Cantarolando: a cabeça confusa ou não de Walter Franco em “Cabeça” (1972)

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Walter Franco
Walter Franco

Cantarolando, por Elisa Oieno

Outro dia cheguei à conclusão de que a minha ideia pessoal de arte é que, para ela ser ao menos interessante, deve conter algum elemento provocativo ou arriscado. Nesse sentido, o Walter Franco é um dos mais instigantes e criativos artistas brasileiros. Com sua cara de bonzinho e postura zen – e talvez até por isso mesmo – é um artista que apareceu para ser ‘maldito’. Ainda mais em um ambiente de descarada privação e vigília da classe artística, como foi Brasil da ditadura militar, a vontade é de provocar, cutucar a onça.

Provavelmente foi essa a intenção quando ele inscreveu a música “Cabeça” para o VII Festival Internacional da Canção (FIC) da Rede Globo, em setembro de 1972. Foi sua primeira grande apresentação, antes de lançar seu primeiro disco cheio, Ou Não (1973). Naquela época tais festivais eram veículos importantes para os artistas mostrarem suas canções a um alcance nacional, e eram submetidas a um juri e à opinião popular da plateia. Vale comentar que a platéia de festivais era conhecida por não ser exatamente comedida ao expressar suas opiniões a respeito dos artistas e suas performances. Se gostavam, aplaudiam apaixonadamente. Se não gostavam, ou discordavam das decisões do júri, vaias ensurdecedoras e até raivosas. Diz-se que esse comportamento específico das platéias demonstra quase que um desabafo, uma necessidade de opinar e ter voz, uma reação inconsciente das pessoas ao ambiente controlado e reprimido imposto à sociedade sob a ditadura.

“Cabeça” é uma faixa estranha pra caramba, gravada em várias camadas sintetizadas de voz, e foi apresentada no festival com Walter Franco fazendo uma das camadas ao vivo, sobre as gravações em fita. Já esperando as óbvias vaias, ele ficou satisfeitíssimo com sua performance, que conquistou também o juri.

As vaias eram esperadas, porém para coroar o elemento ‘maldito’ de sua apresentação, Walter foi premiado com a desclassificação de sua música do festival, e com a demissão do juri inteiro, que pretendia dar a ele o primeiro lugar. O juri era formado por Nara Leão, Rogério Duprat, o poeta concretista Décio Pignatari, os jornalistas Roberto Freire e Sergio Cabral, e o pianista João Carlos Martins. Sobre a desclassificação, nunca houve uma explicação. Na verdade, nem sobre a demissão do juri, que foi substituído por um outro que deu o primeiro prêmio ao ‘Fio Maravilha’, do Jorge Ben.

A canção “Cabeça” parece mesmo uma música da cabeça humana em seu estado caótico. A ideia é representar ‘vários personagens que nos habitam interiormente, várias inflexões, aquela coisa toda’, como o próprio definiu em uma entrevista certa vez. Parece muito a sensação que dá quando nos sentamos para ficar em silêncio meditativo. Logo a cabeça começa a gritar, assustar, bagunçar, achar engraçado, entender, desentender… é muito fácil ficar com a cabeça confusa.

“Que é que tem nessa cabeça irmão/ Que é que tem nessa cabeça ou não/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode irmão/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode ou não/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir irmão/ Que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir ou não”

Icônica capa do disco “Ou Não”, de 1973, em que está a faixa “Cabeça”

Há também diversas interpretações. Dizem que, além do sentido universalmente humano, também é uma forma de representar os tempos caóticos e confusos da época. Aliás, a frase “que é que tem nessa cabeça saiba que ela pode explodir, irmão” é meio ameaçadora, e, colocando em um contexto de ditadura militar, ganha ainda mais um sentido especial. Ainda mais considerando que ele próprio já havia sido preso, daquelas prisões aleatórias que vira e mexe atormentavam especialmente a classe artística. Qualquer governo morre de medo do que tem na cabeça de um artista, não? Talvez até de forma inconsciente uma experiência e um ambiente desses certamente influencia o que se produz artisticamente.

Talvez por isso mesmo que naquela época tenha surgido tanta coisa inovadora, verdadeiramente provocadora e interessante. Talvez por isso mesmo… Ou não.

Construindo Nycolle F: conheça as 20 músicas que mais influenciaram seu som

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Construindo Nycolle F

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos a cantora, compositora e instrumentista Nycolle F, que lançou no final do ano passado seu EP “When The Sun Comes”.

Drop Nineteens – “Shannon Waves”
Bom, quero por esta música em primeiro lugar pois ela tem uma certa significância para mim. Algo enigmático, surpreendente… (In)felizmente (não sei) eu diria que sou uma pessoa complicada para gostar de músicas facilmente. A melodia sempre foi o que realmente me atraiu ali. A sequência de notas, a linha de baixo, etc, cada instrumento fazendo seu trabalho ali. Uma simples coisa pode desviar todo o meu caminho na tentativa de apreciar tal som. Mas voltando ao assunto, diria que “essa é a música”, a minha música! 100% da forma que amo. Soa como uma viagem astral… Ou sentir-se fora de si, viajando num carro velozmente enquanto o sol nascente se exibe e o vento brinca com seus cabelos… Correr freneticamente por entre ruínas… Ou simplesmente apreciar a lua e seus mistérios. Para que letra? Se a melodia já fala por si só. Talvez seja esse o motivo de eu fazer muitas músicas instrumentais. ‘Eu canto através de minha guitarra’.

Elliott Smith“Roman Candle”
A primeira vez que o ouvi foi graças a música de Portland nos anos 90, conhecido pelo movimento grunge também que não gosto de dizer que é apenas bandas de Seattle, afinal, algumas bandas não foram nem formadas ali e são bem relembradas pelo mesmo. Diria que entre Seattle e Portland, eu escolho mil vezes Portland. Conheci essa pérola após ouvir Hazel, o clássico “Day Glo”, som amável e que me causa uma certa nostalgia sobre meu passado quando o assisto. E caçando bandas de madrugada no YouTube, eis que aparece a Madonna cantando “Between the Bars” do Elliott e já havia lido em alguns sons o nome dele nas descrições de alguns sons do Heatmiser. Resolvi ouvir e havia gostado e aí sim comecei a ir clicando nos vídeos ao lado para conhecer melhor os sons. Logo me apaixonei… A letra dessa música realmente me deixa triste e sinto essa energia que Elliott deixou pra gente nela… E coisas em comum. O violão ali…….. Quando aquele sublime toque continuo e devastador na guitarra aparece… O mistério. Sem palavras.

Cay“Skool”
Cay foi uma banda irada dos anos noventa. Um som rasgado, da forma que amo. Melhor dizendo, grunge! Anet Mook é uma das minhas inspirações como musicista ainda mais por ser mulher. Um vocal único e que merecia mais reconhecimento. Infelizmente Anet morreu de uma forma trágica… Li que ela foi atropelada (E sóbria! Ela tinha problemas com drogas) por um trem, outros dizem que foi por um ônibus. Não sei qual é a informação real. Alguns crêem que foi suicídio. mas mesmo assim, sempre associo a morte dela com esse som. É algo inevitável… E amo a letra dessa música.. simplesmente diz demais essa melodia, e a letra fortalece mais ainda… “I have nothing to wear, it’s not that i don’t care, don’t wanna freak you out […] I’ll have another cigarette Before it’s time to go to bed […] The weather is so bad, and tv makes me sad… Enfim, uma melancolia, a vida. Tive a honra de ser respondida por um integrante da banda pelo g+, sobre esse som.

