas pessoas com uma super criatividade conseguem fazer, não?! Tudo que eles produzem é super legal!”

Eric Silver“Bridges, Friends and Brothers”
“Misture James Taylor com Phil Collins e você obtém um Eric Silver! Quão incrível pode ser isso? (risos) Um dos artistas mais incríveis e completos que já tive o prazer de conhecer. Este disco é fantástico do início ao fim! Tem músicas inéditas e versões em inglês de alguns famosos clássicos da música brasileira. Recomendadíssimo!”

Huaska“Samba de Preto”
“Esses caras misturam bossa nova e samba com rock pesado. Sensacional! Não é à toa que nada menos que a grande Elza Soares se apaixonou e gravou uma música com eles! Recomendo o disco inteiro!”

Supercordas“Seres Verdes ao Redor”
“Excelente disco de 2006, um rock rural feito com primor! Foi minha fiel companhia no ano de 2008!”

15 discos de mashups que são verdadeiras obras-primas musicais

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Um mashup, também conhecido como mesh, mash up, mash-up, blend, bootleg e bastard pop, é uma música criada a partir da mistura de duas ou mais canções já existentes, normalmente usando o vocal de uma em cima do instrumental de outra, para que se combinem e criem algo novo. Esse tipo de criação ficou famosa no começo dos anos 2000, com a mistura de Christina Aguilera e The Strokes “A Stroke Of Genius”, que unia “Genie In A Bottle” e “Hard To Explain” e trazia à luz algo totalmente novo, unindo o rock garageiro com o pop plastificado. A partir daí os mashups tomaram o mundo, chegando até à grande mídia com discos como “Collision Course”, que unia Jay Z e Linkin Park, e o espetáculo “Love”, do Cirque du Soleil, com um grande mashup da obra dos Beatles.

Existem diversos discos completos usando o mashup como base, e alguns são verdadeiras obras-primas. Selecionei 15 deles:

Team Teamwork“Ocarina of Rhyme”

Misturar Dr. Dre, Mike Jones, Jay Z, Clipse e outros rappers renomados com a trilha sonora de Zelda é algo que só uma mente genial e divertida conseguiria fazer. Lançado em 2009, o disco é ótimo mesmo para quem não é fã da saga de Link.

DJ Danger Mouse“The Grey Album”

Hoje em dia o Danger Mouse é um reconhecido produtor e fez trabalhos como o último disco dos Red Hot Chili Peppers, “The Getaway”, do ano passado. Em 2004, no auge dos mashups, ele caía de boca unindo o disco “The Black Album” do Jay Z com o clássico “The White Album” dos Beatles, resultando no premiado “The Grey Album”. A junção de faixas como “What More Can I Say” com “While My Guitar Gently Weeps” são impecáveis.

Alex Hodowanec“Yeezer”

O estudante da Universidade de Ohio Alex Hodowanec se inspirou no “Grey Album” pra criar “Yeezer”, com 10 faixa que unem Kanye West com Weezer de uma forma nunca antes imaginada. “A primeira música que trabalhei foi misturando ‘Through The Wire’ do Kanye com ‘Beverly Hills’. Assim que essa fechou, eu pensei ‘já que fiz esse, melhor fazer mais nove, certo?'” Hoje em dia é incrivelmente difícil de achar para baixar ou assistir mesmo no Youtube.

Wugazi“13 Chambers”

Inacreditavelmente, este disco de 2011 consegue unir com perfeição os raps do Wu Tang Clan com o hardcore do Fugazi. Faixas como “Sleep Rules Everyything Around Me” são sensacionais.

Dean Gray “American Edit”

Em novembro de 2005 o Dean Gray (uma piadinha com um anagrama de Green Day) foi lançado, misturando o disco de 2003 que levou o trio de punk rock de volta aos topos das paradas com tudo o que você pode imaginar. Lógico que deu rolo com a gravadora, que fez questão de tirar do ar o disco. A faixa “Boulevard Of Broken Songs”, misturando Green Day com Oasis, chegou a ser um semi-hit.

