Velvet Goldmine enche a tela de glitter em um panorama não-oficial do glam de Ziggy Stardust

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Velvet Goldmine

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Velvet Goldmine (Velvet Goldmine)
Lançamento: 1998
Diretor: Todd Haynes
Roteiro: Todd Haynes e James Lyons
Elenco Principal: Ewan McGregor, Jonathan Rhys Mayers, Toni Collette e Christian Bale

Recomendações…

O glam rock da década de 70: marcado por guitarras distorcidas dum jeito que até o Hendrix se tivesse visto ia olhar feio, glitter no ar misturado com o O2, sapatos plataformas que levavam pra ainda mais longe as cabeças dos popstars e uma androginia que enojava os velhos caretas esforçados em esconder as ereções que o pau bombava quando passavam os proto-Bowies pela rua. Foi o movimento performático que ,dando o próximo passo na rebeldia roqueira, inventou o comportamento desregrado, romântico e desesperado que gritava nas noites como um beatnik bêbado mandando o refrão “paz & amor (inc.)” pra tonga da mironga do kabuletê, do qual participaram Brian Eno, T-Rex, David Bowie, Iggy Pop, Sweet, Lou Reed, Suzi Quatro, New York Dolls e mais uma galera aê.

O glam é também o protagonista do filme “Velvet Goldmine”, de 1998. A história, que segue um modelo de investigação jornalística com referência à “Cidadão Kane”, é sobre um jornalista que, dez anos após o falso assassinato do popstar Brian Slade (Jonathan Rhys Meyersdurante um show, é convocado pelo editor-chefe pra fazer uma matéria sobre o cantor: o que aconteceu com ele? Por que forjou a própria morte? Onde tava?.

O jornalista Arthur Stuart, interpretado pelo Christian Bale (sim, é o Batman), através de entrevistas com pessoas que fizeram parte do passado do “morto”, vai montando a história do cara e lembrando de sua própria ligação com o universo do glam: a rebeldia contra os pais caretas, a fuga de casa quando os mesmos o descobrem gay, sua fissura pela figura do popstar sobre o qual está escrevendo, seu convívio com personagens importantes da cena da época, a homofobia regente versus a androginia do movimento, etc.

(Um parênteses: homofobia esta que até hoje ainda é a mesma, que ainda mata e contra a qual é necessário manter uma luta constante, do modo que cada um puder, em função dum dia onde ninguém acorde com medo de beijar um namorado (a) em público, devido à possibilidade de apanhar dos tacos de neo-nazis escrotos)

Voltando aos primeiros parágrafos sobre a história, vale dizer que vários dos personagens que aparecem, são referências explícitas à músicos e pessoas que fizeram parte do movimento cultural.

Brian Slade: David Bowie (na fase Ziggy; o falso assassinato no palco é uma referência ao momento em que durante um show, Bowie declarou que aquele seria o último do Ziggy Stardust, o que todos entenderam como “é o meu último show”).

Curt Wild: Iggy Pop

Mandy Slade: Angela Bowie

Jerry Devine (o empresário): Tony Defries (empresário da companhia que representava o Bowie e o Iggy)

Jack Fairy: Brian Eno

(fonte pra lista e lista mais detalhada: http://www.5years.com/velvetfilm2.htm)

Bom, agora já tendo dito um pouco e talvez até mais que se devesse a respeito do enredo, sigo para entrar no assunto que deveria, quem sabe, ter sido o foco desde o início: a trilha sonora. Embora Brian Slade seja fortemente baseado em David Bowie, o próprio Bowie não gostou do roteiro e vetou a proposta de que suas músicas aparecessem no filme. A trilha sonora é absurdamente boa e é um elemento essencial ao filme (sério?), que junto com o figurino (indicado ao Oscar em 1999) e os cenários compõe a energia roqueira andrógina que o filme passa não só no nível do roteiro. Ela inclui músicas de glam rock e faixas influenciadas pelo glam.

Os músicos ingleses que tocaram sob o nome de The Venus in Furs na trilha sonora foram Thom Yorke e Jonny Greenwood, do Radiohead, Clune, da David Gray Band, Bernard Butler, do Suede, e Andy Mackay, da Roxy Music. Os músicos americanos que tocaram como o Wylde Ratttz (a referência aos Stooges) de Curt Wild na trilha sonora foram Ron Asheton dos próprios Stooges, Thurston Moore e Steve Shelley, do Sonic Youth, Mike Watt, do Minutemen, Don Fleming, do Gumball, e Mark Arm, do Mudhoney. Além dos clássicos do glam, a trilha sonora apresenta novas músicas escritas para o filme do Pulp, Shudder to Think e Grant Lee Buffalo.

Os três membros do Placebo também apareceram no filme, com Brian Molko e Steve Hewitt como membros da Flaming Creatures (Malcolm e Billy, respectivamente) e Stefan Olsdal como o baixista da Polly Small.

Seguem os links pro filme e pra trilha sonora em playlist no YouTube:

Filme:

Trilha: 

Assistam, dancem, ouçam e curtam pacas!

Mulheres no comando: L7 – “Bricks Are Heavy” (1992)

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Bolachas Finas, por Victor José

L7 foi talvez a banda inteiramente feminina mais importante dos anos 1990. Isso por si só faz desse grupo interessante. Na primeira metade de 1992, no auge da onda Nevermind”, Donita Sparks (vocal e guitarra), Suzi Gardner (vocal e guitarra), Jennifer Finch (baixo e vocais) e Demetra Plakas (bateria e vocais) apresentaram ao cenário grunge seu terceiro álbum e mais emblemático: Bricks Are Heavy”.

Embora a banda californiana tenha em suas raízes mais básicas o punk e o hardcore, neste disco elas colocam a estrutura do heavy metal na linha de frente, o que era de praxe naquela fase do rock. Dessa forma, o L7 conseguiu se aproximar da linguagem de contemporâneos como Soundgarden, Mudhoney e Nirvana, conseguindo um som pesado e ao mesmo tempo “radio friendly”.

Um dos aspectos que certamente fez a diferença no resultado final foi a escolha de Butch Vig (Nirvana, Smashing Pumpkins, Sonic Youth e Garbage) como produtor, que além de saber como fazer uma banda soar como um grunge mainstream sem perder a compostura, o hype em torno dele estava bastante alto. Fica bem evidente a mão de Vig em “Pretend We’re Dead”, o hit do LP. Uma produção caprichada, que empurra a potência da banda até um limite ainda não explorado por elas, com ênfase nas melodias e nos riffs mais cadenciados. Acabou se tornando um dos maiores clássicos de uma época.