Sisters of Mercy“Walk Away”
Esse som é incrível… Amo a energia dele. O vocal expressivo e contagiante do Andrew… Eu adoro essa sequência de notas, adoro demais e costumo usar algo assim nos meus sons. Amo essa euforia que esse som me causa, um arrepio… Me causa uma certa associação com licantropia. Música sem palavras… Apenas sentir!!
Well, eu escolho to walk away, Andrew. Vamos.

Ammonia“Small Town”
Poxa… Uma instrumental incrível. Essa linha de baixo já diz tudo! Quando a ouço, me imagino em Portland ou Seattle, andando de skate nos anos 90 enquanto o sol se põe… E claro, esse som tocando no fundo, como se eu estivesse num filme ou clipe. Essa associação de cores como a do sol poente… Aaaaaah. Sempre interferindo nas minhas viagens.

Radiohead“You”
Uma certa paixão por esse som. Conheci Radiohead após ouvir o som “The Bends” porque foi assim que me despertou aquela coisa complicada que citei na primeira música. Costumava achar que era uma banda de meros idiotas (risos). Amo a melodia dessa também, e sim, gosto de letras também e Radiohead tem letras maravilhosas. Também gosto muito de ouvir a clássica “Fake Plastic Trees” pois lembro de ouvi-la quando pequena, talvez na TV, rádio, não me recordo e até gosto disso, o mistério. Aquela nostalgia boa… É admirante. E quando ouvi “You” a primeira vez, fiquei impressionada! Que música sensacional, olha essa melodia… A forma como Thom canta, MAS A PARTE EM QUE O JONNY MANDA A VER.. sem palavras. É um pouco esquisito porque quando a ouço, lembro de uma música de um lugar de noite de um jogo de corrida do Sonic, que inclusive gosto muito dele. Prosseguindo: o amor é tanto que tenho até a versão do álbum “Manic Hedgehog” (olha aí uma coincidência e referência) da fase inicial deles, época em que se chamavam On a Friday. Jonny me despertou muito interesse, passava horas pesquisando sobre ele e ele é um ser único e muito inspirador. Amo como ele faz música com amor e vários instrumentos e a relação dele com pessoas de vários países.

The Muffs“My Crazy Afternoon”
Como explicar meu amor por essa doce banda? Kim Shattuck é uma grande inspiração para mim! Amo a forma e me identifico como ela toca, a pegada sabe? Gosto disso com distorção. No começo achei uma porcaria após ouvir o som “How I Pass The Time” porém quando fui dormir… Quem disse que a música não tocou mentalmente praticamente até eu adormecer? Hoje amo esse som também. The Muffs tem uma coisa única pra mim, que se destaca entre muitas bandas com mulher. Bom, sobre “My Crazy Afternoon”, a minha versão favorita é a demo do álbum “Hamburger”. Adoro as letras meio “que?” Deles.

Alice in Chains“Rotten Apple”
Alice in Chains foi a banda que me introduziu nesse mundo musical, graças a uma pessoa que eu seguia no Twitter que postou uma foto deles e meu interesse por ouvi-los despertou porque nesse mesmo dia havia visto no busão um cara loiro do cabelo comprido semelhante ao Jerry Cantrell. E acabei amando fortemente a banda, o que me fez conhecer grunge, até mesmo shoegaze e assim se foi. Esse som tem aquele enigma que aprecio demais, especialmente a linha de baixo. Que letra… Grande Layne. Mas sobre a banda, não descarto a falta de honestidade contra o Mike Starr… Meu ex membro favorito da banda. Muitos assuntos escondidos… Enfim, devo o meu conhecimento musical atual e futuro graças a eles!

Wipers “The Lonely One”
Wipers é uma banda muito irada e que inspirou muitas outras, inclusive nirvana. Grande Greg Sage. Esse som carrega (mais uma vez) um enigma, e pesado. O início soa como algo bonito… Porém logo soa como algo “preocupante”. E então depois ela fica mais preocupante ainda.. angustiante.. “The Lonely One”… Só ouvindo mesmo para compreender (ou talvez seja mais uma viagem da minha cabeça)…

The Mission“Neverland”
Conheci The Mission numa situação meio inusitada… Ela tocava em outro lugar e eu tentava ouvi-la, achava estranho mas era acolhedor aquele som causado por um ebow. Era “Butterfly in a Wheel” sendo tocada… Logo parei para ouvir a discografia e senti uma afeição por essa banda por causa do modo e das pessoas que através dela a conheci. Bem, essa música tem aquela coisa mágica e acho que sempre vou associa-la com aquele dia. Era um dia ensolarado e lindo… Casinhas acolhedoras ali… E muitas caminhadas paralelas. E mais tarde o céu com tons laranjas do sol poente.

Sonic Youth“Sweet Shine”
Sonic Youth é uma das bandas pioneiras que influenciou muitas outras, isso é fato. Amo a pureza da voz da Kim Gordon nesse som, como ela encaixa o “cantar” dela na melodia tocante, acolhedora… Me sinto num jardim florido, um dia frio mas que logo uma faixa de luz solar ilumina o ambiente… E me guia para mais distante, por entre as árvores enormes. Deixe-me incluir “Green Light” aqui, baita som.

Mirrorring“Drowning the Call”
Simplesmente belo. Tocante, viagem astral. Uma coisa que me faz ama-la mais ainda é o que ela me faz imaginar. Eu amanhecendo num cemitério enquanto o dia ainda está escuro porém com toques da presença do sol que está por vir. Um vestido branco imenso desfiado, muitas flores amarelas em volta de mim, em cima de um túmulo velho e preto. Sensação de conforto por entre os mortos e almas que me observam como pais contentes ao ver seu pequeno filho. Ainda pretendo pintar um quadro expressando isso (se eu estiver viva até lá).

My Bloody Valentine“When You Sleep”
Uma pérola vinda de um álbum icônico do shoegaze. Cheguei a esse som graças ao grunge. Pesquisas e pesquisas no YouTube por algumas horas até chegar em “Crazy For You” do Slowdive e esse som aparecer. Foi amor a primeira vista, logo me sentia correndo num jardim, com todos os problemas inclusive os futuros resolvidos! Uma sensação de liberdade e de vontade de viver. Se bem que muitas letras de músicas que gosto acabam não tendo alguma relação com o sentimento que elas me causam, mas não vejo como um problema.

El Otro Yo “Paraiso”
Conheci El Otro Yo através de um argentino também removido de um grupo de fãs de maioria mexicana do Radiohead (eu fui porque não me comunicava com frequência por também não saber falar muito). Resolvemos conversar e pedi uma playlist a ele e ele quis uma minha. Assim conheci uma banda punk irada chamada Flema. Ele havia colocado o som “No Me Importa Morir” do El Otro Yo e logo curti por ser semelhante às bandas que gosto e parei para conhecer melhor e esse som me cativou. A letra demonstra uma coisa frequente nesse papo de morrer e ir pro céu ou inferno (bleh) e tem o toque do mistério de imaginar o que será que vai ocorrer quando partirmos. Gosto demais, muito mesmo. Admirante.

Slowdive “So Tired”
Essa música carrega uma dor e melancolia pesada. Quando lhe passa na mente talvez a última solução que tenha sobrado para a vida, a dor. Acabar com a dor. Mas talvez não, mas talvez sim… É. Rachel e sua belíssima voz, expressando em poucas e repetitivas palavras. basta fechar os olhos e procurar sentir essa dor que muitos vivem (e que ninguém ouve, mais tarde julgam) sendo expressada.

Clan of Xymox“Jasmine and Rose”
Uma música que me causa um arrepio, algo imenso dentro de minha alma! É lindo o que essas bandas dos 80s carregam, especialmente a da cena gótica. Esse som também é semelhante a Sisters of Mercy, mais próxima do som que também amo e muito, “Walk Away”. Que vibe… Correr por entre ruínas.