The Kleptones“A Night At The Hip Hopera”

Misturando a música do Queen com rap e muitos trechos de filmes como “Curtindo A Vida Adoidado”, “A Night At The Hip Hopera”, de 2004, foi banido pela Hollywood Records, é claro, pelo uso de seus samples. Dá pra ouvir no Soundcloud:

Fela Soul“Amerigo Gazaway”

“Fela Soul” é, além de um ótimo trocadilho, uma união incrível. Fela Kuti com certeza é uma influência no De La Soul, então fazer essa mistura era praticamente algo natural. Ainda bem que aconteceu.

Otaku Gang“Life After Death Star”

Criado pelo rapper Richie Branson e o produtor Solar Slim, o disco reune as clássicas músicas de John Williams para a saga Star Wars com os versos pesados do Notorious B.I.G.

DJ BC“The Beastles”

Quem diria que o quarteto de Liverpool soaria tão bem quando misturado com o trio de Nova Iorque, hein? O “The Beastles” criado pelo DJ BC já tem três discos completos que misturam Beastie Boys com Beatles de forma maestral.

The Kleptones“Yoshimi Battle the Hip Hop Robots”

Uma improvável colisão entre o Flaming Lips com vários rappers e o resultado é “Yoshimi Battle The Hip Hop Robots”. Aliás, improvável na época, já que hoje em dia uma das maiores colaboradoras da banda é a super improvável Miley Cyrus.

DJ Max Tannone“Jaydiohead”

Radiohead e Jay-Z unidos pelo DJ Max Tannone, de Nova Iorque, também conhecido pelo seu antigo nome de guerra Minty Fresh Beats. Surpreendentemente bom.

Seanh2k11“Sadevillian”

O disco pega os raps pesados e inusitados de MF DOOM e traz toda a sensualidade da rainha do R&B Sade para dar o clima. Funciona perfeitamente bem. Confira nas sete faixas do álbum:

Coins“Daft Science”

O DJ e produtor de Toronto Coins ficou dois anos preparando o disco que mistura as rimas certeiras dos Beastie Boys com samples de tudo que o Daft Punk já fez. “Daft Science” foi lançado em 2016 e pode ser ouvido no Bandcamp:

Wait What“Notorious XX”

O par The XX e Notorious B.I.G. pode parecer fora do comum, mas o produtor de São Francisco Wait What conseguiu fazer com que a união parecesse feita para acontecer. Lançado em 2010, “The Notorious XX” teve mais de um milhão de downloads e ganhou do The Guardian o título de “melhor disco de mashup de 2010”.

João Brasil“Big Forbidden Dance”

O DJ brasileiro que tocou até nas Olimpíadas do Rio de Janeiro de 2016 pega um monte de funk carioca e mistura perfeitamente com Madonna, Raimundos, The Strokes, Iron Maiden, The Offspring e muito mais. Inacreditável de tão bacana. Hoje em dia tá difícil de achar pra baixar.

Inglês até os dentes: The Kinks – “Face To Face” (1966)

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The Kinks - Face To Face

Bolachas Finas, por Victor José

Tem como não gostar de Kinks? Essa banda seminal encarnou praticamente tudo que importa do espírito do rock britânico dos anos 1960, mas, diferentemente dos parceiros de época Beatles, Stones e The Who, não atingiu aquela enorme massa de sucesso. Apesar disso, pode-se dizer que ainda sim esta é uma das maiores bandas de todos os tempos sem sombra de dúvida, e divide com o The Animals (e quem sabe o The Hollies) esse estranho e não tão justo posto de bandas britânicas definitivas da década de ouro do rock que todo mundo conhece pelo menos uma música.