Mas é claro que o tradicional ar punk do L7 – ainda que haja guitarras com timbre de heavy metal – ganha corpo ao longo de “Bricks Are Heavy”, como se percebe nas faixas “Slide”, “Mr Integrity”, “Shitlist” e na ótima “Everglade”, esta última sendo outro single de destaque do disco.

Por outro lado, as faixas “Wargasm”, “Diet Pill” e “Monster” (outro clássico alternativo dos anos 1990) se rendem à atmosfera do metal com muita personalidade e sem medo de soar acessível. Aliás, esse trabalho tem toda uma tracklist convidativa: cheia de melodia, riffs pegajosos, ritmos básicos e excelente qualidade. Na cena grunge, enquanto um monte de marmanjo adorava choramingar suas desgraças – o que não deixa de ser um recurso interessante –, o L7 decidiu trilhar um caminho mais coeso, direto, sem um pingo de frescura.

Depois de todo esse tempo, ao ouvir hoje “Bricks Are Heavy” e todas as suas ótimas 11 faixas, percebo como é difícil pensar em algum disco desse período que seja tão redondo como este. É certamente um dos melhores momentos do rock dos anos 1990, que mesmo não sendo pioneiro em algo específico mostrou o rock de uma perspectiva feminina. E isso se mostrava ainda mais intenso no palco, com shows cheios de energia, numa cena inegavelmente predominante de homens. A banda, feminista atuante, sempre deixou clara sua posição sobre o assunto e fazia questão de ressaltar isso em algumas letras. De fato essa não é uma banda “quadrada”, como sugere a gíria que dá título à banda.

“Bricks Are Heavy” foi um sucesso de crítica e público, alcançando o número 160 no Billboard 200, algo extremamente louvável para uma banda vinda do underground. Fizeram uma extensa turnê mundial e vieram parar aqui no Brasil no início de 1993, no fatídico Hollywood Rock. Abriram para o Nirvana com um setlist maravilhoso e ainda no fim tiveram a ousadia de tirar a roupa enquanto o show estava sendo transmitido ao vivo pela Globo.

Depois disso o L7 experimentou um pouco da fama e continuou lançando álbuns até 1999. O grupo parou em 2000 e voltou a se apresentar somente em 2014, com a formação clássica. Hoje o L7 é reverenciado como um ícone importante da força da mulher na música, sendo que poucas vezes se viu no rock um grupo feminino com tanta estatura. “Bricks Are Heavy” é um disco obrigatório.

RockALT #15 – Garage Fuzz, Leonardo Panço, eliminadorzinho, The Kooks e The Horrors

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RockALT

RockALT, por Helder Sampedro

A Coluna RockALT volta após um breve hiato: meu irmão Jaison e eu fizemos uma pequena viagem por terras estadunidenses e não conseguimos preparar nada para a coluna durante nossa ausência de Terras Brasilis. Ainda naquele clima de desfazer as malas minha postagem de hoje será mais curta e objetiva, separei alguns sons que embalaram a minha viagem e me ajudaram a passar o tempo nos aeroportos e estações de trem por onde passei.

Garage Fuzz“When No One is Around”
É sempre bom falar daqueles que estão na estrada há décadas e pavimentaram o caminho para tantas outros no cenário nacional. O Garage Fuzz certamente é uma das bandas mais influentes do país, tendo nascido na efervescência do início dos anos 90, época incomparável para o underground brasileiro, e estando na ativa até hoje. A extensa discografia dos santistas é sempre merecedora de uma atenção maior. Fica aqui a minha provocação pra você que é fã de rock alternativo, há quanto tempo você não escuta Garage Fuzz? A hora é agora!

Leonardo Panço“Desorgulho”
Falando em underground brasileiro e de mais um grande nome dos anos 90, Leonardo Panço é ex-integrante da banda carioca de hardcore Jason. Leonardo é uma figura muito interessante pois não só fez parte de uma banda que rodou o mundo mas também por ser um artista que não se limita apenas à música, seus trabalhos autorais mesclam sua música com os livros que escreve e com suas fotografias, como no recente “Superfícies”, de 2016. Sempre bom acompanhar a caminhada e a obra de nomes importantes e pratas da casa como o Panço.

eliminadorzinho“das vezes que conversamos na cama e acabamos dormindo”
Nós do RockALT sempre comentamos sobre a ampla variedade de gêneros que temos no cenário underground nacional e os paulistanos do eliminadorzinho são exemplos de uma cena que reflete o lado mais sensível e contemplativo do rock, ao menos em suas letras. Influenciados pelo gorduratrans, que por sua vez se inspiraram no Ludovic, o trio de “rock triste jovem”, como diz sua bio no Facebook, mostra em seu EP ‘nada mais restará’ a barulheira característica do noise caseiro e letras que nos fazem lembrar como nosso cotidiano pode ser pesado e cansativo às vezes. A música tem essa mania de refletir o mundo no qual vivemos, certamente eliminadorzinho poderia ser a trilha sonora da nossa sociedade atualmente.

The Kooks“Be Who You Are”
Talvez mais conhecidos pela música “Naive”, os britânicos do The Kooks são um exemplo de banda que atingiu um certo sucesso comercial mas não emplacaram tantos hits quanto outras bandas do mesmo movimento. A banda é muito mais eclética do que a maioria imagina e seus trabalhos passeiam pelo rock, britpop, e até reggae e ska. Em turnê comemorativa de 10 anos a banda lançou material novo, uma ótima oportunidade para ouvir mais e conhecer melhor o trabalho dos rapazes de Brighton.

The Horrors“Still Life”
Mais uma música que ficou na minha cabeça embalando a minha viagem e assim como o The Kooks, o The Horrors surgiu durante o revival pós-punk que ocorreu na Inglaterra durante os anos 2000. Mas as similaridades com seus conterrâneos acabam por aí, o som do The Horrors é mais conciso em suas influências e abrange estilos mais similares como garage rock, punk, goth rock, shoegaze além do já mencionado post-punk revival. Aclamados pela crítica, os quarto LPs da banda mereciam ser ouvidos por um público muito mais do que o inicialmente alcançado na ocasião de seus lançamentos. Vale a pena dar uma garimpada na obra deles.