Yann Tiersen“La Boulange”
A mistura de vários instrumentos com um violino. Instrumentais e seus “feelings”. Me emociona ouvir essa música, violino é algo tocante demais para mim a ponto de as vezes me fazer chorar. É algo realmente belo e tocante. Inexpressivo em palavras.

Zazie e Dominique Dalcan“Ma Vie En Rose”
Talvez eu admire tanto essa canção (ou fortalece minha admiração) porque ela foi criada para o filme Minha Vida em Cor-de-Rosa (título original é o mesmo da música), filme que sou apaixonadíssima! A história de um garotinho​ que sofre de transtorno de identidade de gênero e não é aceito. Um filme que sempre me toca quando assisto, recomendo demais! O legal foi que eu o encontrei num livro escolar de português numa parte própria para recomendações de filmes e livros e me apaixonei pela capa; o pequeno Ludovic (ator principal) voando no céu em uma de suas fantasias. Logo fui atrás para ver. Amo a beleza dessa música e a melodia e a suave voz de Zazie. Muito admirante.

Hossein Alizadeh“Lullaby”
Tenho uma afeição especial por coisas/pessoas do Oriente Médio, até mesmo pelo cinema que costuma retratar a realidade cruel e a simplicidade deles. Esse som foi composto para o filme Tartarugas podem voar, um dos meus favoritos. Chocante e devastador… Violino e seu poder de expressar unicamente, mais essa bela voz feminina acompanhando. A dor das crianças em relação aos ataques e minas espalhadas por todos os lados, destruindo vidas. Também acabam optando por escolher a morte… (Veja e você irá entender).

The Replacements“Over The Ledge”
Acho Replacements uma banda muito irada. Esse som “é o som”. Sinto uma vontade imensa de correr na chuva quando a ouço, uma coisa gritante que se acende em mim… Amo especialmente quando Paul grita de uma forma próximo do final como se fosse um pedido de ajuda… A voz ecoando e aquela baita linha de baixo nota 1000! Amo imensamente. Gosto também de alguns sons da carreira solo do Paul, como um som chamado “Let The Bad Times Roll”. Chega a ser confortante ouvi-la em momentos frustrantes… So, let the bad times roll… É o melhor a se fazer…

“Saddest Summer” mostra que Teen Vice é a irmã mais nova pirralha e barulhenta do Sonic Youth

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Teen Vice

O disco “Saddest Summer”, da banda novaiorquina Teen Vice, poderia perfeitamente ter saído no meio dos anos 90. E isso é um elogio. As influências de Sonic Youth, Hole e The Breeders são fáceis de pegar, além de toques de Angel Olsen, Big Thief, Sharkmuffin, Sunflower Bean… O quarteto define seu som como post punk, grunge e “punk de shopping” e estraçalha qualquer um que estiver pela frente em suas apresentações ao vivo.

Formada por Josh Ackley (baixo e vocais), Tammy Hart (guitarra e vocais), Derek Pippin (bateria) e a brasileira May Dantas (guitarra e vocais), a banda do Brooklyn só tem gente que sabe muito bem o que está fazendo: Tammy começou sua carreira no colegial, quando assinou com o selo Mr. Lady Records e fez turnê com o Le Tigre, lançando aos 18 anos seu primeiro disco “No Light In August”, indicado pelo NY Times como um dos melhores álbuns de 2000. Depois ela formou a banda GangWay em São Francisco, e em Nova York as bandas Winning Looks e Making Frienz. Em 2009 ela acabou entrando também na icônica banda MEN. Já Josh começou junto com Derek na banda punk The Dead Betties, que assinou com a Warner Music após o lançamento de seu disco “Summer or 93” e teve seu single “Hellevator” exibido com frequência na Mtv e VH1. Derek não ficou só nessa, tendo tocado diversos instrumentos também com as bandas Fur Cups for Teeth, Boogie Brains, Sped, The Kickstarts, The Baddicts, Tight Chocolate, The Buybacks e muitas outras. A brasileira May era a frontwoman da seminal banda paulistana The Fingerprints, onde dominava o palco como poucos na cena independente brasileira.

Toda a energia e experiência desses quatro integrantes é notável no disco lançado em julho pela Commission Music. Em faixas como “How Does It Feel?” dá pra sentir que Kim Deal tem um altar garantido na sala de ensaios da banda, enquanto “Y U WNT 2?” mostra que bandas como AC/DC e ZZ Top também fazem parte da discoteca inspiradora do Teen Vice. Vale a pena conferir a obra do começo ao fim, pois, segundo o baixista Josh, “se a cultura do disco está morta, vamos trazê-la de volta à vida”.

Conversei com ele sobre a carreira da banda, o novo disco, a falta de rock nas paradas de sucesso e muito mais:

– Como a banda começou?

Eu joguei um feitiço neles.

– Como surgiu o nome Teen Vice?

Ele tem um som legal, somente. E é “TV” se você abreviar. Somos a irmã mais nova, mais barulhenta e mais pirracenta do Sonic Youth, e estamos sempre de castigo.

– Quais são suas maiores influências musicais?

ZZ Top, Deee-Lite, Madonna, Hole, U.S. Girls.

– Como vocês definiriam o som da banda pra quem nunca ouviu?

Eu diria que uma filha acelerada de uma relação entre o The Breeders e o The Cars.

– Me contem mais sobre o material que vocês lançaram até agora.

Estamos muito entusiasmados com nosso álbum de estréia, “Saddest Summer”, que saiu pela Comission Music no dia 14 de julho. Fora disso, lançamos algumas músicas, “Cry for You” e uma cover de “Aneurysm”, do Nirvana.

Teen Vice

– Como anda a cena independente de Nova York hoje em dia?

Está viva e bem, and the kids are alright. De qualquer forma, somos uma das poucas bandas tocando música vibrante e acelerada. Fora o Fruits and Flowers e The Hellbirds, ambas fantásticas, o pessoal ainda está empacado naquele negócio nada a ver de drone synth.

– Porque nos últimos tempos o rock ficou tão excluído das paradas de sucesso?

Porque as bandas estão tentando se conformar em vez de se destacar. O que só torna o rock chato. Uma tonelada de pessoas culpa o hip-hop, ou o país, mas isso é besteira. A culpa é dos rockers lançando álbuns ruins que ninguém quer comprar. E também, há um pouco de um problema de diversidade no rock.

– A cultura do disco, do álbum completo, está definitivamente morta com o crescimento do streaming?

“Saddest Summer” fala de amor, inadequação, corações partidos e identidade. Se a cultura do disco está morta, vamos trazê-la de volta à vida. É trabalho do artista fazer questão de que sua arte floresça, não trabalho da sociedade.

  • – Quais são os próximos passos da banda?

Lançamos o álbum e planejamos lançar um monte de clipes. E fazer turnê pela Espanha e beber Spritz na Riviera Francesa.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos.

U.S. Girls, Jay Som, Fruits and Flowers.

Ouça “Saddest Summer” aqui:

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Paula Puga, do Toca a Cena

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Paula Puga, do Toca a Cena
Paula Puga, do Toca a Cena

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje, a convidada é Paula Puga, do Toca a Cena. “Faz exatamente 11 anos que circulo no cenário independente e encontrei muitas pérolas ao longo do percurso. Muitas dessas preciosidades são minhas referências musicais hoje e listarei algumas delas”.

Pessoal da Nasa“Topless”
“Quando ouvi Pessoal da Nasa a primeira vez, fiquei pasma! Mas depois que ouvi “Topless”…fiquei mais pasma ainda! A letra é divertida, a linha de voz diferenciada….incrivelmente criativa!”

Blind Horse“Soul Locomotive”
“Nas correrias da vida, conheci o trabalho da Blind Horse. A vibe setentista com stoner é de deixar arrepiado! Guitarras repletas de distorções, gaita, vocais melódicos e rasgados… Uma combinação porreta!”