Mas o mais interessante do legado do The Kinks é que a cada nova vertente que aparece no rock você percebe uma banda ou outra que os idolatra. Perceba o power pop do The Knack, o indie a la “You Really Got Me” da sueca The Hives ou a personalidade inglesa até a medula nas principais obras do Blur… Tudo isso é muito The Kinks. A banda atravessa os anos renovado e cada vez mais bem assimilado.

Poderia escolher praticamente qualquer álbum da banda para comentar, mas escolho Face To Face”, seu quarto LP, por ser o meu favorito e porque vejo nele um período de transição muito evidente, o que o torna ainda mais interessante. Há o melhor dos dois mundos de Kinks nesse disco. “Face To Face” está para The Kinks como Rubber Soul” está para The Beatles. Pelo menos eu vejo assim. Ainda há aquela urgência dos primeiros trabalhos, mas já notamos uma banda mais refinada, variando nos estilos, buscando se inserir na nova onda de experimentações sonoras e se saindo muitíssimo bem.

Ray Davies – como sempre – estava afiadíssimo nas composições e produziu alguns de seus momentos mais memoráveis.  Pela primeira vez, toda a tracklist leva sua autoria. Outra coisa curiosa sobre esta obra é que muito a consideram como o primeiro álbum conceitual da história, ou seja, todas as músicas contribuem para um tema específico, como acontece com clássicos como Tommy” e The Wall”. No caso de “Face To Face”, o tema explorado foi basicamente a sociedade inglesa e seus costumes e, ao contrário dos clássicos álbuns conceituais, não há nada de repetições de temas e dramáticas overtures ou interlúdios, pelo contrário, você escuta as 14 faixas em uma tacada só, sem encheção de linguiça e não cansa um segundo. Cada canção funciona muito bem sozinha, se considerar fora dessa pegada conceitual.

“Party Line” abre o LP com bastante força, direto, sem maiores pretensões. Essa na verdade é uma parceria entre os irmãos Davies, que no fim acabou não sendo creditada no encarte. “Rosy Won’t You Please Come Home” traz um ritmo dançante embalado pela bateria sempre bem destacada de Mick Avory e por um cravo meio empolado tocado pelo mestre Nicky Hopkins. Essa música é uma daquelas que tem a incrível capacidade de grudar em sua cabeça pelo resto do dia, semana ou mês. Uma curiosidade: essa canção foi inspirada principalmente pela irmã de Ray e Dave Davies, Rosy. Ela e seu marido, Arthur Anning, tinham se mudado para a Austrália em 1964, o que deixou Ray profundamente triste. No dia que eles se mudaram, Ray Davies teve um surto de choro em uma praia. Dave contou uma vez que ele correu para o mar gritando e chorando. Além disso, a partida de Rosy e Arthur inspiraria mais tarde a banda na concepção de outro grande álbum da banda: Arthur (Or the Decline and Fall of the British Empire)”, de 1969.

Um dos singles para o disco, “Dandy” traz uma ótima letra de Ray, cheia de sarcasmo. Dizem que esta canção fala indiretamente de seu irmão, Dave Davies, o guitarrista da banda. A acidez para com os outros não para por aí, isso porque “Session Man” é um retrato de ninguém menos que Jimmy Page. E pelo visto a banda detestava o então músico de estúdio. Para se ter uma ideia, veja o que Ray já disse sobre isso: “Quando gravamos “All Day And All Of The Night” nós tivemos que gravá-la às 10 horas da manhã, porque tínhamos um show naquela noite. Tudo foi feito em três horas. Page estava fazendo uma sessão no estúdio ao lado, e veio para ouvir o solo de Dave. E ele riu, ficou tirando sarro. E agora ele diz por aí que tocou aquele solo! Então eu acho que ele é um cuzão. Dave é um grande guitarrista. Ele tem suas limitações, mas nunca recebeu o devido reconhecimento. Ele tocou isso com 16 anos de idade. Ele criou um som”.