Curtiu a coluna? Então não deixe de escutar o programa do RockALT toda a quinta-feira às 21h na www.planetmusicbrasil.com.br, seguir a playlist da coluna no Spotify: https://goo.gl/lXZ69x e confira nossos mais de 100 programas disponíveis no link: www.mixcloud.com/rockalt/

Construindo O Apátrida: conheça as 20 músicas que mais influenciaram o som da banda

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O Apátrida

Quando uma banda se forma, as influências de cada um dos integrantes são inúmeras e variadíssimas. Essa mistura de músicas, artistas, discos e sons entra em um imenso caldeirão musical e traz algo totalmente novo e cheio de identidade. É nessa construção de identidade que a coluna Construindo vai focar: aqui, traremos 20 músicas que foram essenciais para que uma banda ou artista criasse seu som, falando um pouquinho sobre elas. Hoje temos o quarteto paulistano O Apátrida, que indica suas 20 canções indispensáveis. A banda é formada por Santiago Laranjeira (voz/teclado), Dija Dijones (guitarra/backing vocal), Luciano Portela (baixo) e Bruno Duarte (bateria) e está trabalhando em seu primeiro disco.

Sisters Of Mercy“Amphetamine Logic”
Poderíamos dizer que é praticamente impossível para uma banda de pós-punk, gótico, coldwave, darkwave, deathrock ou qualquer gênero ou subgênero musical do tipo não ser influenciada por Andrew Eldritch, Doktor Avalanche (a bateria eletrônica mais famosa do rock) e companhia. Nós não fugimos da regra.

Fellini“História do Fogo”
O “Adeus de Fellini” é um disco de valor sacro no nosso acervo de influências. Além de toda a musicalidade presente no disco, tem um fator muito positivo de ser um disco de pós-punk que só faria sentido cantado em português da maneira como ele foi feito. Como temos uma forte influência literária, era importante ter este tipo de trabalho como referência na hora de produzir nosso trabalho.

Joy Division“Disorder”
Podemos dizer que Joy Division está no mesmo panteão de referências do Sisters Of Mercy: como ouvir “Unknown Pleasures” e “Closer” e não tê-los como discos relevantes na vida? No começo da banda, tocávamos esta música. No entanto, ela tem um caráter tão valioso que resolvemos parar de tocá-la, pois parecia um pecado imperdoável executá-la. É, literalmente, uma canção intocável para nós.

Mercenárias“Inimigo”
Facilmente, uma das bandas brasileiras dos anos 80 e, ao nosso ver, ainda muito subestimada, por mais que sua importância histórica seja reconhecida por muitas das bandas atuantes por aí hoje em dia. Pouco depois que começamos a tocar juntos, fomos todos a um show delas, em um ritual de agradecimento.

The Smiths“Handsome Devil”
Tanto quanto o lirismo das letras de Morrissey, quanto às linhas de baixo de Andy Rourke, a técnica de guitarra que Johnny Marr empregou nas guitarras das canções dos Smiths é uma referência definitiva na hora em que compomos. Os temas, os arpejos e as harmonias inspiradíssimas fazem muito a nossa cabeça.

Magazine“Motorcade”
Também gostamos do Magazine brasileiro (descanse em paz, Kid!), porém o Magazine que é referência para gente é este aqui. Howard Devoto precisava de fato sair do Buzzcocks para nos brindar com este trabalho primoroso. Esta é uma das favoritas por conta da maneira como a banda se diverte com o andamento da música, assim como com os solos tortos e fora da escala da guitarra. Tocar com banda é isso: se divertir, mesmo em um contexto aparentemente sombrio.

Killing Joke “European Super Estate”
Killing Joke é uma das bandas mais fascinantes surgidas nas últimas 4 décadas: seus discos dos anos 80 são pedras fundamentais do pós-punk; mantiveram sua relevância quando migraram para o industrial e flertaram com o metal; retornaram nos anos 2010 com sua formação original, lançando discos excelentes; e o Jaz Coleman continua desaparecendo e aparecendo no deserto, escrevendo ótimas letras e fazendo shows insanos. Um exemplo a ser seguido.

Echo And The Bunnymen “Villiers Terrace”
Falar-se em pós-punk e letras de forte inspiração literária e não citar os homens-coelho é demonstrar pouco conhecimento de causa. Em um mundo ideal, “Crocodiles”, “Heaven Up Here”, “Porcupine” e “Ocean Rain” seriam mais ouvidos do que Cid Moreira fazendo locução de salmos.

Depeche Mode“A Question Of Time”
Certo dia, o Santiago chegou e disse: “eu quero uma música para dançar”. Para ele, nossas músicas não permitiriam este tipo de coisa. No mesmo dia, conversávamos sobre como Depeche Mode é bom e tal… E ficamos com esta música na cabeça, pensando, como seria bom ter uma música como esta em um repertório. Esperamos poder estar neste show, cantando junto com o Dave Gahan. E dançando muito, obviamente.

Gang Of Four“I Love A Man In Uniform”
Nós até tentamos fazer algo dançante inspirados no Depeche Mode, mas nosso fanatismo por Asylum Party (que não está nessa lista por não ter música no Spotify) e outras obscuridades não nos permite algo neste nível. É nessas horas que Gang Of Four acaba soando como a referência ideal de algo para se tocar numa pista de dança. Não sabemos se as pessoas dançam ouvindo-os, mas aqui se dança.

Christian Death“Romeo Distress”
A bíblia do deathrock, “Only Theatre Of Pain”, é disco de alta rotação na nossa discoteca básica. Junto com “Pure Joy In My Heart”, do Asylum Party, e “Disorder”, do Joy Division, “Romeo Distress” era uma das músicas que escolhemos para tocar nos primeiros ensaios para nos entrosarmos. Destas três, paramos de tocar apenas “Disorder”, por motivos já declarados. Agora esta é uma daquelas que é sempre bom poder tocar.

The Cleaners From Venus“Only A Shadow”
Pérola perdida dos anos 80 que aqueles mais antenados que acompanham esta atual geração de bandas revivalistas dos anos 80, sobretudo as bandas da Captured Tracks, já devem ter redescoberto. Mac DeMarco e uma galera de bandas como DIIV, Beach Fossils e Wild Nothing até formaram um grupo, o Shitfather, só para tocar este e outros tesouros desconhecidos dos anos 80.

Finis Africae“Armadilha”
Para alguns, é apenas mais uma banda de um hit só dos anos 80. Para nós, é uma das melhores bandas da geração de Brasília que sucedeu aquela turma que todo mundo conhece (Legião Urbana, Capital Inicial, Paralamas do Sucesso, etc.). Infelizmente, lançaram apenas um full-length, em 1987. Quem puder, ouça-o.