The Baggios“Brutown”
“Conheci o trabalho através da indicação de vários amigos e também do produtor musical deles, Felipe Rodarte. Os pontos que mais me chamam a atenção nesta música é a textura sonora e os solos da guitarra. Uma verdadeira pérola! P.S.: Se tiver rolando show deles perto de você, assista! É simplesmente muito foda. Entrei em transe enquanto assistia o show”.

menores atos“Mar Aberto”
“Essa é uma das minhas bandas preferidas! Se eu pudesse definir essa música em uma palavra, seria intensa. O clima dessa música é denso, a letra também….sem contar que a sonoridade é linda!

Carne Doce“Artemísia”
“Uma das melhores descobertas nessa vida de Toca a Cena! A música tem uma pegada diferente, densa, longa introdução, letra intensa e densa. Deu para perceber que gosto de músicas intensas (risos). E a voz da Salma Jô é lindissima. Um arremate perfeito. P.s.: O clipe tem uma fotografia lindíssima!”

Francisco El Hombre e Cuatro Pesos de Propina se juntam para turnê pela América do Sul

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Francisco El Hombre - Foto: Rodrigo Gianesi

Quem conseguiu comprar ingressos para ver o show da Francisco el Hombre junto com a Cuatro Pesos de Propina nesta sexta-feira (21), no Sesc Belenzinho, vai ver uma big band com dezesseis músicos no palco, numa junção de ritmos latinos e punk rock. Esse encontro entre brasileiros e uruguaios será o primeiro da turnê “Rompe Frontera”, que vai passar por 18 cidades e três países em apenas 30 dias.

As bandas se conheceram de forma inusitada. Na época a Francisco El Hombre ainda era uma banda de estradeiros que faziam apresentações nas ruas da América Latina. Certo dia, em uma cidade do litoral uruguaio, a apresentação dos brasileiros teve que ser interrompida por uma razão não convencional. “Tivemos que parar de tocar por conta de um barulhão que vinha de uma quadra de futebol próxima dali. Corremos para lá e vimos um palco enorme, com cinco mil pessoas cantando e foi ali o nosso primeiro contato com eles”, conta Mateo Piracés- Ugarte, violonista da FEH.

Depois desse encontro inicial as duas bandas estreitaram relações e fizeram alguns trabalhos juntos. Sempre uma convidando a outra para tocar em seu país. Foi assim quando a Cuatro Pesos de Propina veio tocar em Porto Alegre e a FEH em Montevidéu. “Nossos públicos se casam. Nesses shows sempre rola uma energia incrível”, comenta Mateo.


(Cuatro Pesos de Propina – Foto: Yenifer Piaza)

Inicialmente, a impressão é que musicalmente as bandas não tenham muito a ver. A Francisco El Hombre faz um som mais gipsy-folk, enquanto os uruguaios têm uma pegada mais de ska e punk rock. Mas segunda Mateo, há similaridade nos discursos que ambas as bandas fazem. “Todos nós da Francisco somos da escola do hardcore e nossa proposta tem muito de transmissão de mensagem através da música e se você ouve o CPP percebe logo isso também em suas letras”.

Unir quase duas dezenas de pessoas em cima de um palco não é tarefa fácil. Os dois grupos há um tempo vêm se inteirando do repertório do outro, mas para o violonista da Francisco El Hombre a sintonia e a parte orgânica vem falando mais forte nos ensaios. “Está rolando tudo com o coração e com paciência. Trabalhar com banda é aprender a construir coisas juntos. As duas bandas se admiram e confiam muito uma na outra e isso está fazendo brotar coisas incríveis”.

Como registro dessa parceria a Francisco El Hombre e Cuatro Pesos de Propina lançaram esta semana um EP com o mesmo nome da turnê onde uma banda escolheu uma música da outra para fazer um cover. O resultado você confere nos vídeos abaixo.

“Wristcutters: A Love Story” – Um road movie com o Tom Waits num post mortem dos suicidas

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Sinestesia, por Guilherme Gagilardi

Wristcutters: A Love Story (Paixão Suicida)
Lançamento: 2006
Direção: Goran Dukik
Roteiro: Goran Dukik e Etgar Keret
Elenco principal: Tom Waits, Patrick Fugit, Shannym Sossamon e Shea Wigham

Um road movie

com música do Gogol Bordello

e o Tom Waits no elenco!

Tá, agora a parte bad da coisa: o filme se passa num lugar meio várzea, meio terra de ninguém: um post mortem dos suicidas (mas não, o filme não romantiza nem estimula o suicídio).

Beleza, pós introdução sucinta, passemos ao filme!

Zia, um recém-chegado nesse mundo várzea, ainda angustiado com o fora que levou ele pra lá e vendo que aquele lugar era ainda mais bosta, que lá o seu trabalho era mais bosta, sua solidão era mais bosta e o cara com quem dividia o quarto nos fundos da pizzaria onde trabalhava era ainda mais bosta que a poeira do seu quarto de vivo, encontra num bar um maluco russo-americano que lembra o Iggy Pop e morreu em um palco jogando a cerveja nas cordas da guitarra. O nome dele é Eugene e ele vive nessa terra de ninguém com toda sua família.

O novato, puto do vida (ou da morte, sei lá), pensando em se matar de novo, entra num mercado pra comprar queijo e encontra um antigo “amigo” que conta pra ele sobre a mina que tinha lhe dado o fora: Ela tinha ficado bem bad depois da morte do Zia e se matou também uns meses depois. Agora, com esperanças de encontrar a mina que, pelo menos segundo o seu raciocínio e a história do mercado, teria se arrependido do fora, o calouro decide ir procurar-lá e chama o russo. Eugene topa porque não tem porra nenhuma melhor pra fazer e lá se vão os dois pela estrada ouvindo Gogol Bordello.

Encontram uma mina pedindo carona, Mikal, que diz estar em busca dos “homens de branco”, os caras que controlam aquele lugar e que podiam tirá-la de lá, pois estava nesse universo por engano. Formado o trio, o filme segue num esquema bem quadradão de road movie, acompanhando o desenvolvimento e as desavenças dos personagens durante a viagem.

Contudo, o que definitivamente dá pra esse esquema quadradão um tempero especial é a voz absurdamente rouca do lindão gostosão Tom Waits, que aparece no longa deitado no meio da estrada, cansado de procurar seu cachorro sumido (uma referência a “Rain Dogs”, talvez?), quando é quase atropelado pelo trio e os leva até o seu acampamento (que por sinal, dá nome ao conto de Edgar Keret que inspirou o filme: Kneller’s Happy Campers).

É talvez já seja meio óbvio que um filme com o Tom Waits tenha uma trilha do caralho. A primeira música, que toca enquanto o Zia arruma o quarto antes do “suspiro final” por sinal, é desse beatnik do chapéu coco.

Mas não para por aí: a música tema do filme, “Through the Roof’n Underground”, é um absurdo de bom da música pra ouvir viajando (em qualquer sentido possível pra palavra…) e é duma banda que entende do assunto: a big band Gogol Bordello, que compôs o tal som e que vêm trabalhando num projeto de música punk-cigana desde 1999. Composta por imigrantes de vários cantos do mundo, a banda é “chefiada” pelo vocalista Eugene Hütz (vale dizer que no filme, a música aparece tocando numa fita da ex-banda do Eugene, o que meio que permite concluirmos que o nome é uma homenagem do diretor Goran Dukik ao músico) que é de família cigana e sabe do que diz quando diz de estrada.

Além disso, o filme ainda conta com um pontual Joy Division tocando no fundo numa cena de bar e várias outras músicas que aparecem sempre de modo um tanto quanto superficial, mas que divertem quem curte o som.

Segue em link a trilha sonora e o filme completo. Assistam, ouçam e curtam!