Embalada pelo belo baixo de Peter Quaife, “Too Much On My Mind” apresenta um ar de folk rock bem dentro dos padrões da época, enquanto que em “Rainy Day in June” e “Fancy” a banda arrisca algo mais experimental com sonoplastias de trovões e cítaras, premeditando os anos psicodélicos (algo que o Kinks nunca chegou a cavar a fundo).

O rock básico dá as caras em faixas incríveis como “House in The Country”, “Holiday in Waikiki” e “You’re Lookin’ Fine”, que mostram a capacidade do grupo de transitar entre a busca de maturidade musical e a rebeldia inerente do rock, sem abrir mão da qualidade. O mesmo ocorre com as mais melodiosas “I’ll Remember” e “Most Exclusive Residence For Sale”, esta última com uma letra hilária sobre um sujeito que compra uma casa suntuosa por puro capricho do status e não consegue manter o estilo de vida.

A super inglesa “Little Miss Queen Of Darkness” traz esse ritmo ligeiramente jocoso, cheio de irreverência e um solo de caixa irresistível. Dá até para dizer que ela faz um belo par com a mais famosa do disco, “Sunny Afternoon”. Um dos pontos altos do catálogo do grupo, essa canção alcançou o primeiro lugar nas paradas do Reino Unido, o que animou bastante Ray, que via nesse novo jeito de compor sua força principal. “Não havia escrito nada por um tempo”, comenta Ray. “Eu estava doente e vivia numa casa muito decorada, tinha paredes laranja e móveis verdes. Minha filha de um ano de idade estava engatinhando no chão e eu escrevi o riff de abertura. A única maneira que eu poderia interpretar como eu me sentia era por meio de um aristocrata decadente. Eu o transformei [o protagonista da faixa] em um canalha que brigou com sua namorada depois de uma noite de embriaguez e crueldade”, disse.

Apesar das ótimas críticas, “Face To Face” não foi um sucesso de vendas, o que viria a se repetir em vários dos melhores trabalhos do Kinks. Talvez o público estivesse mais sedento por folk rock e pirações psicodélicas, que já estava começando a pipocar com força em 1966. Mas fato é que pouco importa o desempenho da banda nas paradas de sucesso. Hoje todos concordam que ali está uma das obras mais importantes da música pop. E termino como comecei: tem como não gostar de Kinks?

Orgânica e setentista, Não Alimente Os Animais prepara seu segundo disco para o segundo semestre

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Não Alimente Os Animais

Vinda da junção de diversos projetos paralelos, a Não Alimente Os Animais surgiu em 2014 buscando fazer um som orgânico e recheado de influências do rock dos anos 70 e o groove do funk da época. Os gaúchos Alexandre Alles (teclados e voz), Felipe Magon (teclados e voz), Lucas Ceconi (bateria), Lucas Chini (baixo e voz) e Luis Fernando Alles (guitarras e voz), conterrâneos de Caxias do Sul, lançaram em agosto do ano passado seu primeiro disco, gravado em dezembro de 2015 nos estúdios da ACIT, em Caxias do Sul, em um estúdio inspirado no lendário Abbey Road, e preparam seu sucessor, que deve ser lançado no segundo semestre deste ano. “Nesse semestre também vamos lançar nosso primeiro videoclipe, também produzido pela Rayza Roveda, que fez a capa do disco homônimo”, conta Luis Fernando.

Conversei com ele sobre a carreira da banda, suas influências, o primeiro disco e sua ótima capa e a queda da cultura do álbum:

– Como a banda começou?
A banda começou em meados de 2014 quando os tecladistas Alexandre e Felipe começaram a se reunir para trocar ideias de timbres e arranjos de teclados. Eles começaram a mostrar um para o outro suas composições e dai surgiu a ideia de montar um novo grupo para compor. Em seguida entraram os dois Lucas, baixo e bateria, e por último eu me juntei à formação para tocar guitarra.