R.E.M.“Feeling Gravitys Pull”
Para 50% da banda, Santiago (vocal/teclado) e Dija (guitarra/backing vocal), R.E.M. é um item essencial no conjunto de influências d’O Apátrida. Tanto que eles até têm um projeto paralelo, onde tocam principalmente músicas da fase pré-Green do quarteto americano do estado da Geórgia.

Holograms“Meditations”
Junto com os americanos do Protomartyr, os suecos do Holograms é destas bandas gringas mais atuais de pós-punk que nós mais ouvimos. Tanto é que, no começo da banda, nós tínhamos incluído “Meditations” numa playlist que usamos como referência para o que tínhamos em mente para constituir uma sonoridade para nossa banda.

The Cure“All I Want”
Seria um tremendo sacrilégio não ter uma música do The Cure nesta lista. No entanto, escolher algo da famosa “trilogia gótica” (“Pornography”, “Disintegration” e “Bloodflowers”) poderia ser um tanto óbvio numa playlist como esta. Por isso, escolhemos uma faixa do “Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me, Kiss Me”, um disco que muito fã de primeira hora não entende e que os fãs mais ardorosos colocam um pouco de lado. Ambos deveriam rever seus conceitos sobre este disco.

Fields Of The Nephilim“Slow Kill”
O roteiro para quem conhece esta banda inglesa costuma ser o seguinte: você conheceu o Sisters Of Mercy e adorou; então o Fields Of The Nephilim é a banda que te indicam como a mais apropriada para este momento trevoso da sua vida. De fato, até é o vocal é muito parecido com o do Andrew Eldritch, um cara que já tem um estilo bem particular de cantar, mas não devemos tirar os méritos destes alunos tão aplicados da escola gótica.

She Past Away “Asimilasyon”
Este duo turco é mais uma banda que bebe e muito da fonte inesgotável de referências típicas do pós-punk e do gótico que é o Sisters Of Mercy. No entanto, o She Past Away cumpre bem também a tarefa de revisitar a coldwave francesa e outras obscuridades dos anos 80. O fato de cantarem em sua língua nativa dá ainda um charme especial às canções.

Kafka “Gregor”
O nome da banda e da música escolhida deixam bem clara a importância da referência: o Luciano Portela (baixo) é escritor (lançou “Carolina Foi Para o Bar Exibir Seus Lindos Pés” em 2014 e agora, em 2017, está lançando seu primeiro romance, “Tudo Que Afeta O Movimento”) e a ideia de formar a banda partiu dele. Daí a simbiose presente entre literatura e música que representa a banda. Kafka, a banda, apesar de não ter emplacado ao menos um grande hit como seus contemporâneos do Finis Africae, tem em “Musikanervosa” uma estreia marcante e influente para nós.

Cocteau Twins“Cicely” 
Das bandas mais instigantes dos anos 80. Os climas ímpares, a sonoridade etérea e até a métrica das letras feitas com as palavras inventadas por Elizabeth Fraser são fascinantes e servem de referência e lição: para fazer música, não é necessária seguir regras ou receitas, basta exteriorizar o que tem em mente e colocar sentimento nisso para que ela tenha significado para você; ter significado para mais alguém é mera consequência.

“Mulheres do mundo do rock, uni-vos!”, proclama o trio paulistano The Zasters

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The Zasters

O power trio paulistano The Zasters foi formado em 2015 por Juliana Altoé (guitarra, voz), Barbara Chela (baixo e voz) e Nabila Sukrieh (bateria e voz). O grupo acaba de lançar seu primeiro EP ‘This is a Disaster’, produzido por Alexandre Capilé (Sugar Kane e Water Rats) no Estúdio Costella. Agora, a banda ainda prepara-se para lançar o clipe de seu primeiro single “Awesome Dance Moves”.

Conversei com elas sobre a carreira da banda, o primeiro lançamento e o machismo recorrente no mundo da música e fora dele:

  • – Como a banda começou?

Juliana: Eu e a Barbara (Babs pros íntimos) nos conhecemos praticamente desde sempre, e sempre gostamos de música e desde a sexta série decidimos formar uma banda na escola, porém faltavam mais pessoas que quisessem o mesmo. No ensino médio, formamos uma banda para tocar nos eventos da escola e continuamos com esse hobby por mais um tempo, até que decidimos que queríamos algo mais sério. Nesse ponto a formação mudou e a The Zasters que conhecemos hoje foi formada com a entrada da Nabila na batera!

– De onde surgiu o nome da banda?

Babs: É um trocadilho sonoro com a palavra ‘disaster’, desastre em inglês… Claramente o contrário do que somos. 😉

– Quais são as suas principais influências musicais?

Juliana: Sempre tivemos influências bem distintas (risos). Eu, particularmente, gosto de rock dos anos 70, e a Babs e a Na curtem mais sons atuais. Mas algumas bandas que ouvimos em comum são Arctic Monkeys, The Kills, Franz Ferdinand, entre outras do indie dos anos 2000.

– Me contem um pouco mais sobre o material que já lançaram.

Nabila: Já lançamos nosso EP ‘This is a Disaster’ em abril/2017 nas plataformas digitais (Spotify, Apple Music, Deezer, etc.) e também no Soundcloud, Bandcamp e YouTube! É o nosso primeiro EP e estamos muito animadas em fazer mais músicas e tocar por aí. 🙂

– Como é seu processo criativo?

Babs: Normalmente, escolhemos qual o estilo que cada música vai seguir, buscamos algumas referências, e vamos para o estúdio testar (e testamos muitas possibilidades até sair do jeito que a gente quer). Em relação às letras, é comum montarmos toda a estrutura instrumental, depois colocamos letra e melodia.

The Zasters

– Como vocês veem a cena independente autoral hoje em dia? Como é a vida de uma banda independente?

Nabila: A cena independente, como o nome já diz, depende muito dos próprios artistas para sobreviver. Por um lado, cada vez menos pessoas estão interessadas em descobrir músicas novas indo a shows, mas por outro está tudo na disponível na internet, então acontece uma certa divulgação, mesmo que pequena, principalmente por parte dos blogs. Mas ainda assim, o investimento é muito alto e é difícil ver bandas que tenham algum retorno financeiro. Uma banda atualmente tem que ter muita perseverança para tentar conseguir divulgar o seu trabalho e tem que correr atrás, promovendo os próprios eventos, pois poucos produtores acreditam no potencial a longo prazo que uma banda independente pode gerar.

– O machismo continua muito forte no meio musical? Vocês já sofreram com isso?