Filme completo (em playlist do Youtube):

Trilha sonora (também em playlist):

RockALT #21 – Lilt, Magnólia, Rebel Jeans e Oceania

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RockALT, por Helder Sampedro

Na coluna dessa semana vamos falar sobre alguns shows que vi recentemente e também de um que está para acontecer. Acredito que estamos chegando ao ponto ebulição de uma cena que há anos não se agitava tanto. Cada vez mais artistas independentes conquistam seu espaço e encontram seu público de uma forma que não víamos há décadas! As bandas abaixo são alguns dos exemplos desse movimento.

Lilt
Na última sexta-feira tive uma das mais gratas surpresas do ano. Fui conferir o show da banda Old Books Room que veio de Fortaleza para alguns shows aqui em São Paulo. Quem acompanha a coluna já deve conhecê-los. Além deles o show contava com os paulistas do Mudhill (que vocês também já deveriam conhecer) e, também de Fortaleza, a banda Lilt. Eu nunca havia ouvido nada da banda e estava curioso para vê-los ao vivo, porém o meu objetivo principal era ver pela primeira vez o show da Old Books Room, por já conhecer o som deles, e de quebra rever os camaradas do Mudhill e cantar junto em todas as músicas como bom fã que sou. Durante as apresentações, notei que haviam mais músicos de fora, também estavam presentes os integrantes da excelente Rocca Vegas, uma verdadeira excursão de Fortaleza em SP! É aí que está a grata surpresa, o show da Lilt foi arrebatador, a banda toca um rock instrumental que me fez parar e pensar “por que esses caras não são conhecidos internacionalmente?”. Sim, o som desse trio cearense é bom nesse nível! Saí de lá com um CD da Lilt na mão e como o mais novo fã de uma banda incrível. Se você curte um instrumental pesado porém repleto de surpresas, saindo dos instrumentos de músicos criativos e altamente competentes, não perca mais tempo e coloque Lilt pra tocar já!

Magnólia
Sábado, 22/07, nossos parceiros do selo Rockambole apresentam seu primeiro festival, o Rockambole on STAGE, com três bandas: Magnólia, Kilotones e Elektra. Aproveitando a ocasião, peguei pra ouvir os catarinenses do Magnólia, que lançarão seu novo single no show desse fim de semana. Não me decepcionei ao ouvir ‘Fragmento’, o primeiro álbum da banda, lançado em 2015. Pra quem (como eu) está acostumado a ouvir sempre o mesmo estilo musical é até um pouco difícil encaixar a banda em algum padrão ou gênero, o estilo da banda me soou muito original, em especial o vocal bem característico e cheio de personalidade. O instrumental da banda passeia do pop ao rock alternativo sem medo ou receio de abordar temas um tanto malquistos por roqueiros em geral, a banda não foge de temas mais emotivos em suas letras (todas em português). Recomendo que aqueles buscam conhecer uma banda que foge do lugar comum escutem Magnólia, e o convite se estende também aos shows que a banda faz nos próximos dias em São Paulo e Guarulhos!

Rebel Jeans
O bom de estar sempre em contato com diversas pessoas do cenário independente é que você sempre recebe dicas e indicações de bandas bacanas. Essa semana recebi o material da banda paulistana Rebel Jeans. Escutei o EP ‘Disconnectors’ lançado no mês passado, e me identifiquei imediatamente com o som da banda. Alguns artistas tem essa qualidade, você escuta e por mais que sabe que está escutando uma música pela primeira vez, parece já conhecer e ser fã do artista. O quarteto formado por baixo, bateria e duas guitarras concedem à banda um som repleto de camadas, mas essa profundidade não se converte necessariamente em peso, a banda tem melodias animadas e entusiasmantes, mesmo quando as letras tratam de sentimentos não tão animadores. Escute o rock animadão de Rebel Jeans em seu EP na playlist abaixo:

Oceania
Lembra da banda Diesel, que tocou no Rock In Rio 3 em 2001? Não? E da banda Udora? Talvez você se lembre da trajetória dessa banda que mudou de nome e de país em busca de um sonho que o tempo mostrou que já estava morto há um bom tempo. O líder da Diesel/Udora voltou à ativa recentemente depois de trilhar um caminho não muito agradável. Nos últimos 15 anos viu seu sonho se esvair diante de seus olhos e se viu obrigado a abandonar o desejo de viver de música. Mas o mundo dá voltas e com elas surge a banda Oceania. Com um objetivo bem mais fácil de se concretizar, a banda busca apenas botar seu som no mundo pra quem quiser ouvir, seja um estádio lotado, seja um pequeno bar em Belo Horizonte. E é de lá que vem os primeiros sons da banda que tem chamado a atenção do cenário independente e mostra que o tempo e a maturidade são grandes aliados de um músico em busca de tornar material a arte que tem dentro de si. Confira os primeiros trabalhos de Oceania, esperamos que sejam os primeiros de muitos! Todas as músicas estão reunidas no canal do vocalista Gustavo Drummond no youtube:

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Construindo GRITO: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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GRITO

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o quarteto de Barretos GRITO apresentando os 20 sons que mais influenciaram o som da banda.

Jimi Hendrix“Spanish Castle Magic”
Rock Bruno: O maior presente que a minha mãe me deu foi me apresentar a esse cara. O cara. A urgência é tão grande que você consegue sentir que as músicas são tocadas por necessidade: se elas não forem tocadas, o mundo vai acabar. Sem ele, o rock seria diferente, menor.

Pink Floyd“Time”
Rock Bruno: Aqui se deu a primeira viagem pelo mundo dos álbuns conceituais. A riqueza sonora é tão grande que a imersão acontece muito facilmente. Sem falar que a música “Time” contém o meu solo favorito do David Gilmour.

Mercyful Fate“The Uninvited Guest”
Rock Bruno: Me lembro como se fosse ontem. Eu estava na frente de casa. Meu irmão e alguns amigos nossos estavam vendo um VHS com clipes de heavy metal na sala. Começou a tocar uma música que imediatamente prendeu minha atenção. “Que p**** é essa que tá tocando?!”. Aí eu vi a cara pintada que me fez entrar na minha fase metaleira. Guilherme e eu tocamos muito essa música quando moleques.

King Diamond“The Jonah”
Rock Bruno: Olha o rei aí de novo. E outra música que tocamos bastante. Pouco tempo após conhecer o Mercyful Fate, conferi os trampos da banda King Diamond. Fiquei extasiado com seus álbuns que contavam histórias, com cada música sendo como que um capítulo de um livro de terror. A influência desse trabalho de narrativa no GRITO não poderia ser mais óbvia.

Bathory“The Lake”
Guilherme Silveira: Bathory é um nome muito marcante, por mostrar a união entre aspectos tidos como extremos e outros rebuscados e minuciosos. Quando se tem 15 anos, esses aspectos tendem a ser entendidos como antagônicos. O álbum “Blood on Ice” traz tudo isso e a música “The Lake” carrega em si todo o poder épico de uma canção, grandiosa e fora dos padrões para a música pesada. Cada detalhe ficou marcado para sempre na minha cabeça, dos violões delicados à bateria pesadíssima que conduzem até o longo e maravilhoso refrão, ensinou o que é construção em música, para além da canção.

Alice In Chains“Rain When I Die”
Weverton Valini: Na minha opinião, Jerry Cantrell é um dos guitarristas mais subestimados de todos. Ainda que ele seja um bom solista, a atmosfera densa e pesada de cada arranjo desse cara é algo assustador. E nessa música não é diferente. A primeira vez que ouvi ‘‘Rain When I Die” só pude pensar em uma coisa, “eu queria ter composto essa música”.