– De onde surgiu o nome da banda?
Surgiu em algum ensaio, onde provavelmente alguém fez alguma besteira ou brincadeira e outro alguém disse “não alimente os animais”. Daí ficou esse nome, mas, na verdade nós interpretamos o nome como sendo para não alimentar os atos irracionais que muitas vezes cometemos e acabam prejudicando a nós mesmos e aos outros. E como o ser humano tem muito disso, achamos que o nome encaixou bem com a proposta da banda.

– Quais suas principais influências musicais?
A banda como um todo puxou influências principalmente do rock dos anos 70 e final dos anos 60. Então a gente tem essa pegada “setentona”, onde ficam evidentes os timbres orgânicos e a espontaneidade de uma banda tocando ao vivo. Acredito que Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin, The Band são nomes fortes para nossas influências, mas, aliado ao rock, temos muito gosto pelo funk e soul norte-americano, e ritmos latinos e brasileiros, o que acabou influenciando também na sonoridade da banda. Nós costumamos dizer que fazemos um “rock groovado”.

– Me contem mais sobre o primeiro disco da banda.
A banda começou em meados de 2014, mas somente em agosto de 2015 começamos a nos apresentar ao vivo, então nós ficamos mais de um ano só compondo e ensaiando. Chegamos a um ponto de ter em torno de 25 músicas para trabalhar, mas dessas, somente oito foram para o primeiro disco. Foi bem difícil escolher essas faixas para o álbum, mas optamos por aquelas que estavam mais prontas e se encaixavam melhor para o conceito de lado A e lado B, como se fosse um LP. Nós gravamos as bases do disco em dezembro de 2015, de forma totalmente independente, mas do jeito que queríamos, com Hammond B3, caixa Leslie, Fender Rhodes, Piano acústico, bateria Ludwig, amplificadores valvulados… enfim, toda aquela sonoridade orgânica que almejávamos, e de forma bem espontânea, com poucos takes e overdubs. Em abril de 2016 voltamos ao estúdio para gravar as vozes e todos os arranjos que haviam faltado. Vale ressaltar a participação dos amigos Alisson Witt, na faixa “King Kong”, Marte Fros em “Um Espejo em Cada Mirada”, e as queridas Bruna Toledo e Mari Mussoi, backing vocals nas faixas “Unforgettable”, “And I Try” e “Big Guy”. Enfim, o disco foi construído de uma maneira bem participativa e amigável, com muita gente nos apoiando. O álbum saiu pelo selo Retrola, do nosso camarada Vini Lazzari, que foi quem coproduziu e mixou o disco.

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– Como foi criada a capa?
A capa é obra da Rayza Roveda, uma amiga e fotógrafa muito talentosa que está conosco desde o início da banda produzindo as fotos e algumas artes. O conceito é todo dela, nós só chegamos no set, que na verdade era um galpão lá na casa do Lucas em Antônio Prado, e posamos de modelo. As máscaras também são criação dela, então o mérito é da Rayza que conseguiu criar essa capa que fechou exatamente como pensávamos, algo meio sombrio, sarcástico e divertido.

– Como anda a cena de rock gaúcha hoje em dia?
A cena no Rio Grande do Sul está boa, mas ainda em crescimento e em constante formação de público. Existem muitos artistas e bandas, mas muito mesmo, de muita qualidade, que a cada ano lançam álbuns cada vez melhores. A grande dificuldade ainda é formar um público. Existem excelentes festivais voltados para a música como o Morrostock e o Pira Rural, que trazem atrações de todo o Brasil, e acaba rolando muita troca de informação. Mas, fora desses festivais específicos, á mais difícil alcançar as pessoas. Eu diria que o Rio Grande tem quantidade e qualidade de bandas e artistas, mas falta dar aquele passo, circular, expandir seu público. Com certeza é algo que vai melhorar se depender de nós artistas e dos produtores culturais, há um grande esforço para isso. E a cena rock do Rio Grande do Sul é algo maravilhoso, com muitas novidades a cada ano, vale a pena olhar para os artistas daqui.