Babs: Infelizmente, sim. É comum subirmos no palco e encontrar pessoas que acham que estamos pra brincadeira. A parte boa é que, no final, essas pessoas saem do show com outra impressão.

– Vocês acreditam que o número de bandas formadas somente por mulheres têm aumentado? Aquele negócio de “rock é só para meninos” já passou (finalmente)?

Juliana: Estamos vendo, sim, um aumento das bandas formadas por mulheres, mas uma banda exclusivamente de mulheres está muito longe de ser 5% de todo o cenário musical atual. O preconceito de que mulher não sabe fazer rock ainda é muito forte. Existem vocalistas muito boas na cena, mas ainda vemos poucas instrumentistas por aí. MULHERES DO NOSSO ROCK, UNI-VOS! Vamos mostrar que mulher sabe SIM fazer rock!

The Zasters

– Quais os próximos passos da banda?

Nabila: Estamos programando uma festa de lançamento do EP em julho (fiquem atentos nas mídias sociais da banda para mais infos). Depois da festa faremos um clipe de uma das tracks do EP, e quem sabe mais pra frente tenham mais clipes por aí e gravar um CD! Vamos também tentar buscar mais shows para nos estabelecermos na cena.

– Recomendem bandas e artistas (de preferência independentes) que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Todas: Como as bandas independentes tem cada vez menos espaço nas casas de show e na mídia em geral, é bem difícil indicar artistas independentes (no sentido literal da palavra) aqui. Até mesmo os menores artistas que ouvimos, principalmente de fora, tem uma gravadora por trás, acreditando no trabalho deles. Indicamos então a Grimes, uma musicista muito interessante que sempre grava suas músicas no estilo DIY, a banda Franklyn e a Der Baum.

5 Pérolas Musicais escolhidas a dedo por Vina, do Huey e Sounds Like Us

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Vina, do Sounds Like Us
Vina, do Sounds Like Us e da banda Huey

Todo mundo tem seus gostos, preferências e, é claro, seus garimpos no mundo da música. Com certeza tem alguma banda ou artista que só você conhece e faz de tudo para espalhar o som entre seus amigos e conhecidos. “Todo mundo precisa conhecer isso, é genial!” Se você é aficionado por música, provavelmente tem uma pequena coleção pessoal de singles e discos que não fizeram sucesso e a mídia não descobriu (ou ainda vai descobrir, quem sabe) que gostaria que todo o planeta estivesse cantando.

Pois bem: já que temos tantos amantes da música querendo recomendar, o Crush em Hi-Fi resolveu abrir esse espaço. Na coluna “5 Pérolas Musicais”, artistas, músicos, blogueiros, jornalistas, DJs, VJs e todos que têm um coração batendo no ritmo da música recomendarão 5 músicas que todo o planeta PRECISA conhecer. Hoje o convidado é Vina, do blog Sounds Like Us e também da banda Huey.

TRAITRS“Youth Cults”

“Pós punk dos bons vindo do Canadá, cheio de camadas e aquele flerte climático com a pura nata do que nos anos 80 a gente chamava de gótico. Eu e a Amanda gostamos muito da banda e colocamos eles no Sounds Like Us em um especial sobre o “novo” pós punk. O primeiro disco do Traitrs, “Rites and Rituals”, foi pra mim, junto com “Rheia”, do Oathbreaker, um dos melhores discos de 2016. Dentro dele a intensa e empolgante “Youth Cults” foi também uma das grandes músicas daquele ano”.

G.L.O.S.S.“Trans Day of Revenge”

“Músicas curtas, raivosas e de uma honestidade contagiante. Contagiante porque são letras cantadas por quem realmente sentiu na pele o que expurga pela garganta. O G.L.O.S.S., ou Girls Living Outside Society’s Shit, vem de Washington e no ano passado eles lançaram “Trans Day of Revenge”, um EP calcado em um punk/hardcore atuante na defesa das causas trans-feministas. O EP traz cinco músicas em pouco mais de sete minutos de pura objetividade, violência sonora e de um discurso importantíssimo hoje e sempre”.

Mannveira“Von Er Eitur”

“Black metal vindo da Islândia, terra que de uns anos pra cá vem revelando ótimas bandas. Como boa parte dos nomes mais recentes, o Mannveira bebe um pouco na fonte do black metal francês edificado por bandas como Deathspell Omega e Blut Aus Nord. Mas é raso prender a banda somente a essas referências. A música que eles oferecem é um pouco mais fria, rústica e sem os contratempos dos franceses. Até hoje o Mannveira só gravou um EP, “Von Er Eitur”, e um split, mas no ano passado soltaram uma música inédita muito boa. É com certeza uma das bandas que eu mais tenho escutado nos últimos tempos”.

The Pessimists“O Plano”

“Quando eu ouvi a primeira vez foi “porra, isso é legal pra c*#@!”. Pegou em cheio. Logo de cara a Amanda já disse que em algumas partes lembravam um pouco a força do vocal da Kathleen Hanna. O The Pessimists é uma banda de São Paulo formada pelo Sesper (Garage Fuzz/ACruz Sesper Trio), Mila (Futuro) e a Nathalia (Rakta). “Six Songs” é o nome do EP que saiu em 2016 e traz faixas curtas, fortes, diretas e com aquela entonação convocatória misturados a melodias simples, muito bem encaixadas e empolgantes. Garage punk com uma boa dose de pós punk. O resultado é um disco visceral e com muita identidade”.

Julien Baker“Rejoice”

“Ela recentemente assinou com a Matador Records, então não é algo tão novo, mas ainda assim vale muito compartilhar. Conheci a Julien Baker em 2015 e quando escutei o primeiro disco dela, “Sprained Ankle”, achei impressionante. Foi daqueles casos em que eu e Amanda piramos tanto que veio uma necessidade gigante de escrevermos e registrar no Sounds Like Us aquilo que a gente estava ouvindo. É um disco simples. É Julien em seus 20 anos recém completados, sua guitarra, violão e entrega, muita entrega. Tudo em um clima de emoção intensa em que ela divide suas letras confessionais com o ouvinte. “Rejoice” é uma música linda”.