Black Cobra“Interceptor”
Rock Bruno: Eu adoro ouvir músicas que me dão vontade de quebrar coisas à minha volta e essa música causa exatamente isso. Lá no começo dos anos 2000, eu tinha dificuldade de encaixar minhas músicas no estilo da minha banda da época, que fazia um heavy metal tradicional, e eu não sabia pra que lado guiá-las. O Black Cobra me trouxe um tipo de música que eu, até então, nunca tinha ouvido e que foi o primeiro sinal de que havia esperança pras minhas músicas.

Kekal“Isolated I”
Rock Bruno: Surgido da improvável Indonésia, o Kekal foi o responsável pelo meu maior choque na música. Existe o Rock Bruno antes do Kekal e o depois do Kekal. Conhecer o álbum “The Habit of Fire” me ajudou a quebrar tantos paradigmas que eu nem consigo enumerar. O álbum simplesmente tem tudo e de uma forma que funciona, sinal de que entre os membros, sobretudo o líder Jeff Arwadi, há um extremo bom gosto musical. É realmente uma pena que a banda não receba o devido reconhecimento.

Lento“Need”
Rock Bruno: Temos grandes bandas por aí capazes de soar pesadíssimas, mas só o Lento consegue tanto peso com tão pouco. Mesmo não usando guitarras superdistorcidas, ao ouvir a banda você sente o peso de montanhas sobre as costas e ao mesmo tempo é capaz de voar sobre elas. Esquizofrenizante.

Stinking Lizaveta“Indomitable Will”
Guilherme Silveira: Crua e viajante, essa música do Stinking Lizaveta expressa exatamente isso, uma vontade indomável de expor, de gritar de forma urgente, ainda que não desesperada. Não é necessária uma grande orquestra ou muitos instrumentos para fazer algo grandioso. Desde a primeira vez que ouvi esses poucos 2 minutos e 50 segundos me tomaram e falaram algo com muito mais propriedade do que qualquer letra poderia falar. A cadência e a cama formada pela base cavalgada, com certeza são influências diretas para as composições das quais participo.

Cloudkicker“From the Balcony”
Rock Bruno: Ao ouvir o Cloudkicker, banda “de quarto” de Ben Sharp, eu finalmente fui capaz de dizer: é isso! Apesar do GRITO soar bem diferente, vários dos seus elementos sonoros estão presentes aqui, de uma forma ou de outra. A cada lançamento ele demonstra mais maturidade. Após anos de terreno semeado, o Cloudkicker forneceu a energia que faria o GRITO nascer pouco tempo depois.

Macaco Bong“Amendoim”
Gui Pereira: Foi a primeira música instrumental que ouvi e me chamou atenção, ela é a responsável por hoje minha playlist ser 95% instrumental, me apaixonei logo de cara! Desde a introdução até o último riff da guitarra, essa música tem tudo perfeito, o tempo, a guita, batera, baixo, é tudo milimetricamente encaixado!! Graças ao álbum “Artista Igual Pedreiro” hoje sou um amante do rock instrumental.

sgt.“Apollo Program”
Rock Bruno: Foi através dessa música que conheci a cena japonesa de post-rock, pela qual tenho profunda admiração. Além disso, a verve minimalista das harmonias e arranjos, assim como algumas características da “cozinha” da banda, fazem o sgt. uma grande influência na sonoridade do GRITO.

Russian Circles“Youngblood”
Gui Pereira: É a música perfeita, na minha opinião! É pesada, tensa e tem uma profundidade sem igual! Foi outra das músicas que me trouxeram ao instrumental. O que mais me chama atenção na “Youngblood” com certeza é performance do baixista Colin DeKuiper, sem dúvida o timbre pesado do seu baixo é o meu favorito.

“Schakles”
Rock Bruno: É uma das músicas mais lindas e originais que já ouvi, pois através de uma levada de batera nada usual você de repente se vê alvo de uma violência musical inacreditavelmente agradável. Uma das melhores bandas de sempre.

Intronaut“Killing Birds With Stones”
Weverton Valini: O Intronaut me ajudou a amadurecer muito como guitarrista, principalmente depois da minha entrada no GRITO. Saindo um pouco do 4/4 e entrando compassos mais complexos, suas músicas fizeram com que eu me empenhasse mais como músico, mas não tecnicamente e sim como ouvinte, percebendo que às vezes do mais simples arranjo pode ganhar mais força o mais bem elaborado e complicado riff ou solo de guitarra.

Ronald Jenkees“From the Arrow Loop”
Rock Bruno: Um cara que faz música eletrônica instrumental também no seu quarto, principalmente hip hop, de maneira criativa e divertida. Muito legal ver a evolução do trabalho dele, que no início era fortemente calcado em improvisações. Em seus trabalhos mais recentes, no entanto, suas composições evoluíram bastante na forma, ganhando muito em senso de unidade e capacidade de diálogo.

Boris“Feedbacker”
Guilherme Silveira: Conhecer Boris foi um salto musical para mim. Já ouvia alguns sons nessa linha, como o Sunn O))), mas foi com o Boris, na música “Feedbacker”, que pude ter uma compreensão maior desse gênero. Quando misturam grandes períodos de paredes sonoras, intercalando outros momentos com voz e base lamacenta, criam um todo muito instigante. Passei dias deixando essa música no repeat enquanto desenhava. Sempre me levou a outros mundos e moldou não só a minha forma de pensar e compor música, mas também o desenho e as histórias em quadrinhos que faço. Influência direta e total.

Sleeping in Gethsemane“Of Giants”
Rock Bruno: O último álbum do SiG, “When The Landscape Is Quiet Again”, é uma obra-prima. Não há nenhum momento de baixa, todas as músicas são marcantes. A banda, na época, estava no seu auge, exibindo muita energia e melodia, oferecendo um estilo único que aliava ao post-rock uma série de influências de outros gêneros musicais. Além de tudo, a música “Of Giants” é uma das minhas favoritas de todos os tempos. Uma pena a banda ter acabado, pois tinha força pra ir muito longe.

Képzelt Varos“Kepler”
Rock Bruno: Eu não me lembro como foi que conheci essa banda húngara, mas a sua música se destaca naquilo que pra mim, como compositor, é o mais importante – não a técnica, nem a complexidade, mas a forma. Suas músicas trazem ideias simples, porém encaixadas da melhor maneira possível. Um exemplo para o GRITO quanto ao aproveitamento de ideias musicais simples para conseguir grandes efeitos.

Duo de Fortaleza Intuición mostra sua selvageria frenética cheia de raiva e deboche no EP “Drugui”

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Intuición
Intuición

Os drugues estão à solta! Utilizando a linguagem nadsat criada por Anthony Burgess no clássico “Laranja Mecânica”, o duo de Fortaleza Intuición batizou seu mais recente EP, lançado em 2016, de “Drugui”. Formada por Clapt Bloom (vocais) e Lua Underwood (synths, guitarra e eletrônicos), a banda faz shows arrebatadores e é impossível não ser impactado depois de ver uma de suas alucinadas e viscerais apresentações ao vivo.

A atitude grrrl power de Clapt no electropunk da dupla já rendeu muitos comentários. Os que entendem o que o rock significa ficam maravilhados e batem palmas para a atitude selvagem da vocalista no palco. Já os conservadores com mentalidade antiquada, que corariam ao ver Iggy Pop se jogando no chão, enchem (e muito) o saco da banda. “Estavam compartilhando um vídeo da nossa performance e nele haviam vários comentários sexistas, muitos mesmo. Coisas pesadas, inclusive uma ameaça de morte…”, lamenta. Mesmo com essas pedras retrógradas no caminho, o duo segue sua selvageria punk e prepara seu primeiro disco, que deve ser lançado em breve mostrando um pouco de influências setentistas no alucinado som da banda.