– Como vocês veem a atual cultura do streaming? Ela atrapalha ou ajuda?
O streaming veio para ficar e nós artistas temos que nos adaptar a isso. Veio para ajudar, pois o acesso à sua obra é muito mais fácil, e a divulgação enorme, mesmo para quem nunca ouviu falar de você, às vezes aparece em uma playlist no Spotify, por exemplo, e você acaba sendo conhecido por um público que nem te procurou (obrigado algoritmos). Veio para atrapalhar um pouquinho também, pois dificulta e muito a vendagem das mídias físicas, que bandas independentes como nós ainda precisamos.

– Vocês fizeram um disco com um conceito, começo meio e fim. A cultura do álbum ainda existe? As pessoas ainda param para ouvir um álbum de cabo a rabo? Qual a importância disso?
Pois é, isso meio que vai de contramão ao que a sociedade vive nos dias atuais, aquela coisa rápida, volátil, muita informação. Nós amamos música e acreditamos que existem muitas pessoas que pensam que nem nós, que a música não é descartável, e sim, é algo sentimental, que nos faz rir, chorar e sonhar. Então acho que precisamos desacelerar, ouvir o disco de cabo a rabo sim, pegar o LP na mão, manuseá-lo, olhar a capa e o encarte, escutar um lado, depois o outro, é quase uma terapia. A Não Alimente os Animais faz música para nós mesmos e para as pessoas que gostam de curtir a música como um todo, e não apenas um pedacinho.

Não Alimente Os Animais

– Quais os próximos passos da banda?
Nesse semestre vamos lançar nosso primeiro videoclipe, também produzido pela Rayza. Pretendemos gravar nosso segundo álbum a partir de julho, e se tudo der certo, lançá-lo ainda esse ano. Nós já temos uma assessoria de imprensa em São Paulo, que trabalhou na divulgação do primeiro disco, dando aquela semeada inicial, e partir dai pretendemos circular pelo Brasil e o que mais vier.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.
Bom, vou começar citando nomes daqui da nossa cidade, de muita qualidade, que já tem discos gravados e vêm fazendo um belo trabalho: Cuscobayo, Catavento, Yangos, Mindgarden, Spangled Shore, Natural Dread, GrandFuria, Velho Hippie, Magabarat, Maragá, JL, Ária Trio… Enfim, são apenas alguns nomes de artistas de diversos gêneros aqui de Caxias do Sul que vem fazendo música boa. Também acho que selos independentes vêm fazendo um excelente trabalho, então vou citar alguns artistas que têm nos representado bem pelo Brasil e mundo afora, a Mahmed do RN e a Boogarins de GO são bandas independentes que já saíram do Brasil algumas vezes. Esses dias a Carne Doce, também de Goiás, tocou aqui e me encantei com o show deles. E por fim vou citar alguns nomes que assisti no último Festival Pira Rural, do qual participamos, e me chamou muita atenção pela qualidade: Quarto Sensorial, Guantánamo Groove, Solo Fértil, Kiai Grupo, Kula Jazz, Pata de Elefante, Tagore. A música brasileira é muito rica!

RockALT #12 – Johnny Cash, The Jesus and Mary Chain, Charles Bradley e Porno Massacre

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RockALT, por Jaison Sampedro

Hoje eu gostaria de falar sobre covers. Algumas bandas, quando estão no começo de carreira tem uma certa resistência para tocar covers de bandas mais famosas. Mas o que acontece quando você já é um artista com uma carreira longa ou então já tem um nome forte? As vezes o resultado pode ser um “meh” ou então quando a musica certa cair na mão do artista certo, pode-se conseguir um novo significado para a obra eleita.