“O Fantasma do Paraíso” (1974), o caldo Knorr sabor pop-rock de Brian de Palma

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Phantom Of The Paradise

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Phantom Of The Paradise

Phantom of The Paradise (ou Fantasma do Paraíso)
Lançamento: 1974
Diretor: Brian de Palma
Roteiro: Brian de Palma
Elenco Principal: Paul Williams, Willian Finley, Jessica Harper

This movie is the story of that search, of that sound. Of the man who made it, the girl who sang it and the monster who stole it.” (Trecho da abertura)

O filme de Brian de Palma, que por alguma razão (Deus sabe qual…), ganhou bem menos repercussão que os outros do diretor, é uma mistura digna de caldeirão de bruxa da história alemã sobre o jovem Fausto, que desiludido com a razão científica faz um pacto com o sete-pele em troca da realização de todos seus desejos; do romance do inglês Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray”, que conta a história dum fine young man cheio de medo da velhice e que de tanto medo, faz um pacto com o tinhoso: sua alma pela eterna juventude; e do famoso musical “O Fantasma da Ópera”, a história dum homem que escondido num teatro auxilia uma jovem em sua carreira no coral.

A releitura mistura tudo num caldo Knorr sabor pop-rock, receita especial do queridíssimo Paul Williams (que no filme, faz o papel do antagonista, um influente produtor musical, em busca de um som pra abrir sua nova casa de shows), indo de uma coisa que é meio glam, meio proto-punk, como “Life at Last”, até baladas românticas, como “Old Souls”, sempre encaixando nas letras referências ao já cá invocado Lucifernandis.

Sobre as referências, ainda, assim como em vários dos filmes do diretor mas agora de modo mais leve, esse conta com uma cena hitchcockiana. Quem for ver vai sacar.

Pronto: tendo dito quase tudo, talvez caiba ainda dar uma palhinha no que diz respeito à história. Winslow Leach é um músico underground (tipo mais underground até que os caras que dão entrevista pro blog) que em meio à nostalgia dos anos 70, que tentava recriar os anos 50, compõe num modelo clássico de ópera, dividindo sua cantata em várias músicas ligadas pelo fio duma releitura que o personagem faz do Fausto. Depois duma apresentação dum grupo pop produzido por Swan, o antagonista, um zelador limpa o palco e Swan do camarote ainda observa o lugar do show. É aí que o mega-hyper-super-underground Leach senta no piano e, balançando os cabelos em gestos desvairados e românticos, toca a primeira música de sua grande ópera.

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Death Records, a gravadora do Swan.

O produtor musical, em busca do som para inaugurar a sua nova casa de shows e decidido de que a nostalgia dos anos 50 era coisa do passado, comenta com seu fiel escudeiro Philbin que a música tem que ser a que o louco tocava no piano. Contudo, como um bom produtor babaca, Swan elabora um plano digno do demo pra tirar Winslow da jogada e botar sua música na voz de alguém que fosse mais rostinho bonito. A história continua (seria meio bosta se acabasse por aqui…) sempre com a música em foco, que vai em alguma medida explicando o filme.

Além de tudo, o longa é coberto com a linguagem pop do neon e do rock performático, com situações, cenários e figurinos meio psicodélicos e teatrais que dão pro filme um jeito de show (e em algum sentido, de fato é um show), transformando a chatice de assistir tudo sentado numa experiência de fato eletrizante.

Segue a trilha sonora em playlist do Youtube:

A canção espacial filhote de Syd Barrett: “Far Out”, do Blur (1994)

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Blur

Cantarolando, por Elisa Oieno

A canção de hoje está no disco “Parklife” (1994), um clássico do britpop dos anos 90. A singela faixa, descaradamente barretteana, é a única do disco escrita e cantada pelo baixista Alex James.

A semelhança desta faixa às canções do Syd Barrett é talvez a primeira coisa que logo de cara chama a atenção: o estilo da melodia, a voz com aquele sotaque britânico carregadão, a temática espacial. Tãão Syd. Difícil não gostar. Isso tudo condensado em pouco mais de um minuto e meio. “Far Out” é daquelas pequenas joias musicais que vira e mexe aparecem em grandes álbuns. Apesar de curtas, são muito redondinhas e suficientes.

De fato, essa faixa é um belo trabalho de edição, já que decidiram retirar o refrão da versão original. O refrão é bem bom, na verdade, e originalmente a canção é mais rápida e energética (veja aqui). Mas a versão curtinha que entrou para o disco, na minha opinião, ficou mais interessante justamente por ter fugido um pouco do formato pop mais previsível, o que realçou a letra e principalmente a vibe.

A letra, uma lista bem-bolada de nomes de luas e estrelas, foi feita por um Alex James visivelmente entusiasta da astronomia:

I spy in the night sky, don’t I?
Phoebe, Io, Elara, Leda, Callisto, Sinope, 1980, S, 2, 7, Janus, Dione, Portia – so many moons!
Quiet in the sky at night, hot in the milky way
Outside in
Vega, Capella, Hadar, Rigel, Barnard’s Star, Antares, Aldebaran, Altair, Wolf 359, Betelgeuse, Sun

Aliás, o Blur é tão entusiasta de astronomia, que eles ajudaram a financiar e a popularizar o projeto da Agência Espacial Britânica chamado “Beagle 2”, o qual em 2003 levou um pequeno veículo espacial – vou chamar carinhosamente aqui de ‘carrinho’ – para Marte a fim de pesquisar sobre novas formas de vida. Nesse projeto, a banda compôs uma canção que seria levada pelo Beagle 2 até Marte, para tocar assim que o carrinho atingisse o solo marciano, avisando à base na Terra que chegou intacto para completar a missão. Infelizmente, o carrinho perdeu contato com a Terra, porém 12 depois, em 2015, a NASA o encontrou. Então provavelmente os marcianos puderam apreciar a canção do Blur, afinal.

Veja abaixo a versão ‘cheia’ de “Far Out”, mesclada à música de Marte. Curtinha ou ‘normal’, essa música é um belo britpop espacial, que às vezes é esquecida no meio dos 52 minutos intensos de Parklife.

A força motriz dos Capotes Pretos na Terra Marfim está na mistura de ritmos sem pudores

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Capotes Pretos na Terra Marfim

Com uma base de fãs construída com talento e muitos shows em calçadas e espaços públicos, os cearenses do Capotes Pretos na Terra Marfim lançaram em 2015 seu primeiro disco, auto-intitulado, explorando todas as misturas de sonoridades que lhes vem à cabeça em 10 faixas. O sucessor do primeiro EP, “A Casa”, foi produzido pela Mocker Studio e é totalmente orgânico, com sons inusitados como o do charango, instrumento de cordas andino.