Conversei com Clapt sobre a carreira do duo, o disco “Drugui”, as impressionantes e desenfreadas apresentações ao vivo, a cena independente de Fortaleza e muito mais:

– Como a banda começou?

Eu tinha acabado com minha primeira banda e tava sem saber o que fazer. Eu e o Lua já éramos amigos desde o colégio, na época ele tava produzindo uns remixes muito bons, ouvi e perguntei a ele se não dava pra compor pelo programa que ele usava, ele disse que sim e aí decidimos formar esse duo eletrônico.

– Quando foi esse início?

No final de 2012, ai logo no comecinho de 2013 começamos a divulgar o som que a gente tava fazendo/experimentando.

– Quais as maiores influências musicais de vocês para este projeto?

Eu sempre fui inspirada na cena riot grrrl dos anos 90, desde a minha primeira banda. Acho que independente do projeto que eu esteja, sempre vai transparecer essa minha influência… Em relação à música/composição, eu e o Lua temos praticamente as mesmas influências e ideias pro Intuición, a gente se baseia em bandas como Sonic Youth, Le Tigre, Vive La Fête, David Bowie, CSS, entre outros.

– Como vocês definiriam o som da banda para quem ainda não conhece?

Electropunk… é uma definição vaga mas acho que é a que mais se encaixa!

– Me contem um pouco mais sobre o material que você já lançaram.

O último material que a gente lançou foi o “DRUGUI”, em fevereiro de 2016. Fizemos o mesmo esquema de sempre: gravação caseira, com um PC fodido e um celular. A gente queria fazer músicas que dessem uma energia maior nos lives, e esse EP foi praticamente todo pensado pra funcionar ao vivo. Acho que isso se encaixa na temática do EP também, que foi inspirado na comunidade/estética nadsat criada no Laranja Mecânica.

– Por falar em shows ao vivo, este ano vocês tiveram que bater de frente com pessoas conservadoras e retrógadas que ficaram irritadas por sua performance em shows. Como rolou isso?

Na hora em que estávamos tocando rolou tudo de boa, nenhuma reclamação aparente, foi OK. Eu só cheguei a ver esse “linchamento” virtualmente: estavam compartilhando um vídeo da nossa performance e nele haviam vários comentários sexistas, muitos mesmo. Coisas pesadas, inclusive uma ameaça de morte… Tive que ir até a delegacia da mulher por medo. Fiz o B.O., mas eles não tratam esses casos pela delegacia da mulher e eu fiquei completamente desconfortável de saber que eu teria que contar com policiais homens pra “resolver” essa situação, então desisti de levar o processo adiante.

Intuición

– Esse tipo de comportamento virtual ainda acontece constantemente com bandas com mulheres na formação, ou com integrantes LGBTQ. Como as bandas podem lutar contra este tipo de agressão?

Batendo de frente, não tem muito o que fazer… O lance é mostrar o seu trabalho a qualquer custo e passar a vida toda se esquivando dessas barreiras, gritar o mais alto que puder, ninguém vai querer te ouvir, nem te dar credibilidade por nada.

– Como está a cena independente de Fortaleza hoje em dia?

Tem um tempinho que começou ressurgir bandas com uma identidade autoral muito massa, sem medo de experimentar. Eu acho a cena independente hoje em dia bem representada aqui em Fortaleza.

– Porque o formato duo, antes raro no rock, se tornou tão popular?

Não sei… Acho que com o avanço da tecnologia, as pessoas optaram trabalhar umas com as outras cada vez menos. Eu prefiro trabalhar com o mínimo de gente possível, quando tem muitas ideias surge uma confusão… Enfim, lidar com gente é bem complicado!

– Aliás, deixa eu voltar um pouco: como surgiu o nome da banda?

Foi do nada… Fiquei escrevendo uns nomes aleatórios num papel até que pensei em Intuición, o Lua gostou e deixamos assim mesmo!

Intuición

– E antes do “Drugui” vocês lançaram bastante coisa. Me conta mais dessa trajetória!

No começo a gente só soltava umas músicas aleatórias, até que a gente decidiu dar uma revisada no nosso set e se focar em fazer um EP. Então em 2014 a gente lançou o “Desperate | Silver Lining” e começamos a fazer shows (nosso primeiro show foi em 2013, na verdade, mas depois disso passamos um tempo parados), era muito ruim na época (na verdade hoje em dia não mudou muita coisa). Ninguém entendia como funcionava o nosso live e a gente também não tinha equipamento… Pra completar na época o PC que a gente usou pra construir o EP inteiro pifou e perdemos todos os projetos das músicas. Acabou que trabalhamos num EP e nunca tivemos a chance de tocar ele ao vivo. Então no final de 2014 a gente começou a fazer um segundo EP, o Lua tava ganhando mais experiência como produtor e conseguiu fazer nosso EP soar bem profissional pra pouca coisa que tínhamos na época. Acabou que uma galera gostou do “Sad Frequencies” e começamos a fazer mais shows, algumas pessoas apostaram na gente e a nossa estrutura como banda tava pegando maturidade. Em 2016 lançamos o “DRUGUI”.

– Os shows de vocês são conhecidos por serem inesquecíveis. Como você descreveria um show da banda para quem ainda não viu?

(Risos) Eu nao sabia disso, massa. Pra quem ainda não viu o show, acho que posso descrever como frenético, cheio de raiva e deboche, eu e o Lua nos sentimos assim a maioria das vezes que pisamos no palco.

– Quais os próximos passos da banda?

A gente pretende lançar um single ainda esse ano e começar a trabalhar no nosso primeiro álbum.

– Pode adiantar algo sobre o que vem no álbum?

Humm… Pelas experimentações que a gente vem fazendo, creio que o álbum vá vir com uma vibe setentista, é a única coisa que posso afirmar!

– Recomende bandas e artistas ( de preferência independentes ) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Vou citar a galera daqui, que a gente sempre cita nas entrevistas, bandas como Monquiboy-Boo, Miss Jane, Lascaux, são bandas independentes que fazem um som muito massa aqui por Fortaleza!

Filosophone: O Canibalismo Tropicalista d’Os Mutantes

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Os Mutantes

Filosophone, por Matheus Queirozo

Para fazer uma música bem feita, não tem fórmula, não tem receita, não tem uma bula, não tem uma matemática exata, não tem um “modo de fazer”. Os ingredientes que podem ser utilizados são muitos. O que vale é o resultado final da gororoba toda, de letra, melodia, ritmo, instrumentos, tom, entre outras coisas. Claro que o resultado final depende muito dos componentes usados. Mas o que mais influi na finalização de uma obra é, sem dúvida, o autor ou autora ou autores. São eles que dão a sua impressão àquela obra, são eles que mastigam o mundo ao seu redor e cospem, da sua maneira, em um acorde, em uma música, em uma letra, em um disco, por fim, em uma discografia. Esses cozinheiros, quer dizer, esses autores podem ter métodos, podem ter uma peculiaridade que se transforma na marca registrada deles. Mas pode ser também que eles não tenham uma marca fixa, pode ser que eles se transformem a cada disco, numa transformação bem mutante mesmo, se tornando essa mudança sempre criativa a sua essência estética. E quem mais mutante do que os próprios Mutantes? Quem se puser a ouvir toda a discografia da banda, desde o primeiro compacto ainda, “Suicida/Apocalipse” de 1966, quando a banda ainda se chamava O’Seis e tinha integrantes a mais, vai perceber o quanto os Mutantes mudam de acorde em acorde, num experimentalismo difícil de se comparar no cenário da música mundial. Eu, mero escritor e apreciador de música, não ousaria comparar a singularidade deles com artista/banda nenhum(a), porque, como ficou dito, eles são singulares. Se tentarmos uma classificação, uma espécie de catalogação, seria: singular. Estão na prateleira das artes singulares.