Johnny Cash“Rusty Cage”
Senhoras e senhores, Johnny Cash teve uma carreira cheia de altos e baixos. Sem sombra de duvidas o seu auge foi durante a época da Sun Records entre os anos 50 e 60, onde ele compôs obras como “Cry, Cry, Cry”, “I Walk The Line” e “Guess Things Happen That Way”. Mas depois de alguns sucessos Cash viu sua carreira despencar entre meados dos anos 70 e 80. A redenção do “Homem de Preto” veio com o “American Recordings” em 1994 produzido pelo selo Def American do guru musical Rick Rubin. Foram seis discos lançados, sendo os dois últimos álbuns póstumos. Eu poderia colocar nessa lista vários títulos de covers como “Hurt”, que aliás, na minha opinião, não existe mais a versão do Nine Inche Nails. Johnny Cash tomou essa musica pra si e a ressignificou. Escutar a “versão” de Trent Reznor hoje parece ser um cover malfeito de sua própria composição. Entretanto, mesmo amando Hurt de Johnny Cash eu escolhi outro cover sensacional: “Rusty Cage” do Soundgarden. Este cover não é tão significativo como “Hurt”, mas mostra o talento indescritível de Cash dominando vários estilos musicais.

The Jesus and Mary Chain“My Girl”
Não sei exatamente quando os irmão Reid resolveram fazer um cover do clássico “My Girl” do Temptations. Tudo indica que foi em uma gravação para a Radio BBC no programa do DJ John Peel, que depois foi compilado e lançado em fevereiro do ano 2000. Diferente da versão composta por Smokey Robinson e Ronald White, que ao escutar realmente nos faz sentir um raio de sol no céu nublado, a versão de Jim e William Reid é mais melancólica assim como a maioria de suas composições. Assim como Johnny Cash, os irmãos Reid pegaram uma musica e trouxeram quase que outro significado. “My Girl” nos passa a sensação do amor recém adquirido, ou da sensação de um primeiro beijo. Na versão do Jesus And Mary Chain o amor é o mesmo, mas talvez um tanto platônico, distante e melancólico, mas ainda assim é um amor admirável.

Charles Bradley“Changes”
De Black Velvet para The Screaming Eagle of Soul, ou simplesmente Charles Bradley. Desde muito cedo o sr. Bradley teve que enfrentar a pobreza e o abandono. Aos 14 fugiu de casa, por dois anos morou na rua, graças a um programa educacional do governo americano conseguiu trabalho como cozinheiro e por incrível que pareça foi ai que começou a sua trajetória musical. Desde de muito cedo Bradley era fã de James Brown, e por 20 anos Charles realizou shows cantando musicas do pai do Soul e ao mesmo tempo fazia bicos e realizava os mais diversos tipos de trabalho. O sucesso veio, tardio mas veio. Em 2011, aos 63 anos Charles Bradley lançava o álbum “No Time For Dreaming”. O disco trazia composições próprias e covers como “Heart of Gold” de Neil Young e “Stay Away” do Nirvana. Para a coluna de hoje eu resolvi escolher “Changes”, do álbum de 2016. Sim, “Changes” do Black Sabbath em uma belíssima e talentosíssima versão Soul.

Porno Massacre“Isso Para Mim é Perfume”
A banda paulistana recebeu o convite do nosso querido amigo, parceiro e proprietário do blog Crush em Hi-Fi João Pedro e também do nosso igualmente amigo e parceiro Rafael López Chioccarello do blog Hits Perdidos para a gravação da musica “Isso Para Mim é Perfume” para compor a coletânea em homenagem aos Titãs “O Pulso Ainda Pulsa”. A escolha dessa musica foi certeira: se eu não conhecesse a musica, poderia dizer que sem sombra de duvidas essa musica é do Porno Massacre. A escatologia e a anarquia da música combinam perfeitamente com o estilo transgressor e performático do grupo paulistano. Está aí mais um belo exemplo de um artista que toma a musica para a si e a entrega com outro significado como se fosse sua.

E se você curtiu essa coluna, não deixe de escutar o RockALT toda a quinta-feira às 21h na www.planetmusicbrasil.com.br. E nossos mais de 100 programas estão disponíveis no link abaixo! https://www.mixcloud.com/rockalt/