A banda, formada pelos multi-instrumentistas Moisés “Zéis” Filipe, Freddy Costa, Eudenia Barros, Marcelo Freitas e Artur Mendonça, possui uma personalidade musical que se alterna entre o rock e a MPB, com pitadas de alt-country. “Percebo que nós estamos sentindo também uma vontade maior de fazer referência a produção musical nordestina. Os caminhos melódicos dos arranjos”, explica Zéis.

Conversei com a banda sobre seu primeiro disco, o som eclético e denso que produzem, a cena independente nordestina e muito mais:

– Como a banda começou?

Zéis: A banda começou em 2012. Eu tinha umas composições e tinha ideias de arranjos pra elas, mas num tinha banda. Na época eu tava envolvido em dois projetos no teatro, fazendo trilha sonora. Nesses projetos conheci o Marcelo Freitas e o Freddy Costa. Então falei com eles sobre as composições e eles decidiram se juntar. Dentre as ideias de arranjo tinhas composições que a gente vislumbrava a presença de um violoncelo. Daí eu lembrei da Eudenia Magalhães, que eu tinha conhecido num curso de Francês e a gente convidou ela pro fazer participação nessas musicas. Acabou que ela ficou de vez. E o Artur entrou quando fomos fazer o primeiro show em palco aberto e precisávamos de de bateria, era numa mostra de bandas universitárias. E ai pensei nele que tinha conhecido dentro do curso de música da UFC (Universidade Federal do Ceará).

– E como surgiu o nome da banda? O que ele significa?

Eudenia: Cara, esse nome é uma grande figuração de como funciona o clima da banda: uma mistura de nomes e significados que deixa livre pra qualquer interpretação (risos). Na realidade, nessa mesma época que nós estávamos nos reunindo pra formar o grupo, viajamos pra um interior do Ceará pra casa do tio do Marcelo Freitas, em São Luis do Curú. Era um sítio isolado das outras casas, e nos dias que ficamos por lá, arranjamos praticamente todo o primeiro trabalho da gente (o EP “A Casa”). Lá tinha muitos animais, incluindo capotes (galinha da angola). Tentamos uma brincadeira com o nome do bichinho e o próprio lugar, que era meio cor de terra seca, como marfim… misturamos as coisas, como acontece com as músicas também (risos).

– Quais as principais influências musicais da banda?

Artur: Bem, esse assunto é fácil e difícil ao mesmo tempo. Cada um do grupo possui diferentes influências e tipos de formação musical. Temos desde ex-integrantes de orquestras e bandas de fanfarra, passando por outras bandas independentes que já participávamos, dentre outras coisas. Assim, cada um trouxe um pouquinho pra dentro do grupo, suas bandas preferidas, sonoridades, dando uma cara muito diversa ao grupo, e que ao mesmo tempo consegue ter uma sintonia – não sei como, mas conseguimos. Dai, em cada produção usamos como referências vários grupos, dependendo do conceito, da cara que queremos dar a composição. Já passamos por Los Hermanos, Beirut, Legião, Raul Seixas, Coldplay… A lista não tem fim, até porque o som do grupo também se atualiza.

– Como vocês definiriam o som da banda atualmente?

Zéis: Pois é, já ia falar sobre isso quando o Artur falou essa coisa de usar referências que servem pros momento da banda e pra estamos buscando naquele momento. Acho que atualmente a gente é uma banda que soa mais elétrica, a primeiras composições tinham uma pegada bem acústica. Percebo que nós estamos sentindo também uma vontade maior de fazer referência a produção musical nordestina. Os caminhos melódicos dos arranjos.

Marcelo: Era isso que ia complementar.Acho que incluímos a pegada elétrica, mas ainda mantemos referências que nos remetem a instrumentos essencialmente acústicos, como a sanfona.

Zéis: Na própria música que gravamos pro tributo ao Pato Fu, essas características ja aparecem. Inclusive tivemos a liberdade de usar um trechinho duma musica do Ednardo, que é um compositor muito importante aqui do Ceará.

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– Já que vocês falaram do Nordeste, me falem um pouco mais de como vocês veem a cena independente do Nordeste hoje em dia.

Marcelo: Creio que ele apresenta-se bem diversificada, porém essa diversificação, infelizmente não a torna tão fortalecida.Tomando como exemplo o Ceará, temos excelentes bandas autorais que estão fora do eixo de apresentações até mesmo dentro do estado. O circuito de apresentações que pode ser percorrido por bandas independentes dentro do estado do CE é pequeno e esgota-se rápido e a busca por um novo nicho muitas vezes é um obstáculo e faz com que muitas bandas desistam. Por isso achoo que a cena independente no NE é bem eclética mas ainda há obstáculos quase intransponíveis de acesso a locais para tocar, incentivo e principalmente um circuito musical específico para bandas independentes que a tornam não tão fortalecida.

– E vocês acham que isso é algo que ocorre pelo país inteiro?

Marcelo: Acredito que a dificuldade para as bandas independentes é geral, seja uma banda do NE ou de qualquer outra parte do país, no entanto as oportunidades são maiores para o famoso eixo Rio – SP ,mas também precisamos ver que a concorrência se torna maior nesse ambiente. É , como dizemos por aqui”cobrir a cabeça e descobrir os pés”. Projetos como esse do tributo ao Pato Fu tornam-se excelentes pontes entre as bandas independentes de toda parte do país. E o fortalecimento das bandas independentes perpassa por isso, a comunhão e a ajuda mútua de quem faz parte do movimento.

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– Me falem um pouco mais sobre o disco que vocês lançaram!

Eudenia: Lançamos um álbum homônimo em fevereiro de 2015, com a Mocker Discos, no qual revisitamos a versão de uma música do EP (“Traços Simples”), e apostamos em arranjos que envolvia sopros, cello, charango… Foi um projeto bacana, e com ele lançamos, inclusive, dois clipes (“Terra Marfim” e “O Que Você Espera”)
A música “Adro” foi uma invenção de laboratório que extrapolou as nossas expectativas: nunca tínhamos tocado ela ao vivo (nem em ensaio).. fomos configurando o seu arranjo em estúdio, e pra mim (particularmente) é uma das músicas mais massa que gravamos. Lançamos o disco em um show no SESC, e a receptividade foi positiva… algumas das músicas desse album tocam nas rádios locais, e vez ou outra a galera manda mensagem “ouvi o capotes hoje no rádio!”… Acho bem bacana isso.

Marcelo: O álbum em si é bastante dotado da essência dos capotes, preocupação com os arranjos e sonoridades diversas.Não é à toa que ele leva o nome da banda (risos).