Antes de serem Os Mutantes, e já cheios de mutações sonoras, eles eram Os Bruxos. Que nome louco! O cantor Ronnie Von despontou no cenário da música nos anos 60 no Brasil. O rapazinho, queridinho da galera, que balançava o cabelo sedoso pra lá e pra cá quando entoava “Meu beeeeeem… Meu beeeem” (uma versão bonitinha da música bonitinha “Girl” dos Beatles), ganhou um programa de televisão chamado O Pequeno Mundo de Ronnie Von.

Sim, o nome do programa é uma certa alusão ao clássico infantil (Será infantil? Tão psicodélico!) “Pequeno Príncipe” do francês Antoine de Saint-Exupéry. Isso porque a apresentadora Hebe, numa entrevista, achou o Ronnie, que falava que tinha como gosto a aviação, parecido, não com o aviador, mas com o personagem principal do livro. A imprensa, na época, criou uma espécie de competição entre Roberto Carlos, o rei, e Ronnie, o príncipe. No programa do Ronnie, só ia quem não fosse ao programa Jovem Guarda do Roberto Carlos, assim em vice-versa. Mas, como Ronnie mesmo disse, rindo, no documentário sobre sua trajetória “Quando Éramos Príncipes“, tudo era fruto de marketing, publicidade, polêmicas para gerar audiência, venda de discos, revistas, e jornais e otras cositas más. N’O Pequeno Mundo de Ronnie Von, quem ficou como banda de apoio foi uma tal de Os Bruxos.

Esses Os Bruxos eram bem irreverentes musicalmente. Além do talento sonoro, tinham uma apresentação performática bem peculiar. Depois de ler o livro de ficção científica O Império dos Mutantes do francês Stefan Wul, Ronnie decidiu que o nome da banda de apoio de seu programa seria Os Mutantes.

E o nome pegou! Grudou! Os artistas que se apresentavam no programa, adoravam a banda. Adoravam tanto que um baiano resolveu chamá-los para tocar a música “Domingo no Parque” no Festival da Record de 1967.

A música ficou em segundo lugar. Mas o que saiu mesmo em primeiro lugar desse festival foi a ideia de romper com as estruturas! O baiano de “Domingo no Parque” era Gilberto Gil, se juntou com outro baiano cabeludo chamado Caetano Veloso e encabeçaram o que o mundo todo hoje conhece como Tropicalismo. Chamaram os três guris para fazerem parte do movimento. Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, que começaram timidamente na adolescência com o grupo Six Sided Rockers, depois viraram O Conjunto, mais adiante passaram a ser O’Seis, gravando um compacto, depois viraram Os Bruxos, como banda de apoio, logo depois Os Mutantes, protagonizaram a cena tropicalista. Não tinham nada a perder comparados a Beatles e Rolling Stones. Eram iguais em grandeza, tinham irreverência e uma forma satírica de criar. Essa é uma característica que os Beatles e os Rolling Stones nunca dominaram: o humor ferino, a sátira ácida, a ironia inteligente. Outra coisa que os Beatles e os Rolling Stones não tinham era a Rita Lee, uma garota cheia de talento e vigor, com uma voz capaz de encaixar em qualquer música, de alma artística, com um desempenho performático múltiplo. Quer dizer, além de uma boa cantora, além de uma compositora inteligente, era também uma ótima intérprete. Em 1968, é lançado o disco Tropicália ou Panis et Circences que destaque a participação ativa dos Mutantes.

Depois desse álbum, o trio mutante começa, digamos, a sua independência fonográfica, lançando no mesmo ano de 68 Os Mutantes, o primeiro disco só deles, depois lançamMutantes em 1969 e A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado em 1970. Mas, mesmo depois desses discos de distância do “Panis et Circences”, que todo mundo chama de disco manifesto, Os Mutantes continuaram sendo tropicalistas, entretanto com elementos sempre novos, numa espécie de tropicalismo sempre inovador. O disco “A Divina Comédia” carrega muito de tropicalismo ainda. O conceito utilizado pelo movimento tropicalista é a reciclagem, aquela ideia de recriar um clássico, recriar um sucesso popular, enfim, quer seja da elite ou das massas, o objetivo é devorar a realidade, fazer uma digestão artística e, em seguida, pôr para fora em forma de arte. Não tem como não lembrar a primeira geração do Modernismo de 22, que se caracterizaram pela busca da instauração de uma cultura genuinamente brasileira através da antropofagia artística, de devorar e, a partir daí, recriar.

A começar pelo nome e pela capa do disco “A Divina Comédia”, já notamos uma antropofagia: o nome faz referência a um clássico da literatura mundial, “A Divina Comédia” do italiano Dante Alighieri, e a capa é a recriação de uma ilustração do século XIX de Gustave Moré para a parte do Inferno dessa mesma obra literária.

Os Mutantes se utilizam da sua ousadia estética e com humor mordaz criam uma das capas de discos mais icônicas da história da música mundial. Por aí já se percebe que o grupo mantém a alma tropicalista. Outro exemplo dessa alma tropical são as onze músicas do álbum que fazem uma mistura de um cem números de ritmos, desde o popular, ao rock até chegar em música clássica, com, claro, o gênio Rogério Duprat fazendo todo o arranjo orquestral, deixando um disco popularmente erudito. Mas, meus amigos e amigas, uma música em especial chama a atenção deste que vos escreve: “Chão de Estrelas”. Ela é uma regravação da clássica seresta, de mesmo nome, composta por Orestes Barbosa e Silvio Caldas. Meus caros, que petulância a desses Mutantes! Quanta blasfêmia foi para os apreciadores da seresteira original “Chão de Estrelas” quando ouviram a regravação desses tais de Mutantes! Comeram até esse clássico dos rádios! Oh Céus! Essa canção registrada no disco “A Divina Comédia” eu diria que é a mais genuína amostra do canibalismo tropicalista dos Mutantes. A composição original é tão mumificada que foi criada por Orestes Barbosa com o intuito de ter versos decassílabos. Os Mutantes quebram essa coisa caquética, recriam a canção e infestam-na de reproduções de sons engraçados. É como se eles ridicularizassem tanto a música quanto o próprio personagem dela, tanto é que Arnaldo Baptista, quando canta, incorpora o eu lírico de uma forma sentida e faz uma voz empachada, uma sátira aos cantores de rádio. Confesso que quando ouvi pela primeira vez, na minha tenra adolescência mutante, caí no riso.

Quando penso nessa recriação de “Chão de Estrelas”, lembro do que o modernista Oswald de Andrade fez com uma poesia de 1843 do poeta romântico Gonçalves Dias. Lembram-se do poema “Canção do Exílio”?

[Canção do Exílio]

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar – sozinho – à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho – à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que eu desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
(in Nossos Clássicos, Poesia. Rio de Janeiro: Agir, 1979).

Oswald de Andrade, por sua vez, faz uma paródia se utilizando de uma técnica chamada de intertextualidade, com fins de criticar o texto original:

[Canto de Regresso À Pátria]

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não catam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a rua 15
E o progresso de São Paulo
(in Poesias Reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971).

Enquanto o primeiro respira a saudade pelas terras e sua paisagem vegetal, o outro quer voltar, antes da morte, para ver o progresso da cidade cinza.

Os conservadores e puristas devem ter enlouquecido com esses deboches estéticos. Mas é justamente isso que faz d’Os Mutantes um grupo inteligente, quer dizer, não só são gênios musicais, mas também entendiam o que faziam, tinham consciência do início, meio e fim do seu próprio trabalho, e faziam disso um meio para desencaretar a arte, deixa o mundo menos bundão. Acho que precisamos de mais canibalismo tropical dos Mutantes hoje em dia, pra ver se o mundo volta a ser um lugar mais suportável de se viver, com mais humor e irreverência inteligente.