Zéis: O clipe da gente da música “Terra Marfim” foi o que teve mais alcance e tal. as pessoas que conhecem a gente aqui em fortaleza, é sobretudo por conta dessa musica. Uma vez numa conversa de bar me foi questionado o forma como a palavra revolução é colocada na música, como se essa palavra estivesse sido colocada com desdém. Como se nós não precisássemos de revoluções.

Eudenia: E ai, o que tu respondeu? Até eu tou curiosa! (risos)

Zéis: Pois bem, na verdade, como na maioria das musicas do álbum, as questões aparecem como indagações e não como resposta. na música terra marfim a frase aparece com uma interrogação: “Quem precisa de revolução”, “Quem precisa que digam amém?”. Outra indagação é o próprio título do faixa “O que você espera?”. Em outra faixa diz: “Qual é a cor do amor, do cuidado, de um filho que ainda nem nasceu?” Enfim só pra salientar que as pessoas as vezes esperam dos artistas uma postura de quem tem uma resposta pra dar mas que nesse disco a preocupação maior era com as perguntas.

Marcelo: A própria musica “Adro”, que a Denia tanto gosta, é cheia de indagações indiretas. Aquelas que não possuem um ponto de interrogação ao final.

– Aliás, me contem um pouco mais sobre os clipes! Mesmo com o fim da Mtv Brasil como a conhecíamos, eles ainda são importantes para a música?

Marcelo: Artur é o nosso garoto MTV (risos).

Eudenia: Verdade (risos)!

Marcelo: Sempre comenta sobre os clipes que ele via por lá…

Artur: (Risos). Hoje em dia a produção de clipes e a alimentação de mídias sociais estão intimamente ligados
Um disco físico partilha de vários aspectos musicais-sonoros e também estéticos. Contudo, o meio virtual para esta divulgação da arte do álbum, do conceito da banda e do enredo abordado pelo grupo se dá através dos clipes que tem um grande poder de divulgação nas mídias sociais. Apesar da MTV – minha amada – não ser o foco
Os clipes continuam tendo produções grandiosas e influenciando não somente bandas, mas dialogando com outras linguagens. Acho que é isso. Compartilhar, compartilhar e compartilhar!

– Quais os próximos passos da banda?

Eudenia: Estamos com planos de gravar um EP de músicas que já tocamos em shows. Estamos decidindo se lançamos em formato de single, ou duas por EP.

Artur: Durante a divulgação do disco novas composições foram surgindo e temos planos para a gravação e divulgação, muito em breve.

– Recomendem bandas e artistas independentes que chamaram sua atenção nos últimos tempos!

Eudenia: Ahhh! 😀 O Berg Menezes, certamente!

Artur: Berg Menezes (CE), Djambê (BH), Forria (CE), Zéis (CE)…

Eudenia: Descendentes da Índia Piaba

Artur: Mad Monkees (CE), Projeto Rivera (CE)!

Marcelo: Casa de Velho (CE)!

Artur: Andrezão GDS (CE)!

Eudenia: Erivan Produtos do Morro (CE)

Artur: Subcelebs (CE) ❤

A animação musical sci-fi roqueira de “Rock’n’Rule” ou “A Viagem Musical” (1983)

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Rock'n'Rule

Sinestesia, por Guilherme Gagliardi

Rock'n'Rule

Rock’n’Rule (A Viagem Musical)
Lançamento: 1983
Diretor: Clive A. Smith
Roteiro: Patrick Loubert, Peter Sauder
Elenco Principal: Don Francks, Gregory Salata, Susan Roman 

O filme “Rock’n’Rule”, de Clive A. Smith, é ambientado num futuro pós-apocalíptico simulando o universo da contra-cultura pop americana: aquela coisa meio Nova York decadente das décadas de 70 e 80, com metrôs pichados e tudo o mais que fazia o Warhol gozar por aí. Lá, depois duma terceira guerra mundial, só sobraram animais de rua, que devido aos efeitos da guerra sofreram mutações e ganharam feições humanoides. O longa é, como o nome explica, um filme de rock, e como todo bom filme de rock, não podia faltar… Bem, rock!

O filme, que no Brasil ganhou o título de “A Viagem Musical”, tem uma trilha composta por Lou Reed, Iggy Pop, Debbie Harry, Cheap Trick, Chris Stein e Earth, Wind & Fire, 100% original e que se constrói com base nas imagens, criando uma relação orgânica entre o áudio e o visual. No curta-doc “The Making of Rock & Rule”, o nosso queridinho do Velvet Underground diz que para a música “My Name Is Mok”, que apresenta o antagonista, buscou um tipo de identificação com o personagem, para poder criar algo que realmente representasse o vilão da história. Sobre “Pain and Suffering”, Iggy Pop comenta sua busca por versos ‘naturais’, que assustasse quem ouve, assim como pede a cena que acompanha, com o surgimento de um demônio, a respeito da qual os animadores comentam o mesmo objetivo. No documentário é dita a mesma relação para as outras cenas, evidenciando que além de ser um filme musical, a obra é também um disco visual.

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Sobre o enredo, a história é bem simples: Mok, um homem (meio rato, meio cachorro, sei lá) que domina o mercado fonográfico, porém cujo estrelato está em decadência, busca uma voz que seria a chave pra abrir a porta pruma outra dimensão e de lá invocar um demônio capaz de imortalizar sua fama (e de destruir todo o universo no qual o filme se passa). Pois bem, não é que é num bar bosta, cantando numa banda que ninguém assiste e que recebe as vaias do dono do bar/único espectador, o cara acha a tal voz? Aí começa seu plano pra sequestrar a cantora. A partir daí o filme de desenrola em um romance tosco entre ela (também tecladista, além de segurar o microfone) e o guitarrista (também vocalista, além de só segurar a guitarra), embalado numa trilha obviamente fantástica, tendo em vista quem a compôs e numa arte que seguindo a linha das animações adultas (puta termo bosta, né não?) da época, vai pela ideia do pop, quase que referenciando o mundo das páginas dos quadrinhos.

Uma curiosidade sobre a animação é que David Bowie, Tim Curry, Michael Jackson, Mick JaggerSting foram considerados para a voz de Mok, mas o estúdio não tinha grana pra bancar. Ah, e a música “Angel’s Song” é uma versão primária de “Maybe For Sure”, que saiu no disco de 1989 da Debbie Harry “Def, Dumb & Blonde”!

Segue para vocês o filme completo (sem legendas) e a trilha sonora.

Trilha sonora –

Assistam, ouçam e curtam pacas!